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quarta-feira, março 30

 

Reflexões pascais (1) - um exercício especulativo

Depois de uma Quaresma mal-vivida, com a mente atulhada de coisas urgentes e mínimas, passei este fim de semana prolongado da Páscoa, em casa familiar, praticamente sequestrado pelo péssimo tempo que se fez sentir em terras nortenhas. Aproveitei então o tempo para ler, deitando abaixo 3 livros que se arrastavam há meses na minha mesa de cabeceira, para ver uns DVD´s, e também para ler o que se foi escrevendo pela blogosfera a propósito da Páscoa. E posso dizer que há pano para mangas, nem sei bem por onde começar, mas irei certamente dar um bocado ao dedo.

Vou talvez começar, reatando uma conversa com o meu estimado amigo Nuno Guerreiro, que habita e escreve na Rua da Judiaria, certamente o melhor blogue que conheço. Conforme alguns leitores amigos recordarão, foi com o Nuno que encetei um dia aqueles que para mim foram os mais memoráveis diálogos inter-religiosos envolvendo o meu modesto Guia dos Perlexos, que afinal nasceu para isso mesmo. Com a sabedoria e generosidade que o caracterizam, o Nuno ofereceu-nos uma extraordinária visão insight do judaísmo (aqui, aqui e aqui), que para mim foi preciosa pois, como já disse por aqui, sendo eu católico, o judaísmo ocupa um lugar importantíssimo no instável edifício da minha fé. Daí a minha curiosidade sobre ele. Mas adiante.

Em dois posts recentes o Nuno vem partilhar connosco alguma da sua visão sobre coisas essenciais para a Fé dos católicos. Num deles, o Nuno volta a um assunto já por ele abordado: Jesus, o judeu e faz-nos a recensão de dois livros recém-publicados. Um deles é o “Why the jews rejected Jesus” de David Klinghoffer, que o Nuno pretende ser um exercício de counterfactual history mas que eu acho mais ser um manifesto de reescrita ideológica da história do Cristianismo. Vou assim fazer algumas citações, umas do Nuno, outras do autor citado:
«David Klinghoffer defende que, perante este cenário, o cristianismo teria permanecido um movimento inteiramente judaico, minoritário no seio do judaísmo como os essénios do Mar Morto ou os saduceus de Jerusalém, e seria, tal como estes, condenado a uma extinção gradual.»
Mais:
«Se os judeus não tivessem rejeitado Jesus, se Paulo não tivesse voltado a liderança da igreja para um novo rumo, a fé embrionária teria provavelmente perecido tal como aconteceu com todas as seitas heterodoxas judaicas que desapareceram após a destruição de Jerusalém e do seu Templo pelos romanos no ano 70 E.C.*, deixando apenas o judaísmo “rabínico” – o judaísmo tradicional dos nossos dias. Não haveria cristianismo, nem Europa cristã ou civilização ocidental tal como a conhecemos.»

