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segunda-feira, maio 30

 

Igreja ao ritmo do Pentecostes

Pousada que foi a poeira mediática que envolveu o final do pontificado de João Paulo II e a eleição de Bento XVI, entramos num clima mais desapaixonado para olhar o actual momento da Igreja.

Uma primeira observação se impõe. Nas escolhas dos últimos papas, nenhuma dela tinha suscitado tantas reacções de receio e de reserva como aquelas que desta vez se manifestaram face à eleição de Ratzinguer. Também nunca terá havido em eleições anteriores uma tão grande catadupa de declarações a elogiar o Papa, muitas delas em reacção às críticas veiculadas pelos media, dando do actual Sumo Pontífice o perfil de um homem aberto, dialogante e afável.
Feita a observação, pode procurar-se uma possível explicação para o facto de esta eleição ter sido feita sob o signo da polémica, por vezes apaixonada. Os que levantam reservas receiam que Ratzinger venha a impor uma visão monolítica da Igreja. Os que exteriorizam o seu contentamento procuram contrariar a imagem de conservador e intolerantes com que o recém-eleito papa se tornou conhecido em vários sectores, enquanto ocupou o cargo de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Penso que a atitude mais avisada será a de esperar para ver. Esperemos que Bento XVI seja capaz de nos surpreender, tanto mais que a história já nos reservou inesperadas surpresas. Basta recordar o que se passou com João XXIII que, apesar de acolhido com reservas na altura em que foi eleito, se mantém ainda na nossa memória como o papa que mais contribuiu para a frescura duma Igreja próxima do Evangelho.

A tónica predominante das reservas a esta eleição está associada ao receio de um Papa avesso à liberdade de investigação teológica e fechado à necessidade de dar à colegialidade episcopal o vigor que se anunciara nos textos conciliares. Há também quem preveja que na Cúria do Vaticano persista uma posição inflexível quanto a problemas que se arrastam, como o do celibato dos padres e do sacerdócio da mulher.

Temos, todavia, de reconhecer que, nos poucos dias do seu pontificado, Bento XVI abriu algumas inesperadas janelas. De facto, algumas das suas primeiras atitudes parecem ir na linha do perfil com que o carismático bispo Pedro Casaldáglia sonhava, quando, em recente entrevista, um jornalista lhe perguntou que tipo de Papa gostaria de ver como sucessor de João Paulo: «Que seja um Papa pobre, misericordioso, verdadeiramente ecuménico, que aceite que ninguém tem o monopólio da verdade (...) Que ausculte a Igreja e o mundo para saber que tipo de Papa desejam os crentes e não crentes». As afirmações e actuações com que o Sumo Pontífice iniciou o seu ministério sugerem que ele tem certezas muito sólidas quanto à missão da Igreja mas que também sabe ouvir e perscrutar os sinais dos tempos. Além disso, uma vez nomeado Papa, Bento XVI está a dar a imagem de um homem simples, evangélico e atento aos sofrimentos da humanidade. Na celebração que marcou o início do seu pontificado teve declarações que revelam a sua preocupação não apenas diante dos desertos da fome, da pobreza, do abandono, da solidão e do amor destruído mas também frente ao deserto da obscuridade de Deus. Através de uma linguagem de grande recorte teológico, lembrou ao homem contemporâneo que «quem crê nunca está sozinho nem na vida nem na morte» e estabeleceu uma relação de causa e efeito entre os desertos exteriores e interiores.

Recordava-nos recentemente Frei Bento Domingos que esperava que este Papa promovesse uma Igreja no pressuposto de que ela só será católica se a sua unidade for construída no respeito pela pluralidade dos carismas. De facto, a Igreja não pode ser concebida como uma multinacional com a sua sede em Roma, mas como uma comunhão de igrejas locais unidas na mesma fé e como um rosto de multifacetadas manifestações do Espírito. Esperemos que o Papa contribua para organizar a cúria romana de modo a desfazer a ideia de que o bispo de Roma é o bispo de toda a Igreja, limitando-se a ter nos bispos diocesanos uma espécie de auxiliares. A evolução da Igreja no sentido de uma efectiva colegialidade dos bispos e de uma maior descentralização, constitui um dos maiores desafios que o actual Papa terá pela frente. Sem se darem passos nesse sentido, a eclesiologia do Concílio Vaticano II não passará de uma simples cosmética.

Veremos, pois, o que o futuro nos reserva. De qualquer modo, parafraseando o nosso Presidente, há mais vida e vivência da fé para lá da eleição papal. Por muito que amemos o Papa, o fundamento da nossa Fé está em Jesus Cristo e será para Ele que deveremos orientar a nossa atenção. Foi Pedro, o primeiro Papa, a pedra sobre a qual o Senhor quis construir a Igreja, a proclamar que o Senhor Jesus é que é a pedra angular e que todos os baptizados também são pedras vivas para a construção do Templo espiritual. (1 Pedro, 2, 4).



Manuel António Ribeiro (
DOIS DEDOS DE CONVERSA)

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meditação sobre a fé – a rocha e a areia

A passagem do Evangelho de Mateus lida ontem (Mateus 7,21-27) apresenta-nos duas metáforas para falar da fé: a da casa construída sobre rocha firme – significando uma fé sólida que resiste à intempérie –; e a da casa construída sobre areia – a que mais cedo ou mais tarde se desmorona devido ao desgaste dos elementos. Confesso que esta é uma metáfora com que me identifico pouco. Já aqui tivemos discussões sobre as certezas e as incertezas de ser cristão e não hesito em colocar-me do lado dos que vêem a fé mais como interpelação do que como afirmação; mais como questionamento do que como asserção; mais como dúvida do que como um conjunto de certezas inabaláveis. Ou se quiséssemos usar as imagens de Mateus posso dizer que não simpatizo particularmente com as rochas. Então como ler esta parábola? A frase inicial atribuída a Jesus Cristo apoia-me mais nesta reflexão: "Nem todo o que me diz: 'Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu". Não adianta pregar as certezas todas se não tivermos coragem de mexer na nossa vida concreta para discernir o sentido da História. E aí sim, entra aquela que eu diria ser a única verdadeira rocha da minha fé: o sentido da história é o amor. Acredito que fazer a vontade de Deus passa por colocar o amor como valor máximo que nos orienta. O que é um desafio complexo em cada situação concreta e exige aos cristãos discernimento para perceber por onde passam os caminhos de Salvação, nem sempre evidentes ou de acordo com a norma canónica (o que quer que isso seja). Exige-lhes humildade para não transformar a solidez de convicções em intolerância. Exige-lhes caridade para saber escutar e acolher o outro e duvidar sempre de si próprio em abundância. E por fim exige coragem, para que a nossa capacidade de acolhimento e adaptação não se transforme em timidez e a luz deixe de iluminar.
Descobri recentemente um trecho do P.e Vasco Pinto Magalhães que muito me agradou para falar da fé:
«Mais vale perdoar do que vingar-se. Acreditar nisto e vivê-lo é ter fé. Há quem pense que ter fé é acreditar noutras vidas. Mas um acto de fé, de fé vivida, é acreditar e agir convencido que mais vale amar. É fé porque anda tudo a dizer o contrário: "Vinga-te, mostra os teus direitos, impõe-te". É nisso que as pessoas acreditam, e o nosso mundo é o que se vê, porque não se acredita no amor.»
Entendida desta forma a fé não facilita; não resolve os problemas; não dá soluções temporárias ou definitivas. A fé traz sempre inquietação. E onde há inquietação há sempre vontade de descobrir soluções melhores e mais imaginativas. O crente nunca está verdadeiramente satisfeito e vive essa angústia na certeza de que o desespero não terá a última palavra. A certeza é mesmo só essa: mais vale amar. É esta a única rocha que trago no bolso. O resto é areia – muda-se, porque acolher é mudar-se.


Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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quarta-feira, maio 25

 

O CÓDIGO DE RATZINGER

O livro presta-se ao sucesso. Nada que se compare ao Código que Dan Brown descobriu nas árvores de Da Vinci. Mas - e assim o vende a editora - sendo a primeira biografia de alguém que mexe connosco (crentes, não-crentes, assim-assim) como é o novo bispo de Roma, «O Papa Bento XVI, o Guardião da Fé» presta-se ao sucesso.

Não se pode dizer que o autor tenha sido lento ou preguiçoso: Andrea Tornielli, «jornalista profissional desde 1994 é o vaticanista do diário "Il Giornale" desde 1997», consegue colocar no mercado um livro que faz uma síntese possível da vida de Joseph Ratzinger da infância à sua eleição como Papa. Mais: o autor descreve e comenta mesmo as primeiras declarações públicas de Ratzinger já Bento XVI. E a editora apressou-se na tradução da «primeira biografia em português do novo Papa». Na mouche da actualidade.

O título da obra diz ao que vai. Para o bem e para o mal, Ratzinger é apresentado como guardião. Aqui como no futebol (veja-se Ricardo e Baía), o guardião é amado por uns e odiado por uns tantos (eventualmente, mais que os outros). Os que não amam dizem a palavra quase com asco... Os que amam, compreendem - a falha, a teimosia, a doutrina, o golo. Tornielli ama: compreende, justifica, comenta, critica os outros.

[Um parêntesis sobre o método: Não se espere neutralidade de um jornalista - espere-se objectividade. Mas: será Tornielli objectivo? O Tornielli-biógrafo deve cuidar da objectividade que é pedida ao Tornielli-jornalista? O contrato entre Tornielli e os que lêem diariamente é um, os que o lêem aqui será outro... é o que se pode concluir. Adiante.]

