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quarta-feira, abril 13

 

Trinta e três dias…



Se o pontificado de João Paulo II foi um dos mais longos da História, o do seu antecessor imediato foi um dos mais curtos. Parecerá inoportuno, neste momento, falar de João Paulo I, mas parece-me que os 33 dias em que Albino Luciani ocupou a cadeira de Pedro poderão ajudar a perceber muito do que se passou nos 26 anos que se seguiram.
Luciani escolhe dois nomes (o que já pode ser significativo: foi o primeiro papa a usar um nome composto), como forma de tornar presentes os seus dois próximos antecessores (João XXIII e Paulo VI), os papas do Concílio Ecuménico Vaticano II, sendo significativo o facto de o seu sucessor ter mantido a mesma opção. Mas o grande gesto desse papa foi ter definitivamente posto de lado a tríplice tiara e o trono pontifício, símbolos ambíguos do poder temporal do Sumo Pontífice.
Pouco depois de eleito envia uma mensagem radiofónica a todos os fiéis, em que traça o programa para o seu pontificado. Nos seis pontos que faz questão de assinalar estão bem visíveis as prioridades da Igreja desde então:
“- Queremos continuar a dar prosseguimento à herança do Concílio Vaticano II […], vigiando para que nenhum impulso, talvez generoso mas irreflectido, tergiverse os seus conteúdos e significados, nem forças paralisantes ou tímidas afrouxem o magnífico impulso de renovação e de vida;
- queremos conservar intacta a grande disciplina da Igreja na vida dos sacerdotes e dos fiéis […], e para esse fim levaremos avante a revisão do Código de direito Canónico […];
- queremos recordar à Igreja inteira que o seu primeiro dever é a o da Evangelização […];
- queremos continuar o esforço ecuménico, que consideramos o máximo lema dos nossos predecessores imediatos, vigiando com uma fé imutável, com esperança invencível e com amor indeclinável para que se realize o grande mandato de Cristo: Que todos sejam um (Jo 17, 21) […];
- queremos prosseguir com paciência e firmeza o diálogo sereno e construtivo que […] Paulo VI estabeleceu como fundamento e programa de acção […];
- queremos, enfim, favorecer todas as iniciativas louváveis e boas que possam tutelar e incrementar a paz neste mundo conturbado”
. (1)
Mas depois da sua morte surgiram relatos de confidências que vão mais longe e permitem perceber que Luciani pretendia tornar a Igreja mais humilde e mais coerente com o testemunho evangélico. O seu pensamento passava por assumir os pecados que tinham levado às separações dos cristãos, à inquisição ou aos massacres de índios e à escravatura, pela reconciliação com o povo Judeu (referiu inclusivamente a vontade de “convocar uma representação de bispos de todo o mundo” para o efeito), passava ainda por “defender o lugar que é devido à mulher na comunidade humana e na comunidade eclesial” e por reabilitar muitos dos eclesiásticos que “passaram por provas amargas” por causa do rigor disciplinar da Igreja por via do Santo Ofício.
(2)
Convém também rever o modo como este homem propôs a abertura da Igreja ao mundo. Na sua primeira audiência geral, afirmou: “Quando era bispo, estive muito perto daqueles que não acreditavam em deus e fiquei com a ideia de que muitas vezes lutam não contra Deus, mas contra a ideia errada que têm de Deus. Quanta misericórdia é necessário ter! Também devem tê-la esses mesmo que erram… Temos que aceitar-nos como somos.” (3)
Mas há uma afirmação que se torna pertinente por estes dias: “Tenho a impressão que de que a figura do papa é por demais exaltada. Há um certo risco de cair no culto da personalidade, o que eu não quero de modo algum… Passaram pouco mais de cem anos sobre a queda do poder temporal dos papas, caso contrário, também eu, presentemente, seria um papa-rei com exércitos armados e, talvez, com uma polícia para defender os bens, as terras e os palácios do papa. Como teria sido bonito se o papa tivesse renunciado espontaneamente ao poder temporal! Deveria tê-lo feito antes. Agradeçamos ao Senhor que assim o quis e assim o fez”. (4)

(1) Radiomensagem Urbi et Orbi de 27 de agosto de 1978 (online, a versão original em italiano), conforme citada na biografia João Paulo I, O Papa do sorriso, de Andrea Tornielli e Alessandro Zagrando (edição brasileira da editora Quadrante, São Paulo, 2000 – distribuído em Portugal por Rei dos Livros).
(2) Referências e citações conforme as feitas por Luigi Accattoli em Quando o Papa pede perdão (Paulinas, Lisboa, 1998). O Autor insere um capítulo intitulado “Luciani tinha um projecto”, em que assume como fonte única um livro do jornalista Camillo Bassotto, que recolheu depoimentos de dois sacerdotes muito próximos de João Paulo I.
(3) Audiência geral de 6 de Setembro de 1978 (
online, a versão original em italiano), conforme citada em O Papa do sorriso.
(4) Citado em Quando o Papa pede perdão.

Rui Almeida [
POESIA NA RUA]

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