Bom, devo reconhecer a priori, a incipiência da minha erudição sobre a situação do Judaísmo em tempos de Jesus, que provém das leituras de Paul Johnson, umas passagens da extraordinária “Guerra da Judeia” de Flávio Josefo, um autor judeu proscrito por muitos judeus por ser visto como um traidor a soldo de Roma, e um livro interessantíssimo sobre ele: “Flávio Josefo, o judeu de Roma” de Mireille Hadas-Lebel . Mas seja como fôr, e como estas considerações dizem respeito ao âmago daquilo em que acredito, vou cordialmente rebater o que o Nuno escreve.
É um facto bem conhecido que após a morte de Cristo os seus seguidores se dividiram em duas correntes. Uma era chefiada por Tiago, irmão de Jesus, e por Simão Pedro, que pretendiam difundir os ensinamentos de Cristo numa matriz puramente judaica pretendendo, como outras seitas pretenderiam, transformar o judaísmo por dentro, fazendo-o reconhecer o Messianismo de Jesus. A outra liderada por Saulo de Tarso, depois Paulo, o qual, sendo um fariseu muito mais instruído que os outros, logo muito mais ligado à tradição judaica, percebeu apesar disso muito melhor do que ninguém o carácter universalista da palavra e mensagem de Cristo. Foi efectivamente Paulo, muito antes da destruição de Jerusalém, que conduziu o Cristianismo a ser uma religião universal, com existência própria e independente da tradição religiosa judaica em que Paulo nascera e prosperara. Com Paulo, o apostolado de Cristo saíu das fronteiras físicas e mentais da Judeia, penetrando pelo império romano e penetrando-se também, para horror dos zelosos descendentes dos Asmoneus, do universo cultural helenístico, sobretudo o neo-platónico, onde encontrou uma base filosófica surpreendentemente afim da mensagem de Cristo, sobretudo da sua interpretação Joanina (é verdade, estou a falar do Logos, sim senhor).
Na árvore do Cristianismo, este rebento de Paulo foi efectivamente o triunfante, o que chegou até aos nossos dias. Um rebento que tendo nascido do judaísmo dele se desenxertou, se me permitem a expressão. Desse desenxertamento, que nós acreditamos ser conforme a Palavra de Cristo, resultaram coisas absolutamente contrárias a ela e que envergonham a nossa condição de Igreja de Cristo. Mas na árvore de onde saíu, do judaísmo, esse desenxertamento, deixou uma ferida, uma dôr, que ainda hoje se vê não ter sido resolvida. E, preto no branco, é disso que falo.
Voltemos então à outra corrente paleo-cristã, a que resistiu a se desligar do judaísmo onde nascera, a que resistiu a abdicar de preceitos e mandamentos como a circuncisão. Embora não seja muito bem conhecida, é bem sabido que essa corrente existiu e não se extinguiu por si própria.
Admito perfeitamente, como diz o Nuno, que essa corrente cristã, seria uma seita judaica mais nessa Jerusalém antes da catástrofe do ano 70 DC. Uma seita como a dos fariseus, a dos saduceus, a dos essénios e, convém não os esquecer, a dos zelotas. Uma seita que como diz Klinghoffer, estava condenada a desaparecer como todas as outras excepto a dos fariseus. Mergulhemos assim um pouco nesta história das seitas judaicas.
Os saduceus eram a seita, digamos assim, sacerdotal. Eram os que oficiavam e controlavam o Templo e os ritos, os que estavam mais perto do poder secular do tempo, um poder influenciadíssimo pela cultura helenística, pois a dinastia dos Asmoneus não tinha conseguido resistir à tentação dessa cultura estranha mas tão atraente. O “partido” saduceu era principalmente sacerdotal e aristocrático e manteve sempre um posicionamento político-religioso.
Já os fariseus, recrutavam seus membros nas classes populares e sempre foram muito mais religiosos do que políticos. Diga-se em abono da verdade que a cultura cristã conhece muito pouco daquilo que foram efectivamente os fariseus e tem deles uma visão injusta. O “partido” fariseu destacava-se pela sua competência exegética o que lhes conferiu uma autoridade reconhecida em termos da observância, zelosa e rigorista, da letra da Torá escrita e oral. Naturalmente, opuseram uma tenaz resistência aos costumes e ao pensamento helenísticos. A grande maioria dos escribas e doutores da Lei aderiu ao farisaísmo e obteve o apoio quase total do povo judeu, graças ao prestígio moral e religioso que alcançaram. Era também o mais difundido na numerosíssima diáspora judaica e foi a que melhor sobreviveu até hoje sob a conhecida forma do judaísmo rabínico.
Os essénios, seita por onde dizem ter andado Cristo, antes da sua vida pública, é a pior conhecida por nós cristãos. Mas das três “filosofias” judaicas de então é a que melhor corresponde à noção que temos de seita. Eram uma comunidade homogénea e solidária, organizada com regras de aceitação e de exclusão. Eram uma comunidade ascética, fechada, moralista, misógina e verdadeiramente monástica. Diferentemente dos saduceus e dos fariseus, desprezavam a influência social.
E chegamos a uma outra seita do judaísmo, chamada de “quarta filosofia” por Flávio Josefo e que não era mais do que uma excrescência perniciosa do farisaísmo mas que ia buscar gente exaltada de todas as correntes, saduceus, fariseus ou essénios. Eram nacionalistas fanáticos, discípulos dum fariseu, Sadoch, e que para alimentar uma rebelião originalmente anti-tributária, foram buscar à literatura apocalíptica Judaica (Henoch, Habacuq, Ezequiel, Daniel) uma doutrina milenarista em nome da qual, com vista à salvação colectiva, assumiram o encargo de fazer uma guerra escatológica entre eles, os “filhos da luz”, e os kittim, romanos ocupantes ou protectores, os “filhos das trevas”. Eram chamados de sicários ou zelotas e, segundo Flávio Josefo, foram os principais responsáveis da desgraça que se abateu sobre a nação judaica.
Recordo apenas um pouco dessa desgraça: após décadas e décadas de desordens e sedições no seu protectorado da Judeia, os romanos decidem-se a pô-la na ordem imperial e enviam um poderoso exército chefiado por Vespasiano, um general que veio a ser imperador. Vespasiano, ajudado pelo seu filho e sucessor Tito, levou a cabo uma implacável campanha contra uma feroz resistência liderada por zelotas inflamados e que culminou com o cerco e destruição de Jerusalém, em que morreram cerca de um milhão de pessoas(!) e foi definitivamente destruído o Templo. E a Judéia passou de protectorado autónomo a província romana! Para Josefo, que advogava que só a cooperação com Roma permitiria a manutenção do judaísmo na Judeia, os zelotas e sicários são os primeiros culpados da catástrofe. Nada de inédito...
Diga-se em abono da verdade, que foi felizmente a diáspora judaica, muito mais numerosa que a comunidade na Judeia, que permitiu a preservação do Judaísmo até aos dias de hoje.
Mas voltemos à seita que nos interessa, os ditos cristãos judaicos de Jerusalém. Não se sabe muito sobre ela, depreende-se muito mais. Dela falam os Actos dos Apóstolos, as epístolas de Paulo e pouco mais. Conhece-se a realização do Concílio de Jerusalém, no ano 49 ou 50 em que Paulo veio de Antioquia debater com os Apóstolos e anciãos, entre outras coisas, se os gentios convertidos tinham ou não de ser circuncisados e de aprender a seguir a lei judaica. O compromisso a que se chegou não evitou a evolução da seita cristã em dois caminhos, um judaísta, outro universalista, tendo sido dividido o território de missão. Não se conhece bem como evoluíram as coisas depois do concílio mas é admissível que a Igreja de Jerusalém pudesse derivar em volta do judaísmo, transformando-o talvez ou sendo reabsorvida por ele. Mas nada disso aconteceu pois a Guerra da Judeia destruiu Jerusalém e chacinou a sua população.
E é precisamente por isso que a missionação gentílica foi absolutamente crucial, como pensava Paulo e como pareceu indicar Jesus, ao preferir a Galileia à Judeia como principal área de actuação pública. Mas passemos adiante.
E passemos então ao meu exercício de counterfactual history, pois o de Klinghoffer me parece ser pouco elaborado. Pensemos pois. Pensemos no que seria se os Judeus não tivessem rejeitado Jesus, ainda depois de ele ter sido crucificado. Imaginemos que a Sua condição verdadeiramente messiânica encontrava eco na sociedade judaica de então. Imaginemos que o universalismo da Sua mensagem encontrasse o mesmo eco que a Sua nova visão da aliança de Deus com o Seu povo e que o trabalho de Paulo junto do gentios não fosse mais do que o novo desígnio da nação judaica. Imaginemos que a Sua noção de separação entre o que é de Deus e o que é de César fosse aceite, que a Sua noção do Seu reino, o de Deus, não ser deste mundo penetrasse nos corações. Pensemos em tudo isto em vez da assumpção bizarra de que fatalmente a seita cristã seria destruída com todas as outras na destruição de Jerusalém. E digo bizarra, pois tenho para mim, ainda que seja suspeito, que caso os Judeus não tivessem rejeitado Jesus não tinha havido qualquer guerra da Judeia e Jerusalém e o Templo não teriam sido destruídos. Não pela anulação duma qualquer maldição divina, em que aliás não acredito, mas simplesmente por não serem mais vistos como uma ameaça irritante pelo poder de Roma. Ao invés, o judaísmo, renovado por Jesus e pela Sua Palavra, aberto agora aos gentios, progrediria galopantemente, primeiro através da diáspora, depois por todo o cadinho étnico e cultural do Império. E talvez a história deste fosse diferente, talvez as sementes deixadas em Babilónia frutificassem e permitissem a fusão do império persa e romano, o que faria hoje não existir a noção que se tem do Oriente e do Ocidente. E, aí sim, aí já posso concordar com Klinghoffer, talvez não houvesse nem Cristianismo nem Islamismo mas unicamente o Judaísmo. Não aquele que era nem aquele que veio a ser, mas um Judaísmo transformado, como sabemos que era vontade pública de Jesus.
Mas convém não perder de vista que isto é um mero contra-exercício especulativo. Sabemos bem que a História é só uma e só pode ser mudada para a frente, não para trás. E sabemos melhor ainda que Jesus sabia muito bem ao que veio: por muito estranho que isso possa parecer, Jesus foi um Messias que veio para ser rejeitado. Só assim tudo voltou a fazer sentido.

