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segunda-feira, março 7

 

Perder para Encontrar – aprendendo com a Sagrada Família

“Recebi” este texto dos meus pais
Reescrevo-o, agradecendo ao perplexo José a sua última passagem sobre a Terra.


Desde há algum tempo, que a passagem da perda e do encontro do menino Jesus no templo tem para mim um significado bastante importante. O impacto que esta passagem teve na minha história pessoal, ajudou-me a compreender melhor aquele que julgo ser o seu significado mais profundo.
Mas comecemos pelo princípio…
Os doze anos são, na cultura de Jesus, a idade em que o homem assume, por si mesmo, a sua fé. Aproveitando este dado Lucas coloca Jesus a afirmar, pela primeira vez, a sua opção de fundo, a finalidade que há-de orientar toda a sua vida: as coisas do Pai. Esta opção de fundo é a que permite olhar para a vida de Jesus como um todo, lendo cada uma das suas acções à luz desta opção.
Como bem salienta Macintyre, a modernidade fragmenta a vida humana numa multiplicidade de segmentos. Cada um destes segmentos assume-se como um compartimento estanque, com normas e comportamentos distintos. Aos diferentes papéis sociais de uma mesma pessoa quase parecem corresponder diferentes personalidades. É inquietante apercebermo-nos como as opções profissionais ou de um curso universitário estão tantas vezes dissociadas dos valores que, privadamente, esta ou aquela pessoa diz defender, estão dissociadas de uma opção de fundo, de uma finalidade que informe cada uma das suas escolhas. É assim colocada em causa a ideia da busca de um bem que dê à nossa narrativa a inteligibilidade de que necessita, um sentido que a torne viável.
Esta passagem pode ainda iluminar o modo como olhamos para a relação entre pais e filhos. Ela pode significar para os pais um convite a renunciar à sua vontade, às expectativas que colocam nos filhos. Maria e José vêem-se confrontados com a necessidade de renunciar às expectativas relativas ao futuro do seu filho. Naturalmente que isto implica dor e perda. Mas, tanto quanto sou capaz de perceber, a maior aprendizagem a que um pai e uma mãe são chamados passa por aprender a “perder” os filhos
Esta exigência implica que tantos os pais, como os filhos, aceitem a unicidade uns dos outros e das suas narrativas pessoais e intransmissíveis. Isto exige, sobretudo da parte dos pais, a renúncia a qualquer tentação de posse ou manipulação. Implica que, a partir de um dado momento, os pais deixem os filhos partir, seguindo o seu caminho. Esta separação, esta perda, só poderá ser verdadeiramente fértil (conduzir à felicidade) se estiver ancorada na experiência primordial de se ser amado. Só assim os filhos poderão sentir a sede de futuro e a vontade de partir. Sem medo de ficarem sozinhos ou da sua escolha não ser acalentada e acompanhada
Parece-me que, juntamente com a fragmentação a que já me referi, é talvez a excessiva dependência mútua entre pais e filhos que torna tão difícil a possibilidade duma opção de fundo que dê sentido à vida como um todo.
Há hoje uma enorme dificuldade em educar para o futuro. Isto significa que não é fácil ajudar a encontrar uma finalidade a partir da qual possamos questionar cada uma das nossas escolhas, a partir da qual de se possa dar inelegibilidade à nossa narrativa. Uma finalidade para a qual estejamos dispostos a orientar toda a nossa vida. Naturalmente que uma tal escolha implica despojamento e abnegação, mas também é verdade que este esvaziamento nos enche de espaço para a felicidade.
Tal como no caso de Jesus, estas opções trazem, sempre a marca da tradição em que nos inserimos. A opção de Jesus pelo Pai aprofunda o sentido de toda a história do povo Judeu. Do mesmo modo, cada uma das nossas narrativas é também herdeira da história dos nossos pais e avós. Só assumindo esse passado podemos lançar-nos no futuro. Contudo, só seremos fiéis a nós próprios se esse passado for assumido e integrado na nossa vida não como um peso, mas acima de tudo como um testemunho e uma experiência de Amor que se renova em cada nova vida.
É pela forma como acompanham o seu filho e o deixam seguir o Seu caminho, que Maria e José lhe abrem as portas do futuro e o preparam para dar a vida pelas coisas do Pai.
Será fácil ser pai e ser mãe assim?


José Maria Brito, sj

Declaração de interesses: a vida para a qual fui escolhido e que escolhi implica que não seja pai… mesmo que faça experiências profundas de paternidade.

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