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segunda-feira, maio 30

 

Igreja ao ritmo do Pentecostes

Pousada que foi a poeira mediática que envolveu o final do pontificado de João Paulo II e a eleição de Bento XVI, entramos num clima mais desapaixonado para olhar o actual momento da Igreja.

Uma primeira observação se impõe. Nas escolhas dos últimos papas, nenhuma dela tinha suscitado tantas reacções de receio e de reserva como aquelas que desta vez se manifestaram face à eleição de Ratzinguer. Também nunca terá havido em eleições anteriores uma tão grande catadupa de declarações a elogiar o Papa, muitas delas em reacção às críticas veiculadas pelos media, dando do actual Sumo Pontífice o perfil de um homem aberto, dialogante e afável.
Feita a observação, pode procurar-se uma possível explicação para o facto de esta eleição ter sido feita sob o signo da polémica, por vezes apaixonada. Os que levantam reservas receiam que Ratzinger venha a impor uma visão monolítica da Igreja. Os que exteriorizam o seu contentamento procuram contrariar a imagem de conservador e intolerantes com que o recém-eleito papa se tornou conhecido em vários sectores, enquanto ocupou o cargo de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Penso que a atitude mais avisada será a de esperar para ver. Esperemos que Bento XVI seja capaz de nos surpreender, tanto mais que a história já nos reservou inesperadas surpresas. Basta recordar o que se passou com João XXIII que, apesar de acolhido com reservas na altura em que foi eleito, se mantém ainda na nossa memória como o papa que mais contribuiu para a frescura duma Igreja próxima do Evangelho.

A tónica predominante das reservas a esta eleição está associada ao receio de um Papa avesso à liberdade de investigação teológica e fechado à necessidade de dar à colegialidade episcopal o vigor que se anunciara nos textos conciliares. Há também quem preveja que na Cúria do Vaticano persista uma posição inflexível quanto a problemas que se arrastam, como o do celibato dos padres e do sacerdócio da mulher.

Temos, todavia, de reconhecer que, nos poucos dias do seu pontificado, Bento XVI abriu algumas inesperadas janelas. De facto, algumas das suas primeiras atitudes parecem ir na linha do perfil com que o carismático bispo Pedro Casaldáglia sonhava, quando, em recente entrevista, um jornalista lhe perguntou que tipo de Papa gostaria de ver como sucessor de João Paulo: «Que seja um Papa pobre, misericordioso, verdadeiramente ecuménico, que aceite que ninguém tem o monopólio da verdade (...) Que ausculte a Igreja e o mundo para saber que tipo de Papa desejam os crentes e não crentes». As afirmações e actuações com que o Sumo Pontífice iniciou o seu ministério sugerem que ele tem certezas muito sólidas quanto à missão da Igreja mas que também sabe ouvir e perscrutar os sinais dos tempos. Além disso, uma vez nomeado Papa, Bento XVI está a dar a imagem de um homem simples, evangélico e atento aos sofrimentos da humanidade. Na celebração que marcou o início do seu pontificado teve declarações que revelam a sua preocupação não apenas diante dos desertos da fome, da pobreza, do abandono, da solidão e do amor destruído mas também frente ao deserto da obscuridade de Deus. Através de uma linguagem de grande recorte teológico, lembrou ao homem contemporâneo que «quem crê nunca está sozinho nem na vida nem na morte» e estabeleceu uma relação de causa e efeito entre os desertos exteriores e interiores.

Recordava-nos recentemente Frei Bento Domingos que esperava que este Papa promovesse uma Igreja no pressuposto de que ela só será católica se a sua unidade for construída no respeito pela pluralidade dos carismas. De facto, a Igreja não pode ser concebida como uma multinacional com a sua sede em Roma, mas como uma comunhão de igrejas locais unidas na mesma fé e como um rosto de multifacetadas manifestações do Espírito. Esperemos que o Papa contribua para organizar a cúria romana de modo a desfazer a ideia de que o bispo de Roma é o bispo de toda a Igreja, limitando-se a ter nos bispos diocesanos uma espécie de auxiliares. A evolução da Igreja no sentido de uma efectiva colegialidade dos bispos e de uma maior descentralização, constitui um dos maiores desafios que o actual Papa terá pela frente. Sem se darem passos nesse sentido, a eclesiologia do Concílio Vaticano II não passará de uma simples cosmética.

Veremos, pois, o que o futuro nos reserva. De qualquer modo, parafraseando o nosso Presidente, há mais vida e vivência da fé para lá da eleição papal. Por muito que amemos o Papa, o fundamento da nossa Fé está em Jesus Cristo e será para Ele que deveremos orientar a nossa atenção. Foi Pedro, o primeiro Papa, a pedra sobre a qual o Senhor quis construir a Igreja, a proclamar que o Senhor Jesus é que é a pedra angular e que todos os baptizados também são pedras vivas para a construção do Templo espiritual. (1 Pedro, 2, 4).



Manuel António Ribeiro (
DOIS DEDOS DE CONVERSA)

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