O vaticanista parece estar bem informado. As primeiras impressões (ainda não li o livro todo, mas também já li - por motivos profissionais - passagens ao longo da obra até ao fim) deixam-nos de sobreaviso: uma biografia laudatória e justificativa/justificadora presta-se (também) ao insucesso: por problematizar de forma enviesada, por eventualmente não procurar fontes que ajudem a uma outra hermenêutica da obra (e da vida) de Josephus... Afinal, este livro parece padecer do mesmo que critica (na contracapa) a um «certo jornalismo político»: «denunciar» por denunciar, sem arriscar ouvir outros, ou citando-os apenas para sublinhar as palavras de Ratzinger e a defesa das suas teses. Podem dizer que escrevo isto apenas por causa de uma eventual má vontade minha para com este Papa: não é. Corrigirei em futura apreciação, se for caso disso, quando terminar a obra. Mas dou um exemplo (pp. 158-162), a propósito da declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, Dominus Iesus, citam-se apressadamente as posições críticas de Carlo Maria Martini, Edward Cassidi, Karl Lehmann e Walter Kasper, para depois dar longo espaço a uma resposta de Ratzinger, em entrevista a um jornal alemão. Eu sei que é ele o biografado, mas parece apenas introduzir-se o tema para defender um ponto de vista - de Ratzinger. Ao leitor, caberá menos o exercício de ler ele o "diferendo". As conclusões são-lhe ali impostas, pela pena de Tornielli, ou pelas palavras do novo Papa.


Há, no entanto, um título ainda mais revelador que o nome do livro. É o do capítulo final: «Um pontificado pleno de surpresas» (pp. 179-187), lê-se a abrir um epílogo que se resume a uma transcrição quase encomiástica do primeiro (sublinhe-se: primeiro) discurso aos bispos, na manhã de 9 de Abril, para rematar assim: «O pontificado de "transição" de Joseph Ratzinger, antigo filho de um polícia da Baviera, que por um quarto de século foi guardião da doutrina católica, surpreender-nos-á. Será um Papa que, na firmeza dos princípios doutrinais, promulgará reformas significativas.»

Eu preferia a firmeza dos princípios do amor - mas isso é matéria para uma biografia daqui a uns anos.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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Os limites do homem: a ciência e a moral (1)

(as partes entre aspas do texto que se segue são palavras do cardeal Ratzinger proferidas alguns dias antes de se tornar o Papa Bento XVI - os próximos posts que aqui escreverei serão baseados nessas palavras)

Através do crescente progresso científico, o homem "sondou os recônditos mais íntimos do ser, decifrou as componentes do ser humano e é agora capaz, por assim dizer, de “construir” por si próprio o homem, o qual, deste modo, já não vem ao mundo como dom do Criador, mas como produto do nosso agir, produto que pode portanto ser até seleccionado segundo as exigências por nós fixadas."

É por isso que, cada vez mais o homem hesita quanto à sua definição. Porque ela é cada vez mais uma auto-definição. "Assim, sobre este homem, já não brilha o esplendor do seu ser “imagem de Deus” – que é aquilo que lhe confere a sua dignidade e a sua inviolabilidade – mas apenas o poder das capacidades humanas. Ele já não é mais nada senão “imagem do homem” – mas de que homem?"

Esta incapacidade do homem para se definir a si próprio sem referências a algo que se situe além do próprio homem conduz a que os grandes problemas planetários sejam vistos apenas como simples problemas técnicos e não problemas de ordem moral.

"Os grandes problemas planetários: a desigualdade na repartição dos bens da terra; a pobreza crescente, ou melhor, o empobrecimento; a exploração da terra e dos seus recursos; a fome" são sobretudo problemas políticos, isto é, problemas que resultam de escolhas erradas porque efectuadas de acordo com princípios morais errados.

Estes grandes problemas planetários mostram "que o crescimento das nossas possibilidades não é acompanhado por um igual desenvolvimento da nossa energia moral. A força moral não cresceu conjuntamente com o desenvolvimento da ciência, mas, pelo contrário, diminuiu, porque a mentalidade técnica relega a moral para o âmbito subjectivo, enquanto que o que nós precisamos é de uma moral pública, duma moral que saiba responder às ameaças que pesam sobre a existência de todos nós."

Esses grandes problemas planetários revelam aliás que a força moral não é apenas necessária para viver individualmente com as pessoas que vemos e sentimos todos os dias mas é igualmente necessária na vida do homem em colectividade. Nas suas opções políticas e sociais.

As opções políticas e sociais não devem apenas reflectir critérios de eficácia resultante das possibilidades técnicas e científicas.

Porque, "o verdadeiro e mais grave perigo neste momento encerra-se precisamente neste desequilíbrio entre possibilidades técnicas e energia moral".


Timshel [TIMSHEL]

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quarta-feira, maio 18

 

naturalmente não e sim

Foi num texto intitulado "Comentários a Simone Weil"
(Seminário de Filosofia, 9 de Janeiro de 1994) que li há uns tempos o seguinte:

"A linguagem da mística recorre com frequência aos paradoxos, que não podem expressar verdade alguma excepto metaforicamente, o que vale dizer: ambiguamente. E quantas vezes, ao longo da História, o amor a Deus não tem se pervertido num amor à ambiguidade, numa rejeição das verdades mais patentes, num rebuscamento de contradições artificiais e desnecessárias! Que esta sofística piedosa tenha o alto propósito de indispor o descrente contra sua própria razão para atraí-lo aos braços da fé, ninguém nega. Que, porém, ela arrisque ter os resultados mais decepcionantes, entre os quais o de confundir o pregador mesmo, é também um fato, ainda que quase nunca reconhecido. Que, enfim, ela possa servir ao demónio tanto quanto pretende servir a Deus, eis aí o que soará como um escândalo, mas que a história do pensamento Ocidental confirma em toda a linha, e que aliás já fora anunciado por Jesus, ao advertir: "Seja o vosso discurso: sim, sim; não, não — o mais é conversa do maligno."
Todos os desvarios da dialéctica hegeliana, marxista e nietzscheana foram assim prefigurados pela teologia apofática1.
Deus, afirma a Bíblia, confunde a sabedoria dos sábios. Mas será lícito que os sábios se ponham a confundir-se a si mesmos, a pretexto de arrebatamento religioso?
Não bastam, para deslumbrar-nos, os mistérios supremos cuja solução Deus guarda para si? Será preciso semear de paradoxos artificiosos o caminho dos homens sobre a Terra? E que valeriam os mistérios supremos, se não tivessem solução nem mesmo para Deus? Os mistérios valem pelo Sentido, não pela misteriosidade. Eis aí o véu subtilíssimo que separa a mística da mistificação. E todo escrito místico, por natureza, contém sementes de mistificação — os de Simone Weil como qualquer outro. Cabe ao comentário filosófico separar o joio do trigo."


E o autor lança-se então numa feroz crítica aos escritos de Simone Weil. Precisamente para, em nome das palavras de Cristo "Seja o vosso discurso: sim, sim; não", defender uma espécie de fundamentalismo maniqueísta nos termos do qual toda a ambiguidade seria condenável e nunca o "sim" poderia coexistir com o "não".

Não deixa de ser curioso que em comentário a um excerto de Simone Weil ("Nossa vida é impossibilidade, absurdidade. Cada coisa que queremos é contraditória com as condições ou as consequências que lhe estão ligadas, cada afirmação que colocamos implica a afirmação contrária, todos os nossos sentimentos estão mesclados a seus contrários. É que somos contradição, sendo criaturas, sendo Deus e infinitamente outros que Deus") o referido autor escreva "A resposta é, naturalmente: sim e não."...

Mas o objectivo deste texto não era detectar as contradições destes "comentários a Simone Weil".

O objectivo deste texto era defender uma outra interpretação das palavras de Cristo pois pensava que estes "comentários a Simone Weil" passavam completamente ao lado do essencial da mensagem cristã (apoiando-me nomeadamente na própria estrutura da mensagem cristã – através de parábolas). Já há muito tempo que pensava fazê-lo mas nunca descobri tempo para isso.

Porque escrevo então agora este texto. Porque descobri há pouco tempo
aqui
a interpretação mais adequada dessas célebres palavras de Cristo ("Sim, sim, não não"). Passo a transcrever as palavras do
Manuel:

"sim sim, não não
Acredito que o 'não' é o princípio da política e que o 'sim' é o princípio da fé. Acredito que a insubmissão face a todas as verdades estabelecidas e a insistência em divergir abrem o campo para a política e que ela, como actividade nobre, arranca dessa coragem de não prescindir da recusa. Acredito que a ousadia de dizer 'creio' sem bases empíricas nem provas científicas abre o nosso coração para a humildade da fé e que ser crente é um acto destemido de aceitação. Talvez seja isto que se pretende vincar na Bíblia com o desafio de que "sejam as vossas palavras sim sim, não não".


Timshel [TIMSHEL]

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Epístola sobre o orgulho I

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se o orgulho habitar em mim serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montanhas, se o orgulho habitar em mim nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se o orgulho habitar em mim nada disso me aproveitará.
O orgulho é paciente, é insidioso e maligno. O orgulho arde sem doer, por tudo se ufana, por tudo se ensoberbece. O orgulho só conduz a si mesmo, só procura os seus interesses, não se exaspera mas espera. O orgulho não se ressente nem do mal nem do bem, não se alegra com a injustiça nem com a justiça. O orgulho regozija-se com a verdade e, mais ainda, com a mentira. Em nome do orgulho tudo se sofre, em tudo se crê, tudo se espera, tudo se suporta.
Ainda que em nós permaneçam a Fé, a Esperança e o Amor, sendo que o Amor é o maior destes três, todos eles, mesmo o Amor, podem soçobrar pelo peso do Orgulho, que de tudo se alimenta e que a todos nós alimenta, podendo assim encher o nosso coração, esvaziando-o de tudo o resto. E assim sendo, no fim de tudo, depois de tudo ter sido apagado pela força do Orgulho, é ele que permanece em nós, no vazio imenso em que nos tornámos.


Perdoar-me-ão certamente esta apócrifa adaptação do belíssimo e célebre trecho da 1ª Carta de S.Paulo aos Coríntios, mas desde que cheguei à Fé que hoje tenho, tal como Paulo desde a estrada de Damasco, também eu sinto permanentemente em mim e permanentemente receio em mim algo como o «espinho na carne» de que ele se queixava. Só que, sendo eu um simples pecador e não um apóstolo como Paulo, esse espinho não é «algo que lhe foi dado a fim de que não se orgulhasse» (2 Cor 12, 2-10). Não, a mim esse espinho que me fere ferindo a crença que tenho no valor da minha Fé, é precisamente o orgulho, esse que penso ser o pecado original, o pai de todos os pecados, o pai de todo o mal.

