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quarta-feira, abril 27

 

O Livro da Selva

Let´s start a catholic blog!
Cleared of beatific literature!
We want something red blooded,
loud and pure,
reeking with stark
and fearlessly obstinate
but really clean.
Get what we mean?
And let´s not spoil it.
Let´s make it serious,
something authentic but delirious.
You know, something genuine,
like tears in a shrine.
Graced with guts
and gutted with Grace!
Squeeze your thoughts
and open your faith!

(adaptado de e.e. cummings aqui por este vosso amigo)

Quando há um ano e picos andávamos a pensar naquilo que iria ser a Terra da Alegria, encontrei num livro da editora Cavalo de Ferro uma adaptação de um poema de e.e.cummings sobre a “publishing house” que aqueles editores quiseram, e muito bem, fazer. Numa súbita inspiração fiz eu também a minha adaptação desse poema aplicado àquilo que eu, o Carlos, o Fernando, o Rui, o Tim e o Miguel queríamos fazer da Terra da Alegria: um blogue católico e não beato, turbulento mas limpinho, heterodoxo mas não relativista, sério mas aberto ao delírio, e acima de tudo, genuíno e autêntico.
Um pouco mais tarde, surgiu a excelente ideia de abrirmos a participação a outros bloggers, católicos e não católicos, crentes e não crentes, mas nos quais reconhecíamos qualidades que rareiam tanto mais quanto são necessárias: honestidade intelectual, espírito aberto, atenção pelo outro. E foi assim que se criou a edição que é de 2ª feira mas de 1ª qualidade, com o Lutz, o Zé Filipe, o Marco, o Vítor Vicente, o Afonso Cruz, a Marvi, o Porfírio, o Bernardo Motta, a Milene Fernandes, o Zé Maria Brito e outros ainda, mais ocasionais.
Ao fim dum ano, de 88 edições, de mais de 300 artigos, não faço a mínima ideia de qual seja a projecção que a Terra da Alegria alcançou na blogosfera. Nem ela me interessa sequer, até porque suspeito que não seja muita. Não, ao fim deste tempo todo, aquilo que me deu e dá verdadeiramente gozo é a Terra ter sido sempre um espaço de liberdade espiritual, de originalidade literária, de unidade e diversidade, de amizade e divertimento. Nunca nos tomámos excessivamente a sério e penso que também nunca ninguém nos tomou...
Mas em todo o caso penso que o programa inicial foi cumprido e renovo hoje para mim e os meus colegas aquelas palavras: graced with guts and gutted with Grace, squeeze your thoughts and open your faith! E agora que termino esta epístola congratulatória, justo é referir aqui a inspiração que fez começar: os Animais Evangélicos do Tiago Cavaco y sus muchachos. Bom seria que eles voltassem...

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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Os porcos satisfeitos

Camus nos "Cadernos" cita Stuart Mill: "Mais vale ser Sócrates descontente do que um porco satisfeito".
No seu primeiro discurso após ter sido eleito Papa, Bento XVI afirmou que: "dirijo-me a todos, mesmo aos que seguem outras religiões ou que simplesmente procuram uma resposta às perguntas fundamentais da existência e ainda não a encontraram. A todos me dirijo com simplicidade e afecto, para assegurar que a Igreja quer continuar a tecer com eles um diálogo aberto e sincero, à procura do verdadeiro bem do homem e da sociedade."
Será possível prosseguir um diálogo aberto, sincero e profícuo se estivermos cheios de milhares de certezas absolutas?
Uma mundivisão cheia de certezas, certezas grandes, pequenas e pequeninas, cheia de respostas peremptórias para todas as questões, é um bom terreno para o diálogo?
E as perguntas cuja complexidade exige uma resposta caso a caso em que a consciência de cada um, obedecendo a princípios sólidos, deveria escutar sobretudo a voz de Deus com vista a estabelecer o equilíbrio e a proporcionalidade entre valores conflituantes?

Milhares de grandes e pequenas certezas, sérias, solenes e graves correspondem a uma mundivisão totalitária na qual não há espaço para o diálogo, uma mundivisão totalitária, sectária, na qual existe tanto amor como aquele que existia quando se queimavam vivos os nossos irmãos em Cristo. Em nome da luta contra o pecado.
A ditadura do fundamentalismo é tão perigosa como a ditadura do relativismo. O espaço da Fé é também um espaço de dúvidas. Só não tem dúvidas quem tem uma fé absoluta nos apetites e nos interesses do seu eu. Apenas esse tipo de fé é compatível nas pessoas com absoluta ausência de dúvidas. E as dúvidas não existem neste tipo de pessoas porque elas têm uma bússola de uma precisão admirável que aponta sempre para o seu ego. Estão sempre satisfeitos pois nunca têm dúvidas.
O único mandamento que Cristo nos deixou foi o mandamento do Amor ("O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei", Jo 15 12)". Ele só nos deu este mandamento. É apenas a esta ordem que devemos obedecer. Basta-nos essa certeza transcendental, fundamental e axiomática porque de origem divina. E mais algumas (poucas) certezas que decorrem dessa. Depois, é só agir em conformidade: amar, dialogar e partilhar.

A partir de um ou vários pressupostos, é possível construir um mundo dogmático (como é o caso do mundo neo-liberal ou do mundo marxista), de uma grande beleza e coerência. Neste tipo de mundos, existem respostas peremptórias para tudo e tudo é de uma solidez magnífica, recheada de detalhes que contribuem para a imponência do edífico. Mas o cristianismo não é só lógica. O cristianismo tem subjacente a lógica do amor. E essa é incompatível com a lógica das inumeráveis grandes, pequenas e pequeninas certezas absolutas.
É difícil o equilíbrio entre as certezas e as dúvidas? É. Cada um tem que procurar esse equilíbrio. A incapacidade de aceitar dúvidas e a necessidade de viver num mundo cheio de certezas corresponde com frequência a uma personalidade imatura e perturbada. Os mais fragilizados têm direito a viver num mundo de certezas, muitas e inflexíveis. Os outros têm o dever de procurar escutar a voz de Deus. E a Igreja Católica, normalmente, é um excelente meio de transmissão desta voz, embora por vezes seja necessário estar com atenção para que um certo ruído ou um certo número de interferências não afectem a escuta. E o principal ruído que me parece poder afectá-la nos tempos actuais é não perceber que o homem precisa de valores e precisa de amor. E que este equilíbrio se alcança com bom-senso e sentido da proporcionalidade e não com fundamentalismos desproporcionados.

Timshel [TIMSHEL]

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Que significa crer no Espírito Santo, no Espírito de Deus?

A propósito do conclave, muitos trouxeram à baila a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Disseram-se muitos disparates, sobretudo para tentar pôr a ridículo uma realidade que é para nós cristãos fundamento indispensável para a consolidação da nossa Fé, bem como orientadora de toda a nossa acção. Lembrei-me, por isso, de traduzir (a partir da edição espanhola das Ediciones Cristandad) um pequeno excerto da obra "¿Existe Dios?" ("Existiert Gott?" no original, datado de 1978) do teólogo Hans Kung:
«Que significa para o homem de hoje crer no Espírito Santo, no Espírito de Deus? Significa aceitar com simplicidade e confiança que, pela fé, Deus se pode fazer presente no meu interior, que, enquanto força e poder de graça, pode conquistar o meu interior, o meu coração, o meu próprio eu. E esta fé permite-me afirmar confiadamente que o Espírito de Deus não é um espírito escravizante: é o Espírito de Cristo Jesus exaltado à direita de Deus, o Espírito de Jesus Cristo. E porque é exaltado à direita de Deus, Jesus é pelo Espírito, o Senhor vivente, o Determinante para a comunidade eclesial e para cada cristão. Partindo deste critério concreto eu posso examinar e discernir os espíritos: nenhuma hierarquia, nenhuma teologia e nenhum movimento entusiasta que pretenda apelar ao “Espírito Santo” prescindindo de Jesus, da sua palavra, comportamento e destino pode alegar a seu favor o Espírito de Cristo Jesus. Nesse momento chega ao seu limite toda a obediência, todo o assentimento e toda a cooperação.
Deste modo, então, crer no Espírito Santo, no Espírito de Cristo Jesus, significa saber que o Espírito Santo nunca é – e isto tem que se ter hoje muito em conta, dados os múltiplos movimentos carismáticos e pneumáticos – uma possibilidade do homem, mas sempre força, poder e dom de Deus. Não é o espírito profano do homem, das épocas, da Igreja, do ministério, do entusiasmo; é sempre o Espírito santo de Deus, que sopra onde quer e quando quer, que não se deixa instrumentalizar para justificar uma autoridade absoluta de magistério e governo, uma teologia dogmática carente de fundamento, um fanatismo piedoso ou uma falsa segurança na fé. Ninguém – seja bispo, professor, padre ou secular – “possui” o Espírito. Mas todos o podem pedir em qualquer altura (…)
Receber o Espírito Santo não significa, portanto, ser objecto de um acontecimento mágico, pelo contrário: trata-se da abertura interior à mensagem e, portanto, a Deus e ao seu Cristo crucificado, permitindo assim que o Espírito de Deus e de Cristo Jesus se apodere de nós. Crer no espírito Santo, no Espírito de Deus e de Cristo Jesus, implica crer no Espírito da liberdade. Porque, como diz Paulo, “onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Cor 3, 17): liberdade de culpa, da lei e da morte; liberdade na Igreja e no mundo; liberdade para agir, para amar, para viver com paz, justiça, alegria, esperança e gratidão. E isto, apesar de todos os obstáculos e coacções existentes na Igreja e na sociedade, apesar de todas as deficiências e fracassos. No entanto, sei que nesta liberdade do Espírito posso encontrar sempre valor, apoio, força e consolo, tal como foram encontrados por inúmeros anónimos nas suas grandes e pequenas decisões, medos, perigos, ânsias e esperanças. O Espírito da liberdade é, pois, o Espírito do futuro que me orienta a mim e orienta todos os homens para diante, não a um porvir consolador, mas a um presente comprometido no mundo de cada dia até que chegue a consumação final, da qual, pelo Espírito, já temos uma garantia (2 Cor 1, 22). Porque é neste Espírito que ponho a minha confiança, posso fundadamente – com respeito pela Igreja – não crer na Igreja, mas sim no Espírito de Deus e de Cristo Jesus dentro desta Igreja de homens: posso crer que existe a Igreja (credo sancta ecclesiam). E, porque fundo a minha confiança neste Espírito, posso dizer serenamente: creio no Espírito Santo.»