E por aqui me fico, aguardando notícias. Entretanto, queria também conversar com o Nuno sobre a Páscoa, a minha e a dele. Ah! E também sobre o Purim. Mas ficará para daqui uns dias.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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Até onde se pode ir?

O “politicamente correcto” é o resultado de uma pressão social pois constitui um discurso proferido em nome do agrado e da conveniência.
Lisboa, 11 de Março de 2005
D. Januário Torgal Mendes Ferreira (lido na Agência Ecclesia)

O cristianismo é uma Fé pessoal. Essa Fé é também uma Fé em valores. Em valores sociais nomeadamente. Não é indiferente a um cristão o valor da justiça, nomeadamente o valor da justiça social, pois nos termos da nossa Fé todos os homens são irmãos. Todos os homens são iguais e a todos é devido o respeito inerente à sua condição de filhos de Deus.

Parece-me portanto muito provável que, em termos abstractos, uma sociedade apenas composta de cristãos totalmente coerentes e consequentes seria uma sociedade comunista tal como definida classicamente: inexistência de propriedade privada e aplicação radical do princípio "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades". Essa sociedade utópica é a lógica social do cristianismo. É difícil não acreditar que o objectivo a longo prazo em termos sociais de um cristão possa ser outro que não a construção de uma sociedade comunista.

Mas respeitando totalmente a liberdade. Por isso, uma tal organização social teria que ser construída numa base integralmente voluntária. Não seria legítima a construção de uma sociedade comunista se existisse nem que fosse uma só pessoa que não estivesse de acordo com estes princípios. Porque a sua imposição administrativa implicam uma violação da liberdade totalmente desproporcionada. Tal sociedade só é possível numa base voluntária.

Entretanto, os cristãos devem lutar por um equilíbrio proporcional entre a limitação da propriedade e a satisfação das necessidades dos mais fracos e desprotegidos. Por isso me parece que deve existir a máxima carga fiscal possível. Que permita uma luta eficaz contra a pobreza e as desigualdades sociais.

É por isso que subscrevo, no actual contexto de uma globalização desregulamentada, as palavras de Mário Pinto no Público de há umas semanas (link indisponível). Segundo ele, existe "a necessidade de desonerar o Estado de produzir directamente serviços públicos que as pessoas e as comunidades possam elas próprias produzir, melhor e mais barato, sem prejuízo da regulação, fiscalização e financiamento estadual."

Acho este excerto particularmente feliz na sua integralidade mas gosto sobretudo da frase final que me permito repetir: sem prejuízo da regulação, fiscalização e financiamento estadual.

Na sociedade actual, esta frase é particularmente lúcida. E contém todos os elementos importantes. Senão vejamos:

- A regulação estadual, imprescindível para limitar o poder dos fortes e assegurar o respeito dos fracos e fornecer o quadro legal redistributivo em conformidade com a necessidade da aplicação tendencial do princípio "cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades".

- A fiscalização estadual, para garantir que a regulação é aplicada pelos indivíduos em sociedade.

- O financiamento estadual, obtido através dos impostos. E os impostos terão que ser a um nível elevado que permita a luta contra a pobreza num quadro legal redistributivo em conformidade com a necessidade da aplicação tendencial do princípio "cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades".

Termino com uma epístola de São Paulo aos Romanos (Rom 8,8-11):

"Irmãos:
Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós.
Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence.
Se Cristo está em vós, embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado, o espírito permanece vivo por causa da justiça."



Timshel [TIMSHEL]

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E a Universidade?

Vasco Pulido Valente (VPV) escreveu mais uma crónica, própria de quem se acha inimputável pelo endeusamento acrítico geral, sobre a direita e a Igreja. Como se a Igreja fosse de direita e - mais grave ainda - fosse da direita (coisa desejada por alguns).

O que aqui me traz é, no entanto, uma pequena frase, quase lateral, no argumentário do senhor: «Em 1980, os velhos ministros de Salazar já ensinavam na Universidade Católica, que desde essa altura se tornou na principal escola de quadros da direita.» Há um fundo de alguma verdade neste resumo. Mas passo a minha objecção teológica de base sobre a Universidade Católica - os cristãos devem estar no mundo, não à parte -, para questionar a afirmação desta universidade como a «principal escola de quadros da direita».