Já uma vez falei no Guia de algo que me afige, o meu orgulho de crente: um imenso e absurdo orgulho, um orgulho de ter Fé, um orgulho de pressentir e julgar discernir Deus, um orgulho de me achar um justo, tal como Job achou ser, um orgulho de ser humilde, um orgulho de ser manso, um orgulho de ser desprendido. Este é um orgulho insidioso que já existia antes de existir a minha fé e que, tendo ela chegado, foi dela alimentar-se, foi encontrar nela razões para se gloriar. É de tal modo insidioso este orgulho que se exalta por ser reconhecido e exulta por querer ser combatido.

Uma belo dia, ao ler S.Paulo (sempre este homem fatal) a dizer que «tudo nos é permitido mas nem tudo nos convém», tive finalmente a terrível percepção de que esta fé que eu tenho é para mim essencialmente algo que me convém, que me ajuda a viver, que me dá sentido à vida e ao sofrimento, que consola o meu coração e satisfaz a minha inteligência. A minha fé alimenta-me e aperfeiçoa-me mas não me consome. É um bem em si mesmo, quase só para mim, eu que sou habitat de tão grande orgulho.

Não se pense que isto são pruridos de homem excessivamente escrupuloso. Isto é uma dôr de alguém que receia por si próprio. E que lamenta a sua esterilidade. Porque, como também disse S.Paulo aos inefáveis Coríntios, «agora vemos como em espelho, obscuramente, e então veremos face a face; agora conheço em parte e então conhecerei como sou conhecido».

Mas isto do orgulho dá verdadeiramente pano para mangas. Até para a semana, então.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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OS MARRETAS TAMBÉM SÃO OS OUTROS


Classificação etária. Este filme pode ser visto por todos.
Advertência crítica. Mas digo ao que venho.
O meu texto da semana passada , em que zurzia nos velhos dos Marretas que há em cada um de nós católicos, teve ecos indirectos durante esta semana, como também escrevi na minha outra casa . Passe a presunção e a água benta.
Argumentos já escritos. Louçã foi infeliz no debate com Portas (lembram-se?). Logo a congregação para a doutrina da fé saiu em defesa do agora líder do Bloco de Esquerda.
Na semana passada, um padre do Porto foi idiota, misturando o impossível e afirmando uma aberração. Terei de sair a terreiro, como católico que não esconde essa condição, demarcar-me da idiotice daquele senhor padre? Não me parece. Nem me parece que todos os católicos que debatem responsavelmente o aborto tenham de o fazer, como pedia no domingo Ana Sá Lopes, no Público.
Afinal, o que disseram para trás não chega? Ou terão de bater no peito sempre que um católico faz disparates? Afinal, terei de exigir, no futuro, aos bloquistas ou aos pró-despenalização (e já se disse aqui que a minha posição não coincide com um certo discurso da Igreja) que batam no peito e se demarquem das mulheres que berram a barriga é minha e outras idiotices descredibilizando desse lado o debate?
Da Igreja e da doutrina agora parece que todos sabem falar... Mas depois, lê-se bem, esmiúça-se melhor, e percebemos que a intervenção está ao nível de um Código Da Vinci. Neste mundo simples de preto-e-branco, parecem caber, às vezes, os não-crentes. Ratzinger feito Papa é logo analisado do balcão: I hate it, sem possibilidades de dúvida, redenção ou glória.
Valia a pena instigar bloguistas e intervencionistas a «informarem-se antes de serem lidos a opinar sobre tudo e mais alguma coisa». E se critiquei católicos por não estudarem, não aprofundarem, não estudarem, não debaterem, não estudarem, não lerem, não estudarem, nem rezarem, hoje vejo que afinal a invectiva deve ser recíproca. Falta à Igreja Católica — defendo — gente que se inquiete mais, que desinstale saberes, que questione certezas. Mas como a Igreja é do mundo, falta também no mundo gente que não se fique pela espuma dos dias.
O padre do Lordelo do Douro e o Papa Bento XVI se quiserem um advogado de defesa que o arranjem. Eu não preciso de ser advogado de acusação todos os dias. E aprendendo todos, todos aprendiam. Longe da barra dos tribunais.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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segunda-feira, maio 16

 

Porque sou Cristão


Fonte da imagem:
http://www.thepassionofthechrist.com/images/passionhome.jpg.
Fonte: “the passion of the Christ” (http://www.thepassionofthechrist.com/skip.html#)

Therefore I take it that when I tell you why I am not a Christian I have to tell you two different things:
First, why I do not believe in God and in immortality;
And, secondly, why I do not think that Christ was the best and wisest of men, although I grant him a very high degree of moral goodness


Bertrand Russell, “Why I am Not a Christian” Battersea Town Hall, March 6, 1927

O Transcendental
Na minha carne sinto a presença, fugidia mas plena, de um “nada” que absurdamente existe.
Quando quero dizê-lo, prende-se na garganta, quando tento focá-lo, esbate-se;
Mas se me abstenho, se abro a alma, esse “absurdo” transcendente invade como um dado imediato da consciência.
É preciso nada querer para poder “crer”.

Posso enganar-me, claro que posso…

E como sustentar a negação da transcendência?
Como Russell, racionalizando aquilo que é irracional?
Ele próprio diz que a ideia de existir um princípio do tempo é irracional.
“There is no reason to suppose that the world had a beginning at all” afirmou Russell naquele dia de Março.
Em 1927 a ideia de um começo era irracional, mas em 2005 já poucos duvidam do “início do Tempo” (de “um” tempo, pelo menos).

Só uma posição agnóstica (não negacionista), parece racionalmente sustentável. Afirmar-se-á “ateu” quem se obrigou a uma reflexão profunda sobre Deus – que é prenhe de religiosidade – e escolheu afastar-se. Senão é-se tão ingénuo quanto um fanatismo “beato”.

Não quero convencer nem enganar ninguém, muito menos a mim mesmo, mas se algo me entra pelos olhos da alma dentro, porquê negá-lo?

Os Profetas
Quando o Saber se tornou Física (Descartes, 1637), mecanicista, aqueles que afastam a evidencia Transcendental, pensaram no homem como máquina.
Quando, em seguida, o Saber se tornou Bios (Claude Bernard, 1870), orgânico, adquirindo células, bactérias, aqueles que afastam a evidencia, tornaram o homem num monte de tecido animado;
Agora, na era da Informação, o humano passou a “software”, um mero código genético. O Saber vai mudando de opinião, mas os sábios da Razão (os cientistas) continuam sempre a ter credibilidade.

Credibilidade que não é dada aos sábios da Intuição (os profetas). Porquê?
Henri Bergson dizia: “Se alguns homens acreditarem tê-lo descoberto, dilo-ão aos outros homens; e estes irão escutá-los, como escutaram Stanley, ou Livingstone, descreverem as longínquas nascentes de um rio (o Nilo) no lado de lá do equador.”

Deus, se existe, não tem que ser provado, tem que ser descoberto.

O Cristo
E entre todos os profetas ressalta Jesus.
Melhor ressaltam as palavras, porque Ele poderia até nem ter existido (e duvidou-se tanto tempo, lembram-se?) mas o facto de um humano, algures no Tempo, ter revelado as mágicas palavras que ainda hoje ecoam entre nós, isso faz toda a diferença.

Quanto mais anónimo nos aparecer Jesus, mais essa aparência será a de um homem sem distinção social, estranha a qualquer “glória humana”;
Quanto mais humilde nos aparecer Jesus, tanto mais as suas palavras, que humano algum jamais pronunciou, tanto mais os seus actos, que humano algum jamais cumpriu, nos mostrarão que Ele não era um homem como os outros.

E porque disse: “O Pai existe e ama-vos”, Deus deixou de ser uma ideia abstracta, um ser omnipotente e omnipresente; Deus transformou-se numa pessoa.

Dúvidas temos todos, a diferença está em que eu acredito nas palavras, acredito Nele.
Para mim, isso chega.

Cbs (La Force des Choses)

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O perdão ao contrário

Hoje a Igreja celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos – o contacto do humano e do divino e o seu poder transformador. Partilho convosco uma reflexão feita noutras terras.
O episódio do Pentecostes relatado no evangelho de hoje, com a espectacularidade da descida de línguas de fogo sobre os apóstolos, pode desviar a nossa atenção do que me parece o essencial. O essencial foi a anti-Babel em que os discípulos se tornaram ao falar a gregos e troianos (e povos com nomes mais esquisitos). Mas não é desse essencial que quero falar. É doutro essencial que foram os dois gestos de Jesus ao chegar junto dos apóstolos, alguns dias antes, estando eles receosos e amedrontados, segundo nos conta outra leitura de hoje. Os dois gestos com que Jesus se apresenta são a paz e o perdão. Centremo-nos no perdão. "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados e aqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos." A interpretação canónica diz-nos que assim se instituiu o sacramento da confissão. Uma outra leitura, que creio não ser demasiado herética, diz-nos que nós próprios podemos perdoar ou não perdoar aos que nos rodeiam: a quem perdoardes ser-lhe-á perdoado; quando não perdoardes permanecerá a desunião. A construção da paz passa precisamente por termos consciência de que a remissão, a reconciliação, parte de nós e do perdão que somos capazes de dar aos outros. Podemos perdoar ou não perdoar àqueles que nos magoaram, àqueles que vamos inscrevendo no lado mais negro das nossas memórias. A atitude de dar perdão é profundamente transformadora, porque permite a reconciliação, o reencontro ou, quando menos que isso, porque permite uma convivência mínima, mais pacífica, menos feroz, mais cuidada. A tendência da natureza não é necessariamente o perdão – parece natural o "olho por olho e dente por dente". E contudo somos chamados a contrariar essa lógica natural das coisas com uma força que parece pouco lógica: o amor. E o amor passa pelo perdão. Por isso, no dia de Pentecostes, o dia em que celebramos o contacto do Mistério com a nossa realidade, perguntemos que perdão temos nós para dar. Pedir perdão não é um exercício fácil. Menos fácil é pensar naqueles a quem queremos oferecer perdão. E oferecê-lo.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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Com as mãos na Terra – Os cristãos e a política

“O contributo específico dos católicos [a nível político] não consiste no conteúdo programático das suas propostas; radica ou deve radicar, antes, no espírito com que essas propostas são feitas» (Francisco Sarsfield Cabral, Os Católicos e a Política, in Ética na Sociedade Plural, Ed. Tenacitas).

