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quarta-feira, março 9

 

Terapia e depressão. Depressão.

E assim fica a faltar a terapia.

Para quem procura uma caracterização sociológica da sociedade contemporânea, este livro de Lodge – Terapia, Gradiva, Lisboa, 2004 – tem uma vantagem, pois alarga o leque de visão social, habitualmente preso às imagens fornecidas por uma certa contra-cultura e que passam pelas vivências do desespero, do sem sentido, das experiências limites, ou pela imagens fornecidas pela corrente principal, Hollywood, da vivência do amor ou da violência. Por isso, se habitualmente somos confrontados com a vivência da marginalidade, nas diversas manifestações, legítimas e ilegítimas, com a vivência dos poderosos, nas diversas manifestações, legítimas e ilegítimas, temos neste livro, como de resto, no Notícias do Paraíso, do mesmo autor, a atenção centrada naquilo que poderíamos designar como “classe média contemporânea”. Se por aqui, surge uma primeira virtude, e uma virtude sociológica, o livro ao sofrer a inspiração de Kierkegaard, – fartamente citado, ao longo das páginas –, passa pela temática da melancolia e da depressão.
A depressão surge na Terapia pelo desajuste daquilo que o protagonista gostaria de ser e aquilo que efectivamente é. Bolinhas, guionista – autor da série televisiva Vizinhos do Lado –, gostaria de ser outro. Por exemplo, gostaria de ter outro corpo, de não ser gordo. Gostaria de ter outra vida. Se vive casado e com um casamento sem problemas, ainda assim deseja o adultério. Quando não é capaz de realizá-lo, não consegue deixar de andar nas suas margens e de manter um adultério platónico com uma colega de trabalho.
Profissionalmente, a sua vida corre sem sobressaltos e Bolinhas aprecia a larga audiência da sua série. Se não enjeita o sucesso monetário que daí advém, não é capaz de conviver de modo pacífico com ele, pois isso, para ele, colide com os seus desejos de justiça social. E se isso o leva a contribuir com dinheiro para diversas instituições de solidariedade social, não só o dinheiro que oferece não o apazigua, como nunca dá o dinheiro que sabe que poderia dar.
Esta clivagem entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser pode ser traduzida na obra de outros e múltiplos modos. Por exemplo, na relação que estabelece com os colegas de trabalho; por exemplo, com os médicos e terapeutas que lhe tratam as mazelas, com os vizinhos, com os filhos.
Mas a esta clivagem é somada na Terapia uma segunda. Esta parece advir do que poderíamos designar por afectação de globalidade. Bolinhas vive mal a situação de sucesso financeiro porque compara a sua situação não com a dos vizinhos, mas com a dos pobres em África. Bolinhas vive mal a situação da sua doença no joelho, porque compara a sua doença com os que sofrem de Sida. Isto é, Bolinhas não vive apenas a clivagem entre o que é e o que gostaria de ser, mas também a clivagem entre aquilo que os outros são e aquilo que ele gostaria que fossem.
Como é óbvio, este desejo não pode realizar-se. Pelo menos no tempo de vida da personagem. Está, de facto, longe a realização daquilo que quer para os outros. Do mesmo modo, parece longe o que quer para si. Não consegue ser alto e moreno, atlético e adúltero.
Assim, soma duas doses e vive num regime de grande frustração. Por isso, tem dificuldade em lidar com pequenas frustrações. Ao ponto, de qualquer pequena frustração fazer com que o seu copo transborde. Para fora, explodindo em súbitos ataques de raiva. Para dentro, adensando o seu estado depressivo.
Pela Terapia, podemos dizer que a depressão passa pela clivagem entre um é e um deveria ser. Mas dizer isto, não basta. Para Lodge, como para o seu Kierkegaard, a depressão não é apenas fruto desta clivagem. É também fruto de uma inconsciência. Ora isto, como é óbvio, é um tema difícil. A começar porque parece solicitar alguma contradição. De facto, muito do que deprime Bolinhas é consciente. Bolinhas tem consciência do que é e do que gostaria de ser. Tem consciência que não é realizável o que permitiria atravessar o fosso. Ainda assim, não é capaz de se libertar da doença.

Fernando Macedo [A BORDO]

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