<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, abril 18

 

O futuro da Igreja

«Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam!»
Assim será anunciada ainda hoje ou dentro de pouco tempo a eleição do novo Bispo de Roma. A expectativa é grande não só pela notoriedade e impacto que teve o antecessor do futuro Papa, João Paulo II, mas sobretudo pela situação delicada que vive a Igreja e o cristianismo no início do século XXI.
Para a minha geração o Papa sempre aquele homem austero e carismático vindo da Polónia, que vimos envelhecer fiel às suas convicções, mesmo àquelas em que nem todos nos revíamos. Conhecemos já pouco do "atleta da fé" e só percebemos o significado dessa expressão nestes últimos anos onde João Paulo II mostrou que ser velho não é motivo suficiente para deixar de ser "atleta". É a primeira vez que vamos ver um novo Papa. Quem vier terá de reinventar a seu jeito o lugar de sucessor de Pedro. E isso não pode deixar de criar expectativas quanto ao futuro.
Os cenários são diversos e têm vindo a sofrer alterações que tornam imprevisível o resultado. Mais fácil é prever quem não será eleito. O nome do cardeal Ratzinger, inicialmente afastado das listas dos mais prováveis, aparece de novo na corrida, fazendo antever cenários pouco católicos. Inicialmente lançou-se a hipótese de um Papa vindo da África. Depois das intervenções do cardeal nigeriano Arinze essa hipótese foi posta de lado. Veio a possibilidade de um latino-americano ou de um europeu que fizesse a ponte com os outros continentes. O cardeal patriarca português foi destacado entre o colégio de cardeais como capaz de fazer essa ponte. D. José Policarpo aparece especialmente bem considerado pelos seus pares. O "Inimigo Público" já anunciou que o patriarca de Lisboa passou dois dias sem fumar, para se habituar aos hábitos vaticanos. Humor à parte, não é para escolher um Papa que aqui estou. Tal função é-me interdita, apesar de estar entre os baptizados do sexo masculino teoricamente elegíveis. Queria sim deixar uma breve reflexão sobre o futuro.
Foi o próprio D. José que, numa das entrevistas antes do "black-out" episcopal disse o seguinte: «O que nos apaixona e nos deve preocupar é o futuro da Igreja. Ela está no tempo. O que o Espírito Santo nos pede é coragem para discernir caminhos nessa realidade imensa que é a Igreja no mundo contemporâneo.»

