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segunda-feira, maio 30

 

meditação sobre a fé – a rocha e a areia

A passagem do Evangelho de Mateus lida ontem (Mateus 7,21-27) apresenta-nos duas metáforas para falar da fé: a da casa construída sobre rocha firme – significando uma fé sólida que resiste à intempérie –; e a da casa construída sobre areia – a que mais cedo ou mais tarde se desmorona devido ao desgaste dos elementos. Confesso que esta é uma metáfora com que me identifico pouco. Já aqui tivemos discussões sobre as certezas e as incertezas de ser cristão e não hesito em colocar-me do lado dos que vêem a fé mais como interpelação do que como afirmação; mais como questionamento do que como asserção; mais como dúvida do que como um conjunto de certezas inabaláveis. Ou se quiséssemos usar as imagens de Mateus posso dizer que não simpatizo particularmente com as rochas. Então como ler esta parábola? A frase inicial atribuída a Jesus Cristo apoia-me mais nesta reflexão: "Nem todo o que me diz: 'Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu". Não adianta pregar as certezas todas se não tivermos coragem de mexer na nossa vida concreta para discernir o sentido da História. E aí sim, entra aquela que eu diria ser a única verdadeira rocha da minha fé: o sentido da história é o amor. Acredito que fazer a vontade de Deus passa por colocar o amor como valor máximo que nos orienta. O que é um desafio complexo em cada situação concreta e exige aos cristãos discernimento para perceber por onde passam os caminhos de Salvação, nem sempre evidentes ou de acordo com a norma canónica (o que quer que isso seja). Exige-lhes humildade para não transformar a solidez de convicções em intolerância. Exige-lhes caridade para saber escutar e acolher o outro e duvidar sempre de si próprio em abundância. E por fim exige coragem, para que a nossa capacidade de acolhimento e adaptação não se transforme em timidez e a luz deixe de iluminar.
Descobri recentemente um trecho do P.e Vasco Pinto Magalhães que muito me agradou para falar da fé:
«Mais vale perdoar do que vingar-se. Acreditar nisto e vivê-lo é ter fé. Há quem pense que ter fé é acreditar noutras vidas. Mas um acto de fé, de fé vivida, é acreditar e agir convencido que mais vale amar. É fé porque anda tudo a dizer o contrário: "Vinga-te, mostra os teus direitos, impõe-te". É nisso que as pessoas acreditam, e o nosso mundo é o que se vê, porque não se acredita no amor.»
Entendida desta forma a fé não facilita; não resolve os problemas; não dá soluções temporárias ou definitivas. A fé traz sempre inquietação. E onde há inquietação há sempre vontade de descobrir soluções melhores e mais imaginativas. O crente nunca está verdadeiramente satisfeito e vive essa angústia na certeza de que o desespero não terá a última palavra. A certeza é mesmo só essa: mais vale amar. É esta a única rocha que trago no bolso. O resto é areia – muda-se, porque acolher é mudar-se.


Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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