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segunda-feira, maio 16

 

Com as mãos na Terra – Os cristãos e a política

“O contributo específico dos católicos [a nível político] não consiste no conteúdo programático das suas propostas; radica ou deve radicar, antes, no espírito com que essas propostas são feitas» (Francisco Sarsfield Cabral, Os Católicos e a Política, in Ética na Sociedade Plural, Ed. Tenacitas).

Ser cristão passa pela coragem de olhar de frente para o mundo, recusando a apatia e o imobilismo. Os dramas humanos não podem deixar de nos comover, movendo-nos a uma acção que se alimenta da nossa relação pessoal e comunitária com Cristo.
Viver hoje a encarnação, passa pelo empenho na realidade concreta do nosso tempo. Uma realidade que não nos foi dada como algo definitivo e acabado mas que somos chamados a (re)criar em cada momento, rasgando na História horizontes de futuro. O nosso tempo não é nem melhor, nem pior, do que qualquer outro tempo é apenas aquele em que somos chamados a viver.
Ora, cuidar dos dramas humanos, procurar o bem comum passa, necessariamente, por uma atenção particular à política. Neste sentido, parece-me ser necessário que os cristãos reflictam sobre o papel que devem ter na participação cívica, no assumir de responsabilidades concretas nas instituições sociais e políticas que contribuem mais decisivamente para construção das nossas cidades. Numa altura tão marcada pela desilusão com a política parece-me necessário que haja pessoas que possam pelo seu empenho desinteressado e sério ajudar a recuperar a esperança no político.
Encontro, em diferentes quadrantes, pessoas com vontade de assumir com determinação esta exigência da sua fé. Mas é importante que outros sejam capazes de lhe seguir os passos.
Não entendo que a participação dos cristãos na política se possa confundir com um qualquer espírito de cruzada e muito menos com a proclamação de um programa cheio de verdades absolutas. Como diz Sarsfield Cabral, a marca cristã passa essencialmente pelo espírito com que se fazem as propostas.

Sem querer ter a pretensão de esboçar o perfil imaculado de um político sem mancha, proponho algumas atitudes de fundo que um cristão deve experimentar como exigência da sua participação cívica:
- Esperança – a recusa dos discursos pessimistas que mais do que uma visão realista correspondem a um subtil convite ao alheamento e à apatia. A esperança cristã não ilude a fragilidade humana, não ilude a presença do mal e da dor. A esperança cristã proclama que nenhuma situação pode destruir a possibilidade do sentido da vida e da construção do futuro.
- Liberdade interior – a capacidade de estar centrado no que é realmente essencial, procurando optar, independentemente das lógicas dos aparelhos partidários, de interesses particulares ou individualistas, tendo sempre como pano de fundo a promoção da dignidade da pessoa humana em todas as suas dimensões. A Política não pode apenas ser entendia como um exercício de gestão com o qual se pretende satisfazer um número sempre crescente de necessidades. A pessoa humana é muito mais do que uma sede de necessidades.
- Humildade - que passa por uma atitude de diálogo que evita sectarismos e pelo reconhecimento de que nenhum de nós é detentor da Verdade Absoluta mas que a política é uma das expressões da peregrinação que todos fazemos enquanto resposta a uma exigência de um mundo cada vez mais humano. E esse caminho é feito por pessoas que partilham desejos sinceros de justiça mas os expressam por meio de propostas nem sempre coincidentes.
A humildade passa também pela paciência com os limites das instituições humanas, sabendo que erramos mais do que gostaríamos e que as mudanças exigem mais tempo do que aquele que normalmente estamos dispostos a esperar.
- Profecia – A humildade não é incompatível com a determinação e com a coragem que recusa a injustiça e é capaz questionar a fundo a realidade. E aqui não podemos ter medo de colocar em causa os mecanismo do sistema capitalista que têm sido geradores de desigualdade e que potenciam os atentados contra a vida humana.
Não se trata de diabolizar a economia de mercado, trata-se de não deixar passar em claro o fosso cada vez maior entre aqueles que vivem na abundância e aqueles que experimentam a miséria. Trata-se de procurar um modo de vida mais coerente com a visão da pessoa humana que nos foi confiada por Cristo. Trata-se de não pactuar com os acentuados desequilíbrios ambientais potenciados por um modo de vida que super valorizando o conforto e a satisfação das necessidades individuais, corroeu a solidariedade e contribuiu para um enfraquecimento do Espaço Público.

Naturalmente que estas atitudes não tem que ser exclusivas dos cristãos. Mas elas são para os cristãos uma consequência da sua Fé. Estas atitudes de fundo são, quanto a mim, prioritárias a qualquer capacidade técnica. Eles podem ajudar-nos a repensar a visão distorcida que temos do ser humano Esta visão é, muito provavelmente, não só responsável pela crise que vivemos, mas também pelas soluções enganadoras que temos arriscado.
No seu modo de viver, na política mais activa ou no empenhamento cívico mais escondido, os cristãos podem e devem dar um contributo importante para que pouco a pouco se possa ver surgir uma visão mais humana da vida.

Zé Maria Brito [OPTIMISTA POR OPÇÃO]

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