<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, abril 13

 

O Senhor da Boa Morte

«Hoje pretendo apenas acrescentar isto: que cada um de nós tem de ter sempre presente a perspectiva da sua própria morte. E tem que estar pronto a apresentar-se a si próprio perante Deus, Senhor e Juíz mas simultaneamente Pai e Redentor. Eu também terei continuamente isso em consideração, consagrando o meu momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja – a Mãe da minha esperança.
Uma vez mais, eu desejo consagrar-me totalmente à Graça de Deus. Ele decidirá quando e como eu terei de terminar a minha vida terrena e o meu ministério pastoral. Na vida e na morte: Totus Tuus, Maria Imaculada! Aceitando a morte, mesmo agora que seja, eu espero que Cristo me conceda a Graça para a passagem final, noutras palavras, a minha Páscoa. Peço-lhe também que Ele faça com que a minha morte seja útil para a mais importante causa que procurei servir: a salvação dos homens e mulheres, a salvaguarda da família humana e, através dela, de todos os povos e nações.»

(do testamento de João Paulo II, trecho escrito de 24 Fevereiro a 1 Março de 1980, tradução minha)

Lendo estas palavras que o Papa escreveu para si próprio, intimamente, em 1980, antes ainda do atentado de 81, numa altura em ele respirava uma saúde e vigor poderosos e magnéticos, quando lhe chamavam ainda o atleta da Fé, não consigo evitar um arrepio, um sentimento de pasmo e admiração.
Aqueles que durante a longa doença e dolorosa agonia do Papa, duvidaram das razões que o levaram a vivê-las publicamente e determinadamente, até ao fim, aqueles que duvidaram mesmo de ser do próprio Papa a vontade em levar a sua cruz à vista de toda a gente, as palavras acima revelam eloquentemente o seu engano. Engano compreensível, direi eu, pois estamos todos desabituados de uma tão grandiosa coerência, uma coerência demonstrada duas longas décadas depois daquelas palavras terem sido escritas.
Mesmo para quem, como eu, nunca duvidou da grandeza sobre-humana dum calvário oferecido como exemplo, estas palavras surpreendem. Surpreendem por revelar de forma tão clara a transcendência do sentido da atitude de João Paulo II no ocaso da sua vida e do seu ministério. Surpreendem também porque, mesmo para quem crê, é sempre uma surpresa ver uma prece ser tão completamente atendida. Uma prece que começa por ser entrega e aceitação e acaba por ser um extraordinário e desmesurado pedido: o de que a sua própria morte, tal como a de Cristo, seja útil para a salvação dos homens e mulheres, a salvaguarda da família humana e, através dela, de todos os povos e nações!
E assim foi de facto! Um pontificado marcante e riquíssimo, em que parece tudo ter acontecido e tudo ter sido dito, um pontificado polémico mas tão inovador, um pontificado que pareceu ser o arquétipo do triunfo da vontade dum homem excepcional, tudo isso se apequenou perante o período final e terminal, também algo nunca antes visto, em que um grande do Mundo renuncia a vontade própria para aceitar incondicionalmente que também nele se faça segundo a vontade do Pai, exclusivamente segundo a vontade do Pai.
E do mesmo modo que de Cristo o mundo reteve sobretudo a Sua Paixão, também deste Papa serão sobretudo recordados os anos derradeiros, os seus rictus de dôr, a fragilidade gritante com que se arrastava em visitas pastorais extenuantes, aquele desespero tocante que deixou entrever da sua janela, ao não conseguir pronunciar aquele último Angelus. E sobrepondo-se a todo esse sofrimento, uma determinação terrível em lhe resistir, uma força imparável que, no meio da multidão, o impelia inexoravelmente para o seu Gólgota.
E foi assim, cumprindo a sua própria escritura, feita 25 anos antes, que ele teve a sua morte, uma boa morte pois, como ele desejara, foi certamente útil a milhões de crentes e também a não crentes. Tão simplesmente porque nos recordou que, acreditando-se ou não na eternidade, e mais do que fazer parte da vida, a morte não lhe retira significado, antes acrescenta-o. E ao fazê-lo, a morte, o sofrimento, a adversidade, são vencidos perante a grandeza da vida e da condição humana oferecidas por Deus.
João Paulo II, na sua coerência joanina de acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e de acreditando, ter tido a vida em seu nome, conseguiu assim também ele aquilo que mais queria: ser útil para a salvação de nós todos.



José [GUIA DOS PERPLEXOS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?