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quarta-feira, abril 13

 

A Santíssima Trindade

Na passada semana, como alguns leitores deste blogue certamente terão notado, o texto que aqui escrevi foi em grande parte baseado nos pontos 1814 a 1829 do Catecismo da Igreja Católica. E o episódio referido na última frase foi de facto escrito por S. Siluane, um monge que viveu nos séculos XIX e XX.

Hoje continuo em torno de textos escritos por outrém. No início do livro "Até onde se pode ir?", de David Lodge, aparece a seguinte citação do livro de Hans Küng, "Ser Cristão":

"O que sabemos? Porque existem as coisas?
Porque não é o nada?

O que deveríamos fazer? E fazemos assim porquê?
Somos responsáveis porquê e perante quem?

O que podemos esperar? Porque estamos aqui?
Qual a razão de tudo?

O que nos dará coragem para vida e coragem para a morte?"


Como é sabido, na Santíssima Trindade reúnem-ses três Pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo cujas características fundamentais penso poder esumir do seguinte modo: o Pai é a fonte de toda a santidade, o Filho é o mediador de toda a salvação, e o Espírito Santo é Aquele que anima e sustenta o caminho do homem para a plena e definitiva comunhão com Deus.

Passemos à heresia. O Pai é a teoria, a ideia, o mandamento. O Filho é o exemplo, a prática, o comportamento. Se as relações entre estes dois parecem óbvias (como a relação entre qualquer pai e qualquer filho) já o Espírito Santo me parece mais estranho. Se não é o mistério, é pelo menos um mistério.

Lembro-me de um episódio. Julgo que é de um outro livro de Lodge, "Pensamentos secretos". A corrida dos barquinhos de papel (ou seriam patos de plástico?). Cada concorrente escreve o seu nome num barquinho de papel. Depois largam-se os barquinhos de papel num ribeiro, algumas dezenas de metros a montante de um local que se convenciona chamar meta.

É um belo exemplo de teoria do caos: as variáveis são imensas, correntes, obstáculos, ventos, etc. O acaso conduz um à vitória, alguns são de qualquer modo bem sucedidos pois passam a meta, outros afundam-se ou ficam encalhados.

Vamos pensar que o Espírito é o acaso pois a necessidade decorreria do material, isto é, o determinismo seria apenas a sequência lógica de encadeamentos físicos, materiais. Por definição todo o devir seria necessário. Tal como num encadeamento em dominó. Como aqueles desenhos gigantescos compostos de milhões de peças de dominó em que caindo a primeira em cima da segunda e esta em cima da terceira e assim sucessivamente se dá origem a um movimento que parece eterno e em que a última peça a cair é apenas o resultado da queda da primeira peça uns tempos antes.

Se o Espírito é acaso então o Espírito pode ser mau ou pode ser Santo. É por isso que não basta invocar o Pai e o Filho. Os barquinhos deveriam chegar todos à meta. Independentemente do acaso (das capacidades e das religiões de cada barco, por exemplo). Para isso é preciso o Pai, o Filho e o Espírito Santo

Lembro-me de uma das últimas homilias que ouvi. Qualquer coisa como os três tipos de crentes: os que acreditaram em Cristo desde o princípio sem ser preciso verem, os que como São Tomé só depois de verem acreditaram, e aqueles que só acreditaram depois de verem Cristo ressuscitado a partir e a distribuir o Pão, os discípulos de Emaús (Lucas 24, 30-35). Talvez por isso, a propósito da Santíssima Trindade disse João Paulo II: "O inteiro desenvolvimento da revelação divina está orientado para a manifestação do Deus-Amor, do Deus-Comunhão."

O livro "Até onde se pode ir?", o tal livro escrito por David Lodge em 1980 que começa com a citação de Küng acima referida, acaba do seguinte modo:

"Enquanto escrevia este último capitulo, o Papa Paulo VI morreu e foi eleito papa João Paulo I. Antes que pudesse dactilografá-lo, já João Paulo I morrera e lhe sucedera João Paulo II, o primeiro papa não italiano dos últimos quatrocentos e cinquenta anos; polaco, poeta, filósofo, linguista, atleta, homem do povo, homem do destino, escolhido de forma dramática, imediatamente popular — mas teologicamente conservador. Uma Igreja em mudança aclama um papa que, manifestamente, acha que já chega de mudanças. E agora o que irá acontecer? Está tudo em aberto, o futuro é incerto, mas será interessante ficar atento. Adeus, leitor!"


Timshel [TIMSHEL]

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