<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, abril 4

 

Revolução Personalista 6

«Não tenhais medo! Abri as portas a Cristo! Ao seu poder salvador, abri as fronteiras dos estados, os sistemas económicos e políticos, os imensos domínios da cultura, da civilização, do desenvolvimento. Hoje, muitas vezes, o homem não sabe o que leva dentro de si, na profundeza da sua alma, do seu coração. Muitas vezes é incerto o sentido da sua vida nesta terra. É invadido pela dúvida que se transforma em desespero. Permiti, portanto – peço-vos, imploro-vos com humildade e confiança – permiti a Cristo que fale ao homem.»
(João Paulo II, discurso do início do pontificado, 22 de Outubro de 1978)

Tinha previsto para hoje um último comentário ao texto de “O Personalismo” de Emmanuel Mounier. A morte do Papa João Paulo II é motivo mais que suficiente para alteração de agenda. Apesar disso, por agora não vou fazer balanços do pontificado do único papa que conheci.
Antes de ocupar o lugar de bispo de Roma e mesmo antes de ser arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, foi um dos filósofos que bebeu das reflexões sobre a pessoa que tiveram em Mounier o seu principal dinamizador. Reproduzi acima o discurso do início de pontificado de João Paulo II. Procurei-o quando soube do irreversível agravamento da saúde do papa, mas só agora o descobri. Fica o agradecimento ao “Público” e ao António Marujo pelo dossier distribuído na edição de ontem do jornal. Esse curto e célebre discurso contém pelo menos três elementos que merecem referência.

O primeiro é o seu tom. “Não tenhais medo!” -- “Non dobiamo haber paura!” foram palavras que ecoaram alto após a eleição do primeiro papa polaco, em tempos temerários e incertos. Exprimem muito bem a ideia de Mounier de que a acção humana deve ter coragem, deve ser marcada pela força vital que habita cada pessoa: «O ser pessoal é um ser feito para se ultrapassar. Tal como a bicicleta ou o avião só se equilibram quando se movem para lá de uma determinada velocidade, o homem só se mantém de pé com um mínimo de força ascensional».

“Hoje, muitas vezes, o homem não sabe o que leva dentro de si, na profundeza da sua alma, do seu coração.” Era também essa a convicção de Mounier: a reflexão filosófica a partir da pessoa estava por fazer. O Personalismo foi justamente chamado de filosofia da pessoa, não só para lhe retirar o “ismo” impróprio a um pensamento que não pretendia ser fechado e acabado, mas sobretudo para lhe reconhecer o seu principal mérito: num momento em que Marx pensava o homem enquanto elemento da máquina produtiva e enquanto motor da luta de classes, num momento em que Sartre encontrava o inferno no confronto das liberdades das pessoas, num momento em que Freud explicava o comportamento humano pelo nosso maquiavélico subconsciente, Mounier e os colaboradores da Esprit não lhes viraram as costas. Entraram em diálogo e procuraram aprofundar a reflexão sobre a pessoa, sem ignorar o contributo desses filósofos. E fazendo-o pensaram os problemas do mundo moderno com o horizonte de um mundo mais humano, onde a própria organização da sociedade estivesse mais de acordo com a nossa natureza. Daí o título escolhido de “Revolução Personalista e Comunitária” – a sua reflexão filosófica era a reflexão de gente comprometida, de gente que percebia que o seu mundo estava em transformação e necessitava de transformação. Para essa transformação traçam um objectivo claro: uma sociedade onde a pessoa se possa realizar mais plenamente, não de forma individualista, mas de forma comunitária. A noção da natureza aberta da pessoa leva os personalistas a louvar os valores da comunidade, enquanto espaço de partilha da liberdade entre as pessoas. O grito usado vinte anos mais tarde pelo novo papa João Paulo II sintetiza bem o objectivo que orientou Mounier: descobrir a imensidade que o homem “leva dentro de si”. É a partir daí que sintetiza e fundamenta o pensamento do movimento personalista. Servem-lhe de base para a crítica social e política as características do “universo pessoal”, o “não-inventariavel” que constitui cada um de nós, o movimento de realização e transcendência característico do “ímpeto pessoal”.

Outro ponto de contacto entre o livro de Mounier e este discurso, espelho da actuação de João Paulo II, exprime-se na interpelação: “abri as fronteiras dos estados, os sistemas económicos e políticos, os imensos domínios da cultura, da civilização, do desenvolvimento”. Este papa, tendo contribuído para o derrube dos regimes comunistas, nunca se acomodou às injustiças do sistema capitalista e da (des)ordem internacional. A sua crítica à situação mundial, às injustiças globais, às “estruturas de pecado” fez-se ouvir nos inúmeros discursos e tomadas de posição. Essa atitude não é meramente ideológica – João Paulo II esclareceu que a Doutrina Social da Igreja não é uma ideologia, tipo terceira via entre comunismo e capitalismo. Ela assenta antes numa ideia de fundo que se podia exprimir simplesmente pela recusa do discurso do “fim da história”. A natureza humana, continuamente incompleta e em busca de perfeição, colocará sempre questões novas e exigirá respostas mais adequadas à organização política, ao pensamento filosófico, à cultura construída. O Reino de Deus começa neste mundo – não é admissível que decretemos o fim da história quando tantos continuam à margem dela. Por isso mesmo a Igreja afirmou que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. Foi também isso que a Esprit exprimiu, anos antes do Concílio na exigência de compromisso que colocou aos cristãos e não-cristãos que nela colaboravam. Compromisso com as pessoas – com todas as pessoas –, e compromisso com a pessoa – com a totalidade da pessoa, com as suas misteriosas e inúmeras dimensões.

Finalmente, o derradeiro encontro entre as minhas leituras de Mounier e João Paulo II tornou-se claro para mim nestes últimos dias de sofrimento do papa e exprime-se na frase com que Mounier termina o seu livro: “quando já nada nos restar, resta-nos testemunhar”.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?