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quarta-feira, março 2

 

A granel

Anteontem, no DN, Francisco Saarsfiel Cabral:

"A muita gente, incluindo não poucos cristãos, choca ver o Papa fisicamente diminuído e em sofrimento, como acontece há pelo menos sete anos. (...)Porquê, então, manter tanto tempo um doente à frente da Igreja Católica? (...)

Os critérios de liderança são outros. Não se trata de masoquismo, valorizando o sofrimento pelo sofrimento. Nem da alegada inversão de valores, de que Nietzsche acusava o cristianismo. A saúde é um bem, claro. Mas não é o bem supremo. Acima está a santidade, a forma mais radical de doação aos outros. Para os católicos, a força de Deus manifesta-se na pobreza, na fraqueza, na falta de poder terreno. Cristo rejeitou no deserto tentações de poder económico, político e religioso. O seu reino não é deste mundo.

Por isso o Papa doente tem sido um sinal profético, que confunde os critérios mundanos. E que, em coerência, deverá levar a Igreja a desligar-se cada vez mais de práticas e símbolos decalcados do poder temporal, uma herança do império romano e da cristandade medieval. Há pompas e riquezas, desde logo no Vaticano, que ainda prejudicam a clareza da mensagem cristã. E que limitam a força deste sinal de esperança que João Paulo II envia à humanidade. Sobretudo à mais pobre e sofredora."



A atitude do Papa mantendo-se no seu posto, mostrando assim pelo seu exemplo que a vida feita de decadência e sofrimento físicos é Vida que merece o mesmo respeito e o mesmo amor que a vida na plenitude das suas faculdades, parece fundamentalmente correcta.

Contudo, e se em vez de descalabro físico fosse descalabro psíquico (dizendo imbecilidades, incongruências, porventura blasfémias), deveria o Papa continuar?

Parece-me que sim. É verdade que, em caso de demência do Papa, existe um mecanismo qualquer de Direito Canónico que permite a sua substituição. Mas, e se a demência for ligeira? Onde se situa a fronteira entre a debilidade (resultante do envelhecimento do invólucro físico que é o nosso corpo) intelectual "aceitável" e a "não aceitável"?

O descalabro psíquico deve ser tão considerado de um ponto de vista de dignidade humana como o descalabro físico.

E seria uma lição extremamente importante para a humanidade, para a cristandade e para os católicos ver que os valores cristãos continuavam apesar de o Papa se encontrar demente e continuar Papa, podendo porventura dizer o contrário do que diz o cristianismo.

Quando se chegasse a esse ponto poderíamos dizer que os católicos enquanto comunidade e enquanto indivíduos tinham chegado a um ponto porventura inultrapassável de consciência/interiorização do cristianismo e consequente capacidade de julgamentos independentes à luz dos valores cristãos que decorrem do único mandamento da sua Fé: o mandamento do amor.

É verdade que o Papa e a Igreja são de uma grande ajuda para a descoberta de Cristo. São intermediários de grande valor no caminho da Fé. Mas não mais do que isso.

Algumas pequenas questões finais para aguçar o apetite para próximas discussões.

Cuidados paliativos: é admissível administrar um medicamento analgésico que alivia o sofrimento mas que tem como efeitos secundários, grandes possibilidades de provocar a morte, a um doente em fase terminal e em grande sofrimento, a seu pedido?

Droga: porque é mais errado fumar um charro do que beber um copo de vinho? E porque é que é mais errado fumar um charro do que tomar um tranquilizante receitado por um médico?


Timshel [TIMSHEL]

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