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quarta-feira, março 23

 

Páscoa

Badajoz. Alguns prisioneiros seguem em fila, escoltados por homens em uniforme. Sabem que não os espera mais do que algumas horas de vida. O fuzilamento numas colinas dos arredores é o seu destino.
Seguem sob o olhar curioso dos populares excitados perante a proximidade do sangue. Alguns deles tinham combatido alguns dias antes ao lado de alguns daqueles que agora vão ser fuzilados. São os mais ferozes. Gritam impropérios contra os que agora vão ser fuzilados.
Vem também gente do outro lado da fronteira, de Portugal, assistir aos fuzilamentos. Em excursões. Quem vê as barbas do vizinho a arder põe as suas de molho. Era com o prazer que dá o alívio que iam ver a execução de quem andava a incendiar os espíritos. E o espírito sedento de justiça atravessa ainda mais facilmente uma fronteira que um incêndio verdadeiro.

Numa dessas excursões, os anfitriões espanhóis cederam uns lugares especiais aos convidados portugueses para que pudessem apreciar todos os pormenores das execuções. Aconteceu que os homens que iam ser fuzilados pararam por uns instantes em frente aos convidados portugueses.
Um desses homens percebeu que estavam ali estrangeiros para assistir à sua morte. Olhou alguns deles nos olhos e perguntou-lhes "Sois portugueses, verdade?" Alguns responderam que sim. "É um grande espectáculo assistir à morte de um homem, verdade?" perguntou-lhes o condenado.
Alguns dos espectadores sentiram um arrepio que lhes provocou vergonha. Outros sentiram o mesmo arrepio mas este apenas lhes provocou ainda mais ódio, um ódio intenso e irracional. Aquele homem interpelando-os era a prova factual de algo que lhes era insuportável. Acabando com aquele homem talvez a verdade deixasse de ser verdade uma vez que desapareciam as provas da sua realidade.
Mas, todos eles, passadas algumas décadas, ainda recordavam o rosto e a expressão daquele homem ao dirigir-lhes aquelas últimas palavras. Todos eles recordavam as suas palavras.

(este post é baseado numa história real que o Marco aqui nos contou em 31 de Maio do ano passado e que me impressionou particularmente).

Timshel [TIMSHEL]

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