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segunda-feira, março 21

 

Revolução Personalista 5 – da transcendência

Este é já o quinto texto (e meio) que escrevo, sobre as ideias lançadas há mais de cinquenta anos por Emmanuel Mounier e pela revista Esprit, condensadas num pequeno livro intitulado "O Personalismo". Para finalmente terminar este conjunto, deixo mais um pedaço da reflexão de Mounier, seguida de uma espécie de conclusão e comentário meus, de valor seguramente inferior ao muito que citei nos últimos textos.
Comecemos por mais uma reflexão acerca da pessoa e do universo pessoal. Desta feita, Mounier fala da "Eminente Dignidade" da pessoa, dando um passo para a discussão sobre a transcendência. Começa com a pergunta "Haverá uma realidade para além das pessoas?". Ele acha que sim, e é sobre essa transcendência da pessoa que começa por falar, não sem antes advertir:
«Sempre que pensamos a transcendência, temos que nos proteger contra representações espaciais. Uma realidade a qualquer outra transcendente não é uma realidade separada e como que sobre ela pairando, mas uma realidade superior em qualidade em qualidade de ser, que não pode ser atingida por outra em contínuo movimento, sem um salto dialético ou de expressão. Sendo as relações espirituais relações de intimidade na distinção e não de exterioridade na justaposição, a relação de transcendência não implica forçosamente a presença da realidade transcendente no centro da realidade transcendida. Deus, diz Santo Agostinho, é-me mais íntimo do que a própria intimidade.»

De seguida analisa as manifestações desse impulso da pessoa para se ultrapassar, para se transcender:
«No mesmo acto em que me afirmo, verifico que os meus mais profundos actos, as minhas mais elevadas criações, surgem em mim como nada tendo a ver com a minha vontade. Sou aspirado para os outros. (...)
Não confundamos este ultrapassar do próprio ser com a agitação do ímpeto vital: o ímpeto vital mais não nos leva do que a ele próprio; é paixão pela vida a qualquer preço, mesmo ao preço dos valores que lhe dariam sentido. Aceitar o sofrimento e a morte para não trair a condição humana – ir do sacrifício ao heroísmo – é, pelo contrário, o acto supremo da pessoa. Começa, como escreve Gabriel Marcel, no momento em que assumo consciência de que "sou mais do que a minha vida". Este é o seu paradoxo: não se encontra (no plano pessoal) senão quando se perde (no plano biológico). "Gosto, diz Nietzsche, das pessoas que se não pretendem conservar, e é com todo o meu coração que amo os que soçobram, porque passaram para o outro lado". (...)
A aspiração transcendente da pessoa não é agitação, mas negação de nós próprios como mundo fechado, suficiente, isolado sobre o seu próprio brotar. A pessoa não é o ser, é movimento do ser para o ser (...). Esta riqueza íntima do meu ser confere-lhe uma continuidade, não de repetição, mas de super-abundância. A pessoa é o "não inventariável". Sem cessar a experimento como algo que me ultrapassa. O pudor diz-nos: o meu corpo é mais do que o meu corpo; a timidez: sou mais do que os meus gestos e palavras; a ironia: a ideia é mais do que a ideia. (...) O homem é movimento para ir sempre mais longe. O ser pessoal é generosidade. Por isso, funda-se numa ordem inversa da da adaptação e da segurança.
»

Depois destas e mais considerações e reflexões sobre a misteriosa natureza humana e o seu gosto pelos abismos, Mounier pergunta pela direcção desse movimento de transcendência:
«Esta permanente agitação do ser pessoal tem alguma orientação? (...) O ser pessoal é um ser feito para se ultrapassar. Tal como a bicicleta ou o avião só se equilibram quando se movem para lá de uma determinada velocidade, o homem só se mantém de pé com um mínimo de força ascensional. (...)
Qual é o termo deste movimento de transcendência? (...) Vários pensadores contemporâneos falam dos "valores" como se estes fossem realidades absolutas, independentes das suas relações, e conhecidas a priori. Mas os personalistas não podem, com inteiro à-vontade, entregar a pessoa a semelhantes impessoais; por isso, a maior parte destes procuram personalizá-los de alguma maneira. O personalismo cristão vai até ao fim: todos os valores se agrupam para ele debaixo do apelo singular de uma Pessoa suprema.
»

Chegado a este ponto, pouco mais haveria a acrescentar ao que me traz aqui hoje. Porém, um última nota parece-me importante, para os cépticos que possam ter tido paciência de chegar a este ponto do texto:
«Podem ser pedidas provas de transcendência, do valor dos valores. Pertencendo ao universo da liberdade, a transcendência não é objecto de provas. A sua certeza surge na plenitude da vida pessoal e esbate-se quando esta declina.»

Deveria começar agora um comentário mais geral a "O Personalismo". Não vou ainda conseguir fazê-lo, pelo que fica para a próxima. Deixo sim um pequeno excerto do mesmo capítulo dos anteriores, que me parece especialmente pertinente para algumas discussões que se avizinham:
«O respeito pela pessoa humana só secundariamente é respeito pela vida; o respeito pela vida pode não ultrapassar um instintivo gosto de viver; recusarmos matar para iludir a repugnância que a ideia da nossa própria morte nos causaria. Querer viver por qualquer preço é aceitar viver, no futuro, pelo preço das razões da vida. Não existimos definitivamente senão no momento em que constituímos um círculo interior de valores ou de dedicações, acerca dos quais sabemos que mesmo a ameaça da morte nada conseguiria contra eles.»

Os meus votos de boa Páscoa.

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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