De facto, é indesmentível que as principais correntes filosóficas e ideológicas daquela Universidade se colocam politicamente à direita no pensamento social e económico. E este é o cerne de uma objecção mais funda, que nos devia fazer desejar outra universidade. Este desejo estende-se a todas universidades, que devem estar atentas ao mundo - e não desligadas dele (o discurso neoliberal fala-nos habitualmente do binómio redutor universidade-empresa, nós alargamos ao mundo, que deve ser inclusivo, não exclusivo), mas torna-se particularmente necessário quando se fala de uma universidade que clama para si o nome de «católica». A sua "catolicidade" parece esgotar-se nas faculdades de Teologia e nos centros de estudos canónicos e religiosos e está claramente ausente de outras faculdades - e em Economia, com mais acuidade.

Afinal, onde está o pensamento socio-económico que inclua o pobre, o marginal como elemento produtivo da sociedade? Não está, não existe. Pelo contrário, gestores e académicos conotados com a Universidade Católica têm quase sempre o discurso mais neoliberal no quadro económico português. Não há uma reflexão séria, sistemática e sistematizada sobre a pobreza, as suas causas e as possibilidades de a combater, reconhecidamente produzida pela Universidade. Não se conhece um programa (atrevo-me a dizê-lo) político que sustente uma opção preferencial pelos pobres.

Nos domingos em que as colectas das missas se destinam à Universidade Católica eu recuso-me a contribuir. Não posso incluir nas minhas preocupações, quem não o faz. Demagogia feita à minha maneira, confesso-me.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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quarta-feira, março 23

 

Páscoa

Badajoz. Alguns prisioneiros seguem em fila, escoltados por homens em uniforme. Sabem que não os espera mais do que algumas horas de vida. O fuzilamento numas colinas dos arredores é o seu destino.
Seguem sob o olhar curioso dos populares excitados perante a proximidade do sangue. Alguns deles tinham combatido alguns dias antes ao lado de alguns daqueles que agora vão ser fuzilados. São os mais ferozes. Gritam impropérios contra os que agora vão ser fuzilados.
Vem também gente do outro lado da fronteira, de Portugal, assistir aos fuzilamentos. Em excursões. Quem vê as barbas do vizinho a arder põe as suas de molho. Era com o prazer que dá o alívio que iam ver a execução de quem andava a incendiar os espíritos. E o espírito sedento de justiça atravessa ainda mais facilmente uma fronteira que um incêndio verdadeiro.

Numa dessas excursões, os anfitriões espanhóis cederam uns lugares especiais aos convidados portugueses para que pudessem apreciar todos os pormenores das execuções. Aconteceu que os homens que iam ser fuzilados pararam por uns instantes em frente aos convidados portugueses.
Um desses homens percebeu que estavam ali estrangeiros para assistir à sua morte. Olhou alguns deles nos olhos e perguntou-lhes "Sois portugueses, verdade?" Alguns responderam que sim. "É um grande espectáculo assistir à morte de um homem, verdade?" perguntou-lhes o condenado.
Alguns dos espectadores sentiram um arrepio que lhes provocou vergonha. Outros sentiram o mesmo arrepio mas este apenas lhes provocou ainda mais ódio, um ódio intenso e irracional. Aquele homem interpelando-os era a prova factual de algo que lhes era insuportável. Acabando com aquele homem talvez a verdade deixasse de ser verdade uma vez que desapareciam as provas da sua realidade.
Mas, todos eles, passadas algumas décadas, ainda recordavam o rosto e a expressão daquele homem ao dirigir-lhes aquelas últimas palavras. Todos eles recordavam as suas palavras.

(este post é baseado numa história real que o Marco aqui nos contou em 31 de Maio do ano passado e que me impressionou particularmente).

Timshel [TIMSHEL]

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As Últimas Ceias que nos provocam


A arte tem destas coisas. Uma representação em palco, uma imagem fotográfica, um sktech humorístico, o movimento de um filme, a luminosidade de um quadro ou (suprema blasfémia?) o mediatismo de uma campanha publicitária podem provocar-nos – a arte deve sempre provocar, creio. Os gostos discutem-se, não se impõem. E, no caso da representação da Última Ceia, que aqui se mostra, há ali motivos para uma reflexão, como aliás instigou o nosso amigo Lutz. Como houve com Caravaggio, quando pintou – com escândalo – uma Nossa Senhora com o corpo e rosto de uma prostituta. Abençoada mulher!

A Igreja oficial não reagiu bem. Como agora em Itália e França, em relação à campanha de Marithé e François Girbaud. Como já não tinha reagido bem a “Je vous salue, Marie” ou à “Última Tentação de Cristo” e, pior ainda, à representação humorística de “A Última Ceia” e da “Rainha Santa Isabel”, por Herman José. Ou agora com o “Código Da Vinci” a merecer reparos públicos do Vaticano, como se de um ensaio se tratasse. Valerá a pena? Acho que não – valeria a pena, suscitando a discussão sobre a Arte, promovendo a reflexão da Beleza, não “batendo-por-bater”. Porque, por oposição, a Igreja nunca critica a fealdade das novas igrejas, não censura coros que assassinam a liturgia e fazem corar Gregório, não critica uma oratória sem rasgo nem chama.

Bettina Rheims crucificou uma mulher. Agora a campanha da M+FG feminiliza a ceia – apóstolas e a filha de Deus. No fundo, Deus e o seu filho são humanizados – homem e mulher. E assim o encontro da história faz-se no reconhecimento de uma cena familiar.