Ser cristão passa pela coragem de olhar de frente para o mundo, recusando a apatia e o imobilismo. Os dramas humanos não podem deixar de nos comover, movendo-nos a uma acção que se alimenta da nossa relação pessoal e comunitária com Cristo.
Viver hoje a encarnação, passa pelo empenho na realidade concreta do nosso tempo. Uma realidade que não nos foi dada como algo definitivo e acabado mas que somos chamados a (re)criar em cada momento, rasgando na História horizontes de futuro. O nosso tempo não é nem melhor, nem pior, do que qualquer outro tempo é apenas aquele em que somos chamados a viver.
Ora, cuidar dos dramas humanos, procurar o bem comum passa, necessariamente, por uma atenção particular à política. Neste sentido, parece-me ser necessário que os cristãos reflictam sobre o papel que devem ter na participação cívica, no assumir de responsabilidades concretas nas instituições sociais e políticas que contribuem mais decisivamente para construção das nossas cidades. Numa altura tão marcada pela desilusão com a política parece-me necessário que haja pessoas que possam pelo seu empenho desinteressado e sério ajudar a recuperar a esperança no político.
Encontro, em diferentes quadrantes, pessoas com vontade de assumir com determinação esta exigência da sua fé. Mas é importante que outros sejam capazes de lhe seguir os passos.
Não entendo que a participação dos cristãos na política se possa confundir com um qualquer espírito de cruzada e muito menos com a proclamação de um programa cheio de verdades absolutas. Como diz Sarsfield Cabral, a marca cristã passa essencialmente pelo espírito com que se fazem as propostas.

Sem querer ter a pretensão de esboçar o perfil imaculado de um político sem mancha, proponho algumas atitudes de fundo que um cristão deve experimentar como exigência da sua participação cívica:
- Esperança – a recusa dos discursos pessimistas que mais do que uma visão realista correspondem a um subtil convite ao alheamento e à apatia. A esperança cristã não ilude a fragilidade humana, não ilude a presença do mal e da dor. A esperança cristã proclama que nenhuma situação pode destruir a possibilidade do sentido da vida e da construção do futuro.
- Liberdade interior – a capacidade de estar centrado no que é realmente essencial, procurando optar, independentemente das lógicas dos aparelhos partidários, de interesses particulares ou individualistas, tendo sempre como pano de fundo a promoção da dignidade da pessoa humana em todas as suas dimensões. A Política não pode apenas ser entendia como um exercício de gestão com o qual se pretende satisfazer um número sempre crescente de necessidades. A pessoa humana é muito mais do que uma sede de necessidades.
- Humildade - que passa por uma atitude de diálogo que evita sectarismos e pelo reconhecimento de que nenhum de nós é detentor da Verdade Absoluta mas que a política é uma das expressões da peregrinação que todos fazemos enquanto resposta a uma exigência de um mundo cada vez mais humano. E esse caminho é feito por pessoas que partilham desejos sinceros de justiça mas os expressam por meio de propostas nem sempre coincidentes.
A humildade passa também pela paciência com os limites das instituições humanas, sabendo que erramos mais do que gostaríamos e que as mudanças exigem mais tempo do que aquele que normalmente estamos dispostos a esperar.
- Profecia – A humildade não é incompatível com a determinação e com a coragem que recusa a injustiça e é capaz questionar a fundo a realidade. E aqui não podemos ter medo de colocar em causa os mecanismo do sistema capitalista que têm sido geradores de desigualdade e que potenciam os atentados contra a vida humana.
Não se trata de diabolizar a economia de mercado, trata-se de não deixar passar em claro o fosso cada vez maior entre aqueles que vivem na abundância e aqueles que experimentam a miséria. Trata-se de procurar um modo de vida mais coerente com a visão da pessoa humana que nos foi confiada por Cristo. Trata-se de não pactuar com os acentuados desequilíbrios ambientais potenciados por um modo de vida que super valorizando o conforto e a satisfação das necessidades individuais, corroeu a solidariedade e contribuiu para um enfraquecimento do Espaço Público.

Naturalmente que estas atitudes não tem que ser exclusivas dos cristãos. Mas elas são para os cristãos uma consequência da sua Fé. Estas atitudes de fundo são, quanto a mim, prioritárias a qualquer capacidade técnica. Eles podem ajudar-nos a repensar a visão distorcida que temos do ser humano Esta visão é, muito provavelmente, não só responsável pela crise que vivemos, mas também pelas soluções enganadoras que temos arriscado.
No seu modo de viver, na política mais activa ou no empenhamento cívico mais escondido, os cristãos podem e devem dar um contributo importante para que pouco a pouco se possa ver surgir uma visão mais humana da vida.

Zé Maria Brito [OPTIMISTA POR OPÇÃO]

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Quanto vale a nossa herança espiritual?

Ao longo da história, as religiões funcionaram como pólos de desenvolvimento espiritual dos povos. O seu alicerce principal foram as escrituras sagradas que se apresentam como testemunhos de uma vivência espiritual, agentes inspiradores de valores morais e éticos e repositórios de leis que visam regular e enaltecer o relacionamento entre os seres humanos. A própria vida dos Fundadores das grandes religiões e dos Seus seguidores mais conhecidos estão repletas de exemplos de heroísmo, sacrifício e auto-disciplina que inspiraram realizações extraordinárias no campo da arquitectura, da música e de outras artes. Torna-se óbvio que as grandes religiões foram dinamizadores do processo civilizacional.
Se considerarmos que vivemos um ressurgimento do fenómeno religioso, podemos então questionar-nos: porque é que esta extraordinária herança espiritual não é o objectivo central de quem tem “fome espiritual”? Como explicar que tantas pessoas procurem fenómenos de teor obscurantista ou de religiosidade questionável?
A vida dos Profetas não tem hoje menos significado do que tinham há alguns séculos atrás; as escrituras sagradas não mudaram; os princípios morais que contêm não perderam a sua validade. Quem procura a sua identidade espiritual poderá encontrar conforto nos Salmos ou nos Upanishads; quem acredita que existe algo mais que transcende a realidade material pode ficar profundamente emocionado com as palavras que Jesus ou Buda falam ao coração humano. Desta forma, é estranho que a pesquisa pela verdade espiritual não tenha levado a maioria das pessoas aos percursos religiosos tradicionais.

A sociedade em que hoje vivemos é profundamente diferente das sociedades em que surgiram as grandes religiões mundiais. Extraordinários progressos científicos e tecnológicos alteraram o funcionamento (e o conceito) da sociedade e até da própria existência. A nossa atitude e relacionamento com a autoridade mudou profundamente desde a adopção de processos democráticos de tomada de decisão. Temos hoje preocupações totalmente diferentes do que existiam há séculos atrás: engenharia genética, energia nuclear, problemas ambientais, identidade sexual… Em grande medida, a falta de fé na religião tradicional foi uma consequência inevitável da incapacidade para lhe descobrir a orientação necessária para viver a modernidade de forma coerente.
Além disto houve a chamada globalização e integração de culturas. Um pouco por toda a parte, pessoas que foram educadas de acordo com um determinado modelo religioso viram-se em contacto regular e frequente com outras pessoas cujas crenças e práticas religiosas são totalmente irreconciliáveis com as suas. Daqui surgiram tensões e conflitos; mas também surgiu o reavaliar dos valores religiosos recebidos e a descoberta de valores comuns (o diálogo e as actividades inter-religiosas!).
É assim que neste mundo multi-cultural, multi-étnico, multi-religioso, que muitas pessoas se podem questionar: Se alguém tem crenças que parecem profundamente diferentes das minhas, mas os seus valores éticos e morais merecem a minha admiração, o que é que me poderá levar a afirmar a superioridade da minha religião? Por outro lado, se as grandes religiões partilham valores básicos comuns não serão apenas as interpretações sectárias que erguem barreiras artificiais entre o indivíduo e os seus vizinhos?

Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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quarta-feira, maio 11

 

O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista

De um modo quase totalmente imprevisto o aborto volta estupidamente à ordem do dia.

Existe uma forte corrente no PS manifestamente empenhada a destruir o capital de confiança que o PS trouxe para o governo. Se por simples estupidez, se por um calculismo maquiavélico, ainda se está para descobrir.

Num momento em que se começam a perfilar hipotéticos candidatos presidenciais não tenho dúvidas que, entre um candidato abortista e um candidato não abortista, independentemente da área política em que se situem, escolherei sempre o candidato não abortista.

Um candidato abortista de esquerda para as eleições relativas à Presidência da República, aliás, nunca terá hipóteses. Por uma razão simples: afastará os votos do centro e entregará a Presidência da República ao candidato da direita. Um candidato do PS para as eleições relativas à Presidência da República só terá hipóteses se for não abortista. Porque embora ficando em segundo lugar na primeira volta, ganhará na segunda. Um candidato abortista nunca ganhará a segunda volta pois afastará os votos do centro. Não sei se é isso que o PS quer mas a direita agradece.

É que a despenalização pura e simples do aborto traduz uma concepção de valores morais que me recorda uma frase de David Lodge no livro "Longe do Abrigo": "Mas se montes de gente o fazia... Havia uma espécie de segurança nos números." Ora foi precisamente esta concepção dos valores morais que permitiu o nazismo.

