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quarta-feira, março 16

 

Depressão e Terapia. Cura.

Eis então passos de cura.

Uma leitura de Freud pode passar por um esquema mais ou menos como este: há um acontecimento inicial com repercussões negativas nos acontecimentos que dele derivam; perante, a dificuldade de tomar consciência desse acontecimento inicial, não só se desenvolvem uma série de mecanismos de ilusão, como se perpetua a dor; por isso, a consciência desse acontecimento inicial representa um primeiro e grande passo para a cura.
Não está ao nosso alcance justificar pormenorizadamente o que vamos dizer. Mas porque grande parte dos textos que circulam por aqui, pela terra, por outros lados e por outros autores, têm uma das suas maiores virtudes no seu carácter exploratório, dizemos o seguinte: Freud segue um esquema conhecido.
De facto, na Bíblia, no esquema histórico que percorre correntemente a Bíblia, temos um esquema similar. No Génesis, temos um primeiro acontecimento, a queda, com consequências nefastas. Temos depois a perpétua tentação de esquecê-lo, que pode ser vista na repetição constante da recaída na idolatria. Temos por isso, a criação de uma série de mecanismos de ilusão. Temos por isso, a criação permanente da dor. A terapia bíblica passa pelo recordar desse acontecimento e o recordar desse acontecimento é o primeiro grande passo no caminho para a cura.

O que tem isto a ver isto com a Terapia de Lodge? – Tudo. Na depressão, como é retratada no livro, há um desejo que não pode ser realizado. Há um devia ser assim que está longe do que é. E parece então que a depressão é tanto maior quanto maior for a distância que vai daquilo que se é àquilo que se quer ser. De certo modo é assim. E de certo modo, parece que a cura se resolve pela anulação desta distância.
Mas não de todo, se pensarmos no que está implicado na cura da Terapia. Aí, a cura não passa por uma restrição ao desejo. Não passa por Bolinhas reduzir o desejo de ter um corpo moreno e atlético, para que o desejo se aproxime da circunstância do seu corpo gordo e cheio de pequenas mazelas. Não passa por restringir o desejo para os níveis que lhe permitam aceitar a sua dificuldade de relacionamento marital e extra-marital, como não passa pela diminuição do desejo de justiça social.
A cura na Terapia não passa pelo conformismo. O conformismo quando muito pode representar uma etapa intermédia. Uma suspensão na luta. Uma oportunidade para ganhar forças. A cura não tem a ver com quantidade, mas com qualidade. Tem a ver com a qualidade do que se deseja.
Isto é, reconhecemo-lo muito abstracto. Por isso, para torná-lo concreto, precisamos da história, precisamos da Terapia. E na Terapia, temos repetido o esquema de Freud e sobretudo repetido o esquema bíblico.

Depois de muitas voltas, Bolinhas lembra-se da primeira namorada. Acossado pela perspectiva de falhanço do casamento e pelo divórcio eminente, acossado pelo falhanço sexual da relação de amor platónica e adúltera, acossado pelo falhanço de uma breve relação ocasional na América, acossado pelo falhanço de encontrar solução para o sexo e para o amor nas tentações de assédio a uma colega de trabalho, Bolinhas corre a memória até ao primeiro namoro.
Para ele, o primeiro namoro tinha acabado porque sim. Não deu. E isso tinha sido para ele mais um facto normal e trivial. Coisa que acontece a qualquer um. Coisa que todo e qualquer um não tem na memória e na consciência sem grande consumição. Nada de errado, portanto.
Mas, na fase de grande crise que vive, pergunta-se: será que é mesmo assim? – E sem perceber bem os contornos da sua necessidade, tem necessidade de rever a primeira namorada. Na sua memória e presencialmente.
Começa a ler uma história diferente. E uma história substancialmente diferente daquela que havia contado até aí. Não era mais a história de que não deu porque ela não queria fazer sexo, e porque precisava de sexo, precisava de andar em frente em busca de uma relação onde o sexo se pudesse concretizar. Era uma história de amor desperdiçado. Era uma história onde o amor que a sua namorada lhe tinha não tinha sido respeitado. Ela amava-o e ele não foi capaz de fazer dessa amor algo que resistisse aos seus desejos egoístas e às vicissitudes do tempo.
Esse foi para Bolinhas o acontecimento com consequências nefastas. Porque a partir daí, não só nunca mais foi capaz de ver os sinais do amor, como nunca mais foi capaz de respeitá-lo.
Entretanto, se começa a viver esta descoberta, Bolinhas precisa de vivificá-la. Precisa não apenas de conhecer, mas de fazer. Não de saber, mas de amar. Por isso, procura a primeira namorada; por isso, a felicidade quando a encontra na peregrinação que entretanto ela faz a Santiago.

Fernando Macedo [A-BORDO]

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