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quarta-feira, abril 6

 

Reflexões pascais (2) - um exercício de contraditório

Hesitei um bocado se esta semana deveria continuar as minhas reflexões ou, ao invés, falar aqui um bocado sobre o papa João Paulo II. Não para fazer um balanço do seu papado, que praticamente não conheci outro, não para lhe fazer mais uma laudatória, que tantas já foram e serão feitas, mas para reflectir um pouco sobre o espantoso fim do seu papado. Contudo, e por respeito a quem vai seguindo aqui a Terra, resolvi continuar a glosar à volta da Páscoa. Mas espero ainda falar aqui do papa, talvez quando já houver um novo. Não me esquecendo ainda que deixei a meio uma reflexão sobre a família que pretendo acabar. Tempus fugit!
Voltemos pois à Páscoa deste ano da graça de 2005. Ouvi algures o Cardeal Patriarca a dizer que se assiste por aí, de uma forma crescente, à popularização da figura de Jesus mas dum Jesus humano, não o Jesus filho de Deus. O zeloso César das Neves certamente que pensou e escreveu também algures, que esta des-divinização da figura de Cristo é uma amável e subtil forma de ataque ao âmago da fé cristã. Talvez o seja mas não sou muito dado a teorias de conspiração...Mas facto é de que o que torna diferente, talvez única, a forma cristã de acreditar em Deus é acreditar que ele se fez homem entre os homens e se deixou prender e humilhar e matar às mãos dos outros homens, para a sua vida e a sua palavra, na sua total coerência, pudesse mostrar aos homens o Deus connosco, e mostrando-O, nos indicasse o caminho para Ele. Acreditar verdadeiramente, inteligivelmente, nisto não é nada fácil. Mas será talvez a forma mais libertadora de acreditar em Deus. Mas adiante.
Vou de novo ter com o meu amigo Nuno da Rua da Judiaria, que acredita no mesmo Deus que eu, embora de forma diversa, para comentar com ele um comentário que ele fez sobre a sua perspectiva da nossa Páscoa. Como não é de surpreender, o Nuno conta-nos a nós cristãos coisas que muitos de nós devíamos saber mas, tal é a nossa vaga religiosidade, não sabemos ou já o esquecemos.
Nesse post o Nuno começa por nos relatar os numerosos pontos de contacto entre a Páscoa dos cristãos e a Pessach dos judeus, naturalmente aliás pois a Páscoa que celebramos é a evocação do que aconteceu a Cristo quando, como quase todos os judeus da Judéia, foi a Jeruslalém nos tempos da Pessach, de cujo nome proveio o seu.
Assim a última ceia foi sem dúvida a «obrigatória refeição ritual – o Seder –, comemorando a libertação do seu povo da escravidão no Egipto, e do qual são retirados directamente os próprios símbolos que nas missas católicas pretendem recordar a última refeição de Jesus e o chamado sacrifício pascal – o pão e o vinho. Ainda hoje, numa tradição que dura há milénios, os judeus celebram a sua Páscoa cumprindo mandamentos estritos que ordenam que se beba vinho e coma pão ázimo em memória da libertação dos israelitas, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto. Estes dois elementos profundamente judaicos estão na origem da utilização da hóstia e do vinho nas missas católicas, introduzidos nos primeiros séculos.»
Um outro aspecto interessante focado pelo Nuno é a forma como a Igreja fixa esta festa móvel do Cristianismo: « a Páscoa é (uma) festividade cristã cuja data não é fixa – uma característica que partilha com algumas festas religiosas do judaísmo –, ocorrendo no primeiro domingo após “a primeira lua nova eclesiástica depois do equinócio de 21 de Março”».
Estas e outras analogias entre as duas “Páscoas” provam evidentemente a matriz judaica do cristianismo. Mas o facto é que nas evoluções divergentes das duas religiões, a partir do acto fundador do Cristianismo que foi a Paixão de Cristo, elas tornaram-se festas de significado profundamente diferente.
É bem certo que da parte do Cristianismo houve desde o início um movimento de apropriação do simbolismo da Pessach judaica no ideário cristão como que tornando a libertação do povo judeu da escravidão no Egipto, com o auxílio directo e espectacular de Deus, numa espécie de antegosto da libertação, não já apenas dos judeus mas de toda a humanidade, das garras do pecado e da morte pelo sacrifício supremo e oferecido do Filho de Deus encarnado.
Ora, diga-se que compreensivelmente, já o judaísmo não sente qualquer afinidade com a Páscoa cristã. E o meu caro amigo Nuno permitir-me-á que diga que isso é cristalinamente visível nos seus comentários adicionais sobre a historicidade na nossa Páscoa. Isto acontece por motivos vários e bem compreensíveis. Vejamos alguns.
