<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, abril 18

 

A Noite que Ri

Como se de uma falha imperdoável no cadastro se tratasse, diziam-me: «Tens de ler o Nuno Bragança pá». Eu limitava-me a contorcer o rosto no esgar de quem pergunta porquê. «O tipo escreveu sobre a noite de Lisboa, os bêbedos, as pegas, os jogadores, todos os marginais que povoavam as zonas subterrâneas da cidade. Um dos livros, só para teres uma ideia, descreve uma directa ─ aliás, chama-se Directa.» A esta campanha de marketing não oficial, devo assumir, eu caí que nem o patinho que ouve um cisne contar (ou cantar) como passou de pato feio para cisne esbelto. «Mas o Nuno Bragança já morreu, certo?» perguntava eu, que sempre cultivei um interesse mórbido e masoquista em saber como morreram os posterizados com que me identifico/am. «Claro! De tanto beber deu-lhe o badagaio». Aqui eu, hiper hipocondríaco, gelei, lembrando-me das grades de cerveja e espirituosos-com-gelo-se-faz-favor que meti goela dentro pela vida fora. Para dizer a verdade, eu já esperava que fosse esta a morte deste artista e que sabê-lo iria convocar um mal-estar infernal (percebem agora porque invoquei o ismo forjado a partir do Masoch?!). «Queres um conselho?» insistiam «Começa por A Noite e o Riso. É um clássico do princípio dos anos 70». «Parece-me ser um escritor com muitas pontas por onde se pegar» rematava eu, entusiasmado do pénis à cabeça.

Sob o (mau) disfarce de Henry Killer, rabisquei no meu muro de lamentações, que é como quem diz no meu primeiro blog, qualquer coisa como «o mercado livresco português é parco de guiões de cinema».
A Bebiana, sempre solícita a escoar-me lágrimas, baba e ranho, mas também a acompanhar-me em afogar lágrimas na cervejola, numa só maleta, trouxe-me Hiroshima Meu Amor e Índia Song da Marguerite Duras. Como quem não quer parecer querer a coisa, entre o toma-lá-dá-cá, espetou-me com um livro cuja capa poderia levar qualquer atrasado mental a lançá-lo para um amontoado de literatura erótica. Eis a natureza com literatura: uma mulher nua, um cocktail, fichas e cartas de jogo, tudo encimado por NUNO BRAGANÇA A NOITE E O RISO. Explicou-me, no mesmo tom não-didáctico com que me deu aulas de História no liceu, que não se tratava dum texto escrito com os olhos na tela mas que o trouxera por achar se tratar da minha cara chapada.

Para quem desconhece o meu processo de selecção de leituras convém aqui fazer um parêntese sob a forma de parágrafo.
Todos os livros que chegam às minhas mãos ─ e estão constantemente a chegar e partir, embora o tráfego de partidas seja menos congestionado ─ são postos na estante e enfileirados segunda a ordem de chegada. Só abro excepção aos livros escritos por amigos meus. A Noite e o Riso, por mais que o bichinho da curiosidade mo pusesse à frente dos olhos, teve que navegar por águas antes navegadas, as águas de bacalhau, e esperar que chegasse a sua vez de saltar para a minha cabeceira.
Posso adiantar que gostei, que meu deu vontade de rir e de zuca-andor para a noite ─ e quando o universo dum livro nos impele a querer conhecê-lo directamente e transpor a mediação enciclopédica que o próprio nos oferece, bom, nesse caso, devemos tirar o chapéu e tudo o resto para termos intimidade com o autor.
Mas já lá vamos…
Eis que o Rui Almeida mete o nariz nesta história para a qual as suas fossas nasais pareciam não ser chamadas.
Não me recordo onde, quando, a que propósito, não me recordo de nada e nada me importo com isso, mas estou agora a ver e ouvir o Rui revelar-me, ainda antes de eu desfolhar e ser desflorado por A Noite e o Riso, que o Nuno Bragança era católico ─ repito: o Nuno Bragança era católico, sim, era católico, sim passeava-se, embriagado que nem um cacho, pelo Intendente, sim era viciado no jogo, sim colaborou na Seara Nova e no Tempo e o Modo, sim VV convence-te de que uma coisa são os anjos (não têm sexo), outra a guarda (têm cacetete), e outra os católicos (têm, como tu, a virtude no meio das pernas).
Esta revelação abriu-me a boca de espanto, mas não me impôs abstinência de espécie nenhuma. Faço da promiscuidade uma prática viva ─ uma prática a que dou vivas hips e hurras. Não se constituiu qualquer complexo em ler o Nuno Bragança (afinal, ainda há umas semanas atrás, eu havia lido o Hitler!). Gosto de visitar os bordéis culturais todos, de privar com as putas que por lá param e parem, os chulos que lhes sugam o tétano e a pachacha. Merecem-me igual, ou vá lá que um homem não é de pau, idêntica atenção e curiosidade. Não respeito nenhum, porque sou inflexível no meu sentido igualitário. Até gostava de encontrar alguém digno do meu respeito. A sério, o meu desrespeito por tudo e por todos não é um capricho. Nem para comigo próprio, eu que, como dizia o poeta, sou vil e reles, adopto uma atitude diferente. Adiante que estou a ficar sem papel [Sic].

A estrutura de A Noite e o Riso, conforme atestado em uníssono pelo pregão dos críticos literários, é revolucionária ─ íssima, íssima, para voltar a parafrasear o poeta que todos menos os seus contemporâneos, especialmente os seus vizinhos, o reconhecem como tal. Numa primeira e apressada leitura, não se vislumbra elemento conectivo entre os três, digamos, capítulos ─ e mesmo dentro destes, usemos agora um termo rebuscado para casarmos a grosseria com a erudição e fecundarmos um monstrinho de duas cabeças contraditórias, sub capítulos também não é imediatamente visível a ligação, senão ao leitor que se apaixona por este romance (perdoem-me os senhores experimentalistas e sugirem um sinónimo em experimentalês se faz favor) à primeira vista.
Concentre-se no segundo capítulo, o do meio, logo o virtuoso. Cada parte está baptizada (e aqui começa a dar o cheiro a catolicismo) com o nome duma personagem do livro ─ uma pega, um bêbedo, um companheiro de tertúlia. Como a própria bíblia! O Nuno Bragança, não deixando de ser um escritor de vanguarda, um rupturista, diz e cumpre que das fontes originais do pensamento ocidental também bebe.
Mas não se pense que se furtou ao efeito estonteante da mistura. Ele quis apanhá-la, à séria e à francesa. Todas as rábulas, ainda que contadas em timbre moral, ecoam a terminologia e a mundovisão surrealista, a prosa decalcada das vivências próprias da beat generation, a náusea e a ambulante condição de estrangeiro do existencialismo, a ideologia marxista.

Hoje o Nuno Bragança pouco fala aos ouvidos, encerados por abelhas aberrantes, diga-se de passagem, das novas gerações de literatos (Outro Nuno, o Moura, escreveu qualquer coisa como os poetas seniores continuam a empatar e as esperanças não encontram soluções de ataque). Compreendo em parte porque se trata dum autor que peca (lá estamos a ser católicos) por ter uma escrita e um universo datados, como o gin tónico do Mário Henrique Leiria (datados, repito, mas não fora do prazo, pelo que toca a ler). Esta Lisboa já não existe. O Cesariny, n`Autografia, lamenta que «Lisboa morreu e nem lhe fizeram o enterro».
Cada vez conheço mais mortos que deviam dar razão ao HP Lovecraft, provando aos de carne que os de osso podem voltar.

Vitor Vicente [O ANIMADOR DESANIMADO]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?