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA]

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Louvor de pouca alegria

A esperança anima a fé. Ou a fé anima a esperança. Por estes dias, não sei o que me anima. Há frases, há gestos, há entrelinhas que nos querem dizer que o Papa Bento XVI enterrou Joseph Ratzinger. Eu próprio desejo acreditar...
Mas há coisas que não se esquecem - e, por entre a ambiguidade do percurso do prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, sobra a perplexidade de se apostar num homem que claramente criou obstáculos ao diálogo. Mais (pode parecer um detalhe, mas não é): os ateus, no seu diário bloguístico, gritaram mesmo "Vitória!" - e, quase que se podia rematar como no conto infantil, "vitória, vitória, acabou-se a história".
Outro aspecto: há quem relate que a solução cardinalícia de Ratzinger foi para evitar uma aposta ainda mais conservadora. Por enquanto, é prematuro fazer essa leitura (faltará mais um pouco para se conhecerem os segredos do conclave), mas a ser assim seria um sinal de total surdez do Espírito Santo. Aos nossos ouvidos, o sopro era outro - e, creio, aos ouvidos não apenas de católicos ditos progressistas, mas a ouvidos mais "conservadores" de pessoas simples, que prefeririam eventualmente um Papa menos frio, mais próximo das pessoas - como foi o bom João XXIII ou o afectuoso João Paulo II.
Exagero no meu cepticismo, podem criticar-me. Mas ter-me-á dado esperanças para pensar de modo diferente o cardeal Ratzinger? Não. Agora é diferente, voltam a repisar-me: sim, Bento XVI terá de fazer a síntese, quando antes pisava apenas os terrenos da tese ou da antítese. Mas, no momento certo, Bento XVI vencerá o Ratzinger que fechou portas ou acolherá o Ratzinger que dialogou com Jurgen Habermas? E eu? E nós? Quem queremos acolher? Quem ouviremos? A dúvida instalou-se, por culpa do Espírito Santo.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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quarta-feira, abril 20

 

Deus cuida

Há um provérbio chinês que diz que quando alguém aponta para a Lua, os sábios prestam atenção ao astro celeste e os néscios embasbacam-se com o dedo de quem aponta.
É o que me ocorre no contexto destes dias em que, sucessivamente, milhões se angustiaram com a saúde do Papa e depois com a sua morte e agora se agitam na expectativa de saber quem vai ser o seu sucessor.
Lado a lado ou misturadas surgem em cena as profecias de Malaquias e de Nostradamus e as análises político-estratégicas, as explicações teológicas e o perfil dos cardeais, as antecipações e os disparates, as certezas absolutas e as anedotas, as apostas e as exigências, o protesto pelo exagero noticioso e o protesto contra esse protesto... Por cá, a avaliar pelo número de padres a comentar e a explicar, ficámos a perceber que a crise das vocações afinal não é tão grave. Entre televisões, jornais, internet e conversas de café vai-se dizendo tudo.
Inevitável na era da comunicação, dirão alguns. Sim, talvez seja. Mas para nós, cristãos, católicos, que reconhecemos na figura do Papa, aquele que torna visível a nossa unidade em Jesus Cristo, torna-se perigoso embarcar (ainda que pelos “melhores” motivos) neste mediatismo desarvorado. Por muito que amemos o Papa, o fundamento da nossa Fé está em Jesus Cristo e será para Ele que deveremos orientar a nossa atenção, a fim de podermos concretizar na nossa vida o testemunho de caridade e justiça que d'Ele vem.

Parece-me, no entanto, que algum benefício poderá vir dessa explosão de exigências, manifestações e desejos, como seja o facto de se darem a conhecer muitas das sensibilidades de dentro da Igreja e também o de nos apercebermos as diferentes visões que têm de nós a partir “de fora”. Disso o novo Papa, seja ele quem for, terá que ter consciência e, ao mesmo tempo, zelar para que não se percam os fundamentos da Fé que é a de todos nós e que ele terá que servir acima de tudo, independentemente do seu carácter, ideias ou convicções pessoais.
Assim Deus o ajude e ilumine.

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA.]

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Ser cristão é estar sempre do lado dos mais fracos

Fazei tudo por Amor. - Assim não há coisas pequenas: tudo é grande.
"Caminho", São José Maria Escrivá, ponto 813


Embora tenha rezado afim de que o Espírito Santo iluminasse a escolha dos cardeais, o Espírito Santo não poderia falhar. E não falhou.
Não acredito muito na tese de que existem dentro da Igreja Católica correntes progressistas e correntes conservadoras.
Por uma razão simples. O único mandamento que Cristo nos deixou foi o mandamento do Amor. A título de exemplo, um dos cardeais, Dionigi Tettamanzi, dos quais se dizia ser um poderoso "papabile" pois seria o mais conotado com uma organização supostamente de direita, o "Opus Dei" é também aquele cardeal que em 2001, durante a cimeira do G-8, em Génova, defendeu os protestos anti-globalização e tem produzido discursos de grande radicalismo em defesa dos pobres e dos marginalizados (aliás, para quem ache que a Opus Dei tem de ser de direita chamo, de novo a título de exemplo, a atenção para a ministra socialista Ruth Kelly do governo de Tony Blair).

Quando se fala em luta contra a globalização não se está obviamente a dizer que se devem manter proteccionismos imorais que apenas servem para continuar a manter a pobreza no mundo. Fala-se em luta contra a globalização selvagem. A globalização selvagem é a actual globalização sem regras fiscais, sociais e ambientais.
A actual globalização selvagem não permite regras que levem a cabo uma redistribuição dos mais ricos do mundo (estejam essas pessoas no ocidente ou no oriente) para os mais pobres do mundo (estejam essas pessoas no ocidente ou no oriente).
Os países mais pobres do mundo não se podem permitir "luxos" de leis de protecção social ou com elevados salários mínimos quando têm gente a morrer à fome. Tal só será possível se existirem recursos financeiros, transferidos das grandes fortunas mundiais, que permitam garantir estes direitos aos mais pobres do mundo.

Do mesmo modo, a actual globalização selvagem não permite regras que levem a cabo uma idêntica protecção ambiental nos países mais ricos do mundo e nos países mais pobres do mundo. Porque os países mais pobres do mundo não se podem permitir "luxos" ambientais quando têm gente na miséria. De novo, tal só será possível se existirem recursos financeiros, transferidos das grandes fortunas mundiais, que permitam garantir estes direitos aos mais pobres do mundo.
Mas, com políticas fiscais uniformes e fortemente progressivas em todo o mundo seria possível proteger os mais fragilizados e pobres do mundo (no ocidente ou no oriente) sem que isso fosse feito à custa dos mais pobres do ocidente (ou do oriente) ou à custa do ambiente. Seriam efectivamente os ricos do mundo (estejam eles a viver nos EUA ou em Angola) a pagar a crise.
Enquanto não for conseguida esta desejável uniformização, o capital mundial vai andar a farejar as zonas mais desregulamentadas do mundo. O processo não é novo. Na revolução industrial, antes de serem impostas políticas igualitárias e de segurança social, o capital também se aproveitava da falta de regulamentação uniforme para impôr horários de trabalho de 14 e 16 horas por dia. Exige-se, em termos de política mundial, políticas equivalentes às políticas nacionais levadas a cabo pela social-democracia há umas dezenas de anos atrás.

No campo dos valores morais, a defesa de impostos elevados sobre as grandes riquezas mundiais afim de que seja possível combater a pobreza no mundo ou a luta contra o aborto são simplesmente duas facetas desta "ideologia" que é o amor.
O amor é algo mais, de muito mais, que uma simples ideologia. Ele é um mandamento de ordem pessoal. É algo que tem que ser vivido quotidianamente, segundo a segundo, na vida de cada cristão.
Mas o homem é um ser social. A um cristão, tal como a qualquer cidadão, não é indiferente a forma como a sociedade e o estado se organizam pois estes representam o homem a agir em comunidade. E nessa comunidade existem pobres e fragilizados. E um cristão deve colocar como objectivo primordial, da sua acção individual mas também da sua acção em comunidade, os mais fracos e os mais desprotegidos. É por isso que o combate à pobreza ou a luta contra o aborto são apenas duas facetas ("ideológicas") do amor.

E, em Portugal, a luta contra o aborto vai estar de novo na ordem do dia graças àqueles que não compreendem que a dignidade humana é para ser respeitada na sua integralidade, nomeadamente na sua dimensão socio-económica, mas não se limita àqueles que têm completa autonomia. Diria mesmo que, pelo contrário, aqueles que têm mais capacidade têm o dever de estar atentos aos menos capazes. É sempre o mesmo velho princípio comunista: "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades". Aplicado no contexto da legalização do aborto é evidente que este princípio ordena que os que têm possibilidade de matar os mais fracos, em vez de os matarem, os ajudem a sobreviver.
É que, como dizia anteontem o actual Papa: "Estamos a avançar para uma ditadura de relativismo que não reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o próprio ego e os próprios desejos".

Timshel [TIMSHEL]

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O Papão

i) Talvez ofendido pelas orações dos católicos que lhe pediam o que é seu dever de ofício, o Espírito Santo iluminou os corações e a razão dos cardeais eleitores do Papa com uma luz antiga. Enquanto muitos esperavam uma moderna luz de presença, daquelas que se colocam no quarto das crianças para as iludir e afugentar os papões, eis que o conclave tira da cartola o coelho mais temido pelos católicos e mais esperado pelos apostadores e pelos que odeiam a Igreja: Joseph Ratzinger. No fundo, toda a gente está satisfeita. Os católicos porque têm Papa, outros porque ganharam a aposta e outros ainda porque não têm que se esforçar muito para implicar com o seu bombo da festa preferido. E, depois de um hiato de 17 dias, o mundo volta a ter alguém infalível.

ii) São prematuras as críticas ao novo Papa Bento XVI. Muitos dizem que a Igreja escolheu um Papa conservador, retrógrado e avesso à modernidade, ao capitalismo e ao relativismo. Ainda que todos estes piropos se venham a reconhecer como verdadeiros (o que só abonava em seu favor), são atirados precocemente. O homem ainda não tem um dia de pontificado e já é elogiado desta maneira! Não me parece justo. Se há cargo que mereça o estado de Graça, este é um deles.

iii) Viva o Papa! (vocês sabem do que eu estou a falar)

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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segunda-feira, abril 18

 

A Noite que Ri

Como se de uma falha imperdoável no cadastro se tratasse, diziam-me: «Tens de ler o Nuno Bragança pá». Eu limitava-me a contorcer o rosto no esgar de quem pergunta porquê. «O tipo escreveu sobre a noite de Lisboa, os bêbedos, as pegas, os jogadores, todos os marginais que povoavam as zonas subterrâneas da cidade. Um dos livros, só para teres uma ideia, descreve uma directa ─ aliás, chama-se Directa.» A esta campanha de marketing não oficial, devo assumir, eu caí que nem o patinho que ouve um cisne contar (ou cantar) como passou de pato feio para cisne esbelto. «Mas o Nuno Bragança já morreu, certo?» perguntava eu, que sempre cultivei um interesse mórbido e masoquista em saber como morreram os posterizados com que me identifico/am. «Claro! De tanto beber deu-lhe o badagaio». Aqui eu, hiper hipocondríaco, gelei, lembrando-me das grades de cerveja e espirituosos-com-gelo-se-faz-favor que meti goela dentro pela vida fora. Para dizer a verdade, eu já esperava que fosse esta a morte deste artista e que sabê-lo iria convocar um mal-estar infernal (percebem agora porque invoquei o ismo forjado a partir do Masoch?!). «Queres um conselho?» insistiam «Começa por A Noite e o Riso. É um clássico do princípio dos anos 70». «Parece-me ser um escritor com muitas pontas por onde se pegar» rematava eu, entusiasmado do pénis à cabeça.

Sob o (mau) disfarce de Henry Killer, rabisquei no meu muro de lamentações, que é como quem diz no meu primeiro blog, qualquer coisa como «o mercado livresco português é parco de guiões de cinema».
A Bebiana, sempre solícita a escoar-me lágrimas, baba e ranho, mas também a acompanhar-me em afogar lágrimas na cervejola, numa só maleta, trouxe-me Hiroshima Meu Amor e Índia Song da Marguerite Duras. Como quem não quer parecer querer a coisa, entre o toma-lá-dá-cá, espetou-me com um livro cuja capa poderia levar qualquer atrasado mental a lançá-lo para um amontoado de literatura erótica. Eis a natureza com literatura: uma mulher nua, um cocktail, fichas e cartas de jogo, tudo encimado por NUNO BRAGANÇA A NOITE E O RISO. Explicou-me, no mesmo tom não-didáctico com que me deu aulas de História no liceu, que não se tratava dum texto escrito com os olhos na tela mas que o trouxera por achar se tratar da minha cara chapada.