A chamada "verdadeira esquerda" é seduzida, na questão do aborto, pelo pior da ideologia burguesa: o seu profundo egoísmo e a sua total falta de respeito para com os mais fracos.

Como referia António José Saraiva em 1970 no posfácio ao livro "Maio e a crise da civilização burguesa, "É justamente porque não há incompatibilidade entre o espírito burguês e o método marxista que este foi perfeitamente assimilado pelos teóricos burgueses. (...) o 'Progresso', entendido daquela maneira, é hoje a única religião do mundo 'civilizado', o Deus, a forma de transcendência que substituiu as religiões monoteístas. Tocar nele é tocar no feitiço fundamental da Burguesia, em todas as suas variantes, liberais ou marxistas."

A burguesia prafrentex do BE, a burguesia burocrática e municipalista do PCP e a burguesia da "verdadeira esquerda" do PS reconhece apenas um poder que é o poder de consumir. Uma criança por nascer não tem capacidade de consumo. E é esta falta de capacidade de consumo que torna as crianças ainda não nascidas tão vulneráveis perante o poder burguês.

Como escrevia Pier Paolo Pasolini, "(...) O que interessa a um tal poder não é um casal gerador de crianças (proletárias), mas um casal consumidor (pequeno-burguês): ele tem já, portanto, in pectore a ideia da legalização do aborto (como tinha já a da ratificação do divórcio)."

O culto do eu e dos interesses supremos do eu e a relatividade de todos os restantes valores é a trave mestra do liberalismo económico burguês. É aqui que vai beber a esquerda ateia. Porque o relativismo é sempre relativo. Quando relativizamos o carácter sagrado da vida humana, estamos a sacralizar e a absolutizar outros valores, valores particularmente sinistros e por isso escondidos pelo aparente relativismo.

Termino de novo com Pasolini, "Que a vida é sagrada é evidente: é um princípio ainda mais forte que todo o princípio democrático e é inútil repeti-lo.(...) O aborto é o primeiro, e único, caso para o qual os radicais e todos os partidários do aborto, democratas puros e duros, ao apelarem à Realpolitik, recorrem, portanto, à prevaricação “cínica” dos factos estabelecidos e do bom senso."


Timshel [TIMSHEL]

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Os velhos dos Marretas



Statler e Waldorf passavam a vida a resmungar. Terminava uma música ou um "sketch" e logo comentava um, I hate it, para o outro contrapor I love it — e à medida que a argumentação de um e outro avançava as opiniões iam mudando para o seu contrário, I love it, I hate it. Era assim, episódio a episódio, nos Marretas. Não eram precisos dados decisivos para a mudança de opinião. Não valia a pena gastar inglês em possíveis tratados hermenêuticos porque ali o que interessava era dizer mal ou bem.

Neste mundo simples de preto-e-branco parecem caber, às vezes, os católicos. Ratzinger feito Papa é logo analisado do balcão: I hate it, para ser a seguir, hmmm, he wasn't so bad, e terminar em glória, more, more.

Caricaturizo, como tantas vezes faço aqui... No fundo, como Statler e Waldorf. E critico-me, claro. Afinal, falta à Igreja Católica — ou não? — gente que se inquiete mais, que desinstale saberes, que questione certezas. Não estou a desejar que fiquemos todos sob alçada da Congregação para a Doutrina da Fé, mas apenas que não nos limitemos a mandar piadas do primeiro balcão. Estudar, aprofundar, estudar, debater, estudar, ler, estudar, rezar.

Também me dirão que este blogue — e outros, que se ramificam com este numa cadeia teosférica (como diriam os ateístas da rede) — cultivará a inquietação e a provocação. Eu, por mim, sou todos dias desinstalado com uma mulher que não é crente e me atira perguntas simples que não são simples. Se Bento XVI a ouvisse não sei se teria palavras fáceis para a resposta, nem se poderia refugiar comodamente na resposta de que é assim porque acredito.

Por estes dias, li uma notável provocação de um Amigo destas andanças. O Tiago, que clama na
Voz do Deserto, esclarecia atentos e heterodoxos.

"Um esclarecimento. Certamente desnecessário para quem sabe ler mas indispensável para os mal-intencionados. E vale a pena perder algum tempo a esclarecer os mal-intencionados. Pôr uns pós de religião com pitada de almanaque pópe-roque pode garantir o sucesso deste blogue. Uma receitinha do caraças, uma salada russa exótica, uma bocarra pós-moderna. Quando me sento no Monte Sinai pouco me aflige o estilo, honestamente. A erudição nunca curou leprosos. Os babilónios não me perdoam que acredite nas coisas que escrevo. É-lhes intolerável que o lustroso chapéu que uso sirva para me proteger do sol. Almas torturadas pelo cristianismo podem ser o último grito da sofisticação estética. No deserto, todavia, de pouco nos serve o
penteado."

Por um dia, podemos ser um pouco mais que Statler e Waldorf, por muito que eles nos divirtam. E por uma vez podemos deixar de ser babilónios — mas devemos, e talvez aqui me desvie do Tiago, estar sempre atentos à Babilónia. E deixarmo-nos contagiar por ela. Para podermos ver, ouvir e ler para lá do primeiro balcão.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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segunda-feira, maio 9

 

Aprender com Buchenwald

O que é que eu teria feito se vivesse nesse tempo?
Teria ido ver o que acontece em Ettersberg, esse monte a meia dúzia de quilómetros da cidade onde moro? Teria preferido ignorar?
Teria reparado no fumo constante a sair da chaminé?
Teria dado pão aos prisioneiros esfomeados que via a construir estradas? (mesmo sabendo que dar-lhes pão era um crime, era "abrir uma brecha no sistema"?)
Teria tido a coragem de esconder um judeu na minha casa, sem saber quanto tempo duraria o horror? (sabendo que, a ser descoberta, eu e ele teríamos o mesmo destino?)

Um amigo alemão comentou que em Weimar lhe acontece uma coisa estranha: sempre que vê velhinhos, automaticamente ocorre-lhe a questão: "e de que lado estavas tu no tempo de Buchenwald? o que fizeste?"

Também já tive esse reflexo, agora tenho uma inquietação: já não há nenhum Buchenwald? Já não há aqui pessoas em situação de sofrimento atroz, e que são ignoradas por uma sociedade civil entregue ao seu quotidiano?

Dou exemplos:

Por toda a Europa há casas de alterne onde jovens mulheres do leste da Europa são obrigadas a trabalhar em situação de escravatura. Respondem a anúncios de emprego, entram num autocarro da empresa "empregadora", ao passar a fronteira da Alemanha ficam sem passaporte, são encerradas durante semanas em quartos sem janela, e sujeitas a todo o tipo de tortura física e psicológica até se deixarem quebrar. Muitas delas são depois enviadas para Espanha e Portugal.
É do conhecimento de todos. E então, o que é que eu faria, se vivesse "neste" tempo? É bem mais fácil partir do princípio que isto não me diz respeito e que não posso fazer nada.

Em Weimar (por ironia, na saída para Ettersberg) a Caritas tem um centro de apoio a pessoas que pediram asilo político à Alemanha e que ficam a viver naquele prédio enquanto o processo não é decidido. São afegãos, iranianos, iraquianos, ciganos russos e quem que mais calhar. Têm comida, casa, roupa, escola, cuidados médicos, transportes públicos, e até uma pequena "mesada", mas vivem numa terra de ninguém, entre vizinhos que não escolheram e uma perspectiva de futuro muito incerta.
Não sendo um campo de concentração, é um local de torturados.
E eu, que tão facilmente acuso os velhinhos de Weimar, não quero comprometer-me com estas pessoas que sofrem hoje na minha cidade. Ir conhecê-los, falar com eles, ajudá-los - dá trabalho, exige tempo e entrega contínua.

Pois é. Ainda tenho muito que aprender com Buchenwald.

Helena Araújo (
DOIS DEDOS DE CONVERSA)

