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quarta-feira, março 2

 

Magnolia, ou a sagrada família (1ªparte)

Hoje venho aqui a propósito dos posts que o meu amigo Timshel tem publicado aqui na Terra e no seu blogue sobre a Família, a família tradicional, que ele diz poder e dever ser uma fábrica de felicidade. Fiquei com a ideia que esses posts nem foram bem entendidos nem tiveram a projecção que deviam, salvo um interssante post do Lutz. Vou por isso dar também a minha achega sobre um assunto, que entre os assuntos civilizacionais, é sem dúvida o mais importante.
E falando de família não posso deixar de me lembrar do filme que, para mim, é aquele que nos últimos anos melhor falou sobre a família, a que existe e a que pode existrir – estou a falar do
Magnolia, de 1999.
Não sei se lembram deste filme do Paul Thomas Anderson, com o Tom Cruise, a Juliette Moore, o Jason Robards e outros. E com uma fabulosa banda sonora, da Aimee Mann. Eu lembro-me bem do Magnolia. Farto-me até de me lembrar dele, de o rever vezes sem conta, pois é sem dúvida um dos filmes da minha vida. Não sei o que ficaram a pensar desse filme aqueles que o viram. Mas a mim o me ficou a martelar a alma foi uma pergunta simples: o que andamos nós, os pais deste mundo, a fazer dos nossos filhos? O que lhes estamos a dar? Em que é que os estamos a transformar?