Para quem desconhece o meu processo de selecção de leituras convém aqui fazer um parêntese sob a forma de parágrafo.
Todos os livros que chegam às minhas mãos ─ e estão constantemente a chegar e partir, embora o tráfego de partidas seja menos congestionado ─ são postos na estante e enfileirados segunda a ordem de chegada. Só abro excepção aos livros escritos por amigos meus. A Noite e o Riso, por mais que o bichinho da curiosidade mo pusesse à frente dos olhos, teve que navegar por águas antes navegadas, as águas de bacalhau, e esperar que chegasse a sua vez de saltar para a minha cabeceira.
Posso adiantar que gostei, que meu deu vontade de rir e de zuca-andor para a noite ─ e quando o universo dum livro nos impele a querer conhecê-lo directamente e transpor a mediação enciclopédica que o próprio nos oferece, bom, nesse caso, devemos tirar o chapéu e tudo o resto para termos intimidade com o autor.
Mas já lá vamos…
Eis que o Rui Almeida mete o nariz nesta história para a qual as suas fossas nasais pareciam não ser chamadas.
Não me recordo onde, quando, a que propósito, não me recordo de nada e nada me importo com isso, mas estou agora a ver e ouvir o Rui revelar-me, ainda antes de eu desfolhar e ser desflorado por A Noite e o Riso, que o Nuno Bragança era católico ─ repito: o Nuno Bragança era católico, sim, era católico, sim passeava-se, embriagado que nem um cacho, pelo Intendente, sim era viciado no jogo, sim colaborou na Seara Nova e no Tempo e o Modo, sim VV convence-te de que uma coisa são os anjos (não têm sexo), outra a guarda (têm cacetete), e outra os católicos (têm, como tu, a virtude no meio das pernas).
Esta revelação abriu-me a boca de espanto, mas não me impôs abstinência de espécie nenhuma. Faço da promiscuidade uma prática viva ─ uma prática a que dou vivas hips e hurras. Não se constituiu qualquer complexo em ler o Nuno Bragança (afinal, ainda há umas semanas atrás, eu havia lido o Hitler!). Gosto de visitar os bordéis culturais todos, de privar com as putas que por lá param e parem, os chulos que lhes sugam o tétano e a pachacha. Merecem-me igual, ou vá lá que um homem não é de pau, idêntica atenção e curiosidade. Não respeito nenhum, porque sou inflexível no meu sentido igualitário. Até gostava de encontrar alguém digno do meu respeito. A sério, o meu desrespeito por tudo e por todos não é um capricho. Nem para comigo próprio, eu que, como dizia o poeta, sou vil e reles, adopto uma atitude diferente. Adiante que estou a ficar sem papel [Sic].

A estrutura de A Noite e o Riso, conforme atestado em uníssono pelo pregão dos críticos literários, é revolucionária ─ íssima, íssima, para voltar a parafrasear o poeta que todos menos os seus contemporâneos, especialmente os seus vizinhos, o reconhecem como tal. Numa primeira e apressada leitura, não se vislumbra elemento conectivo entre os três, digamos, capítulos ─ e mesmo dentro destes, usemos agora um termo rebuscado para casarmos a grosseria com a erudição e fecundarmos um monstrinho de duas cabeças contraditórias, sub capítulos também não é imediatamente visível a ligação, senão ao leitor que se apaixona por este romance (perdoem-me os senhores experimentalistas e sugirem um sinónimo em experimentalês se faz favor) à primeira vista.
Concentre-se no segundo capítulo, o do meio, logo o virtuoso. Cada parte está baptizada (e aqui começa a dar o cheiro a catolicismo) com o nome duma personagem do livro ─ uma pega, um bêbedo, um companheiro de tertúlia. Como a própria bíblia! O Nuno Bragança, não deixando de ser um escritor de vanguarda, um rupturista, diz e cumpre que das fontes originais do pensamento ocidental também bebe.
Mas não se pense que se furtou ao efeito estonteante da mistura. Ele quis apanhá-la, à séria e à francesa. Todas as rábulas, ainda que contadas em timbre moral, ecoam a terminologia e a mundovisão surrealista, a prosa decalcada das vivências próprias da beat generation, a náusea e a ambulante condição de estrangeiro do existencialismo, a ideologia marxista.

Hoje o Nuno Bragança pouco fala aos ouvidos, encerados por abelhas aberrantes, diga-se de passagem, das novas gerações de literatos (Outro Nuno, o Moura, escreveu qualquer coisa como os poetas seniores continuam a empatar e as esperanças não encontram soluções de ataque). Compreendo em parte porque se trata dum autor que peca (lá estamos a ser católicos) por ter uma escrita e um universo datados, como o gin tónico do Mário Henrique Leiria (datados, repito, mas não fora do prazo, pelo que toca a ler). Esta Lisboa já não existe. O Cesariny, n`Autografia, lamenta que «Lisboa morreu e nem lhe fizeram o enterro».
Cada vez conheço mais mortos que deviam dar razão ao HP Lovecraft, provando aos de carne que os de osso podem voltar.

Vitor Vicente [O ANIMADOR DESANIMADO]

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O futuro da Igreja

«Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam!»
Assim será anunciada ainda hoje ou dentro de pouco tempo a eleição do novo Bispo de Roma. A expectativa é grande não só pela notoriedade e impacto que teve o antecessor do futuro Papa, João Paulo II, mas sobretudo pela situação delicada que vive a Igreja e o cristianismo no início do século XXI.
Para a minha geração o Papa sempre aquele homem austero e carismático vindo da Polónia, que vimos envelhecer fiel às suas convicções, mesmo àquelas em que nem todos nos revíamos. Conhecemos já pouco do "atleta da fé" e só percebemos o significado dessa expressão nestes últimos anos onde João Paulo II mostrou que ser velho não é motivo suficiente para deixar de ser "atleta". É a primeira vez que vamos ver um novo Papa. Quem vier terá de reinventar a seu jeito o lugar de sucessor de Pedro. E isso não pode deixar de criar expectativas quanto ao futuro.
Os cenários são diversos e têm vindo a sofrer alterações que tornam imprevisível o resultado. Mais fácil é prever quem não será eleito. O nome do cardeal Ratzinger, inicialmente afastado das listas dos mais prováveis, aparece de novo na corrida, fazendo antever cenários pouco católicos. Inicialmente lançou-se a hipótese de um Papa vindo da África. Depois das intervenções do cardeal nigeriano Arinze essa hipótese foi posta de lado. Veio a possibilidade de um latino-americano ou de um europeu que fizesse a ponte com os outros continentes. O cardeal patriarca português foi destacado entre o colégio de cardeais como capaz de fazer essa ponte. D. José Policarpo aparece especialmente bem considerado pelos seus pares. O "Inimigo Público" já anunciou que o patriarca de Lisboa passou dois dias sem fumar, para se habituar aos hábitos vaticanos. Humor à parte, não é para escolher um Papa que aqui estou. Tal função é-me interdita, apesar de estar entre os baptizados do sexo masculino teoricamente elegíveis. Queria sim deixar uma breve reflexão sobre o futuro.
Foi o próprio D. José que, numa das entrevistas antes do "black-out" episcopal disse o seguinte: «O que nos apaixona e nos deve preocupar é o futuro da Igreja. Ela está no tempo. O que o Espírito Santo nos pede é coragem para discernir caminhos nessa realidade imensa que é a Igreja no mundo contemporâneo.»

Falemos então do futuro e de tudo o que está para lá das portas do Vaticano, já que, como bem disse Bento Domingues ainda com Karol Wojtyla vivo, a Igreja não é só o Papa. Eventualmente nem devia ser tanto o Papa como tem sido, mas isso são outras discussões que Hans Küng e o Movimento Internacional Nós Somos Igreja não se coibiram (e bem) de trazer para a discussão, em tempo de balanços e orbituários.
Os desafios mais evidentes que a pós-modernidade coloca à Igreja são fáceis de elencar: discutir as normas disciplinares que impedem aos casados e às mulheres a presidência das comunidades eclesiais; repensar a moral sexual e a estranha divergência doutrinal quanto aos contraceptivos naturais e artificiais; assumir definitivamente os direitos humanos como património e prática da Igreja; dar mais liberdade doutrinal e pastoral às Igrejas locais e liberdade de investigação aos teólogos; criar mecanismos de governo mais democráticos para a própria Igreja; avançar no diálogo ecuménico sem os tiques autoritários da "Dominus Iesus"; reflectir a sério sobre os desafios que as novas realidades familiares colocam. É apenas uma lista rápida, limitada e incompleta que mereceria uma reflexão e apresentação mais cuidadas, mas para já fica apenas o seu elenco. Estas questões são algumas das que facilmente colocam católicos contra católicos. Vasco Pulido Valente dizia há dias que "a Igreja Católica aceitou sempre a heterogeneidade e até sempre se alimentou dela". Porém reconhecia que "as tensões são neste momento invulgares". No seu jeito pessimista antevia "divisões radicais". O próximo Papa terá nas mãos esse fardo pesado de conseguir manter a unidade da Igreja entre os que querem mudanças e os que as não desejam. Nunca vi o confronto como um mal, desde que feito com diálogo e honestidade intelectual, com capacidade de escuta e negociação, com a caridade de quem espera contribuir para descobrir a verdade e com a humildade de quem se sabe limitado. Por isso não me assusta que a sua discussão seja tomada a sério pelo Papa que virá. Assusta-me sim que o não seja.
Presidir à diversidade que é a Igreja é arte em que não sou versado, pelo que admito que possa não estar certo. Mesmo assim parece-me que vale a pena deixar uma nota. Creio que o surgimento destas questões não é fruto da cultura hedonista da nossa sociedade ou do facilitismo light com que se adere à religião à la carte, ou ainda pior que isso, de algum ataque cerrado à Igreja por misteriosas forças anti-clericais como acham alguns comentadores e organizações.
A encruzilhada em que a comunidade crente se encontra hoje foi certeiramente descrita por vários comentadores nos últimos dias. Foi o próprio Vasco Pulido Valente que no meio do seu infindável pessimismo disse ontem, no "Público":
«Na essência a dificuldade da Igreja é a seguinte: a biotecnologia criou uma civilização única na história. O poder do indivíduo sobre o seu próprio corpo, ainda inconcebível, por exemplo em 1950, transformou radicalmente o valor do sexo, o papel da mulher na sociedade, a visão da vida e a natureza da morte. Esta realidade não desaparece por exortação ou vontade da Igreja e, se a Igreja a ignorar acaba fatalmente na irrelevância. Não se trata agora, como antes, de aceitar a ciência, o liberalismo, a democracia, o estado laico ou mesmo a exegese bíblica. Por muito hiperbólica que pareça a expressão, a Igreja está hoje perante um "homem diferente".» (sublinhado meu)
As questões polémicas que enumerei não são colocadas na mesa por relativismo moral, falta de formação catequética, vontade de divergir ou fraqueza de fé. Elas impõem-se-nos porque estamos de facto perante um "homem novo". E já agora perante uma "mulher nova" também. Esta constatação não é novidade. Já Yves Congar, padre conciliar do Vaticano II e um dos principais teólogos dinamizadores do movimento ecuménico realçava: «o Concílio viu-se acompanhado e sobretudo seguido de uma mutação sócio-cultural cuja amplitude, radicalidade, rapidez, de carácter global, não tem equivalente em nenhuma época da história». Frei Bento Domingues explicita:
«Na fase pós-conciliar levantaram-se muitas questões que o Vaticano II não pôde prever: abandono maciço da Igreja por parte da juventude, secularização acelerada das sociedades mais avançadas da Europa, procura de libertação nos países do Terceiro Mundo, reivindicações da mulher, desenvolvimentos tecnológicos, armamento nuclear, destruição da natureza, etc. Se para alguns a culpa dos males da Igreja vinha dos meios progressistas, nos anos 80, o grande teólogo jesuíta Karl Rahner fazia outra leitura: na Igreja actual reina um conservadorismo excessivo que não está de acordo com o espírito do Concílio. As autoridades eclesiásticas de Roma dão a impressão de favorecer um medroso regresso aos bons velhos tempos. Penso que estamos a viver o Inverno dessa Igreja em que continuamos a escutar a palavra de Deus e a receber a sua graça.»