Falemos então do futuro e de tudo o que está para lá das portas do Vaticano, já que, como bem disse Bento Domingues ainda com Karol Wojtyla vivo, a Igreja não é só o Papa. Eventualmente nem devia ser tanto o Papa como tem sido, mas isso são outras discussões que Hans Küng e o Movimento Internacional Nós Somos Igreja não se coibiram (e bem) de trazer para a discussão, em tempo de balanços e orbituários.
Os desafios mais evidentes que a pós-modernidade coloca à Igreja são fáceis de elencar: discutir as normas disciplinares que impedem aos casados e às mulheres a presidência das comunidades eclesiais; repensar a moral sexual e a estranha divergência doutrinal quanto aos contraceptivos naturais e artificiais; assumir definitivamente os direitos humanos como património e prática da Igreja; dar mais liberdade doutrinal e pastoral às Igrejas locais e liberdade de investigação aos teólogos; criar mecanismos de governo mais democráticos para a própria Igreja; avançar no diálogo ecuménico sem os tiques autoritários da "Dominus Iesus"; reflectir a sério sobre os desafios que as novas realidades familiares colocam. É apenas uma lista rápida, limitada e incompleta que mereceria uma reflexão e apresentação mais cuidadas, mas para já fica apenas o seu elenco. Estas questões são algumas das que facilmente colocam católicos contra católicos. Vasco Pulido Valente dizia há dias que "a Igreja Católica aceitou sempre a heterogeneidade e até sempre se alimentou dela". Porém reconhecia que "as tensões são neste momento invulgares". No seu jeito pessimista antevia "divisões radicais". O próximo Papa terá nas mãos esse fardo pesado de conseguir manter a unidade da Igreja entre os que querem mudanças e os que as não desejam. Nunca vi o confronto como um mal, desde que feito com diálogo e honestidade intelectual, com capacidade de escuta e negociação, com a caridade de quem espera contribuir para descobrir a verdade e com a humildade de quem se sabe limitado. Por isso não me assusta que a sua discussão seja tomada a sério pelo Papa que virá. Assusta-me sim que o não seja.
Presidir à diversidade que é a Igreja é arte em que não sou versado, pelo que admito que possa não estar certo. Mesmo assim parece-me que vale a pena deixar uma nota. Creio que o surgimento destas questões não é fruto da cultura hedonista da nossa sociedade ou do facilitismo light com que se adere à religião à la carte, ou ainda pior que isso, de algum ataque cerrado à Igreja por misteriosas forças anti-clericais como acham alguns comentadores e organizações.
A encruzilhada em que a comunidade crente se encontra hoje foi certeiramente descrita por vários comentadores nos últimos dias. Foi o próprio Vasco Pulido Valente que no meio do seu infindável pessimismo disse ontem, no "Público":
«Na essência a dificuldade da Igreja é a seguinte: a biotecnologia criou uma civilização única na história. O poder do indivíduo sobre o seu próprio corpo, ainda inconcebível, por exemplo em 1950, transformou radicalmente o valor do sexo, o papel da mulher na sociedade, a visão da vida e a natureza da morte. Esta realidade não desaparece por exortação ou vontade da Igreja e, se a Igreja a ignorar acaba fatalmente na irrelevância. Não se trata agora, como antes, de aceitar a ciência, o liberalismo, a democracia, o estado laico ou mesmo a exegese bíblica. Por muito hiperbólica que pareça a expressão, a Igreja está hoje perante um "homem diferente".» (sublinhado meu)
As questões polémicas que enumerei não são colocadas na mesa por relativismo moral, falta de formação catequética, vontade de divergir ou fraqueza de fé. Elas impõem-se-nos porque estamos de facto perante um "homem novo". E já agora perante uma "mulher nova" também. Esta constatação não é novidade. Já Yves Congar, padre conciliar do Vaticano II e um dos principais teólogos dinamizadores do movimento ecuménico realçava: «o Concílio viu-se acompanhado e sobretudo seguido de uma mutação sócio-cultural cuja amplitude, radicalidade, rapidez, de carácter global, não tem equivalente em nenhuma época da história». Frei Bento Domingues explicita:
«Na fase pós-conciliar levantaram-se muitas questões que o Vaticano II não pôde prever: abandono maciço da Igreja por parte da juventude, secularização acelerada das sociedades mais avançadas da Europa, procura de libertação nos países do Terceiro Mundo, reivindicações da mulher, desenvolvimentos tecnológicos, armamento nuclear, destruição da natureza, etc. Se para alguns a culpa dos males da Igreja vinha dos meios progressistas, nos anos 80, o grande teólogo jesuíta Karl Rahner fazia outra leitura: na Igreja actual reina um conservadorismo excessivo que não está de acordo com o espírito do Concílio. As autoridades eclesiásticas de Roma dão a impressão de favorecer um medroso regresso aos bons velhos tempos. Penso que estamos a viver o Inverno dessa Igreja em que continuamos a escutar a palavra de Deus e a receber a sua graça.»

