<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, abril 13

 

Por um lado, pelo outro

Disse aqui na Terra Varqa Jalali: «Vivemos portanto numa sociedade em mutação, e a religião não escapa a esse fenómeno. Por um lado, vemos que a religião – na acepção comum do termo – perde importância, e as taxas de participação em serviços religiosos é cada vez menor (para dados relativos a Portugal, ver por exemplo dados no Inquérito pós-eleitoral de 2002, ou bem como inquéritos anteriores). Esse padrão é igualmente perceptível nos comentários que se ouve de as religiões provocam guerras (e para isso nem precisamos de ir ao Médio Oriente, tendo vários exemplos na própria Europa), ou de desconfiança em relação à "religião organizada". Mas por outro, parece sobressair a necessidade de uma vivência religiosa por parte das pessoas. Os dados de um recente estudo em Portugal, realizado em 1999, são particularmente elucidativos. Assim, se apenas metade dos inquiridos participava em serviços religiosos pelo menos uma vez por mês, 82% das pessoas considerava-se religiosa; 93% acreditava em Deus; para a maioria destas, Deus tinha "muita importância" nas suas vidas; e 71% afirmou que orava e meditava.»

Pensando apenas em termos cristãos. Se pensarmos no que nos é dito por este excerto e se o fizermos através de um esquema simplista, podemos ter o seguinte esquema: a religião como um dado espaço instituído – dogmas, prática codificada – dotado de uma certa especificidade que permite identificá-lo, como espaço Católico, Baptista, Anglicano, outro; religião como um dado espaço não instituído constituído por todos aqueles que acreditam em Cristo. Durante muito tempo pensou-se que o segundo espaço pura e simplesmente não existia, porque era de algum modo coincidente com o primeiro. Que todo o religioso cabia todo no Católico. Ou, mais tarde, que o espaço Católico, Anglicano, Baptista, outro, cobriam diversas fatias do espaço religioso. Ora, hoje, parece que tal não se verifica. Que não podemos excluir do religioso alguém que acredita em Deus e que no seu dia a dia completa a ligação não com um espaço de dogmas e de práticas instituídas mas com aqueles que andam à sua volta. Familiares, colegas de trabalho, amigos, membros de diversas associações de boa vontade. O que pode trazer a necessidade de pensar a relação que deve ser estabelecida entre o espaço instituído e o espaço não instituído, pensar como articular o espaço instituído – dogma, prática codificada – com uma realidade que neste momento lhe é estranha. Num primeiro momento, isto poderia passar por renovar o espaço instituído de modo a torná-lo de novo atractivo para aqueles que dele se afastaram. Num segundo momento, isto poderia passar pela afirmação de que o espaço instituído está bem, mais ou menos bem, e que o problema acaba por ser daqueles que habitam fora dele. E que por isso não há grande coisa a fazer. Se esta última opção perfilha alguma indiferença – legítima ou não é outra questão –, ela, de algum modo, aponta, anuncia – de mesmo sinal, de sinal diferente da hipótese anterior, é outra questão – uma última alternativa. A coexistência do espaço instituído com o espaço não instituído, numa relação marcada quer pela tolerância, quer pela crítica, quer pela legitimidade da independência.

Fernando Macedo [A BORDO]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?