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quarta-feira, abril 13

 

Quando a medicina não explica

Foi há 12 anos. A 10 de Abril, noite de vigília pascal, a Maria foi baptizada – e eu assumi o compromisso de ser seu padrinho. Quinze dias antes, a criança era apresentada à comunidade e os padrinhos disseram ao que iam, o que era aquilo (para eles) de ser padrinho (e madrinha). Não me recordo do que disse. Mas ainda hoje, na família, se recorda uma blague em que disse que esperava que fosse a Maria a tomar conta do padrinho – e não o contrário. Fica sempre bem: sorrisos na assistência. E anos depois a recordação das palavras.

Ainda hoje me pergunto o que será isso de ser padrinho. Não o godfather, o il padrino de memórias cinéfilas: uma personagem temida, autoritária, que distribui benesses ou misericórdia (e tiros de misericórdia, quando a linha é ultrapassada). O padrinho é antes o amigo, o companheiro – mas também alguém que deve estar disponível para conhecer o outro, neste caso, a afilhada. "Conhecer" (julgo que já aqui o disse) é uma palavra que esconde a riqueza do seu significado – co-nascer, "nascer com", que é como quem diz crescer lado-a-lado com o outro. Longe de memórias cinéfilas.

Por estes dias, ouvimos a multidão que chorava a partida de João Paulo II pedir a sua santificação. Um homem bom acaba por merecer assim o reconhecimento dos anónimos. E logo dois bispos, para atestarem da sua santidade, anunciaram-se testemunhas de milagres. Aqui, hesito. Não preciso de milagres, de curas inexplicáveis, para poder dizer como era bom aquele homem.

A santificação – e nisso este longo pontificado "baralhou" demasiado as coisas, beatificando e santificando "apressadamente" muitos homens e mulheres (e, coisa inédita, duas crianças) – devia ser antes um percurso de conhecer a vida e obra desses homens e mulheres. Talvez assim olhássemos para eles como verdadeiros exemplos, e não como alguém a quem se recorre nas aflições – para as benditas promessas. Não ironizo: a ladainha dos santos estará cheia de bons exemplos. Mas, para confirmar esses exemplos, não serve a vida – sublinha-se antes o milagre das promessas, como se a oração e a devoção pudessem ser moeda de troca para a nossa vida – e para o reino dos céus.

O homem bom que foi Karol Wojtyla pode vir a ser santo. Eu, por mim, gostava que na sua proclamação se ouvissem palavras como… "naquela comunidade, um milagre aconteceu: a guerra acabou, a paz venceu, seguindo o apelo deste homem bom". Para isto, sim, a medicina não tem explicação.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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