<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, maio 4

 

Cálculo Integral

A Pública deste Domingo, dia 1º de Maio, trazia uns artigos interessantes sobre o trabalho nos dias de hoje. Num desses artigos falava-se de pessoas que tinham optado bruscamente por drásticas interrupções, desvios e transformações das suas carreiras profissionais. Uma dessas pessoas, um engenheiro de 27 anos que parou tudo o que tinha começado para regressar à estaca zero, iniciando um curso de Psicologia, disse uma coisa que me ficou a morder as canelas: disse ser um “calculista que cometeu um erro de cálculo”. Coisa lixada, realmente.
Há gente que se deixa ir pela vida, ao sabor da maré, ao virar do vento. Há gente que fica à espera que aquilo que entende merecer lhe seja entregue, porque eles merecem. Há gente, muita gente, que não descortina sequer muito bem o que pretende da vida, indo atrás de luzes em movimento ou, o que é muito pior, deixando-se ficar onde está por já nada esperar dela.
E depois há a gente que pensa meticulosamente naquilo que quer da vida, que mede bem o caminho, que avalia bem o peso da sua bagagem, que avança logo que decide avançar, que doseia o esforço e procura saber onde estão os abrigos. É gente que segue os trilhos mas que sai deles se tem a certeza dum atalho. É gente que prevê, que vigia, que se controla a si mesmo e quer controlar os acontecimentos. É gente que procura descortinar padrões para poder tomar as melhores decisões. É gente que mede as palavras e procura por detrás dos olhares. São os calculistas. O seu prolongado esforço de introspecção torna-os egocêntricos. A confirmação dos seus cálculos torna-os auto-suficientes. A sua auto-suficiência esteriliza-os. Alguns deles, os que tem mais sucesso nos seus cálculos, esses chegam mesmo a quererem tudo. Tudo o que a vida lhes pode dar e tudo o que eles podem dar à vida. Para isso chegam a enxertar de novo em si próprios qualidades que a sua terrível vontade há muito secou. São os que procuram na multiplicação das facetas a fuga ao tédio da previsibilidade. São também os que descobriram as vantagens práticas da humanidade e da simpatia. E se é no seio dos calculistas que são gerados os mais convictos ateus, aquela subespécie pode até descobrir as vantagens que lhe traz a Fé.
Estes calculistas são verdadeiramente aqueles que decidem comer da maçã que lhes oferece a bíblica serpente. O orgulho, fonte de todo o mal, é indissociável da sua condição. E Deus, que é Grande, castiga-os. Melhor dizendo: Deus, que é Pai, corrige-os infalivelmente. Sempre. Como? De duas maneiras. A primeira é confundi-los, fazendo-os errar os cálculos. E, realmente, nada é mais pungente do que um calculista que cometeu um erro de cálculo. Mas há ainda aqueles que brincam a desafiar Deus, aqueles que pelo menos em certa altura das suas vidas, sabem que ainda não se enganaram. A esses, Deus, na sua infinita sabedoria, reserva-lhes algo muitíssimo pior do que o desengano: o anti-clímax. Há até quem morra disso, dessa imensa surpresa de se descobrir que tudo o que se conseguiu, tudo o que se obteve dos preciosos cálculos, é tão enormemente insatisfatório, tão absurdamente insuficiente, tão estranhamente sem sentido. Esse anti-clímax, esse vertiginoso vazio, prova magnificamente a transcendência divina. E prova também que, aos olhos Dele, somos todos iguais.
Acreditem que sei perfeitamente do que estou a falar.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?