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Dar a quem pede

Nos tempos que correm, torna-se frequente ouvir muitas pessoas dizerem que recusam dar esmolas a pedintes. Algumas dizem que preferem contribuir para alguma instituição de caridade, onde sabem que o seu dinheiro será “bem empregue”. Outras afirmam que dar esmolas a pedintes e “arrumadores” os habitua à mendicidade, quando o que eles “precisam é de trabalhar”.
Ainda consigo compreender que estas afirmações partam de pessoas alheias à Igreja. Mas fico muito preocupado quando são cristãos a falar assim – em especial, jovens da minha geração ou mais novos, como tenho ouvido frequentemente.
Vivemos numa sociedade que, em nome do relativismo moral, tudo “perdoa” às pessoas – mentiras, vaidades, invejas, traições, falsidades e egoísmos -, mas que não lhes perdoa o facto de não poderem, não souberem ou não quererem produzir riqueza. Na nossa sociedade do consumo e das maravilhas da técnica, alguém que não trabalhe torna-se indigno de compaixão, sendo votado ao mais atroz dos ostracismos.
Em relação ao primeiro argumento acima apresentado, o daquelas pessoas que se recusam a dar dinheiro a pedintes por estes alegadamente o gastarem em vícios, devo dizer que me parece extremamente falacioso. Imaginemos um “arrumador” toxicodependente que, ao longo de um dia de mendicidade, recolhe 75 euros (estimativa minha). Dessa quantia, certamente que a maior parte será dispendida na dose diária de droga. Mas um toxicodependente também precisa de comer, e é nisso que devemos pensar quando lhe damos esmola. Estaremos a dar-lhe dinheiro para se alimentar e não para se drogar. Além de que, ao recusarmos-lhe esmola, por mais parca que seja, estaremos a empurrá-lo para a criminalidade. E é nosso dever, enquanto cristãos, tudo fazer no sentido de que um irmão nosso não caia em desespero, pois caso contrário poderemos vir a ser também responsáveis pelas loucuras que ele cometer.
Evidentemente que todos os cristãos devem contribuir com donativos para instituições de caridade. Todavia, quantas vezes não será isso uma forma de “alívio de consciência”? Não será isso uma maneira de dizer: “já contribuí com a minha parte e agora que essas instituições os ajudem”?
Imagine o caro leitor que, de um momento para o outro, uma catástrofe natural, uma guerra ou uma qualquer perturbação económica e política o atira a si e aos seus para o mais absoluto estado de necessidade. Imagine que tudo o que o hoje possui, o fruto do seu trabalho e das suas poupanças, se perde nessa inesperada e inglória convulsão. Imagine também, caro leitor, que todo o seu mundo se desmorona e que, de um dia para outro, passa a depender da caridade alheia. Como se sentiria o leitor se, erguendo as mãos junto de um camião carregado de ajuda humanitária, o repelissem com pontapés, recusando-lhe auxílio e aconselhando-o a trabalhar para sobreviver? Numa situação dessas, como se sentiria o leitor se lhe visse negada a mais pequena ajuda por parte de outra pessoa?
Quero com isto ilustrar que, no mundo incerto e perigoso em que vivemos, todos estamos sujeitos a caírmos um dia na mais abjecta das misérias. Hoje são os “arrumadores” que se encontram nessa triste situação, mas amanhã poderemos ser nós.
Devemos por isso pensar duas vezes antes de repelirmos um irmão que passa necessidades, evitando fazer julgamentos morais. Até porque seremos julgados exactamente na medida em que julgarmos os outros.
O segundo argumento referido, segundo o qual dar esmolas a pedintes e “arrumadores” os habitua à mendicidade, parece-me igualmente falso. Evidentemente, melhor que lhes dar o peixe, será ensiná-los a pescar; mas um homem com fome consegue pescar? Conseguirá uma pessoa que não tem dinheiro para se alimentar e para se vestir decentemente, regressar ao convívio da sociedade, encontrar emprego e começar a trabalhar? Pode um homem que se encontra no fundo de um escuro poço, envolto nas densas trevas do desespero, construir uma escada para dele sair, se não for nisso ajudado por quem se encontra fora?
Além disso, quantas pessoas que se recusam a dar-lhes o peixe os procuram ensinar a pescar? Por ter lavado as mãos, Pôncio Pilatos não foi menos culpado que Caifás.
Quando damos esmola a um miserável, estamos a entregar-lhe apenas o que lhe pertence. Todos têm direito a sobreviver de forma digna, independentemente de quererem ou não trabalhar. A dignidade do Homem deve estar acima de qualquer teoria económica, direito à propriedade ou código moral. A economia, o direito e a moral devem ter como fundamento a promoção e defesa da dignidade humana, e não o oposto. Caso contrário, servirão apenas para perpetuar a dominação de uns sobre outros, bem como para defender os privilégios dos primeiros em detrimento dos segundos.


Filipe Alves (
RESPUBLICA)

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O Dezembro em que não houve Natal

Quando entrei no monte Athos, o primeiro mosteiro onde fiquei foi no Gregoriou. Fui levado por um velho, chamado Kostas. Adoptou-me desde que passei do mundo para o monte da Virgem, como lhe chamam. Ali, a igualdade não vinga e as mulheres não entram, nem virgens nem das outras. Nem fêmeas de qualquer espécie: galinhas, ou mulas não têm entrada. As mulas lá, são machos. É assim há mais de mil anos e os monges que vivem no Athos pretendem manter a tradição, mesmo que isso lhes custe uma menor, ou mesmo extinção, de ajudas comunitárias para restauro dos mosteiros e sketae. Numa lojinha logo à entrada, depois de ter mostrado o Diamoneterion (licença para entrar), comprei pão e azeitonas. Umas azeitonas que só vi à venda na Grécia e na Bulgária. São grandes como abrunhos, pretas e enrugadas como velhas. Também são salgadas. Para acompanhar as azeitonas, comprei pão, branco e gigante. Tudo a conselho do Kostas.

Quando cheguei ao Gregoriou, bebi um raki (aguardente anisada), comi uns lokumi (doces que também são conhecidos por turkish delights, mas que os gregos dizem ser gregos) e bebi um café turco (que os gregos dizem ser grego). É hábito e dá ânimo contra o frio intenso e o cansaço das caminhadas. Lá é tudo a subir por caminhos coleantes, de cabras (bodes, nesta geografia específica, visto serem proibidas as fêmeas), com vista para o mar, o mesmo para onde Egeu arremessou o seu desesperança juntamente com a sua vida, naquele dia em que o seu filho Teseu se esqueceu de arregaçar a vela preta.

Assisti às primeiras missas que são longas, mais de duas horas, cheias de incenso e cânticos. Pessoas como eu, não passam da primeira sala: as igrejas estão divididas em três espaços, para ouvintes, catecúmenos e fiéis. À antiga. No refeitório também me punham numa mesa à parte. O anagnosta lia qualquer coisa num grego que eu não compreendo enquanto a comida (às vezes com peixe, mas sempre sem carne) era servida juntamente com o bom vinho do Athos, pisado por pés monásticos. É famosa a qualidade do vinho do Santo Monte.

- Por que motivo fico aqui à entrada, longe de toda a gente?

- Tipiko - respondiam-me, que quer dizer que é a tradição daquele mosteiro, é assim desde que ali se pôs a pedra angular.

O velho Kostas (era assim que ele se referia a si próprio) traduzia-me o que eu não percebia, apontava o que eu não via e aconselhava-me sobre o que eu não vislumbrava. Vai todos os anos peregrinar para o Monte, durante um mês, com pão, bordão, azeitonas e muita reza. Era um homem com uns setenta anos, de barba branca. Tinha sido actor, tinha fugido para a Austrália por ter arreliado a ditadura e tinha voltado. Hoje tinha uma loja de antiguidades em Atenas, e já não pensava muito em Brecht. Um dia lá representou uma coisita, a pedido. Via-se que tinha paixão. Falava uma série de línguas com fluência.

Lá fora, no mundo, era Natal. O calendário do Athos é o antigo, sem a correcção do calendário gregoriano. Cristo nascia dez dias mais tarde no Monte Athos. Nessa altura os monges preparavam-se para o jejum e isso não era bom augúrio. Haveria menos refeições.

Outro dos mosteiros onde estive foi no de S. Paulo. Lá conheci um rapaz com uns vinte e tal anos que me disse que o Deus dos católicos não era o verdadeiro Deus, era uma mentira. Prosseguiu dizendo mal do papado, e a discussão instalou-se entre outros contendores. Não pode haver dois deuses, um falso e um verdadeiro, isso seria um maniqueísmo; pode sim senhor; não pode não senhor, isso quer dizer que o Deus único não é único.

-Para onde vais a seguir? – perguntou-me o rapaz.

-Vou para a Macedónia.

-A Macedónia é aqui, nós é que somos macedónios, nós é que descendemos de Alexandre. Os outros são eslavos.

-Então se não vou para a Macedónia, para onde é que vou?

-Não sei, para Skopje.

-Skopje é a capital da Macedónia.

-A Macedónia é aqui. Donde é que vens?

-De Istambul.

-De Constantinopla –corrigiu ele. E nessa altura, eu já concordava com tudo.

Ele, tinha ido ao Monte para falar com um eremita. Existem três tipos de monges, no Monte: os cenobitas (que vivem nos grandes mosteiros muralhados e segundo regra conjunta), os que vivem nas sketae (que vivem em casas agrupadas como numa pequena aldeia, onde há entreajuda mas não há regra comum) e os eremitas (que vivem isolados em casas modestas ou grutas). O rapaz queria saber se deveria casar-se. O monge, uma espécie de oráculo pítico, aconselhou-o a deixar a rapariga: ela só queria o dinheiro dele. Isto confessou-me o rapaz, como uma alcoviteira teria feito.

Nessa noite era preciso acordar para pôr comida num saco de plástico, pois não haveria nada para comer durante o dia. O Kostas acordou-me para ir buscar o que me corresponderia para me encher o bucho, mas a minha preguiça venceu-me. De manhã, quando acordei, tinha um saco com comida à cabeceira, posto pelo velho Kostas e um bilhete. Dizia que iria visitar um eremita seu amigo e que me desejava boa sorte.

Quando saí desse mosteiro foi com o rapaz da tarde anterior e com mais outros dois gregos.

-Cristóvão Colombo era grego-dizia-me um, que era professor.

Eu, concordava com tudo.

O mau tempo acabou por fazer das suas e não fui aceite no mosteiro para onde me tinha dirigido. Tive de voltar para trás. Chovia e fazia um frio difícil de suportar. Tinha as botas molhadas. Quando voltei ao mosteiro de S. Paulo lá estava o Kostas. Disse-me logo com grande entusiasmo que eu teria de ir ver o amigo, falar com ele.

-Falas francês?

-Safo-me.

E lá fomos nós, para perto do mosteiro de Dionisiou (onde haveriamos de pernoitar), conhecer o anacoreta, outrora escritor de alguma fama na Grécia, agora eremita no Athos. Subimos um monte até à sua cabana. A vista era esplêndida e o Kostas enquanto admirava a paisagem soltava traques sonoros. Ventava e granizava. O eremita era grande e gordo, nariz tuberculiforme, avermelhado, e a semelhança com a ideia que fazemos do Pai Natal não era só sugestão da época. Sentámo-nos junto ao fogo e ficámos calados. O Kostas abanava o corpo, sibilando umas rezas. Depois falou-se de arte, da sua vida anterior e de livros. Dos seus e dos outros. Fiquei cheio com a conversa calma. Falou-me de Silouane e do seu discípulo Sophrone, teólogos que admirava.

Numa das bibliotecas do mosteiro de Simonopetra (o mais dramático dos mosteiros) haveria de encontrar um livro do primeiro autor, em inglês, e li-o duma assentada, acompanhado por lokumis e café turco (que os gregos dizem ser grego). Este café é temperado com cardamomo, vem cheio de borras e tem um cheiro santo.

