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quarta-feira, abril 27

 

Os porcos satisfeitos

Camus nos "Cadernos" cita Stuart Mill: "Mais vale ser Sócrates descontente do que um porco satisfeito".
No seu primeiro discurso após ter sido eleito Papa, Bento XVI afirmou que: "dirijo-me a todos, mesmo aos que seguem outras religiões ou que simplesmente procuram uma resposta às perguntas fundamentais da existência e ainda não a encontraram. A todos me dirijo com simplicidade e afecto, para assegurar que a Igreja quer continuar a tecer com eles um diálogo aberto e sincero, à procura do verdadeiro bem do homem e da sociedade."
Será possível prosseguir um diálogo aberto, sincero e profícuo se estivermos cheios de milhares de certezas absolutas?
Uma mundivisão cheia de certezas, certezas grandes, pequenas e pequeninas, cheia de respostas peremptórias para todas as questões, é um bom terreno para o diálogo?
E as perguntas cuja complexidade exige uma resposta caso a caso em que a consciência de cada um, obedecendo a princípios sólidos, deveria escutar sobretudo a voz de Deus com vista a estabelecer o equilíbrio e a proporcionalidade entre valores conflituantes?

Milhares de grandes e pequenas certezas, sérias, solenes e graves correspondem a uma mundivisão totalitária na qual não há espaço para o diálogo, uma mundivisão totalitária, sectária, na qual existe tanto amor como aquele que existia quando se queimavam vivos os nossos irmãos em Cristo. Em nome da luta contra o pecado.
A ditadura do fundamentalismo é tão perigosa como a ditadura do relativismo. O espaço da Fé é também um espaço de dúvidas. Só não tem dúvidas quem tem uma fé absoluta nos apetites e nos interesses do seu eu. Apenas esse tipo de fé é compatível nas pessoas com absoluta ausência de dúvidas. E as dúvidas não existem neste tipo de pessoas porque elas têm uma bússola de uma precisão admirável que aponta sempre para o seu ego. Estão sempre satisfeitos pois nunca têm dúvidas.
O único mandamento que Cristo nos deixou foi o mandamento do Amor ("O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei", Jo 15 12)". Ele só nos deu este mandamento. É apenas a esta ordem que devemos obedecer. Basta-nos essa certeza transcendental, fundamental e axiomática porque de origem divina. E mais algumas (poucas) certezas que decorrem dessa. Depois, é só agir em conformidade: amar, dialogar e partilhar.

A partir de um ou vários pressupostos, é possível construir um mundo dogmático (como é o caso do mundo neo-liberal ou do mundo marxista), de uma grande beleza e coerência. Neste tipo de mundos, existem respostas peremptórias para tudo e tudo é de uma solidez magnífica, recheada de detalhes que contribuem para a imponência do edífico. Mas o cristianismo não é só lógica. O cristianismo tem subjacente a lógica do amor. E essa é incompatível com a lógica das inumeráveis grandes, pequenas e pequeninas certezas absolutas.
É difícil o equilíbrio entre as certezas e as dúvidas? É. Cada um tem que procurar esse equilíbrio. A incapacidade de aceitar dúvidas e a necessidade de viver num mundo cheio de certezas corresponde com frequência a uma personalidade imatura e perturbada. Os mais fragilizados têm direito a viver num mundo de certezas, muitas e inflexíveis. Os outros têm o dever de procurar escutar a voz de Deus. E a Igreja Católica, normalmente, é um excelente meio de transmissão desta voz, embora por vezes seja necessário estar com atenção para que um certo ruído ou um certo número de interferências não afectem a escuta. E o principal ruído que me parece poder afectá-la nos tempos actuais é não perceber que o homem precisa de valores e precisa de amor. E que este equilíbrio se alcança com bom-senso e sentido da proporcionalidade e não com fundamentalismos desproporcionados.

Timshel [TIMSHEL]

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