Os pedidos de mudança não são marginais nem vêm de alas radicais. São vozes credenciadas que pedem mudanças na Igreja. Ainda assim, não é esse o principal fundamento que encontro para a necessidade de renovação na organização e dinâmica da Igreja. Onde salta à vista a necessidade de uma comunidade crente mais profética, que consiga ser uma voz transportadora de sentido, de anúncio da Boa Notícia é, paradoxalmente, nas multidões que seguiram João Paulo II. Digo-o insuspeitamente: não gosto de multidões e posso perfeitamente subscrever a frase de Bénard da Costa e dizer que este não é o meu Papa. Porém, é inegável que Karol Wojtyla conseguiu, com o seu carisma pessoal, simultaneamente cativar multidões e aproximar-se tocando de um modo particular cada pessoa com a sua serenidade, com o seu olhar terno, com a sua afabilidade. "Paradoxalmente, a atracção por este homem era pessoal, mas tinha uma tradução multitudinária", diz-nos António Marujo no seu texto certeiro em que explica "Afinal Qual é a Força deste Homem?":
«A "geração Wojtyla" mostrou ainda, aqui em Roma, que a relação das pessoas com o fenómeno religioso já não se limita às paredes das igrejas ou dos templos: os modos como se vive a fé são cada vez mais plurais – e pessoais. Por isso é possível ver igrejas semi-vazias e milhões a cantar na hora da morte de João Paulo. E mesmo, entre eles, crentes de outras religiões ou descrentes que acreditam neste homem concreto.»
Este Papa de que nos despedimos conseguiu exprimir a fé de forma tocante para tantos e tantas que nunca ouviram falar da Congregação para a Doutrina da Fé, de muitos que dizem como o filósofo Gianni Vattimo: «O meu Papa é, creio, o de muitos – crentes ou não – que o admiram e decisivamente o amam, sem partilhar muitas posições doutrinais que seria difícil chamar evangélicas». O desafio com que a Igreja se confronta é transformar esse jeito pessoal carismático numa mudança de fundo: encontrar novas formas de dizer Deus hoje. Não só pelo lado afectivo, emotivo ou estético, que tanto sucesso têm hoje, mas também pelo lado racional, questionando preceitos e normas que mostram pouco o rosto libertador de Cristo nos dias de hoje. Isto não é apenas uma mudança de regras ou uma alteração "interna" da Igreja: é ter a coragem de escancarar as portas da Igreja a um mundo que mudou muito e está ainda numa fase de mudança acelerada. Nas palavras de um dos nossos bispos, é preciso que a Igreja tenha a coragem de deixar que seja o mundo a marcar-lhe a agenda. Sobre isto mesmo saiu também ontem no "Público" um texto notável do P.e Anselmo Borges, professor de Filosofia da Religião na Universidade de Coimbra, onde coloca com a sua habitual clareza e frontalidade várias questões importantes para o período "Depois de João Paulo II". Depois de falar nos grandes desafios que se colocam ao próximo Papa conclui pela necessidade óbvia da convocação de um novo Concílio:
«Para reavivar a esperança e redefinir o lugar da Igreja no mundo no início de um novo milénio, pode esperar-se a convocação de um novo Concílio, o Vaticano III, sendo legítimo perguntar: porque é que as várias Igrejas cristãs irmãs (ortodoxas e protestantes) deveriam ser excluídas de participar, se fosse essa a sua vontade, neste Concílio autenticamente ecuménico? Ao contrário do que pensam alguns, o Concílio não terá como tarefa fundamental dar orientações uniformes para toda a Igreja no mundo inteiro, mas pelo contrário, fazer tomar consciência de que se impõe garantir, nos vários domínios – doutrinal, moral, litúrgico, jurídico – uma real autonomia às Igrejas locais, nacionais, regionais, continentais.»
Dito isto Anselmo Borges consegue ser ainda mais profético:
«Seria desejável que esse Concílio estimulasse a reunião do que poderíamos chamar um Parlamento das Mundial das Religiões, também com representantes dos não crentes, onde se debatessem os problemas candentes da Humanidade e de humanidade para o futuro da Humanidade: os direitos e deveres de todos os homens, questões de bioética, a globalização, a natureza, o ambiente, a protecção da biodiversidade, as novas tecnologias, a economia, nomeadamente a problemática Norte-Sul e, mais concretamente o futuro do continente africano, o diálogo inter-religioso e inter-cultural, uma relação nova com o Mistério e a Transcendência.»
Podemos esperar tudo isto do próximo Papa, ainda por cima quando é ventilada a possibilidade de termos uma mão de ferro ao volante da Igreja nos próximos anos? Como alguém disse de João Paulo II: "ele veio da Polónia – um verdadeiro golpe do Espírito Santo". O mesmo pode acontecer daqui a algumas horas, quando ouvirmos "Habemus Papam", um verdadeiro golpe do Espírito Santo. Assim seja: venha João XXIV.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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quarta-feira, abril 13

 

Quando a medicina não explica

Foi há 12 anos. A 10 de Abril, noite de vigília pascal, a Maria foi baptizada – e eu assumi o compromisso de ser seu padrinho. Quinze dias antes, a criança era apresentada à comunidade e os padrinhos disseram ao que iam, o que era aquilo (para eles) de ser padrinho (e madrinha). Não me recordo do que disse. Mas ainda hoje, na família, se recorda uma blague em que disse que esperava que fosse a Maria a tomar conta do padrinho – e não o contrário. Fica sempre bem: sorrisos na assistência. E anos depois a recordação das palavras.

Ainda hoje me pergunto o que será isso de ser padrinho. Não o godfather, o il padrino de memórias cinéfilas: uma personagem temida, autoritária, que distribui benesses ou misericórdia (e tiros de misericórdia, quando a linha é ultrapassada). O padrinho é antes o amigo, o companheiro – mas também alguém que deve estar disponível para conhecer o outro, neste caso, a afilhada. "Conhecer" (julgo que já aqui o disse) é uma palavra que esconde a riqueza do seu significado – co-nascer, "nascer com", que é como quem diz crescer lado-a-lado com o outro. Longe de memórias cinéfilas.

Por estes dias, ouvimos a multidão que chorava a partida de João Paulo II pedir a sua santificação. Um homem bom acaba por merecer assim o reconhecimento dos anónimos. E logo dois bispos, para atestarem da sua santidade, anunciaram-se testemunhas de milagres. Aqui, hesito. Não preciso de milagres, de curas inexplicáveis, para poder dizer como era bom aquele homem.

A santificação – e nisso este longo pontificado "baralhou" demasiado as coisas, beatificando e santificando "apressadamente" muitos homens e mulheres (e, coisa inédita, duas crianças) – devia ser antes um percurso de conhecer a vida e obra desses homens e mulheres. Talvez assim olhássemos para eles como verdadeiros exemplos, e não como alguém a quem se recorre nas aflições – para as benditas promessas. Não ironizo: a ladainha dos santos estará cheia de bons exemplos. Mas, para confirmar esses exemplos, não serve a vida – sublinha-se antes o milagre das promessas, como se a oração e a devoção pudessem ser moeda de troca para a nossa vida – e para o reino dos céus.

O homem bom que foi Karol Wojtyla pode vir a ser santo. Eu, por mim, gostava que na sua proclamação se ouvissem palavras como… "naquela comunidade, um milagre aconteceu: a guerra acabou, a paz venceu, seguindo o apelo deste homem bom". Para isto, sim, a medicina não tem explicação.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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O Senhor da Boa Morte

«Hoje pretendo apenas acrescentar isto: que cada um de nós tem de ter sempre presente a perspectiva da sua própria morte. E tem que estar pronto a apresentar-se a si próprio perante Deus, Senhor e Juíz mas simultaneamente Pai e Redentor. Eu também terei continuamente isso em consideração, consagrando o meu momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja – a Mãe da minha esperança.
Uma vez mais, eu desejo consagrar-me totalmente à Graça de Deus. Ele decidirá quando e como eu terei de terminar a minha vida terrena e o meu ministério pastoral. Na vida e na morte: Totus Tuus, Maria Imaculada! Aceitando a morte, mesmo agora que seja, eu espero que Cristo me conceda a Graça para a passagem final, noutras palavras, a minha Páscoa. Peço-lhe também que Ele faça com que a minha morte seja útil para a mais importante causa que procurei servir: a salvação dos homens e mulheres, a salvaguarda da família humana e, através dela, de todos os povos e nações.»

(do testamento de João Paulo II, trecho escrito de 24 Fevereiro a 1 Março de 1980, tradução minha)

Lendo estas palavras que o Papa escreveu para si próprio, intimamente, em 1980, antes ainda do atentado de 81, numa altura em ele respirava uma saúde e vigor poderosos e magnéticos, quando lhe chamavam ainda o atleta da Fé, não consigo evitar um arrepio, um sentimento de pasmo e admiração.
Aqueles que durante a longa doença e dolorosa agonia do Papa, duvidaram das razões que o levaram a vivê-las publicamente e determinadamente, até ao fim, aqueles que duvidaram mesmo de ser do próprio Papa a vontade em levar a sua cruz à vista de toda a gente, as palavras acima revelam eloquentemente o seu engano. Engano compreensível, direi eu, pois estamos todos desabituados de uma tão grandiosa coerência, uma coerência demonstrada duas longas décadas depois daquelas palavras terem sido escritas.
Mesmo para quem, como eu, nunca duvidou da grandeza sobre-humana dum calvário oferecido como exemplo, estas palavras surpreendem. Surpreendem por revelar de forma tão clara a transcendência do sentido da atitude de João Paulo II no ocaso da sua vida e do seu ministério. Surpreendem também porque, mesmo para quem crê, é sempre uma surpresa ver uma prece ser tão completamente atendida. Uma prece que começa por ser entrega e aceitação e acaba por ser um extraordinário e desmesurado pedido: o de que a sua própria morte, tal como a de Cristo, seja útil para a salvação dos homens e mulheres, a salvaguarda da família humana e, através dela, de todos os povos e nações!
E assim foi de facto! Um pontificado marcante e riquíssimo, em que parece tudo ter acontecido e tudo ter sido dito, um pontificado polémico mas tão inovador, um pontificado que pareceu ser o arquétipo do triunfo da vontade dum homem excepcional, tudo isso se apequenou perante o período final e terminal, também algo nunca antes visto, em que um grande do Mundo renuncia a vontade própria para aceitar incondicionalmente que também nele se faça segundo a vontade do Pai, exclusivamente segundo a vontade do Pai.
E do mesmo modo que de Cristo o mundo reteve sobretudo a Sua Paixão, também deste Papa serão sobretudo recordados os anos derradeiros, os seus rictus de dôr, a fragilidade gritante com que se arrastava em visitas pastorais extenuantes, aquele desespero tocante que deixou entrever da sua janela, ao não conseguir pronunciar aquele último Angelus. E sobrepondo-se a todo esse sofrimento, uma determinação terrível em lhe resistir, uma força imparável que, no meio da multidão, o impelia inexoravelmente para o seu Gólgota.
E foi assim, cumprindo a sua própria escritura, feita 25 anos antes, que ele teve a sua morte, uma boa morte pois, como ele desejara, foi certamente útil a milhões de crentes e também a não crentes. Tão simplesmente porque nos recordou que, acreditando-se ou não na eternidade, e mais do que fazer parte da vida, a morte não lhe retira significado, antes acrescenta-o. E ao fazê-lo, a morte, o sofrimento, a adversidade, são vencidos perante a grandeza da vida e da condição humana oferecidas por Deus.
João Paulo II, na sua coerência joanina de acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e de acreditando, ter tido a vida em seu nome, conseguiu assim também ele aquilo que mais queria: ser útil para a salvação de nós todos.



