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Quarta-feira, Abril 27
Louvor de pouca alegriaA esperança anima a fé. Ou a fé anima a esperança. Por estes dias, não sei o que me anima. Há frases, há gestos, há entrelinhas que nos querem dizer que o Papa Bento XVI enterrou Joseph Ratzinger. Eu próprio desejo acreditar...
Mas há coisas que não se esquecem - e, por entre a ambiguidade do percurso do prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, sobra a perplexidade de se apostar num homem que claramente criou obstáculos ao diálogo. Mais (pode parecer um detalhe, mas não é): os ateus, no seu diário bloguístico, gritaram mesmo "Vitória!" - e, quase que se podia rematar como no conto infantil, "vitória, vitória, acabou-se a história". Outro aspecto: há quem relate que a solução cardinalícia de Ratzinger foi para evitar uma aposta ainda mais conservadora. Por enquanto, é prematuro fazer essa leitura (faltará mais um pouco para se conhecerem os segredos do conclave), mas a ser assim seria um sinal de total surdez do Espírito Santo. Aos nossos ouvidos, o sopro era outro - e, creio, aos ouvidos não apenas de católicos ditos progressistas, mas a ouvidos mais "conservadores" de pessoas simples, que prefeririam eventualmente um Papa menos frio, mais próximo das pessoas - como foi o bom João XXIII ou o afectuoso João Paulo II. Exagero no meu cepticismo, podem criticar-me. Mas ter-me-á dado esperanças para pensar de modo diferente o cardeal Ratzinger? Não. Agora é diferente, voltam a repisar-me: sim, Bento XVI terá de fazer a síntese, quando antes pisava apenas os terrenos da tese ou da antítese. Mas, no momento certo, Bento XVI vencerá o Ratzinger que fechou portas ou acolherá o Ratzinger que dialogou com Jurgen Habermas? E eu? E nós? Quem queremos acolher? Quem ouviremos? A dúvida instalou-se, por culpa do Espírito Santo. Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]
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