O Kostas era como um guia turístico. Insistiu que era preciso ver os ícones e falar com quem os pinta: lá fomos às oficinas duns monges, aprender a diferença entre período russo e período grego, o que era preciso para pintar, como se fazem as cores. Acabámos a dormir numa skete ali perto. A de Sta. Ana. Lá, numa das casas, estava um louco furioso. Tinha saído da prisão há pouco e tinha ido peregrinar. Foi a primeira vez que conheci um louco furioso, e até o achei muito calmo. Vestia como um pobre, mas vestia bem: um pea jacket (casaco da marinha) com uma camisa de pescador por baixo, de cores alaranjadas.

À noite, o Kostas pôs a cama dele a trancar a porta do nosso quartito e sentou-se nela a rezar. Um louco furioso pode fazer muito bem ao espírito: O Kostas passou toda a santa noite com as contas na mão a baloiçar o corpo para trás e para a frente.

Passados uns dias era altura de sair do Athos, a minha licença estava a expirar, os não-ortodoxos não podem lá ficar mais do que determinado tempo. Procederam-se às despedidas.

Fui para o porto, e percebi que não havia barcos. Estava preso no Monte devido ao mau tempo.

Enquanto esperava o barco - que não haveria de aparecer -, conheci Alexandros, monge austríaco. Enquanto comia o resto do pão com azeitonas que tinha comprado no dia em que cheguei ao Monte, o monge falava da sua vida. Tinha vivido numa gruta da Síria durante uns vinte anos. Noutra gruta em Israel tinha vivido uns quinze e agora tinha uma cabana no Monte. Fartava-se de vilipendiar os judeus e gabava-se de falar com os animaizinhos todos, especialmente com uma salamandra. Aquecia-a nas mãos, dizia ele, enquanto conversava com ela. Graças a estas informações esópicas passei a chamá-lo Branca de Neve, que também falava com os bichos. Falei-lhe de mim.

Passados uns dias, o tempo estava melhor e foi possível sair do Athos. O Natal no mundo exterior já tinha acontecido, mas no Monte ainda não, por isso, nesse ano, não tive Natal. Atravessei a Macedónia (apesar dos gregos acharem que a Macedónia não é um país), a Albânia, a Bósnia, a Croácia e a Eslovénia. Quando cheguei a Lisboa tinha um embrulho no correio, trazia uma morada do Monte Athos, com um cognome: «Sagrado Monte Athos, aeroporto para o Céu». Era do Alexandros, o Branca de Neve. Como tinha trocado uma ou outra palavra em romeno com um noviço que estava com ele, o monge ficou com a impressão que eu era fluente na língua. Por isso, dentro do embrulho, vinham umas fotocópias, em romeno, embrulhadas numa toalha de mesa com motivos natalícios, do livro que ele tinha escrito. Chamava-se o manuscrito: «A invulgar história da minha vida». Na contracapa, escrito a vermelho, convidava-me para me converter à fé ortodoxa, tornar-me noviço e viver com ele, pois assim poder-me-ia «ajudar a responder às minhas muitas questões sobre a Fé e sobre Deus». Termina com: «apesar do silêncio ser a minha mais amada linguagem, bem como a doce fala dos meus pássaros da floresta».

Conheci muitos monges, mas o que me pareceu mais santo, pelo que me foi dado experimentar, foi o velho Kostas, que nunca mais vi e que não era monge. «Não tenho coragem para me dedicar totalmente a Deus», dizia ele, e recusava elogios apontando para os monges do Monte: «Eles é que têm coragem».
Eu, por mim, acho que há muitas maneiras de ser intrépido, e o Kostas foi do mais parecido que vi com um santo. Para ser santo é preciso muito mais coragem que para ser monge no Monte Athos.

No fundo, é como nesse ano não ter tido Natal. Lá por a festa me ter escapado, não quer dizer que Cristo não tenha nascido.


Afonso Cruz (
ALERTA AMARELO)

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quarta-feira, maio 4

 

Cálculo Integral

A Pública deste Domingo, dia 1º de Maio, trazia uns artigos interessantes sobre o trabalho nos dias de hoje. Num desses artigos falava-se de pessoas que tinham optado bruscamente por drásticas interrupções, desvios e transformações das suas carreiras profissionais. Uma dessas pessoas, um engenheiro de 27 anos que parou tudo o que tinha começado para regressar à estaca zero, iniciando um curso de Psicologia, disse uma coisa que me ficou a morder as canelas: disse ser um “calculista que cometeu um erro de cálculo”. Coisa lixada, realmente.
Há gente que se deixa ir pela vida, ao sabor da maré, ao virar do vento. Há gente que fica à espera que aquilo que entende merecer lhe seja entregue, porque eles merecem. Há gente, muita gente, que não descortina sequer muito bem o que pretende da vida, indo atrás de luzes em movimento ou, o que é muito pior, deixando-se ficar onde está por já nada esperar dela.
E depois há a gente que pensa meticulosamente naquilo que quer da vida, que mede bem o caminho, que avalia bem o peso da sua bagagem, que avança logo que decide avançar, que doseia o esforço e procura saber onde estão os abrigos. É gente que segue os trilhos mas que sai deles se tem a certeza dum atalho. É gente que prevê, que vigia, que se controla a si mesmo e quer controlar os acontecimentos. É gente que procura descortinar padrões para poder tomar as melhores decisões. É gente que mede as palavras e procura por detrás dos olhares. São os calculistas. O seu prolongado esforço de introspecção torna-os egocêntricos. A confirmação dos seus cálculos torna-os auto-suficientes. A sua auto-suficiência esteriliza-os. Alguns deles, os que tem mais sucesso nos seus cálculos, esses chegam mesmo a quererem tudo. Tudo o que a vida lhes pode dar e tudo o que eles podem dar à vida. Para isso chegam a enxertar de novo em si próprios qualidades que a sua terrível vontade há muito secou. São os que procuram na multiplicação das facetas a fuga ao tédio da previsibilidade. São também os que descobriram as vantagens práticas da humanidade e da simpatia. E se é no seio dos calculistas que são gerados os mais convictos ateus, aquela subespécie pode até descobrir as vantagens que lhe traz a Fé.
Estes calculistas são verdadeiramente aqueles que decidem comer da maçã que lhes oferece a bíblica serpente. O orgulho, fonte de todo o mal, é indissociável da sua condição. E Deus, que é Grande, castiga-os. Melhor dizendo: Deus, que é Pai, corrige-os infalivelmente. Sempre. Como? De duas maneiras. A primeira é confundi-los, fazendo-os errar os cálculos. E, realmente, nada é mais pungente do que um calculista que cometeu um erro de cálculo. Mas há ainda aqueles que brincam a desafiar Deus, aqueles que pelo menos em certa altura das suas vidas, sabem que ainda não se enganaram. A esses, Deus, na sua infinita sabedoria, reserva-lhes algo muitíssimo pior do que o desengano: o anti-clímax. Há até quem morra disso, dessa imensa surpresa de se descobrir que tudo o que se conseguiu, tudo o que se obteve dos preciosos cálculos, é tão enormemente insatisfatório, tão absurdamente insuficiente, tão estranhamente sem sentido. Esse anti-clímax, esse vertiginoso vazio, prova magnificamente a transcendência divina. E prova também que, aos olhos Dele, somos todos iguais.
Acreditem que sei perfeitamente do que estou a falar.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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Plans are daydreaming and this is an absolute measure of a man

As primeiras páginas da Bíblia descrevem a abundância exuberante do mundo criado, afirmando que tudo aquilo de que o homem pode ter necessidade lhe foi concedido, a fim de que possa levar uma vida digna de uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26). Por conseguinte, não é possível que, no mundo, milhões de pessoas vivam subalimentadas ou sofram de fome. A terra é capaz de lhes oferecer o necessário e, portanto, a causa da escassez dos alimentos deve ser procurada noutra parte.
No Livro do Génesis, Deus entrega a criação nas mãos do homem (cf. 1, 26 e 28); portanto, é nesta direcção que devemos olhar, se quisermos compreender as desordens actuais. Veio a faltar uma gestão equitativa dos bens da criação, com uma evidente desigualdade na partilha dos recursos.
Não. Não sou eu que fui o autor dos parágrafos antecedentes. Também não foi Leonardo Boff ou Frei Betto. Foi o Papa João Paulo II em 3 de Novembro de 2001.
É certo que foi uma frase proferida no domingo passado pelo Santo Padre Bento XVI que me fez recordar estes parágrafos. Disse Bento XVI: "as condições laborais devem ser cada vez mais respeitadoras da dignidade humana".
E só é possível que as condições laborais sejam mundialmente respeitadoras da dignidade humana se existir uma redistribuição de recursos ao nível mundial.
Existe uma alternativa económica cristã ao modelo actual de globalização.
Uma globalização que não se faça à custa das pessoas pobres (dos países ricos, pelo efeito da deslocalização, e dos países pobres, por efeito da sobre-exploração).
Uma globalização que não resulte em favor das classes possidentes e dos exércitos (dos países ricos e dos países pobres).
É possível uma globalização mundialmente regulada que permita a transferência de recursos das grandes riquezas mundiais de modo a que, em todo o mundo, existam os recursos necessários que permitam que as condições laborais sejam, em todo o mundo, respeitadoras da dignidade humana.
Como escreveu São José Maria Escrivá: "Um homem ou uma sociedade que não reaja diante das tribulações ou das injustiças e se não esforce por as aliviar, não é um homem ou uma sociedade à medida do amor do Coração de Cristo." (Cristo que passa, 167)


Timshel [TIMSHEL]

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Bento XVI, uma hipótese

Tese: "A partir de um ou vários pressupostos, é possível construir um mundo dogmático (como é o caso do mundo neo-liberal ou do mundo marxista), de uma grande beleza e coerência. Neste tipo de mundos, existem respostas peremptórias para tudo e tudo é de uma solidez magnífica, recheada de detalhes que contribuem para a imponência do edífico. Mas o cristianismo não é só lógica. O cristianismo tem subjacente a lógica do amor. E essa é incompatível com a lógica das inumeráveis grandes, pequenas e pequeninas certezas absolutas." [Timshel]