Na Páscoa, são mulheres que já não encontram o corpo do Ressuscitado – as primeiras testemunhas da libertação. A Arte traz a mulher para o centro, para nos recordar que a Criação não se fez apenas à imagem e semelhança do homem. De uma vez por todas, resgate-se Eva do purgatório. E aceite-se os caravaggios de hoje, mesmo se não gostamos. Talvez ali se descubram novos caminhos de entender Deus – e de viver a Sua Páscoa.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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As últimas sete palavras de Cristo na cruz


Crucifixión. Antonio Saura, 1963.


i) Pater, dimitte illis; non enim sciunt quid faciunt.
ii) Amen dico tibi: hodie mecum eris in Paradiso.
iii) Mulier, ecce filius tuus; et tu, ecce mater tua.
iv) Eli, Eli, lama asabthani?
v) Sitio.
vi) Consumatum est.
vii) Pater, in tuas manus commendo spiritum meum.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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segunda-feira, março 21

 

Revolução Personalista 5 – da transcendência

Este é já o quinto texto (e meio) que escrevo, sobre as ideias lançadas há mais de cinquenta anos por Emmanuel Mounier e pela revista Esprit, condensadas num pequeno livro intitulado "O Personalismo". Para finalmente terminar este conjunto, deixo mais um pedaço da reflexão de Mounier, seguida de uma espécie de conclusão e comentário meus, de valor seguramente inferior ao muito que citei nos últimos textos.
Comecemos por mais uma reflexão acerca da pessoa e do universo pessoal. Desta feita, Mounier fala da "Eminente Dignidade" da pessoa, dando um passo para a discussão sobre a transcendência. Começa com a pergunta "Haverá uma realidade para além das pessoas?". Ele acha que sim, e é sobre essa transcendência da pessoa que começa por falar, não sem antes advertir:
«Sempre que pensamos a transcendência, temos que nos proteger contra representações espaciais. Uma realidade a qualquer outra transcendente não é uma realidade separada e como que sobre ela pairando, mas uma realidade superior em qualidade em qualidade de ser, que não pode ser atingida por outra em contínuo movimento, sem um salto dialético ou de expressão. Sendo as relações espirituais relações de intimidade na distinção e não de exterioridade na justaposição, a relação de transcendência não implica forçosamente a presença da realidade transcendente no centro da realidade transcendida. Deus, diz Santo Agostinho, é-me mais íntimo do que a própria intimidade.»

De seguida analisa as manifestações desse impulso da pessoa para se ultrapassar, para se transcender:
«No mesmo acto em que me afirmo, verifico que os meus mais profundos actos, as minhas mais elevadas criações, surgem em mim como nada tendo a ver com a minha vontade. Sou aspirado para os outros. (...)
Não confundamos este ultrapassar do próprio ser com a agitação do ímpeto vital: o ímpeto vital mais não nos leva do que a ele próprio; é paixão pela vida a qualquer preço, mesmo ao preço dos valores que lhe dariam sentido. Aceitar o sofrimento e a morte para não trair a condição humana – ir do sacrifício ao heroísmo – é, pelo contrário, o acto supremo da pessoa. Começa, como escreve Gabriel Marcel, no momento em que assumo consciência de que "sou mais do que a minha vida". Este é o seu paradoxo: não se encontra (no plano pessoal) senão quando se perde (no plano biológico). "Gosto, diz Nietzsche, das pessoas que se não pretendem conservar, e é com todo o meu coração que amo os que soçobram, porque passaram para o outro lado". (...)
A aspiração transcendente da pessoa não é agitação, mas negação de nós próprios como mundo fechado, suficiente, isolado sobre o seu próprio brotar. A pessoa não é o ser, é movimento do ser para o ser (...). Esta riqueza íntima do meu ser confere-lhe uma continuidade, não de repetição, mas de super-abundância. A pessoa é o "não inventariável". Sem cessar a experimento como algo que me ultrapassa. O pudor diz-nos: o meu corpo é mais do que o meu corpo; a timidez: sou mais do que os meus gestos e palavras; a ironia: a ideia é mais do que a ideia. (...) O homem é movimento para ir sempre mais longe. O ser pessoal é generosidade. Por isso, funda-se numa ordem inversa da da adaptação e da segurança.
»

Depois destas e mais considerações e reflexões sobre a misteriosa natureza humana e o seu gosto pelos abismos, Mounier pergunta pela direcção desse movimento de transcendência:
«Esta permanente agitação do ser pessoal tem alguma orientação? (...) O ser pessoal é um ser feito para se ultrapassar. Tal como a bicicleta ou o avião só se equilibram quando se movem para lá de uma determinada velocidade, o homem só se mantém de pé com um mínimo de força ascensional. (...)
Qual é o termo deste movimento de transcendência? (...) Vários pensadores contemporâneos falam dos "valores" como se estes fossem realidades absolutas, independentes das suas relações, e conhecidas a priori. Mas os personalistas não podem, com inteiro à-vontade, entregar a pessoa a semelhantes impessoais; por isso, a maior parte destes procuram personalizá-los de alguma maneira. O personalismo cristão vai até ao fim: todos os valores se agrupam para ele debaixo do apelo singular de uma Pessoa suprema.
»

Chegado a este ponto, pouco mais haveria a acrescentar ao que me traz aqui hoje. Porém, um última nota parece-me importante, para os cépticos que possam ter tido paciência de chegar a este ponto do texto:
«Podem ser pedidas provas de transcendência, do valor dos valores. Pertencendo ao universo da liberdade, a transcendência não é objecto de provas. A sua certeza surge na plenitude da vida pessoal e esbate-se quando esta declina.»

Deveria começar agora um comentário mais geral a "O Personalismo". Não vou ainda conseguir fazê-lo, pelo que fica para a próxima. Deixo sim um pequeno excerto do mesmo capítulo dos anteriores, que me parece especialmente pertinente para algumas discussões que se avizinham:
«O respeito pela pessoa humana só secundariamente é respeito pela vida; o respeito pela vida pode não ultrapassar um instintivo gosto de viver; recusarmos matar para iludir a repugnância que a ideia da nossa própria morte nos causaria. Querer viver por qualquer preço é aceitar viver, no futuro, pelo preço das razões da vida. Não existimos definitivamente senão no momento em que constituímos um círculo interior de valores ou de dedicações, acerca dos quais sabemos que mesmo a ameaça da morte nada conseguiria contra eles.»