Um deles, talvez o mais importante, é o altíssimo e injustíssimo preço que na História subsequente o povo judeu pagou pelo rótulo de povo deícida que o cristianismo emergente lhe colou na reputação. Isso aliás aconteceu pela simples e usual razão de que a mensagem divina de Cristo tem sido tão imperfeitamente compreendida por tantos e tantos cristãos, cristãos que se estivessem nessa altura e naquele sítio teriam também insultado e apedrejado Aquele que lhes veio dizer que, pensando-se justos, estavam (ou estão) longíssimo de Deus.
Mas há outros motivos importantes. O facto de Cristo se ter apresentado à sociedade que o rodeava como o Messias redentor, há tanto esperado, sobrepôe-se a qualquer dúvida exegética. E tendo sido rejeitado como tal pelo Judaísmo, não se pode esperar dele senão descrença perante os factos que indiciam a natureza divina de Jesus. Por outro lado, a visão de Deus herdada da vida e Palavra de Cristo é tão radicalmente diferente da visão judaica, que não se poderia esperar nem exigir uma identificação fraternal.
Talvez ninguém tenha uma visão tão clara dessa diferença fundamental como aqueles que evoluíram duma matriz judaica, mais ou menos religiosa, para o cristianismo. Dou como exemplo alguém que comecei há pouco a conhecer, alguém cujos escritos me tem andado a maravilhar e também a perturbar, pela estranha sensação de uma inesperada afinidade espiritual. Falo da Simone Weil que escreveu uma coisa assim:
“Tucídides escreveu «Cremos, por tradição, no que respeita aos deuses, e vemos, por experiência, no que respeita aos homens que, constantemente, por uma necessidade natural, qualquer ser exerce todo o poder de que dispõe». Do mesmo modo, como o gás, a alma tende a ocupar totalidade do espaço que é lhe é concedido. Um gás que encolhesse e que abandonasse o vazio, seria contrário à lei (natural) da entropia. E é isso mesmo o que se passa com o Deus dos cristãos. É um Deus sobrenatural enquanto Jeová é um Deus natural.”
E outra coisa ainda:
“A enorme grandeza do cristianismo reside no facto de não procurar um remédio sobrenatural contra o sofrimento, mas sim uma prática sobrenatural do sofrimento.”
Apesar destas citações, ambas d´A Gravidade e a Graça (ed.Relógio d´Água), estarem intimamente ligadas com a natureza profunda da Páscoa e com o significado imanente da paixão de Cristo, estou talvez a desviar-me do assunto. Coloquei-as contudo para salientar que isto, que penso ser o núcleo central da Fé cristã, todo ele contido na Páscoa, ser algo difícil de apreender, de concordar, não só por judeus como até mesmo por muitos cristãos, que necessitam do milagre para acreditar Nele. Mas, mais uma vez, adiante.
Dizendo de antemão que compreendo a posição do Nuno, vou analisar um pouco em mais detalhe algumas coisas que ele refere no seu excelente post:
«O relato cristão da história pascal é bem conhecido de todos, no entanto, as narrativas tradicionais da Paixão de Cristo e da Páscoa cristã – descritas pelos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João – são hoje postos em causa por historiadores e académicos, que descrevem os textos sagrados cristãos primariamente como doutrinários e não históricos, contendo entre si inúmeras contradições e inconsistências. Mesmo assim, eles são muitas vezes a única fonte directa de informação. Na verdade, os evangelhos, canonizados como parte integrante da Bíblia cristã no século IV, seriam escritos apenas no século II, cerca de 100 anos decorridos sobre a morte de Jesus – numa altura em que o cristianismo primitivo se debatia com intensas discussões doutrinárias e uma vontade crescente de emancipação em relação ao judaísmo.»
Após o que o Nuno enuncia uma série de implausibilades históricas que ele consideram existir na narrativa da Páscoa cristã, a saber: a libertação de Barrabás, incoerente com as práticas dos exércitos romanos; o “lavar de mãos” de Pilatos, inverosímil face ao carácter brutal do personagem e branqueador do autoritarismo romano; e, inevitavelmente, a improvável iniciativa do Sinédrio para a crucificação de Jesus dado esta ser uma típica pena romana aplicada a crimes de insubordinação política como o seria o facto de Jesus se intitular rei dos Judeus.
O Nuno vai certamente desculpar-me mas o meu espírito dialético, mais do que os meus pruridos de crente, impelem-me a contestar muito do que ele escreve.
