<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, março 9

 

Carta a um Amigo não-crente que morreu nesta Quaresma

«A Humanidade de Deus é uma metáfora. Não delimita, nem fixa uma significação exclusiva. Nasce, porém, de um convicção que julgo teologicamente fundada: em Jesus Cristo, não há uma afirmação de Deus à custa do ser humano nem uma afirmação do humano à custa de Deus. Não são relações de rivalidade nem de estranheza. Também não há diluição do divino no humano nem do humano no divino. A partir de Jesus Cristo, nosso contemporâneo, acredito que Deus vive e se diz no ziguezague da nossa História sem perder a sua inviolável alteridade. É por isso que procuro, quarta-feira após quarta-feira, abrir algumas brechas na confusão dos acontecimentos, para ouvir os apelos da Vida e as interpelações da morte.
Se Deus não estivesse do nosso lado (Rm 8, 31), mesmo no seu eclipse, como podíamos saber que é nele que temos a vida, o movimento, o ser, que é Ele a respiração mais funda do desejo, que somos da sua raça, como já diziam três séculos antes de Cristo, os poetas pagãos, cuja voz o apóstolo Paulo acolheu no areópago de Atenas (Act 17, 24-29)?
Não ignoro que esta perspectiva tem os seus riscos. Onde se devia manter um poste de alta tensão, pode ficar a ideia de uma pré-harmonia de contrários. Um Deus assim parece ter a ver mais a ver com um dado disponível da cultura e da religião do que com o sobressalto da Páscoa. [...]
A solução mais fácil consiste em eliminar todas as tensões: reservar a fé para todo o mundo do sentimento e da interioridade e a razão para as ciências e as técnicas ao serviço dos negócios; a fé fugindo das exigências da inteligência e a inteligência satisfeita por não ter encontros incómodos com a inquietante palavra profética.
No entanto, dê por onde der, os cristãos só podem acreditar num Deus incrivelmente impuro, no Emmanuel, que significa Deus connosco (Mt 1, 23). O rosto deste Deus está manchado de sangue até que chegue ao fim o sofrimento no mundo. Só há fé cristã quando se não pode desviar os olhos de nenhum crucificado na terra. A luz da Páscoa não é o branqueamento da História. [...]
Tudo é possível para aquele que acredita, disse Jesus. Eu creio, mas ajuda a minha incredulidade, gritou o pai do menino atormentado (Mc 9, 24). Milagre é obedecer à voz do possível tido por impossível.»

As palavras (ligeiramente adaptadas) são de frei Bento Domingues*. Bebo-as como fonte de esperança, uma semana depois da morte de N.

* - in As Religiões e a Cultura da Paz, Figueirinhas, pp. 144-146.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?