Antítese: "Aos nossos ouvidos, o sopro era outro - e, creio, aos ouvidos não apenas de católicos ditos progressistas, mas a ouvidos mais "conservadores" de pessoas simples, que prefeririam eventualmente um Papa menos frio, mais próximo das pessoas - como foi o bom João XXIII ou o afectuoso João Paulo II." [Miguel]

Síntese: "Receber o Espírito Santo não significa, portanto, ser objecto de um contecimento mágico, pelo contrário: trata-se da abertura interior à mensagem e, portanto, a Deus e ao seu Cristo crucificado, permitindo assim que o Espírito de Deus e de Cristo Jesus se apodere de nós. Crer no espírito Santo, no Espírito de Deus e de Cristo Jesus, implica crer no Espírito da liberdade. Porque, como diz Paulo, “onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Cor 3, 17): liberdade de culpa, da lei e da morte; liberdade na Igreja e no mundo; liberdade para agir, para amar, para viver com paz, justiça, alegria, esperança e gratidão. E isto, apesar de todos os obstáculos e coacções existentes na Igreja e na sociedade, apesar de todas as deficiências e fracassos. No entanto, sei que nesta liberdade do Espírito posso encontrar sempre valor, apoio, força e consolo, tal como foram encontrados por inúmeros anónimos nas suas grandes e pequenas decisões, medos, perigos, ânsias e esperanças." [Hans Kung, por Rui Almeida]

Hipótese: podemos baralhar estes três excertos - ou os textos completos de onde eles vêm, publicados aqui na semana passada - dando-lhes outra ordem (outra tese, outra antítese, outra síntese, não se ofendam os meus confrades), para perceber que os caminhos da Igreja de Cristo, nos dias de hoje, nos dias de Bento XVI, compõem-se de múltiplas possibilidades. Mas, afinal, os caminhos desta Igreja sempre foram assim: portas que se abrem com cuidado, outras que se fecham com estrondo. Mas, sempre o disse, em especial a amigos meus não-crentes: é-me fácil apresentar-me como um católico "liberal" ou "progressista" ou "não-conservador", conforme gostos e públicos, mas mais difícil é ser Igreja também nesta Igreja. Daí o grito simples enunciado no nome do Movimento Nós Somos Igreja... Podíamos acrescentar (como fiz, num comentário à eleição de Bento XVI) nós também somos Igreja.

E, por entre as brumas das dúvidas, podemos afirmar que ao também ser Igreja nesta Igreja estamos afinal a assumir a possibilidade de com todos construir um outro mundo melhor. E desta vez, sublinho-o, o todos é inclusivo dos meus irmãos cristãos, católicos, apostólicos, romanos.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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segunda-feira, maio 2

 

O futuro da Igreja 2

Dois dias antes da eleição de Bento XVI escrevi aqui sobre o futuro da comunidade crente. Não para fazer futurologia mas simplesmente para partilhar os meus anseios e preocupações sobre o Papa que então ia a votos e o que a sua eleição implica. Meio a brincar meio a sério, disse que a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger seria um "cenário pouco católico". Por algum motivo, no domingo depois da eleição, Frei Bento Domingues formulou exactamente o pedido de que o novo Papa fosse católico – preocupado com a totalidade da humanidade, capaz de fazer a síntese entre unidade e diversidade, líder de uma Igreja que se pensa a partir dos homens e mulheres dos nossos dias, a partir das suas "alegrias e esperanças, angústias e tristezas ".
No seu texto de ontem Frei Bento adverte contra os riscos de fazer cenários em matéria de religião, já que as mutações demográficas por si só podem trazer mudanças imprevistas. Então sem futurologias, deixo apenas três comentários, agora que a poeira (ou o fumo) da eleição começa a assentar.

A primeira coisa que queria dizer foi bem formulada pelo próprio Frei Bento e tem a ver com os comentários feitos sobre a (des)intervenção do Espírito Santo no Conclave:
«O Espírito Santo não foi fechado à chave para a eleição do Papa nem assinou a acta da eleição. No entanto, acolhido ou rejeitado, o Espírito Santo – com o Pai e o Filho – é para a fé católica o habitante mais cosmopolita e bem disfarçado. Seria muito estranho – embora sem substituir as suas qualidades e os seus defeitos – que Ele se tivesse mantido alheio às tarefas dos cardeais eleitores que invocaram a sua divina assistência!
Essa confiança que os católicos depositam no voto dos cardeais não serve para nos alhearmos dos tempos que virão. Nem nos impede de dizer que não concordamos por isto ou por aquilo. É também isso que Bento Domingues diz de seguida: «Parece-me fundamental que os cató1icos não abandonem o espírito crítico nem se furtem a colaborar generosamente com Bento XVI para que a Igreja cató1ica seja a pátria de todos os que são movidos pelo Espírito do Ressuscitado (...)".»

A segunda coisa que queria dizer e que já foi dita noutras alturas é que a Igreja é muito mais que o Papa. De novo Frei Bento, no texto de ontem: «Diante de tanta propaganda tonta em torno de Bento XVI e dos medos projectados do passado para o futuro, importa não esgotar a esperança cristã com a autoridade de humanos eleitos por seres humanos, segundo regras e processos estabelecidos por alguns deles. Seria cair no pecado da idolatria.»
Eu defendi abertamente um perfil diferente para o novo Papa, sabendo o reduzido valor da minha opinião. E se subscrevo inteiramente o voto de D. Manuel Martins de que "agora que foi eleito Papa, tenho esperança que morra o cardeal para aparecer em pleno o Bento XVI", não o digo com a ingenuidade de quem espera um corte entre a mundividência do Perfeito e do novo bispo de Roma. O mesmo homem estará a ocupar um lugar diferente. Dou-lhe o benefício da dúvida: não espero dele apenas mais do mesmo.

No meu último texto dei voz ao P.e Anselmo Borges e ao seu pedido de convocação de um novo concílio ecuménico, que devolvesse a autonomia às comunidades locais e que impulsionasse um "Parlamento das Religiões". As perspectivas actuais parecem distantes desse cenário. Não foi um João XXIV que saiu do conclave. Foi Bento XVI – o ilustre cardeal e teólogo brilhante, o sábio enciclopédico de dois mil anos de teologia e história, o académico tímido sem o charme do seu antecessor.
A falta de charme só me agrada. Como já disse, a Igreja não é só o Papa, nem deveria ser tanto o Papa. Mas para perceber melhor este homem que está agora à frente da Igreja vale a pena ler o artigo de George Weigel, biógrafo de João Paulo II, onde é traçado o seu perfil a partir dos dois Bentos que o inspiraram: o Papa Bento XV e o próprio São Bento. O monasticismo ocidental fundado por este último permitiu que o fim da civilização clássica não significasse a perda da cultura clássica mas a sua transformação. Foi a fusão de Jerusalém, Atenas e Roma que permitiu uma nova realização civilizacional a que hoje chamamos de "Ocidente". De facto, quando olhamos para as civilizações perdidas do passado, podemos estar gratos: a cultura clássica podia ter tido o destino dos Maias. O novo Papa tem uma preocupação clara de que o Ocidente possa voltar a passar por um período de trevas:
«Num tempo em que a falta de vontade e o relativismo conduziram a um clima cultural frígido e sem alegria, escreveu MacIntyre, o mundo não está à espera de Godot, mas de outro – e sem dúvida muito diferente – S. Bento. O mundo tem agora um novo Bento. Podemos ter a certeza que ele nos desafiará a todos para a nobre aventura humana para a qual não há melhor nome do que santidade.»
Não tenho dúvidas que Bento XVI nos desafiará para essa aventura da santidade. Porém, encontrar novas formas de dizer Deus implica que a própria Igreja tenha a coragem de mudar o que a impede de se mostrar mais fielmente como a face do Ressuscitado aos homens e mulheres de hoje. E aí os prognósticos são menos animadores, como já disse acima. Timothy Garton Ash usa palavras duras:
«Os ateus devem saudar a eleição do Papa Bento XVI [e de facto fizeram-no]. Porque este teólogo da Baviera idoso, académico, conservador, sem carisma, de certeza que apressará precisamente a descristianização da Europa que procura contrariar. No termo do seu papado, a Europa pode outra vez ser tão não-cristã como era quando São Bento fundou a sua pioneira ordem monástica, os beneditinos, há quinze séculos. Europa Cristã: de Bento a Bento. R.I.P. – descansa em paz. A Europa é hoje o mais secular dos continentes. O fenómeno do último Papa disfarçou a tendência.»
Paradoxalmente, este prognóstico que assusta muitos católicos vai precisamente no sentido de um texto do próprio Joseph Ratzinger, datado de 1971, escrito ainda antes da sua nomeação para bispo. É dum livro editado pela Vozes chamado "Fé e Futuro":
«
Da crise actual, uma Igreja emergirá amanhã que terá perdido muito. Será uma Igreja pequena e terá de começar do início. Já não será capaz de encher muitos edifícios construídos nos seus tempos áureos. Ao contrário do que aconteceu até hoje, ela apresentar-se-á muito mais como uma comunidade de voluntários.
Como pequena comunidade, ela exigirá muito mais a iniciativa de cada um dos seus membros e certamente reconhecerá novas formas de ministério e criará cristãos com uma formação sólida que serão chamados à presidência da comunidade. O normal cuidado das almas estará a cargo de pequenas comunidades em grupos sociais com alguma afinidade.
Isto será atingido com esforço e exigirá muito empenho. Tornará a Igreja pobre e numa Igreja dos pobres e humildes. Tudo isto exigirá tempo. Será um processo lento e doloroso.
»
É um texto próximo de um outro, mais belo e optimista, de Karl Rahner, que uma vez citei. Coincidem ambos com Garton Ash nesse aspecto: voltaremos a ser uma Igreja pequena, desafiada a ser profética num mundo cada vez mais complexo, dinâmico e secularizado. Junto-me a Bento XVI no grito de João Paulo II: não devemos ter medo!
Uma nota final para dar os parabéns à Terra da Alegria e sobretudo aos seus fundadores! Também os blogs são um local interessante de discussão e vivência da fé e sobretudo de diálogo.
Ad moltos annos!

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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