Mas isto foi num primeiro momento, num primeiro visionamento deste filme tão complexo. Pois, num segundo momento, o filme dá-nos a perceber que no meio da infelicidade e disfuncionalidade provocada pelas tremendas falhas daqueles pais, a possibilidade do perdão, e portanto do amor, permanece no seio das famílias. Mesmo em situações limite, talvez apenas em situações limite, a redenção da família enquanto fábrica de felicidade, de crescimento humano, é uma real possibilidade. Sempre. Ou melhor, como se verá, quase sempre.
Em vez de lhes contar aqui a intricada narrativa deste filme, recomendo-vos vivamente a compra do DVD. Mas sempre lhes digo que a história gira toda ela à volta dum já velho concurso de televisão, um quiz show para crianças.
Earl Partridge, o proprietário da produtora do concurso (interpretado por Jason Robards) está a morrer dum cancro, já em fase terminal, e procura, através do enfermeiro que o assiste em casa, rever uma última vez o seu filho perdido (Tom Cruise), um arrogante guru duma espécie de círculo de ajuda a machos disfuncionais. Vem-se a perceber que Earl, há já muitos anos, abandonou o lar quando a sua primeira mulher sofria já com o cancro que a matou. E deixou ao filho o enorme peso de velar pela mãe, cuidar dela até à sua morte. E, como sinal da marca profunda que deixou no seu filho, este muda o seu nome para Frank Mackey e envereda por uma vida dominada pela negação do passado e por um profundo, intenso, doloroso e escondido ódio ao pai que não mais quis voltar a ver.
Depois há o Donnie Smith (William H. Macy), ex-génio, ex-estrela do tal quiz show, ganhador dum prémio de 100.000 dólares, roubados pelos seus próprios pais. Hoje é um pobre diabo, vivendo arduamente da fama passada, querendo apenas ser amado.
Depois há o Jimmy Gator (Philip Baker Hall), apresentador há décadas daquele concurso, um icon televisivo, um pulha sem préstimo com uma mulher amantíssima e uma filha – Claudia – que lhe foge horrorizada, mergulhando numa vertigem de droga e amores sem sentido. Descobrindo também que tem cancro, Jimmy procura a filha para lho contar mas esta, ainda assim, repele-o com horror. Horror cuja razão se adivinha mas que só se percebe no fim quando ele confessa à mulher que tinha abusado sexualmente da filha de ambos, durante anos a fio. E que isso foi a causa da brusca saída de Claudia da casa familiar, logo que pôde.
Temos também o jovem Stan Spector, a novíssima estrela do quiz show, um prodígio como Donnie o tinha sido na sua idade. E temos o pai dele: um pobre diabo também, que se convenceu um dia do seu talento e que, na busca duma fama que nunca virá, percorre incessantemente castings e audições para actor, modelo, figurante, whatever! E que nesse afã, apesar de viver apenas dos rendimentos que o filho lhe traz do concurso, falha-lhe permanentemente: leva-o atrasado para a escola, ignora os problemas do filho, pressiona-o indecentemente para continuar a ganhar sempre.
Ora, é nos filhos, nas vidas que levam, nos sofrimentos que sofrem, que vemos as marcas dos erros, das falhas, dos monstruosos egoísmos dos seus pais. Olhamos para Frank, Donnie, Claudia e Stan e vemos neles, no seu rosto, a dôr infinita provocada pelo facto, infelizmente tão banal, de os seus pais lhes terem falhado. E parece que, a ver por Earl e Jimmy, só no supremo momento da iminência da morte, só aí esses pais veem o Mal que fizeram, o Bem que destruíram e procuram então reencontrar os seus filhos e redescobrir o seu amor.
Chego agora a três cenas do filme que ainda hoje me provocam um nó na garganta, um movimento no estômago, um arrepio na espinha.
A primeira é quando Frank, arrastado pelo enfermeiro Phil, chega à cabeceira do seu pai moribundo. Este é um momento em que Tom Cruise foi verdadeiramente um enorme actor. Pois vê-se nele uma raiva inicial, imensa, por ver ali o seu pai que o abandonou a ele e à sua mãe moribunda. A raiva por o encontrar assim, também moribundo, quase inconsciente, sem poder ouvir todo o ódio que ele lhe vinha gritar. E depois, algo verdadeiramente soberbo, espantoso, uma luta titânica entre o ódio que Frank trazia e um começo de compaixão pelo seu pai. No fim, já com o pai morto, percebemos que o amor foi mais forte e que Earl morreu tendo conseguido o perdão do seu filho. O Frank que vemos a seguir já não é nem voltará a ser o mesmo. Já não é Mackey, voltou a ser Partridge. Voltou a ter pai e mãe, ainda que ambos mortos mas redivivos, ambos, no seu coração. Esvaziado do seu ódio, ficou mais humano.
A segunda cena, mais despercebida mas talvez ainda mais comovente, é numa noite em casa do quiz kid Stan Spector. Depois de o seu pai ter permitido que Stan fosse colocado numa situação tremendamente embaraçosa, por simples ganância e grosseira ignorância das necessidades do filho, vemos o pai, na ressaca de mais um dia de corrida insana ou de uma qualquer noitada, deitado no sofá da sala, a dormir. E vemos o filho Stan tentando conversar com ele. A dizer-lhe algo espantoso, sobretudo pela forma como o diz: “Pai, tu tens de me tratar melhor!”. Diz isto sem qualquer ódio ou ressentimento no olhar, apenas com pena do seu pai, mais do que de si próprio. Nos olhos daquele miúdo vemos sem dúvida sofrimento mas, mais no fundo, vemos Amor e Perdão, que no fundo são a mesma coisa.
Na terceira cena já não tem lugar o perdão pois o que Jimmy Gator fez à filha não o merece de todo. Percebendo isso, Jimmy decide suicidar-se, precisamente naquela estranhíssima noite da chuva de sapos, reminiscência das pragas bíblicas, a noite em que tudo o que relatei acontece, a noite em que Deus pôs cada um perante si próprio. Ora precisamente quando Jimmy ia disparar o gatilho, um sapo, caindo não se sabe de onde, mergulha através duma clarabóia sobre Jimmy, fazendo-o falhar o tiro. É antológica a sua expressão, parecendo perceber que Deus o condena a morrer do seu cancro, sózinho e sem perdão. Pois há coisas que os pais não podem fazer aos filhos, há coisas verdadeirmente sem perdão.
Quanto a famílias no Magnolia estamos falados mas tenho de referir ainda duas figuras bíblicas que percorrem o filme. Um é Phil Parma (Philip Seymour Hoffman), o enfermeiro de Earl, a quem dá os cuidados paliativos mas que faz muito mais do que isso, sendo ele que encontra o seu filho e o traz à cabeceira mortuária do pai. O outro é o fabuloso Officer Jim Kurring (John C. Reilly), um polícia da LAPD, um polícia como deve ser, daqueles que podem dizer «we serve and protect». É ele que encontra Claudia e a salva de si própria, daquilo em que o pai a tinha tornado. É ele também que encontra Donnie encalhado num desesperado e atabalhoado assalto e o perdoa, salvando-o também. É nestes dois que vejo ainda mais reforçado o carácter profético deste filme. É nestes dois que revejo uma das bem-aventuranças, aquela de que mais gosto: bem-aventurados sejam os puros de coração pois verão a Deus. E, acrescento eu, vendo-O serão como Ele, agirão como Ele.
Mas chega de Magnolia pois não quero que pensem que sou alguma espécie de crítico de cinema. Apenas falei do filme porque, às vezes, nos filmes parece que ouvimos Deus a falar-nos. Foi evidentemente o caso. Mas falei demais, como sempre.
Tentemos isso sim concluír disto tudo algo sobre a família, que é aquilo que nos interessa, a mim, ao Timshel e a todos. Tentemos perceber porque o Cristianismo lhe dá tanta importância. Tentemos perceber porque a Igreja, ou melhor, as Igrejas lutam tanto em sua defesa. Na próxima semana, se mo permitem.



José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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