Vou falar primeiro da questão, nada irrelevante, da exegese dos textos cristãos primordiais, se são históricos ou doutrinais, se foram efectivamente escritos por aqueles a quem são atribuídos, no fundo se contam aquilo que se passou ou aquilo que os cristãos queriam que se tivesse passado...
Devo dizer que esta questão do valor histórico das escrituras sagradas é uma questão transversal a todas as religiões. Terá sido mesmo Moisés que escreveu toda a Torah, mesmo o Deuteronómio, misteriosamente descoberto durante umas obras no Templo de Salomão? E o que terá acontecido à suprema Escritura, o Decálogo, escrito directamente por Deus, guardado na Arca da Aliança, no Tabernáculo e depois no Templo, no Santo dos Santos, dele obscuramente desaparecida, segundo dizem nos reinados de Manassés ou Amon? E se as escrituras judaicas resultaram da fixação por escrito duma sólida tradição oral, séculos após os factos relatados, porque não admitir que algo tão fortemente marcante como a vida pública de Jesus o foi para os seus seguidores não pudesse igualmente ser fielmente passada a escrito por devotos posteriores? Por outro lado, sendo certo que surgem omissões e contradições nos 4 evangelhos, ainda mais certo é que no essencial, como o é a narrativa do período da paixão de Cristo os relatos são assinalavelmente concordantes, mesmo quanto à cena de Barrabás referida por não apenas por Mateus mas por todos os quatro evangelistas!
Quanto à pena de crucificação dada a Jesus, sendo certo que era um castigo eminentemente romano, parece-me incorrecto concluír que foi um castigo a um delito de insubordinação política a Jesus, aquele que dizia “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”! Aliás, se recordarmos bem, nessa altura a Judéia era um protectorado romano, cujo estatuto permitia e até favorecia a existência de reis colaboracionistas. Recordemos Herodes o Grande, rei da Judeia por ter casado com uma descendente dos Asmoneus, reconstrutor do Templo, pai e avô de reis e tetrarcas de dinastia herodiana, amigo e colaborador dos romanos. Aliás se ser judeu e rei de judeus fosse delito político, o patético Herodes Antipas teria também morrido na cruz e não na ignomínia...
Termino estas minudências citando um autor, injustamente esquecido mas referido pelo Nuno: o historiador judeu romanizado, Flávio Josefo, contemporâneo de Vespasiano e da destruição de Jerusalém. Foi sua a grandiosa obra Antiguidades Judaicas, que introduziu ao universo latino e cristão o Antigo Testamento. Durante séculos em muitos lares cristãos existiu um exemplar deste livro, a ponto de o chamarem de 5ºEvangelho. Hoje, sinal da descristianização do século, já quase ninguém se lembra dele. Nesse livro, num capítulo dedicado aos tempos do imperador Tibério, surge uma breve passagem sobre Jesus, passagem que foi conhecida pelo nome de testimonium Flavianum: «Foi nessa época que surgiu Jesus, homem sábio, se é que se deve chamá-lo de homem. Pois era um fazedor de milagres e mestre dos homens que recebem com alegria a verdade. Atraiu para si muitos judeus e muitos gregos. Era Cristo. E quando, sob a crucificação, aqueles que primeiro o tinham adorado não deixaram de fazê-lo pois ele apareceu três dias depois, ressuscitado. Tal como os profetas divinos tinham anunciado junto a mil outras maravilhas a seu respeito. E o grupo que recebeu o seu nome – os cristãos – ainda não desapareceu» (AJ, XVIII, 63-64).
É certo que esta passagem foi denunciada por Voltaire como uma interpolação fraudulenta. Hoje acredita-se mais que é uma passagem original, com algumas observações escritas na margem por algum pio leitor cristão do séc.IV (cit.Mireille Hadas-Lebel).
Mas chega. Lendo o que escrevi acima, parece-me um árido e adversativo exercício de erudição de alamanaque. Pensando bem a narrativa da Páscoa de Cristo vale por si própria. Tem uma beleza inefável que transcende o humano. É uma beleza apenas possível em Deus e com Deus. A sua verdade advém da sua impossibilidade, na medida em que até aí nunca se pensou ser possível um Deus assim.
E digo aos meus irmãos judeus não que acreditem mas que se desinquietem. Jesus foi condenado e morto não por romanos e judeus mas por homens como nós. Quem tem a certeza de que não teria ido na multidão, de que não teria rasgado as suas vestes, que lhes atire a primeira pedra. E se os homens se conhecessem a si próprios nenhuma pedra teria saído do chão.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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