Os meus votos de boa Páscoa.

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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quarta-feira, março 16

 

Magnolia, ou a sagrada família (2ª parte)

Ora vejamos se não perdi o fio à meada, tal como a deixei há duas semanas. Estava eu a falar da família e desse filme que nos fala dela de forma tão eloquente. Da forma como os pais criam sequelas nos filhos, sem pensar o quanto necessitam eles do amor desses filhos. Da forma como esse amor, de filhos para pais, de pais para filhos, por muito soterrado que esteja em camadas de egoísmo, violência, indiferença, abandono, esse amor continua lá à espera de uma ocasião para voltar a florescer, para voltar a ser origem de felicidade. A não ser, claro está, que algo de irremediável tenha acontecido, algo que tenha ido colidir e destruír a relação inata, imanente, permanente, que há entre pais e filhos. E como dizia o sábio quiz kid do filme, these things happen, infelizmente, digo eu.
Mas saiamos de vez do universo do Magnolia e passemos a outra coisa: tentemos reflectir sobre o amor no seio das famílias, a sua origem, a sua manifestação. Sobre como surge e como desaparece, sobre como se pode manter ou perder, sobre porque é ele tão importante para a sustentabilidade das famílias e, por isso mesmo, tão importante para o equilíbrio das sociedades humanas.
Eu diria em primeiro lugar, como La Palisse, que o amor no seio de uma família é, em maior ou menor grau mas inevitavelmente, o resultado de dois amores: o amor existente entre marido e mulher e o amor existente entre pais e filhos. São obviamente tipos diferentes de amor, na sua origem, na sua sustentabilidade. Mas são ambos amores cuja natureza evolui com o tempo, com as circunstâncias, são ambos amores de que se tem de cuidar.
O amor dos pais para filhos é fácil de perceber. Provém de conceitos profundos e remotos: de consubstancialidade, de imagem e semelhança, da sensação difusa mas forte de que a simples geração dos filhos eleva a nossa condição humana. O nascimento dum filho induz uma sensação única de beatitude e elevação, apesar do cagaço permanente que lhe é o justo contraponto. E essa sensação perdura no tempo, mesmo que sob a forma duma recordação que quer sempre regressar a ser presente. Para os crentes, a novel condição de pais fá-los entender melhor a sua condição de filhos, não só dos seus próprios pais mas também de Deus. Já disse por aqui que eu só consegui entender Deus como Pai, só entendi o Amor paternal de Deus pela Sua Criação, apenas depois de ter sido eu mesmo pai. Tal como o Amor de Deus o é, o amor dos pais pelos filhos é, na sua essência, incondicional e permanente. Eu sei que às vezes não parece sê-lo, mesmo aos olhos dos próprios filhos, mas é-o, definitivamente.
Já o amor dos filhos pelos pais não é tão linear, como não o é o nosso amor por Deus. O amor dos filhos tem também uma componente atávica, decorrente da protecção, do cuidado recebidos logo após as primeiras horas, sobretudo pela mãe mas também pelo pai. Mas o amor dos filhos é um amor por alguém que os amou primeiro. Tal como o nosso amor a Deus. E do mesmo modo, necessita de sinais sensíveis desse amor. O amor dos filhos é uma resposta, uma gratidão. É algo que, sendo plantado, será sempre colhido. Mesmo mais tarde, em períodos de libertação afectiva, de afirmação e independência, é possível e desejável eles não perderem nunca de vista o amor que os pais tem por eles e que eles tem pelos pais. Mas para isso, e como já referi, não basta esse amor existir: tem de ser manifestado, sentido, vivido.

Vou deter-me um bocadinho mais por aqui. Ao escrever estas linhas ocorreu-me uma coisa que será certamente discutível mas que faz sentido para mim. Ocorreu-me que talvez a primeira experiência religiosa duma pessoa seja o sentimento que um bébé tem pelos seus pais. Ainda lhes distingue mal as feições mas já lhes sorri. Já tem uma certeza esperançada de ser amado. Já sente que é a eles que pede, que são eles que lhe dão, que eles são a sua providência. E, num reflexo da vontade inata de querer que as coisas sejam boas e façam sentido, o bébé ama os seus pais da mesma forma como nós amamos Deus. Direi mesmo mais: o bébé tem fé nos seus pais, uma fé algo parecida com a que temos em Deus. E eu acredito mesmo que é essa fé que uma criança vai tendo nos seus pais que vai ser o maior sustentáculo do amor perene dum filho pelos pais. Reparem que digo fé e não confiança. Fé é algo mais muito mais profundo, é acreditar sem se ver, sem ter provas mas apenas esperança.
Parece que já os ouço a dizerem que este bacôco que vos escreve deve pensar ser uma espécie de Daniel Sampaio em versão mística. Nada disso. O que acontece é que, tal como o beato Francisco (o Louçã, não o de Fátima!) este que vos escreve já teve nos braços dois bébés, carne da minha carne, e já contemplou o esplendor do seu sorriso. E, naturalmente, como todos os pais, nessas alturas também me senti um deus para os meus filhos. E senti que eles me olhavam exactamente como a um deus. Nunca o esquecerei. Mas deixemo-nos de baboseiras e passemos adiante.
Continuemos ainda no campo do que é desejável existir numa família. Ou daquilo que existindo sempre, deve ser manifestado, oferecido. Agora não já sobre o amor entre pais e filhos mas sobre um amor muito mais complicado, o amor entre os pais, o amor entre marido e mulher. Um amor que nasce entre duas pessoas mas que tem de se diluir pelas pessoas que entretanto surgiram dele. Um amor que nasce num determinado contexto mas que, em havendo casamento e filhos, desemboca fatalmente noutro, completamente diverso. Um amor que, decididamente, não é atávico. Um amor onde a fé e a esperança tem um papel muitíssimo menor. Um amor cuja desagregação é tão fácil mas tem consequências tão grandes para os que esse amor gerou. Um amor que, como disse um dia o Timshel, é um exercício da vontade. E que vale bem a pena, deixem-me dizer-vos.
Bom, o assunto é denso e merece ser conversado com calma. Parece-me pois melhor deixá-lo para a semana.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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Espaço privado e espaço público