José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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A Santíssima Trindade

Na passada semana, como alguns leitores deste blogue certamente terão notado, o texto que aqui escrevi foi em grande parte baseado nos pontos 1814 a 1829 do Catecismo da Igreja Católica. E o episódio referido na última frase foi de facto escrito por S. Siluane, um monge que viveu nos séculos XIX e XX.

Hoje continuo em torno de textos escritos por outrém. No início do livro "Até onde se pode ir?", de David Lodge, aparece a seguinte citação do livro de Hans Küng, "Ser Cristão":

"O que sabemos? Porque existem as coisas?
Porque não é o nada?

O que deveríamos fazer? E fazemos assim porquê?
Somos responsáveis porquê e perante quem?

O que podemos esperar? Porque estamos aqui?
Qual a razão de tudo?

O que nos dará coragem para vida e coragem para a morte?"


Como é sabido, na Santíssima Trindade reúnem-ses três Pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo cujas características fundamentais penso poder esumir do seguinte modo: o Pai é a fonte de toda a santidade, o Filho é o mediador de toda a salvação, e o Espírito Santo é Aquele que anima e sustenta o caminho do homem para a plena e definitiva comunhão com Deus.

Passemos à heresia. O Pai é a teoria, a ideia, o mandamento. O Filho é o exemplo, a prática, o comportamento. Se as relações entre estes dois parecem óbvias (como a relação entre qualquer pai e qualquer filho) já o Espírito Santo me parece mais estranho. Se não é o mistério, é pelo menos um mistério.

Lembro-me de um episódio. Julgo que é de um outro livro de Lodge, "Pensamentos secretos". A corrida dos barquinhos de papel (ou seriam patos de plástico?). Cada concorrente escreve o seu nome num barquinho de papel. Depois largam-se os barquinhos de papel num ribeiro, algumas dezenas de metros a montante de um local que se convenciona chamar meta.

É um belo exemplo de teoria do caos: as variáveis são imensas, correntes, obstáculos, ventos, etc. O acaso conduz um à vitória, alguns são de qualquer modo bem sucedidos pois passam a meta, outros afundam-se ou ficam encalhados.

Vamos pensar que o Espírito é o acaso pois a necessidade decorreria do material, isto é, o determinismo seria apenas a sequência lógica de encadeamentos físicos, materiais. Por definição todo o devir seria necessário. Tal como num encadeamento em dominó. Como aqueles desenhos gigantescos compostos de milhões de peças de dominó em que caindo a primeira em cima da segunda e esta em cima da terceira e assim sucessivamente se dá origem a um movimento que parece eterno e em que a última peça a cair é apenas o resultado da queda da primeira peça uns tempos antes.

Se o Espírito é acaso então o Espírito pode ser mau ou pode ser Santo. É por isso que não basta invocar o Pai e o Filho. Os barquinhos deveriam chegar todos à meta. Independentemente do acaso (das capacidades e das religiões de cada barco, por exemplo). Para isso é preciso o Pai, o Filho e o Espírito Santo

Lembro-me de uma das últimas homilias que ouvi. Qualquer coisa como os três tipos de crentes: os que acreditaram em Cristo desde o princípio sem ser preciso verem, os que como São Tomé só depois de verem acreditaram, e aqueles que só acreditaram depois de verem Cristo ressuscitado a partir e a distribuir o Pão, os discípulos de Emaús (Lucas 24, 30-35). Talvez por isso, a propósito da Santíssima Trindade disse João Paulo II: "O inteiro desenvolvimento da revelação divina está orientado para a manifestação do Deus-Amor, do Deus-Comunhão."

O livro "Até onde se pode ir?", o tal livro escrito por David Lodge em 1980 que começa com a citação de Küng acima referida, acaba do seguinte modo:

"Enquanto escrevia este último capitulo, o Papa Paulo VI morreu e foi eleito papa João Paulo I. Antes que pudesse dactilografá-lo, já João Paulo I morrera e lhe sucedera João Paulo II, o primeiro papa não italiano dos últimos quatrocentos e cinquenta anos; polaco, poeta, filósofo, linguista, atleta, homem do povo, homem do destino, escolhido de forma dramática, imediatamente popular — mas teologicamente conservador. Uma Igreja em mudança aclama um papa que, manifestamente, acha que já chega de mudanças. E agora o que irá acontecer? Está tudo em aberto, o futuro é incerto, mas será interessante ficar atento. Adeus, leitor!"


Timshel [TIMSHEL]

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Trinta e três dias…



Se o pontificado de João Paulo II foi um dos mais longos da História, o do seu antecessor imediato foi um dos mais curtos. Parecerá inoportuno, neste momento, falar de João Paulo I, mas parece-me que os 33 dias em que Albino Luciani ocupou a cadeira de Pedro poderão ajudar a perceber muito do que se passou nos 26 anos que se seguiram.
Luciani escolhe dois nomes (o que já pode ser significativo: foi o primeiro papa a usar um nome composto), como forma de tornar presentes os seus dois próximos antecessores (João XXIII e Paulo VI), os papas do Concílio Ecuménico Vaticano II, sendo significativo o facto de o seu sucessor ter mantido a mesma opção. Mas o grande gesto desse papa foi ter definitivamente posto de lado a tríplice tiara e o trono pontifício, símbolos ambíguos do poder temporal do Sumo Pontífice.
Pouco depois de eleito envia uma mensagem radiofónica a todos os fiéis, em que traça o programa para o seu pontificado. Nos seis pontos que faz questão de assinalar estão bem visíveis as prioridades da Igreja desde então:
“- Queremos continuar a dar prosseguimento à herança do Concílio Vaticano II […], vigiando para que nenhum impulso, talvez generoso mas irreflectido, tergiverse os seus conteúdos e significados, nem forças paralisantes ou tímidas afrouxem o magnífico impulso de renovação e de vida;
- queremos conservar intacta a grande disciplina da Igreja na vida dos sacerdotes e dos fiéis […], e para esse fim levaremos avante a revisão do Código de direito Canónico […];
- queremos recordar à Igreja inteira que o seu primeiro dever é a o da Evangelização […];
- queremos continuar o esforço ecuménico, que consideramos o máximo lema dos nossos predecessores imediatos, vigiando com uma fé imutável, com esperança invencível e com amor indeclinável para que se realize o grande mandato de Cristo: Que todos sejam um (Jo 17, 21) […];
- queremos prosseguir com paciência e firmeza o diálogo sereno e construtivo que […] Paulo VI estabeleceu como fundamento e programa de acção […];
- queremos, enfim, favorecer todas as iniciativas louváveis e boas que possam tutelar e incrementar a paz neste mundo conturbado”
. (1)
Mas depois da sua morte surgiram relatos de confidências que vão mais longe e permitem perceber que Luciani pretendia tornar a Igreja mais humilde e mais coerente com o testemunho evangélico. O seu pensamento passava por assumir os pecados que tinham levado às separações dos cristãos, à inquisição ou aos massacres de índios e à escravatura, pela reconciliação com o povo Judeu (referiu inclusivamente a vontade de “convocar uma representação de bispos de todo o mundo” para o efeito), passava ainda por “defender o lugar que é devido à mulher na comunidade humana e na comunidade eclesial” e por reabilitar muitos dos eclesiásticos que “passaram por provas amargas” por causa do rigor disciplinar da Igreja por via do Santo Ofício.
(2)
Convém também rever o modo como este homem propôs a abertura da Igreja ao mundo. Na sua primeira audiência geral, afirmou: “Quando era bispo, estive muito perto daqueles que não acreditavam em deus e fiquei com a ideia de que muitas vezes lutam não contra Deus, mas contra a ideia errada que têm de Deus. Quanta misericórdia é necessário ter! Também devem tê-la esses mesmo que erram… Temos que aceitar-nos como somos.” (3)
Mas há uma afirmação que se torna pertinente por estes dias: “Tenho a impressão que de que a figura do papa é por demais exaltada. Há um certo risco de cair no culto da personalidade, o que eu não quero de modo algum… Passaram pouco mais de cem anos sobre a queda do poder temporal dos papas, caso contrário, também eu, presentemente, seria um papa-rei com exércitos armados e, talvez, com uma polícia para defender os bens, as terras e os palácios do papa. Como teria sido bonito se o papa tivesse renunciado espontaneamente ao poder temporal! Deveria tê-lo feito antes. Agradeçamos ao Senhor que assim o quis e assim o fez”. (4)

(1) Radiomensagem Urbi et Orbi de 27 de agosto de 1978 (online, a versão original em italiano), conforme citada na biografia João Paulo I, O Papa do sorriso, de Andrea Tornielli e Alessandro Zagrando (edição brasileira da editora Quadrante, São Paulo, 2000 – distribuído em Portugal por Rei dos Livros).
(2) Referências e citações conforme as feitas por Luigi Accattoli em Quando o Papa pede perdão (Paulinas, Lisboa, 1998). O Autor insere um capítulo intitulado “Luciani tinha um projecto”, em que assume como fonte única um livro do jornalista Camillo Bassotto, que recolheu depoimentos de dois sacerdotes muito próximos de João Paulo I.
(3) Audiência geral de 6 de Setembro de 1978 (
online, a versão original em italiano), conforme citada em O Papa do sorriso.
(4) Citado em Quando o Papa pede perdão.

Rui Almeida [
POESIA NA RUA]

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Por um lado, pelo outro

Disse aqui na Terra Varqa Jalali: «Vivemos portanto numa sociedade em mutação, e a religião não escapa a esse fenómeno. Por um lado, vemos que a religião – na acepção comum do termo – perde importância, e as taxas de participação em serviços religiosos é cada vez menor (para dados relativos a Portugal, ver por exemplo dados no Inquérito pós-eleitoral de 2002, ou bem como inquéritos anteriores). Esse padrão é igualmente perceptível nos comentários que se ouve de as religiões provocam guerras (e para isso nem precisamos de ir ao Médio Oriente, tendo vários exemplos na própria Europa), ou de desconfiança em relação à "religião organizada". Mas por outro, parece sobressair a necessidade de uma vivência religiosa por parte das pessoas. Os dados de um recente estudo em Portugal, realizado em 1999, são particularmente elucidativos. Assim, se apenas metade dos inquiridos participava em serviços religiosos pelo menos uma vez por mês, 82% das pessoas considerava-se religiosa; 93% acreditava em Deus; para a maioria destas, Deus tinha "muita importância" nas suas vidas; e 71% afirmou que orava e meditava.»

Pensando apenas em termos cristãos. Se pensarmos no que nos é dito por este excerto e se o fizermos através de um esquema simplista, podemos ter o seguinte esquema: a religião como um dado espaço instituído – dogmas, prática codificada – dotado de uma certa especificidade que permite identificá-lo, como espaço Católico, Baptista, Anglicano, outro; religião como um dado espaço não instituído constituído por todos aqueles que acreditam em Cristo. Durante muito tempo pensou-se que o segundo espaço pura e simplesmente não existia, porque era de algum modo coincidente com o primeiro. Que todo o religioso cabia todo no Católico. Ou, mais tarde, que o espaço Católico, Anglicano, Baptista, outro, cobriam diversas fatias do espaço religioso. Ora, hoje, parece que tal não se verifica. Que não podemos excluir do religioso alguém que acredita em Deus e que no seu dia a dia completa a ligação não com um espaço de dogmas e de práticas instituídas mas com aqueles que andam à sua volta. Familiares, colegas de trabalho, amigos, membros de diversas associações de boa vontade. O que pode trazer a necessidade de pensar a relação que deve ser estabelecida entre o espaço instituído e o espaço não instituído, pensar como articular o espaço instituído – dogma, prática codificada – com uma realidade que neste momento lhe é estranha. Num primeiro momento, isto poderia passar por renovar o espaço instituído de modo a torná-lo de novo atractivo para aqueles que dele se afastaram. Num segundo momento, isto poderia passar pela afirmação de que o espaço instituído está bem, mais ou menos bem, e que o problema acaba por ser daqueles que habitam fora dele. E que por isso não há grande coisa a fazer. Se esta última opção perfilha alguma indiferença – legítima ou não é outra questão –, ela, de algum modo, aponta, anuncia – de mesmo sinal, de sinal diferente da hipótese anterior, é outra questão – uma última alternativa. A coexistência do espaço instituído com o espaço não instituído, numa relação marcada quer pela tolerância, quer pela crítica, quer pela legitimidade da independência.

