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quarta-feira, março 16

 

Magnolia, ou a sagrada família (2ª parte)

Ora vejamos se não perdi o fio à meada, tal como a deixei há duas semanas. Estava eu a falar da família e desse filme que nos fala dela de forma tão eloquente. Da forma como os pais criam sequelas nos filhos, sem pensar o quanto necessitam eles do amor desses filhos. Da forma como esse amor, de filhos para pais, de pais para filhos, por muito soterrado que esteja em camadas de egoísmo, violência, indiferença, abandono, esse amor continua lá à espera de uma ocasião para voltar a florescer, para voltar a ser origem de felicidade. A não ser, claro está, que algo de irremediável tenha acontecido, algo que tenha ido colidir e destruír a relação inata, imanente, permanente, que há entre pais e filhos. E como dizia o sábio quiz kid do filme, these things happen, infelizmente, digo eu.
Mas saiamos de vez do universo do Magnolia e passemos a outra coisa: tentemos reflectir sobre o amor no seio das famílias, a sua origem, a sua manifestação. Sobre como surge e como desaparece, sobre como se pode manter ou perder, sobre porque é ele tão importante para a sustentabilidade das famílias e, por isso mesmo, tão importante para o equilíbrio das sociedades humanas.
Eu diria em primeiro lugar, como La Palisse, que o amor no seio de uma família é, em maior ou menor grau mas inevitavelmente, o resultado de dois amores: o amor existente entre marido e mulher e o amor existente entre pais e filhos. São obviamente tipos diferentes de amor, na sua origem, na sua sustentabilidade. Mas são ambos amores cuja natureza evolui com o tempo, com as circunstâncias, são ambos amores de que se tem de cuidar.
O amor dos pais para filhos é fácil de perceber. Provém de conceitos profundos e remotos: de consubstancialidade, de imagem e semelhança, da sensação difusa mas forte de que a simples geração dos filhos eleva a nossa condição humana. O nascimento dum filho induz uma sensação única de beatitude e elevação, apesar do cagaço permanente que lhe é o justo contraponto. E essa sensação perdura no tempo, mesmo que sob a forma duma recordação que quer sempre regressar a ser presente. Para os crentes, a novel condição de pais fá-los entender melhor a sua condição de filhos, não só dos seus próprios pais mas também de Deus. Já disse por aqui que eu só consegui entender Deus como Pai, só entendi o Amor paternal de Deus pela Sua Criação, apenas depois de ter sido eu mesmo pai. Tal como o Amor de Deus o é, o amor dos pais pelos filhos é, na sua essência, incondicional e permanente. Eu sei que às vezes não parece sê-lo, mesmo aos olhos dos próprios filhos, mas é-o, definitivamente.
Já o amor dos filhos pelos pais não é tão linear, como não o é o nosso amor por Deus. O amor dos filhos tem também uma componente atávica, decorrente da protecção, do cuidado recebidos logo após as primeiras horas, sobretudo pela mãe mas também pelo pai. Mas o amor dos filhos é um amor por alguém que os amou primeiro. Tal como o nosso amor a Deus. E do mesmo modo, necessita de sinais sensíveis desse amor. O amor dos filhos é uma resposta, uma gratidão. É algo que, sendo plantado, será sempre colhido. Mesmo mais tarde, em períodos de libertação afectiva, de afirmação e independência, é possível e desejável eles não perderem nunca de vista o amor que os pais tem por eles e que eles tem pelos pais. Mas para isso, e como já referi, não basta esse amor existir: tem de ser manifestado, sentido, vivido.

Vou deter-me um bocadinho mais por aqui. Ao escrever estas linhas ocorreu-me uma coisa que será certamente discutível mas que faz sentido para mim. Ocorreu-me que talvez a primeira experiência religiosa duma pessoa seja o sentimento que um bébé tem pelos seus pais. Ainda lhes distingue mal as feições mas já lhes sorri. Já tem uma certeza esperançada de ser amado. Já sente que é a eles que pede, que são eles que lhe dão, que eles são a sua providência. E, num reflexo da vontade inata de querer que as coisas sejam boas e façam sentido, o bébé ama os seus pais da mesma forma como nós amamos Deus. Direi mesmo mais: o bébé tem fé nos seus pais, uma fé algo parecida com a que temos em Deus. E eu acredito mesmo que é essa fé que uma criança vai tendo nos seus pais que vai ser o maior sustentáculo do amor perene dum filho pelos pais. Reparem que digo fé e não confiança. Fé é algo mais muito mais profundo, é acreditar sem se ver, sem ter provas mas apenas esperança.
Parece que já os ouço a dizerem que este bacôco que vos escreve deve pensar ser uma espécie de Daniel Sampaio em versão mística. Nada disso. O que acontece é que, tal como o beato Francisco (o Louçã, não o de Fátima!) este que vos escreve já teve nos braços dois bébés, carne da minha carne, e já contemplou o esplendor do seu sorriso. E, naturalmente, como todos os pais, nessas alturas também me senti um deus para os meus filhos. E senti que eles me olhavam exactamente como a um deus. Nunca o esquecerei. Mas deixemo-nos de baboseiras e passemos adiante.
Continuemos ainda no campo do que é desejável existir numa família. Ou daquilo que existindo sempre, deve ser manifestado, oferecido. Agora não já sobre o amor entre pais e filhos mas sobre um amor muito mais complicado, o amor entre os pais, o amor entre marido e mulher. Um amor que nasce entre duas pessoas mas que tem de se diluir pelas pessoas que entretanto surgiram dele. Um amor que nasce num determinado contexto mas que, em havendo casamento e filhos, desemboca fatalmente noutro, completamente diverso. Um amor que, decididamente, não é atávico. Um amor onde a fé e a esperança tem um papel muitíssimo menor. Um amor cuja desagregação é tão fácil mas tem consequências tão grandes para os que esse amor gerou. Um amor que, como disse um dia o Timshel, é um exercício da vontade. E que vale bem a pena, deixem-me dizer-vos.
Bom, o assunto é denso e merece ser conversado com calma. Parece-me pois melhor deixá-lo para a semana.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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