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quarta-feira, abril 20

 

Ser cristão é estar sempre do lado dos mais fracos

Fazei tudo por Amor. - Assim não há coisas pequenas: tudo é grande.
"Caminho", São José Maria Escrivá, ponto 813


Embora tenha rezado afim de que o Espírito Santo iluminasse a escolha dos cardeais, o Espírito Santo não poderia falhar. E não falhou.
Não acredito muito na tese de que existem dentro da Igreja Católica correntes progressistas e correntes conservadoras.
Por uma razão simples. O único mandamento que Cristo nos deixou foi o mandamento do Amor. A título de exemplo, um dos cardeais, Dionigi Tettamanzi, dos quais se dizia ser um poderoso "papabile" pois seria o mais conotado com uma organização supostamente de direita, o "Opus Dei" é também aquele cardeal que em 2001, durante a cimeira do G-8, em Génova, defendeu os protestos anti-globalização e tem produzido discursos de grande radicalismo em defesa dos pobres e dos marginalizados (aliás, para quem ache que a Opus Dei tem de ser de direita chamo, de novo a título de exemplo, a atenção para a ministra socialista Ruth Kelly do governo de Tony Blair).

Quando se fala em luta contra a globalização não se está obviamente a dizer que se devem manter proteccionismos imorais que apenas servem para continuar a manter a pobreza no mundo. Fala-se em luta contra a globalização selvagem. A globalização selvagem é a actual globalização sem regras fiscais, sociais e ambientais.
A actual globalização selvagem não permite regras que levem a cabo uma redistribuição dos mais ricos do mundo (estejam essas pessoas no ocidente ou no oriente) para os mais pobres do mundo (estejam essas pessoas no ocidente ou no oriente).
Os países mais pobres do mundo não se podem permitir "luxos" de leis de protecção social ou com elevados salários mínimos quando têm gente a morrer à fome. Tal só será possível se existirem recursos financeiros, transferidos das grandes fortunas mundiais, que permitam garantir estes direitos aos mais pobres do mundo.

Do mesmo modo, a actual globalização selvagem não permite regras que levem a cabo uma idêntica protecção ambiental nos países mais ricos do mundo e nos países mais pobres do mundo. Porque os países mais pobres do mundo não se podem permitir "luxos" ambientais quando têm gente na miséria. De novo, tal só será possível se existirem recursos financeiros, transferidos das grandes fortunas mundiais, que permitam garantir estes direitos aos mais pobres do mundo.
Mas, com políticas fiscais uniformes e fortemente progressivas em todo o mundo seria possível proteger os mais fragilizados e pobres do mundo (no ocidente ou no oriente) sem que isso fosse feito à custa dos mais pobres do ocidente (ou do oriente) ou à custa do ambiente. Seriam efectivamente os ricos do mundo (estejam eles a viver nos EUA ou em Angola) a pagar a crise.
Enquanto não for conseguida esta desejável uniformização, o capital mundial vai andar a farejar as zonas mais desregulamentadas do mundo. O processo não é novo. Na revolução industrial, antes de serem impostas políticas igualitárias e de segurança social, o capital também se aproveitava da falta de regulamentação uniforme para impôr horários de trabalho de 14 e 16 horas por dia. Exige-se, em termos de política mundial, políticas equivalentes às políticas nacionais levadas a cabo pela social-democracia há umas dezenas de anos atrás.

No campo dos valores morais, a defesa de impostos elevados sobre as grandes riquezas mundiais afim de que seja possível combater a pobreza no mundo ou a luta contra o aborto são simplesmente duas facetas desta "ideologia" que é o amor.
O amor é algo mais, de muito mais, que uma simples ideologia. Ele é um mandamento de ordem pessoal. É algo que tem que ser vivido quotidianamente, segundo a segundo, na vida de cada cristão.
Mas o homem é um ser social. A um cristão, tal como a qualquer cidadão, não é indiferente a forma como a sociedade e o estado se organizam pois estes representam o homem a agir em comunidade. E nessa comunidade existem pobres e fragilizados. E um cristão deve colocar como objectivo primordial, da sua acção individual mas também da sua acção em comunidade, os mais fracos e os mais desprotegidos. É por isso que o combate à pobreza ou a luta contra o aborto são apenas duas facetas ("ideológicas") do amor.

E, em Portugal, a luta contra o aborto vai estar de novo na ordem do dia graças àqueles que não compreendem que a dignidade humana é para ser respeitada na sua integralidade, nomeadamente na sua dimensão socio-económica, mas não se limita àqueles que têm completa autonomia. Diria mesmo que, pelo contrário, aqueles que têm mais capacidade têm o dever de estar atentos aos menos capazes. É sempre o mesmo velho princípio comunista: "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades". Aplicado no contexto da legalização do aborto é evidente que este princípio ordena que os que têm possibilidade de matar os mais fracos, em vez de os matarem, os ajudem a sobreviver.
É que, como dizia anteontem o actual Papa: "Estamos a avançar para uma ditadura de relativismo que não reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o próprio ego e os próprios desejos".

Timshel [TIMSHEL]

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