Fernando Macedo [A BORDO]

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segunda-feira, abril 11

 

Simbolismo e Historicidade das Escrituras

Os debates Cristo da Fé / Jesus da História tendem a ser intermináveis. Geralmente quem sustenta o Cristo da Fé tem tendência a justificar os aspectos histórico ou a fazer uma interpretação não literal das Escrituras; e quem procura o Jesus da História avalia os textos sagrados em função do seu valor e rigor histórico (por vezes imaginando que pode destruir o Cristo da Fé).
O debate em curso entre o José e o Nuno é um destes debates. Com a vantagem de ser cordial e de nenhum dos dois querer destruir a fé do outro; trata-se de um diálogo que permite nos permite a todos conhecermos melhor pontos de vista diferentes dos nossos. A verdade é que o debate está tão bom, que para mim é impossível ficar calado e não dar algum contributo. Aqui vai.


Tenho para mim que os Evangelhos não são um relato histórico fidedigno de acontecimentos relacionados com a vida de Jesus; em vez disso, devem ser encarados como um testemunho de uma vivência de fé registado por pessoas com mentalidade e cultura totalmente diferente das nossas. Mostram-nos o mundo de Cristo pelas palavras dos primeiros crentes.
Desta forma, o questionar a historicidade dos factos descritos nos Evangelhos torna-se pouco relevante; a nossa atenção deve dar prioridade ao entendimento do seu significado espiritual, isto é, àquilo que é o âmago da Mensagem de Jesus Cristo. É nos significados simbólicos das palavras do Evangelho que reside o poder regenerador da Sua mensagem.

A ênfase nos simbolismos das Escrituras não é uma inovação baha’i; trata-se de algo que sempre existiu em todas as religiões. S. Paulo, por exemplo, identifica significados simbólicos em textos que nada parecem ter de simbólico. S. Paulo faz um interpretação simbólica sobre as esposas de Abraão [Gal 4:22-26] referindo-se a uma passagem do livro do Génesis [cap.3]. Também numa Epístola aos Coríntios[I Cor 10:1-4] S.Paulo mostra-nos que existem significados simbólicos no episódio de Moisés perante o Monte Horeb[Ex. 17:6]. S. Paulo ultrapassa o significado literal e revela um significado oculto. No entanto, não há indicação no texto de que essas passagens devem ser interpretadas de um modo que não o literal. Provavelmente, S. Paulo acreditava que as Escrituras continham significa dos ocultos, mesmo quando pareciam perfeitamente literais.
Seguindo o exemplo de S. Paulo, vejamos alguns exemplos de possíveis simbolismos:
O milagre do cego que recuperou a vista [Jo cap.9]. Estará o texto a referir-se a uma realidade histórica? Ou podemos ler a cegueira com simbolizando uma incapacidade para compreender os ensinamentos de Jesus? Não posso negar que Jesus tinha poder para realizar milagres (e que os realizou). Mas poderá o texto do Evangelho ser uma prova histórica desse facto? Se este facto aconteceu, então parece-me que apenas quem o testemunhou pode considerá-lo uma prova da Divindade de Jesus. Não duvido que maior milagre do que a cura a cegueira física é a cura da cegueira espiritual.
A expulsão dos vendilhões do templo [Mt 21:12-13]. Teria sido um facto, ou os autores dos evangelhos pretenderam transmitir-nos algo mais com o simbolismo da história? É verdade que ao lado do Templo existia a Torre Antónia; permitia vigiar a actividade que decorria no Templo, pois os romanos percebiam que era ali que germinavam as revoltas contra a sua autoridade. Se entendermos a expulsão dos vendilhões como literal, bem nos podemos perguntar “E porque é que os romanos não fizeram nada?”. Então o que poderia significar essa expulsão? Pessoalmente vejo-a como uma renovação da religião(representada pelo Templo), uma purificação do seu propósito.
Quanto ao episódio de Barrabás [Mt27:16-21; Mc15:6-15; Lc23:17-19; Jo18:39-40], também lhe encontro um simbolismo. Os autores dos evangelhos pretendem mostrar-nos que judeus daquele tempo tinham menos consideração por Jesus do que por um criminoso. E mesmo que um evento que seja relatado nos quatro evangelhos (como o episódio de Barrabás), podemos garantir a sua historicidade? Tenho as minhas dúvidas.
Alguns significados espirituais não são fáceis de encontrar. Leiam-se as palavras “Meu Deus Meu Deus, porque me abandonaste” [Mt27:46]. Estas palavras que o evangelista coloca na boca de Jesus podem parecer palavras de desespero. Na verdade são uma invocação do Salmo 22, um salmo de triunfo. O que literalmente parece um grito de desespero, simboliza, na verdade, uma declaração de vitória. Tanto quanto sei, os antigos livros hebreus não tinham título. Para os identificar, os hebreus referiam-se aos livros pelas suas primeiras palavras. As primeiras palavras do salmo 22 são exactamente “Meus Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?

Numa das Suas últimas epístolas, Bahá’u’lláh escreveu: “...nas palavras d'Aquele que foi o Espírito (Jesus) jazem ocultos incontáveis significados”. Acredito que não são apenas as palavras de Jesus que possuem significados ocultos; os livros sagrados de todas as religiões estão repletos de significados simbólicos. Procurá-los é um desafio. E quando os encontramos percebemos ainda melhor a grandeza, a beleza e o objectivo do Fundador da nossa religião. É à busca da compreensão desses simbolismos que devemos dar prioridade.

Apenas uma nota final sobre Flávio Josefo: são conhecidas as referências que ele fez sobre Jesus. Mas este autor também refere, entre muitas outras coisas, que no tempo de Alexandre, o Grande, os rios se abriam para que os seus exércitos passassem. Claro que não posso aceitar isto como um facto literal; é mais provável que Flávio Josefo estivesse a relatar os factos tal como lhe eram contados. Desta forma, creio que é correcto pensar que Flávio Josefo relata o que pode ter ouvido a algum cristão.

Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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quarta-feira, abril 6

 

Ele (um plágio da Fé, da Esperança e da Caridade)

Ele acreditava em Deus, no que Ele havia revelado e no que a Igreja lhe propôs porque Ele é a única verdade. Ele entregou-se inteira e livremente a Deus. Ele esforçou-se por conhecer e fazer a vontade de Deus. Ele era justo e por isso vivia por Cristo. Ele acreditava n'Ele e, consequentemente, amava.
Ele sabia que acreditar n'Ele era sobretudo comportar-se de acordo com a Sua vontade.
Ele sabia que não bastava acreditar intimamente em Cristo. Ele sabia que só se acredita verdadeiramente n'Ele demonstrando-O, testemunhando-O e difundindo-O. Nunca hesitou no caminho da Cruz.
Ele desejava como felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna colocando toda a sua confiança nas promessas de Cristo e apoiando-se nas suas forças na medida em que elas beneficiavam dos auxílios da Graça do Espírito Santo. Ele aspirava à felicidade pois esta foi colocada por Deus no coração de todos os homens. Ele acreditava que as actividades dos homens, purificadas do Mal, são o caminho para o reino dos Céus. Ele não acreditava no desalento e protegia do desfalecimento. Ele dilatava o coração à espera da bem-aventurança eterna. Cristo preservava-o do egoísmo e conduzia-o à felicidade da Partilha. Ele esperava contra toda a esperança.
A sua alegria expressava-se e alimentava-se da oração, especialmente do Pai Nosso.
Ele amava a Deus sobre todas as coisas, por Ele mesmo e pelo seu próximo. Ele amava mais do que os cristãos normais, que se esforçam por amar os outros homens como se amam a eles mesmos, por amor de Deus.
Ele amou até ao fim manifestando assim o amor que recebeu do Pai. "Amai-vos uns aos outros".
Ele sabia que guardando o mandamento de Cristo permaneceria no Seu amor.
Ele amou os seus inimigos. Ele amou todos os homens (nomeadamente os "mais distantes e estranhos" - Lucas 10, 27-37). Amou os fracos e os pobres mais do que a si mesmo.
Ele era paciente, disponível. A todos desculpava. Em todos acreditava. Ele de todos esperava. Ele tudo suportou.
Ele sabia qual era a maior de todas as virtudes. Aquela que é amizade e comunhão.
Ele sabia que só partilhando assegurava e purificava a sua faculdade humana de amar.
Ele sabia que não se devia separar do mal por temor do castigo pois não era um escravo, e que também não buscava tal separação para obter alguma recompensa pois não era um mercenário. Ele separava-se do mal por amor ao Bem e por amor Àquele que lhe disse que obedecesse ao seu único mandamento.

O fim e o meio de todas as suas obras foi o amor. Uma vez a ele chegado, repousou.
– "Vê-se que és orgulhoso. Porque é que falas tanto de Deus?" perguntou o eremita a S. Siluane.

Timshel [TIMSHEL]

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Papa aos jovens

Eu tinha dez anos e vi-o no Porto, a subir a Avenida dos Aliados, de branco a acenar, bem disposto e pouco devo ter percebido – só me recordo da multidão que espreitava para o ver e da viagem de regresso a Aveiro, no comboio cheio de gente e esperança.
Apenas anos mais tarde pude beber com autenticidade as palavras que dirigiu aos jovens na primeira visita de João Paulo II a Portugal, na «missa para os jovens», em Lisboa, a 14 de Maio de 1982. Quase 23 anos depois, recupero a primeira parte de um extenso discurso e cito-o de um fôlego. Porque foi nos jovens e com os jovens que mais perplexidades se desenharam entre este Papa e crentes ou "assim-assim": no discurso e nos actos, nas palavras e nas omissões, todos vivemos a complexidade de um Reino anunciado, mas tantas vezes incompreendido, ou tantas vezes inalcançável. Perdoem-me que lhe roube as palavras, mas nesta sua Páscoa julgo que aquilo que fica são as palavras. Melhor: a Palavra.

«1. O Reino de Deus está próximo! Sim! “Dizei a todos: está próximo de vós o Reino de Deus!” (Luc. 10, 9). Foi com estas palavras que Jesus Cristo, ao enviar em missão os setenta e dois discípulos, lhes recomendou que anunciassem a Mensagem, como acabámos de ouvir no Evangelho de hoje. Mas estas palavras são dirigidas também aos cristãos de todos os tempos: a nós, portanto, que estamos aqui reunidos em nome do Senhor, em continuidade com os discípulos que as ouviram directamente. São dirigidas especialmente a vós, jovens, que aqui vos encontrais, esta tarde em tão grande número, cheios de entusiasmo e alegria, manifestando a vossa disponibilidade a Cristo e o vosso desejo de construir um mundo mais humano e cristão. Vós sois depositários desta grande esperança da humanidade, da Igreja e do Papa. Deus deu-me a graça da amar muito os jovens. Por isso, gostaria de falar-vos como um amigo fala ao seu amigo, com cada um individualmente, olhos nos olhos, de coração a coração. “O Reino de Deus está próximo!”. E quase me atreveria a dizer: estas palavras são dirigidas especialmente a vós jovens portugueses, filhos de um povo de missionários que, por todo o mundo, levaram essa mesma mensagem, como acentuou o Senhor Cardeal Patriarca, Dom António Ribeiro. […] Estando assim tão próximo, em Cristo, nosso Senhor e Salvador, o Reino de Deus está sempre diante do homem. É proposto aos homens, como uma missão a realizar, uma meta a alcançar. Nas diversas dimensões da sua existência, os homens podem, pois, aproximar-se dele ou dele afastar-se. Antes de mais, podem chegar a alcançá-lo em si próprios, e realizá-lo dentro de si. Mas podem também perdê-lo de vista, desviar-se da sua perspectiva. Podem até actuar contra ele. Podem mesmo propender para afastá-lo do homem; podem afastar o homem dele, e subtrair-lho. E no entanto, Cristo veio ao mundo para introduzir os homens no Reino de Deus, para inserir o Reino nos corações dos homens e no meio deles. Mais: Cristo confiou mesmo este Reino aos homens. Chamou-os para o trabalho pelo Reino de Deus. E este trabalho tem o nome de evangelização.