Os pedidos de mudança não são marginais nem vêm de alas radicais. São vozes credenciadas que pedem mudanças na Igreja. Ainda assim, não é esse o principal fundamento que encontro para a necessidade de renovação na organização e dinâmica da Igreja. Onde salta à vista a necessidade de uma comunidade crente mais profética, que consiga ser uma voz transportadora de sentido, de anúncio da Boa Notícia é, paradoxalmente, nas multidões que seguiram João Paulo II. Digo-o insuspeitamente: não gosto de multidões e posso perfeitamente subscrever a frase de Bénard da Costa e dizer que este não é o meu Papa. Porém, é inegável que Karol Wojtyla conseguiu, com o seu carisma pessoal, simultaneamente cativar multidões e aproximar-se tocando de um modo particular cada pessoa com a sua serenidade, com o seu olhar terno, com a sua afabilidade. "Paradoxalmente, a atracção por este homem era pessoal, mas tinha uma tradução multitudinária", diz-nos António Marujo no seu texto certeiro em que explica "Afinal Qual é a Força deste Homem?":
«A "geração Wojtyla" mostrou ainda, aqui em Roma, que a relação das pessoas com o fenómeno religioso já não se limita às paredes das igrejas ou dos templos: os modos como se vive a fé são cada vez mais plurais – e pessoais. Por isso é possível ver igrejas semi-vazias e milhões a cantar na hora da morte de João Paulo. E mesmo, entre eles, crentes de outras religiões ou descrentes que acreditam neste homem concreto.»
Este Papa de que nos despedimos conseguiu exprimir a fé de forma tocante para tantos e tantas que nunca ouviram falar da Congregação para a Doutrina da Fé, de muitos que dizem como o filósofo Gianni Vattimo: «O meu Papa é, creio, o de muitos – crentes ou não – que o admiram e decisivamente o amam, sem partilhar muitas posições doutrinais que seria difícil chamar evangélicas». O desafio com que a Igreja se confronta é transformar esse jeito pessoal carismático numa mudança de fundo: encontrar novas formas de dizer Deus hoje. Não só pelo lado afectivo, emotivo ou estético, que tanto sucesso têm hoje, mas também pelo lado racional, questionando preceitos e normas que mostram pouco o rosto libertador de Cristo nos dias de hoje. Isto não é apenas uma mudança de regras ou uma alteração "interna" da Igreja: é ter a coragem de escancarar as portas da Igreja a um mundo que mudou muito e está ainda numa fase de mudança acelerada. Nas palavras de um dos nossos bispos, é preciso que a Igreja tenha a coragem de deixar que seja o mundo a marcar-lhe a agenda. Sobre isto mesmo saiu também ontem no "Público" um texto notável do P.e Anselmo Borges, professor de Filosofia da Religião na Universidade de Coimbra, onde coloca com a sua habitual clareza e frontalidade várias questões importantes para o período "Depois de João Paulo II". Depois de falar nos grandes desafios que se colocam ao próximo Papa conclui pela necessidade óbvia da convocação de um novo Concílio:
«Para reavivar a esperança e redefinir o lugar da Igreja no mundo no início de um novo milénio, pode esperar-se a convocação de um novo Concílio, o Vaticano III, sendo legítimo perguntar: porque é que as várias Igrejas cristãs irmãs (ortodoxas e protestantes) deveriam ser excluídas de participar, se fosse essa a sua vontade, neste Concílio autenticamente ecuménico? Ao contrário do que pensam alguns, o Concílio não terá como tarefa fundamental dar orientações uniformes para toda a Igreja no mundo inteiro, mas pelo contrário, fazer tomar consciência de que se impõe garantir, nos vários domínios – doutrinal, moral, litúrgico, jurídico – uma real autonomia às Igrejas locais, nacionais, regionais, continentais.»
Dito isto Anselmo Borges consegue ser ainda mais profético:
«Seria desejável que esse Concílio estimulasse a reunião do que poderíamos chamar um Parlamento das Mundial das Religiões, também com representantes dos não crentes, onde se debatessem os problemas candentes da Humanidade e de humanidade para o futuro da Humanidade: os direitos e deveres de todos os homens, questões de bioética, a globalização, a natureza, o ambiente, a protecção da biodiversidade, as novas tecnologias, a economia, nomeadamente a problemática Norte-Sul e, mais concretamente o futuro do continente africano, o diálogo inter-religioso e inter-cultural, uma relação nova com o Mistério e a Transcendência.»
Podemos esperar tudo isto do próximo Papa, ainda por cima quando é ventilada a possibilidade de termos uma mão de ferro ao volante da Igreja nos próximos anos? Como alguém disse de João Paulo II: "ele veio da Polónia – um verdadeiro golpe do Espírito Santo". O mesmo pode acontecer daqui a algumas horas, quando ouvirmos "Habemus Papam", um verdadeiro golpe do Espírito Santo. Assim seja: venha João XXIV.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?