"Talvez o maior impacto da Internet nas formas de comunicação e socialização esteja na (com)fusão entre o espaço privado e o espaço público que promove. Os blogues e o seu impacto são um bom exemplo. Misto de diários pessoais publicados e colunas de opinião, diluem a fronteira entre o público e o privado e alteram radicalmente a natureza do discurso público." Miguel Poiares Maduro no DN de 23/2/2005

A estrutura deste blogue (Terra da Alegria) é fundamentalmente diferente da de um blogue normal. As pessoas chegam aqui duas vezes por semana e vão-se embora sem mais. Apenas com um post (contendo normalmente textos de vários autores), sem possibilidade de comentar, em dois dias fixos por semana, ele é mais um jornal de opinião que um blogue. Não existe verdadeira interactividade entre o leitor e o(s) blogger(s).
Mas, e nos blogues em sentido puro do termo? É possível separar rigorosamente o espaço privado e o espaço público?
É verdade que em situação de anonimato do autor do blogue é possível manter um espaço blogosférico que contacte somente entidades blogosféricas e um espaço privado pessoal que contacte somente entidades pessoais físicas.
Mas é igualmente verdade que a pessoa física anónima que escreve um blogue pode estar tão sujeita a situações emocionais com as pessoas blogosféricas como se fossem pessoas físicas que ela está a ver.
As relações entre as pessoas na sociedade são sobretudo relações entre ideias. Existirá uma diferença decisiva entre as ideias transmitidas entre pessoas físicas (não necessariamente presentes) e as pessoas blogosféricas?

E o amor cristão blogosférico, será um conceito virtual? Será aqui também possível dar, receber, partilhar, aprender, escutar, dialogar, crescer? Em que medida somos cristãos (também) na blogosfera?
Pelo sim pelo não, embora seja importante ser cristão na blogosfera é ainda mais importante ser cristão fisicamente.
Porque, como escreveu o Fernando: "O contacto físico, a pele na pele, o tecido na pele, as páginas nas mãos, ou o sopro da amizade, mesmo a presença de Deus, deve ser continuadamente lembrado."
Eu acrescentaria: "o pão na boca e o vinho nos lábios". E não me parece que isto possa ser considerado uma qualquer manifestação de incorrigível materialismo. Pelo contrário.

Timshel [TIMSHEL]

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Depressão e Terapia. Cura.

Eis então passos de cura.

Uma leitura de Freud pode passar por um esquema mais ou menos como este: há um acontecimento inicial com repercussões negativas nos acontecimentos que dele derivam; perante, a dificuldade de tomar consciência desse acontecimento inicial, não só se desenvolvem uma série de mecanismos de ilusão, como se perpetua a dor; por isso, a consciência desse acontecimento inicial representa um primeiro e grande passo para a cura.
Não está ao nosso alcance justificar pormenorizadamente o que vamos dizer. Mas porque grande parte dos textos que circulam por aqui, pela terra, por outros lados e por outros autores, têm uma das suas maiores virtudes no seu carácter exploratório, dizemos o seguinte: Freud segue um esquema conhecido.
De facto, na Bíblia, no esquema histórico que percorre correntemente a Bíblia, temos um esquema similar. No Génesis, temos um primeiro acontecimento, a queda, com consequências nefastas. Temos depois a perpétua tentação de esquecê-lo, que pode ser vista na repetição constante da recaída na idolatria. Temos por isso, a criação de uma série de mecanismos de ilusão. Temos por isso, a criação permanente da dor. A terapia bíblica passa pelo recordar desse acontecimento e o recordar desse acontecimento é o primeiro grande passo no caminho para a cura.

O que tem isto a ver isto com a Terapia de Lodge? – Tudo. Na depressão, como é retratada no livro, há um desejo que não pode ser realizado. Há um devia ser assim que está longe do que é. E parece então que a depressão é tanto maior quanto maior for a distância que vai daquilo que se é àquilo que se quer ser. De certo modo é assim. E de certo modo, parece que a cura se resolve pela anulação desta distância.
Mas não de todo, se pensarmos no que está implicado na cura da Terapia. Aí, a cura não passa por uma restrição ao desejo. Não passa por Bolinhas reduzir o desejo de ter um corpo moreno e atlético, para que o desejo se aproxime da circunstância do seu corpo gordo e cheio de pequenas mazelas. Não passa por restringir o desejo para os níveis que lhe permitam aceitar a sua dificuldade de relacionamento marital e extra-marital, como não passa pela diminuição do desejo de justiça social.
A cura na Terapia não passa pelo conformismo. O conformismo quando muito pode representar uma etapa intermédia. Uma suspensão na luta. Uma oportunidade para ganhar forças. A cura não tem a ver com quantidade, mas com qualidade. Tem a ver com a qualidade do que se deseja.
Isto é, reconhecemo-lo muito abstracto. Por isso, para torná-lo concreto, precisamos da história, precisamos da Terapia. E na Terapia, temos repetido o esquema de Freud e sobretudo repetido o esquema bíblico.