2. A palavra “evangelização” vem de “Evangelho”, que significa “Boa Nova”. O Reino de Deus constrói-se sobre este fundamento da Boa Nova. Mais ainda: ele mesmo é Boa Nova. É o Anúncio da salvação definitiva do homem. E aqui, poder-se-ia perguntar: o que é a “salvação”? Detenhamo-nos nas palavras de Isaías, ouvidas na primeira leitura da Santa Missa de hoje: “O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu. Enviou-me a levar a boa nova aos que sofrem, a curar os de coração triste, a anunciar a libertação aos cativos e aos prisioneiros a liberdade, a proclamar um ano de graça do Senhor” (Is. 61, 1-2). […] As palavras de Isaías, que Jesus de Nazaré tomaria como programa da sua missão, contêm precisamente a boa nova acerca da salvação. O que é pois a salvação? É a vitória do bem sobre o mal, realizada no homem, em todas as dimensões da sua existência. A própria superação do mal já tem um carácter salvífico. A forma definitiva da salvação consistirá para o homem em libertar-se completamente do mal e em alcançar a plenitude do bem. […]»

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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Reflexões pascais (2) - um exercício de contraditório

Hesitei um bocado se esta semana deveria continuar as minhas reflexões ou, ao invés, falar aqui um bocado sobre o papa João Paulo II. Não para fazer um balanço do seu papado, que praticamente não conheci outro, não para lhe fazer mais uma laudatória, que tantas já foram e serão feitas, mas para reflectir um pouco sobre o espantoso fim do seu papado. Contudo, e por respeito a quem vai seguindo aqui a Terra, resolvi continuar a glosar à volta da Páscoa. Mas espero ainda falar aqui do papa, talvez quando já houver um novo. Não me esquecendo ainda que deixei a meio uma reflexão sobre a família que pretendo acabar. Tempus fugit!
Voltemos pois à Páscoa deste ano da graça de 2005. Ouvi algures o Cardeal Patriarca a dizer que se assiste por aí, de uma forma crescente, à popularização da figura de Jesus mas dum Jesus humano, não o Jesus filho de Deus. O zeloso César das Neves certamente que pensou e escreveu também algures, que esta des-divinização da figura de Cristo é uma amável e subtil forma de ataque ao âmago da fé cristã. Talvez o seja mas não sou muito dado a teorias de conspiração...Mas facto é de que o que torna diferente, talvez única, a forma cristã de acreditar em Deus é acreditar que ele se fez homem entre os homens e se deixou prender e humilhar e matar às mãos dos outros homens, para a sua vida e a sua palavra, na sua total coerência, pudesse mostrar aos homens o Deus connosco, e mostrando-O, nos indicasse o caminho para Ele. Acreditar verdadeiramente, inteligivelmente, nisto não é nada fácil. Mas será talvez a forma mais libertadora de acreditar em Deus. Mas adiante.
Vou de novo ter com o meu amigo Nuno da Rua da Judiaria, que acredita no mesmo Deus que eu, embora de forma diversa, para comentar com ele um comentário que ele fez sobre a sua perspectiva da nossa Páscoa. Como não é de surpreender, o Nuno conta-nos a nós cristãos coisas que muitos de nós devíamos saber mas, tal é a nossa vaga religiosidade, não sabemos ou já o esquecemos.
Nesse post o Nuno começa por nos relatar os numerosos pontos de contacto entre a Páscoa dos cristãos e a Pessach dos judeus, naturalmente aliás pois a Páscoa que celebramos é a evocação do que aconteceu a Cristo quando, como quase todos os judeus da Judéia, foi a Jeruslalém nos tempos da Pessach, de cujo nome proveio o seu.
Assim a última ceia foi sem dúvida a «obrigatória refeição ritual – o Seder –, comemorando a libertação do seu povo da escravidão no Egipto, e do qual são retirados directamente os próprios símbolos que nas missas católicas pretendem recordar a última refeição de Jesus e o chamado sacrifício pascal – o pão e o vinho. Ainda hoje, numa tradição que dura há milénios, os judeus celebram a sua Páscoa cumprindo mandamentos estritos que ordenam que se beba vinho e coma pão ázimo em memória da libertação dos israelitas, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto. Estes dois elementos profundamente judaicos estão na origem da utilização da hóstia e do vinho nas missas católicas, introduzidos nos primeiros séculos.»
Um outro aspecto interessante focado pelo Nuno é a forma como a Igreja fixa esta festa móvel do Cristianismo: « a Páscoa é (uma) festividade cristã cuja data não é fixa – uma característica que partilha com algumas festas religiosas do judaísmo –, ocorrendo no primeiro domingo após “a primeira lua nova eclesiástica depois do equinócio de 21 de Março”».
Estas e outras analogias entre as duas “Páscoas” provam evidentemente a matriz judaica do cristianismo. Mas o facto é que nas evoluções divergentes das duas religiões, a partir do acto fundador do Cristianismo que foi a Paixão de Cristo, elas tornaram-se festas de significado profundamente diferente.
É bem certo que da parte do Cristianismo houve desde o início um movimento de apropriação do simbolismo da Pessach judaica no ideário cristão como que tornando a libertação do povo judeu da escravidão no Egipto, com o auxílio directo e espectacular de Deus, numa espécie de antegosto da libertação, não já apenas dos judeus mas de toda a humanidade, das garras do pecado e da morte pelo sacrifício supremo e oferecido do Filho de Deus encarnado.
Ora, diga-se que compreensivelmente, já o judaísmo não sente qualquer afinidade com a Páscoa cristã. E o meu caro amigo Nuno permitir-me-á que diga que isso é cristalinamente visível nos seus comentários adicionais sobre a historicidade na nossa Páscoa. Isto acontece por motivos vários e bem compreensíveis. Vejamos alguns.
Um deles, talvez o mais importante, é o altíssimo e injustíssimo preço que na História subsequente o povo judeu pagou pelo rótulo de povo deícida que o cristianismo emergente lhe colou na reputação. Isso aliás aconteceu pela simples e usual razão de que a mensagem divina de Cristo tem sido tão imperfeitamente compreendida por tantos e tantos cristãos, cristãos que se estivessem nessa altura e naquele sítio teriam também insultado e apedrejado Aquele que lhes veio dizer que, pensando-se justos, estavam (ou estão) longíssimo de Deus.
Mas há outros motivos importantes. O facto de Cristo se ter apresentado à sociedade que o rodeava como o Messias redentor, há tanto esperado, sobrepôe-se a qualquer dúvida exegética. E tendo sido rejeitado como tal pelo Judaísmo, não se pode esperar dele senão descrença perante os factos que indiciam a natureza divina de Jesus. Por outro lado, a visão de Deus herdada da vida e Palavra de Cristo é tão radicalmente diferente da visão judaica, que não se poderia esperar nem exigir uma identificação fraternal.
Talvez ninguém tenha uma visão tão clara dessa diferença fundamental como aqueles que evoluíram duma matriz judaica, mais ou menos religiosa, para o cristianismo. Dou como exemplo alguém que comecei há pouco a conhecer, alguém cujos escritos me tem andado a maravilhar e também a perturbar, pela estranha sensação de uma inesperada afinidade espiritual. Falo da Simone Weil que escreveu uma coisa assim:
“Tucídides escreveu «Cremos, por tradição, no que respeita aos deuses, e vemos, por experiência, no que respeita aos homens que, constantemente, por uma necessidade natural, qualquer ser exerce todo o poder de que dispõe». Do mesmo modo, como o gás, a alma tende a ocupar totalidade do espaço que é lhe é concedido. Um gás que encolhesse e que abandonasse o vazio, seria contrário à lei (natural) da entropia. E é isso mesmo o que se passa com o Deus dos cristãos. É um Deus sobrenatural enquanto Jeová é um Deus natural.”
E outra coisa ainda:
“A enorme grandeza do cristianismo reside no facto de não procurar um remédio sobrenatural contra o sofrimento, mas sim uma prática sobrenatural do sofrimento.”
Apesar destas citações, ambas d´A Gravidade e a Graça (ed.Relógio d´Água), estarem intimamente ligadas com a natureza profunda da Páscoa e com o significado imanente da paixão de Cristo, estou talvez a desviar-me do assunto. Coloquei-as contudo para salientar que isto, que penso ser o núcleo central da Fé cristã, todo ele contido na Páscoa, ser algo difícil de apreender, de concordar, não só por judeus como até mesmo por muitos cristãos, que necessitam do milagre para acreditar Nele. Mas, mais uma vez, adiante.
Dizendo de antemão que compreendo a posição do Nuno, vou analisar um pouco em mais detalhe algumas coisas que ele refere no seu excelente post:
«O relato cristão da história pascal é bem conhecido de todos, no entanto, as narrativas tradicionais da Paixão de Cristo e da Páscoa cristã – descritas pelos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João – são hoje postos em causa por historiadores e académicos, que descrevem os textos sagrados cristãos primariamente como doutrinários e não históricos, contendo entre si inúmeras contradições e inconsistências. Mesmo assim, eles são muitas vezes a única fonte directa de informação. Na verdade, os evangelhos, canonizados como parte integrante da Bíblia cristã no século IV, seriam escritos apenas no século II, cerca de 100 anos decorridos sobre a morte de Jesus – numa altura em que o cristianismo primitivo se debatia com intensas discussões doutrinárias e uma vontade crescente de emancipação em relação ao judaísmo.»
Após o que o Nuno enuncia uma série de implausibilades históricas que ele consideram existir na narrativa da Páscoa cristã, a saber: a libertação de Barrabás, incoerente com as práticas dos exércitos romanos; o “lavar de mãos” de Pilatos, inverosímil face ao carácter brutal do personagem e branqueador do autoritarismo romano; e, inevitavelmente, a improvável iniciativa do Sinédrio para a crucificação de Jesus dado esta ser uma típica pena romana aplicada a crimes de insubordinação política como o seria o facto de Jesus se intitular rei dos Judeus.
O Nuno vai certamente desculpar-me mas o meu espírito dialético, mais do que os meus pruridos de crente, impelem-me a contestar muito do que ele escreve.
Vou falar primeiro da questão, nada irrelevante, da exegese dos textos cristãos primordiais, se são históricos ou doutrinais, se foram efectivamente escritos por aqueles a quem são atribuídos, no fundo se contam aquilo que se passou ou aquilo que os cristãos queriam que se tivesse passado...
Devo dizer que esta questão do valor histórico das escrituras sagradas é uma questão transversal a todas as religiões. Terá sido mesmo Moisés que escreveu toda a Torah, mesmo o Deuteronómio, misteriosamente descoberto durante umas obras no Templo de Salomão? E o que terá acontecido à suprema Escritura, o Decálogo, escrito directamente por Deus, guardado na Arca da Aliança, no Tabernáculo e depois no Templo, no Santo dos Santos, dele obscuramente desaparecida, segundo dizem nos reinados de Manassés ou Amon? E se as escrituras judaicas resultaram da fixação por escrito duma sólida tradição oral, séculos após os factos relatados, porque não admitir que algo tão fortemente marcante como a vida pública de Jesus o foi para os seus seguidores não pudesse igualmente ser fielmente passada a escrito por devotos posteriores? Por outro lado, sendo certo que surgem omissões e contradições nos 4 evangelhos, ainda mais certo é que no essencial, como o é a narrativa do período da paixão de Cristo os relatos são assinalavelmente concordantes, mesmo quanto à cena de Barrabás referida por não apenas por Mateus mas por todos os quatro evangelistas!
Quanto à pena de crucificação dada a Jesus, sendo certo que era um castigo eminentemente romano, parece-me incorrecto concluír que foi um castigo a um delito de insubordinação política a Jesus, aquele que dizia “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”! Aliás, se recordarmos bem, nessa altura a Judéia era um protectorado romano, cujo estatuto permitia e até favorecia a existência de reis colaboracionistas. Recordemos Herodes o Grande, rei da Judeia por ter casado com uma descendente dos Asmoneus, reconstrutor do Templo, pai e avô de reis e tetrarcas de dinastia herodiana, amigo e colaborador dos romanos. Aliás se ser judeu e rei de judeus fosse delito político, o patético Herodes Antipas teria também morrido na cruz e não na ignomínia...
Termino estas minudências citando um autor, injustamente esquecido mas referido pelo Nuno: o historiador judeu romanizado, Flávio Josefo, contemporâneo de Vespasiano e da destruição de Jerusalém. Foi sua a grandiosa obra Antiguidades Judaicas, que introduziu ao universo latino e cristão o Antigo Testamento. Durante séculos em muitos lares cristãos existiu um exemplar deste livro, a ponto de o chamarem de 5ºEvangelho. Hoje, sinal da descristianização do século, já quase ninguém se lembra dele. Nesse livro, num capítulo dedicado aos tempos do imperador Tibério, surge uma breve passagem sobre Jesus, passagem que foi conhecida pelo nome de testimonium Flavianum: «Foi nessa época que surgiu Jesus, homem sábio, se é que se deve chamá-lo de homem. Pois era um fazedor de milagres e mestre dos homens que recebem com alegria a verdade. Atraiu para si muitos judeus e muitos gregos. Era Cristo. E quando, sob a crucificação, aqueles que primeiro o tinham adorado não deixaram de fazê-lo pois ele apareceu três dias depois, ressuscitado. Tal como os profetas divinos tinham anunciado junto a mil outras maravilhas a seu respeito. E o grupo que recebeu o seu nome – os cristãos – ainda não desapareceu» (AJ, XVIII, 63-64).
É certo que esta passagem foi denunciada por Voltaire como uma interpolação fraudulenta. Hoje acredita-se mais que é uma passagem original, com algumas observações escritas na margem por algum pio leitor cristão do séc.IV (cit.Mireille Hadas-Lebel).
Mas chega. Lendo o que escrevi acima, parece-me um árido e adversativo exercício de erudição de alamanaque. Pensando bem a narrativa da Páscoa de Cristo vale por si própria. Tem uma beleza inefável que transcende o humano. É uma beleza apenas possível em Deus e com Deus. A sua verdade advém da sua impossibilidade, na medida em que até aí nunca se pensou ser possível um Deus assim.
E digo aos meus irmãos judeus não que acreditem mas que se desinquietem. Jesus foi condenado e morto não por romanos e judeus mas por homens como nós. Quem tem a certeza de que não teria ido na multidão, de que não teria rasgado as suas vestes, que lhes atire a primeira pedra. E se os homens se conhecessem a si próprios nenhuma pedra teria saído do chão.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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segunda-feira, abril 4

