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quarta-feira, março 9

 

Jardins de pedra

A guerra do Iraque, a confissão de um pecado ou a natureza traiçoeira de certos aspectos da natureza humana.
Cresci à sombra do que me parece (ou parecia) uma guerra justa. Embora tenha nascido alguns anos depois da segunda guerra mundial, nunca me desembaracei do sentimento de que a invasão da Europa nazi-fascista pelos norte-americanos tinha sido uma boa coisa. Centenas de milhares de jovens deram a vida para que a Europa se libertasse de uma das mais terríveis formas de totalitarismo que o século XX viveu.
Lembro-me de, já adulto, passear pelos "jardins de pedra" da Normandia e da Bretanha, milhares de cruzes em pedra formando uma arrepiante paisagem, os cemitérios onde se encontra uma boa parte da juventude americana do princípio da década de quarenta. Vai-se andando pelas estradas e é um e depois mais outro e mais outro e mais outro e mais outro. Por vezes com o mar ao fundo. Por vezes numa enorme planície verdejante como uma estranha ferida numa pele lisa.

Há guerras justas?
Este tema foi-me suscitado pela nomeação de Freitas do Amaral para MNE. É conhecida a sua oposição à guerra no Iraque. É uma posição comum aos católicos. Encontramos desde logo o Papa João Paulo II na condenação veemente da intervenção norte-americana. E, em todo o espectro político a que pertencem os católicos, existe essa atitude comum: a condenação da intervenção norte-americana no Iraque. Recordo, a título de exemplo, a posição de João César das Neves, aqui, e, mais recentemente, de Adriano Moreira, aqui.
Como se deduz da introdução a este pequeno texto, devo admitir que, nesta matéria tive e tenho muitas dúvidas. Embora tenha sempre apoiado aqui e no meu blogue a posição do Papa e de todos aqueles que se opuseram à guerra do Iraque, interiormente hesitava bastante.
Achava (acho?) que existe a possibilidade da existência de guerras justas. Essa convicção foi ainda mais reforçada com a leitura destes dois textos mencionados ontem pelo Rui Tavares (aqui e aqui). (um pequeno aparte a respeito destes dois textos: Rawls, no seu funcionalismo utilitário "justicialisto-equitativo" é um moralista; mas embora recupere algo da moral cristã na sua teoria da justiça, esquece outros aspectos do cristianismo – talvez por não ter percebido – ou não ter querido aceitar – que por detrás de qualquer teoria política existe sempre uma moral que é o seu único fundamento e que a Moral só faz sentido com um fundamento transcendental)

Quando um povo se encontra esmagado por uma terrível tirania é legítimo sacrificar vidas para o libertar?
Quantos mais judeus morreriam se não tivesse existido a invasão da Normandia?
Quantos mais milhares de mortos não seriam a consequência de um eventual pacifismo egoísta norte-americano?
Estaremos perante o célebre "dilema do agulheiro" que tem que lançar por uma ribanceira abaixo um de dois comboios (a única escolha possível é entre matar poucos - num comboio - ou matar muitos - no outro)?

A posição do Papa é clara: a guerra nunca se justifica. A coerência do Papa levou-o mesmo a recusar a violência contra o nazismo. Apesar de ter sido um resistente ao nazismo e de, por causa disso, ter ido parar a um campo de concentração. No qual morreria se não fosse a intervenção dos aliados.
Não há critérios de proporcionalidade quando se fala de guerra. Um cristão nunca pode defender uma guerra seja em que circunstância for.
Porque existe um valor sagrado, que é o da vida humana. E a guerra é, por definição, matar. Matar o nosso irmão. E talvez, quando eu pensava que a guerra no Iraque se justificava, esquecesse que nem sequer havia proporcionalidade entre a situação provocada pela guerra e a situação antes da guerra.
Mas, haverá algum caso em que a guerra seja proporcional?

Este texto é confuso?
É. Poderia escrevê-lo de um modo mais claro mas não tenho tempo, por um lado, e, pelo outro, talvez a confusão do texto imprima mais claramente o sentimento de "delicada confusão" moral que se pode encontrar em situações-limite.
Porque não tenho dúvidas que em situações-limite apenas posso esperar que a voz de Deus ecoe na minha consciência. Como escrevia Radbruch na última frase dos seus "Cinco minutos de Filosofia do Direito", é por vezes necessário deixar a decisão à voz de Deus, "àquela voz que só nos fala à consciência em face de cada caso concreto."
E, nestas situações, escutar a voz do Papa é, pelo menos, meio caminho andado para escutar a voz de Deus.

Timshel [TIMSHEL]

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