 

João Paulo II

Quando frequentava a faculdade, um professor perguntou-nos se tínhamos alguma ideia sobre qual era o país com a mais poderosa máquina diplomática. A resposta de alguns foi imediata: "Os Estados Unidos" ou "A União Soviética". Com o professor a negar essas respostas, arrisquei: "O Vaticano". O professor concordou e acrescentou "Não se elege um Papa polaco por acaso". Não sei até que ponto aquele professor tinha razão, mas hoje, pensando no que foi o pontificado de João Paulo segundo, percebo que foi um período de tempo em que a Igreja Católica conseguiu induzir algumas mudanças no mundo e tentou acompanhar outras.
Durante os últimos vinte e cinco anos as comunidades católicas por todo o mundo ficaram marcadas pela figura de João Paulo II. Ciclicamente, aquele polaco de sorriso sereno surgia numa visita a algum país do mundo; era saudado por milhares de crentes e o seu rosto tornou-se familiar. Se foi um Papa conservador, ou se a Igreja Católica podia ter feito mudanças mais profundas no seu interior, isso é um debate que deixo para os católicos.
Para mim a imagem de Karol Wojtyla será sempre a do homem que abriu as portas da Igreja Católica ao diálogo inter-religioso. Creio que tudo começou com a célebre Jornada de Oração pela Paz, em Assis, em Outubro de 1986, quando vários lideres religiosos foram convidados para uma sessão de orações pela paz. Para um baha’i o acto era perfeitamente natural; Bahá'u'lláh afirmara: "Associai-vos com os seguidores de todas as religiões num espírito de amizade e fraternidade". Mas por ter sido uma iniciativa da Igreja Católica liderada por João Paulo II, e intensamente acompanhada pelos media, assumiu uma dimensão tremenda.


Lideres Religiosos em Assis, Outubro de 1986


Desde então o diálogo inter-religioso tornou-se uma prática corrente e perfeitamente aceitável para a grande maioria dos católicos. Os contactos e encontros entre cristãos, judeus, muçulmanos, baha'is, hindus, budistas e tantos outros sucederam-se um pouco por todo o mundo. Hoje para qualquer pessoa com um pouco de senso comum, o diálogo inter-religioso é o algo tão indispensável à construção da nossa Aldeia Global como o diálogo entre pessoas de diferentes culturas ou de diferentes etnias.
O mundo católico acaba, pois, de perder um homem fora do vulgar. Como baha'i, e observador do fenómeno religioso, deixo aqui a minha homenagem a essa figura tão marcante da Igreja. Faço votos para que o seu sucessor possa prosseguir o seu trabalho e, com a ajuda de Deus, consiga ainda melhores resultados.

Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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Revolução Personalista 6

«Não tenhais medo! Abri as portas a Cristo! Ao seu poder salvador, abri as fronteiras dos estados, os sistemas económicos e políticos, os imensos domínios da cultura, da civilização, do desenvolvimento. Hoje, muitas vezes, o homem não sabe o que leva dentro de si, na profundeza da sua alma, do seu coração. Muitas vezes é incerto o sentido da sua vida nesta terra. É invadido pela dúvida que se transforma em desespero. Permiti, portanto – peço-vos, imploro-vos com humildade e confiança – permiti a Cristo que fale ao homem.»
(João Paulo II, discurso do início do pontificado, 22 de Outubro de 1978)

Tinha previsto para hoje um último comentário ao texto de “O Personalismo” de Emmanuel Mounier. A morte do Papa João Paulo II é motivo mais que suficiente para alteração de agenda. Apesar disso, por agora não vou fazer balanços do pontificado do único papa que conheci.
Antes de ocupar o lugar de bispo de Roma e mesmo antes de ser arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, foi um dos filósofos que bebeu das reflexões sobre a pessoa que tiveram em Mounier o seu principal dinamizador. Reproduzi acima o discurso do início de pontificado de João Paulo II. Procurei-o quando soube do irreversível agravamento da saúde do papa, mas só agora o descobri. Fica o agradecimento ao “Público” e ao António Marujo pelo dossier distribuído na edição de ontem do jornal. Esse curto e célebre discurso contém pelo menos três elementos que merecem referência.

O primeiro é o seu tom. “Não tenhais medo!” -- “Non dobiamo haber paura!” foram palavras que ecoaram alto após a eleição do primeiro papa polaco, em tempos temerários e incertos. Exprimem muito bem a ideia de Mounier de que a acção humana deve ter coragem, deve ser marcada pela força vital que habita cada pessoa: «O ser pessoal é um ser feito para se ultrapassar. Tal como a bicicleta ou o avião só se equilibram quando se movem para lá de uma determinada velocidade, o homem só se mantém de pé com um mínimo de força ascensional».

“Hoje, muitas vezes, o homem não sabe o que leva dentro de si, na profundeza da sua alma, do seu coração.” Era também essa a convicção de Mounier: a reflexão filosófica a partir da pessoa estava por fazer. O Personalismo foi justamente chamado de filosofia da pessoa, não só para lhe retirar o “ismo” impróprio a um pensamento que não pretendia ser fechado e acabado, mas sobretudo para lhe reconhecer o seu principal mérito: num momento em que Marx pensava o homem enquanto elemento da máquina produtiva e enquanto motor da luta de classes, num momento em que Sartre encontrava o inferno no confronto das liberdades das pessoas, num momento em que Freud explicava o comportamento humano pelo nosso maquiavélico subconsciente, Mounier e os colaboradores da Esprit não lhes viraram as costas. Entraram em diálogo e procuraram aprofundar a reflexão sobre a pessoa, sem ignorar o contributo desses filósofos. E fazendo-o pensaram os problemas do mundo moderno com o horizonte de um mundo mais humano, onde a própria organização da sociedade estivesse mais de acordo com a nossa natureza. Daí o título escolhido de “Revolução Personalista e Comunitária” – a sua reflexão filosófica era a reflexão de gente comprometida, de gente que percebia que o seu mundo estava em transformação e necessitava de transformação. Para essa transformação traçam um objectivo claro: uma sociedade onde a pessoa se possa realizar mais plenamente, não de forma individualista, mas de forma comunitária. A noção da natureza aberta da pessoa leva os personalistas a louvar os valores da comunidade, enquanto espaço de partilha da liberdade entre as pessoas. O grito usado vinte anos mais tarde pelo novo papa João Paulo II sintetiza bem o objectivo que orientou Mounier: descobrir a imensidade que o homem “leva dentro de si”. É a partir daí que sintetiza e fundamenta o pensamento do movimento personalista. Servem-lhe de base para a crítica social e política as características do “universo pessoal”, o “não-inventariavel” que constitui cada um de nós, o movimento de realização e transcendência característico do “ímpeto pessoal”.

Outro ponto de contacto entre o livro de Mounier e este discurso, espelho da actuação de João Paulo II, exprime-se na interpelação: “abri as fronteiras dos estados, os sistemas económicos e políticos, os imensos domínios da cultura, da civilização, do desenvolvimento”. Este papa, tendo contribuído para o derrube dos regimes comunistas, nunca se acomodou às injustiças do sistema capitalista e da (des)ordem internacional. A sua crítica à situação mundial, às injustiças globais, às “estruturas de pecado” fez-se ouvir nos inúmeros discursos e tomadas de posição. Essa atitude não é meramente ideológica – João Paulo II esclareceu que a Doutrina Social da Igreja não é uma ideologia, tipo terceira via entre comunismo e capitalismo. Ela assenta antes numa ideia de fundo que se podia exprimir simplesmente pela recusa do discurso do “fim da história”. A natureza humana, continuamente incompleta e em busca de perfeição, colocará sempre questões novas e exigirá respostas mais adequadas à organização política, ao pensamento filosófico, à cultura construída. O Reino de Deus começa neste mundo – não é admissível que decretemos o fim da história quando tantos continuam à margem dela. Por isso mesmo a Igreja afirmou que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. Foi também isso que a Esprit exprimiu, anos antes do Concílio na exigência de compromisso que colocou aos cristãos e não-cristãos que nela colaboravam. Compromisso com as pessoas – com todas as pessoas –, e compromisso com a pessoa – com a totalidade da pessoa, com as suas misteriosas e inúmeras dimensões.

Finalmente, o derradeiro encontro entre as minhas leituras de Mounier e João Paulo II tornou-se claro para mim nestes últimos dias de sofrimento do papa e exprime-se na frase com que Mounier termina o seu livro: “quando já nada nos restar, resta-nos testemunhar”.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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