Depois de muitas voltas, Bolinhas lembra-se da primeira namorada. Acossado pela perspectiva de falhanço do casamento e pelo divórcio eminente, acossado pelo falhanço sexual da relação de amor platónica e adúltera, acossado pelo falhanço de uma breve relação ocasional na América, acossado pelo falhanço de encontrar solução para o sexo e para o amor nas tentações de assédio a uma colega de trabalho, Bolinhas corre a memória até ao primeiro namoro.
Para ele, o primeiro namoro tinha acabado porque sim. Não deu. E isso tinha sido para ele mais um facto normal e trivial. Coisa que acontece a qualquer um. Coisa que todo e qualquer um não tem na memória e na consciência sem grande consumição. Nada de errado, portanto.
Mas, na fase de grande crise que vive, pergunta-se: será que é mesmo assim? – E sem perceber bem os contornos da sua necessidade, tem necessidade de rever a primeira namorada. Na sua memória e presencialmente.
Começa a ler uma história diferente. E uma história substancialmente diferente daquela que havia contado até aí. Não era mais a história de que não deu porque ela não queria fazer sexo, e porque precisava de sexo, precisava de andar em frente em busca de uma relação onde o sexo se pudesse concretizar. Era uma história de amor desperdiçado. Era uma história onde o amor que a sua namorada lhe tinha não tinha sido respeitado. Ela amava-o e ele não foi capaz de fazer dessa amor algo que resistisse aos seus desejos egoístas e às vicissitudes do tempo.
Esse foi para Bolinhas o acontecimento com consequências nefastas. Porque a partir daí, não só nunca mais foi capaz de ver os sinais do amor, como nunca mais foi capaz de respeitá-lo.
Entretanto, se começa a viver esta descoberta, Bolinhas precisa de vivificá-la. Precisa não apenas de conhecer, mas de fazer. Não de saber, mas de amar. Por isso, procura a primeira namorada; por isso, a felicidade quando a encontra na peregrinação que entretanto ela faz a Santiago.

Fernando Macedo [A-BORDO]

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Perdas

Nestes tempos de escassez, assume maior importância o combate às perdas. Da água. Como da fé. E da acção, porque não se sabe o que fazer. E do olhar, porque as imagens saturam a visão. E do entendimento, porque não há tempo para pensar. E pensar incomoda como andar à chuva, mas como não chove nem sabemos como é bom é andar à chuva e cheirar a terra molhada e ouvir a água correr.
Em qualquer programa de combate às perdas é útil destrinçar as perdas aparentes das perdas reais e as perdas contabilizadas das não contabilizadas. As perdas aparentes são aquelas que não são efectivamente perdas. Os roubos de água, por exemplo. As fés que se mudam para outras confissões mais modernas, mais espirituais, menos formais, milenaristas, egoístas, dos sentidos e da emoção, dos prazeres imediatos. Aqui, as águas não se perdem. Apenas mudam de mãos. É uma questão de tempo, até que se mudem outra vez, porque não têm tempo de criar raízes nem de fecundar.
As perdas contabilizadas também não chegam a ser perdas efectivas. São ofertas. Transferências controladas. Aos bombeiros, por exemplo. Às seitas dentro da Igreja. À política.
As perdas reais são as mais preocupantes. São difíceis de perceber onde e por que razão ocorrem. São perdas não contabilizadas. São observáveis apenas pelos vestígios que rodeiam as roturas, por indícios indirectos, um pouco como os buracos negros. Na água ou na Igreja, rondam os 30 ou 40% todos os anos. Água que se perde, sal da terra que abandona, luz que se apaga. Não se sabe para onde vai.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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Bem-Aventuranças

Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque, como nossos irmãos, temos de lutar para erradicar a pobreza
porque deles é o reino dos céus.
porque como nossos irmãos, queremos um governo do mundo mais justo, em que a riqueza será partilhada
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
porque como nossos irmãos, queremos co-nascer todos os dias, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença

Bem-aventurados os mansos,
porque a revolta se deve fazer em silêncio, se necessário ruidoso, não oferecendo a segunda face quando o que nos propõe é o servilismo e a injustiça
porque herdarão a terra.
porque devemos cuidar a Criação como coisa nossa, que não pode ser destruída
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque, como nossos irmãos, devemos lutar para que a fome seja erradicada e todos se sentem à mesa como iguais
porque serão saciados.
porque só assim poderemos viver em consciência
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque o perdão é etapa essencial para construir a paz
porque alcançarão misericórdia.
porque queremos construir apenas um mundo que é suficiente para todos nós
Bem-aventurados os puros de coração,
todos aqueles que lutam pela paz e pela justiça
porque verão a Deus.
porque viverão num mundo justo
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque não podemos tolerar uma política que tem como fim a guerra
porque serão chamados filhos de Deus.
porque Deus não pode NUNCA ser invocado para destruir a paz e construir Guantanamos de todas as cores e países
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque, como nossos irmãos, devemos estimar a liberdade
porque deles é o reino dos céus.
porque a Terra não pode ser um lugar de Morte

É uma actualização, pretensiosa, das belíssimas Bem-Aventuranças.
Contra a exclusão de padres que olham para o lado quando vêem a miséria.
E regurgitam ódio contra quem atenta contra a vida, quando eles esquecem a vida .

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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segunda-feira, março 14

 

Revolução Personalista 4 – da liberdade ou manifesto anti-neoliberalista

Ao contrário das mentiras que aqui disse anteriormente, ainda não vai ser hoje o final da série sobre "O Personalismo" de Emmanuel Mounier. Não resisto a deixar-vos com mais dois excertos do seu livro, desta vez sobre a liberdade. São apenas dois pequenos recortes antigos mas que me parecem merecer a nossa reflexão. Quando Mounier os escreveu, estava muito longe de saber que haveria de existir alguma coisa chamada neo-liberalismo. O seu texto desmascara duas premissas básicas dos neo-liberais normalmente enunciadas mais ou menos assim:
1. A minha liberdade acaba onde a liberdade dos outros começa;
2. Basta haver liberdade para haver desenvolvimento.
Repetidas as asneiras, passemos directamente à sua negação, pela voz de Mounier:

ninguém é livre sozinho
«Poderíamos perguntar o que aconteceria à comunicação num mundo em que cada liberdade surgisse isoladamente. “Só serei verdadeiramente livre, escreveu Bakounine, quando todos os seres humanos que me rodeiam, homens e mulheres, forem igualmente livres... Só me torno livre através da liberdade dos outros”. Fundamental observação: a reivindicação da minha própria liberdade está demasiadamente misturada com os meus instintos para não ser suspeita, e pode-se dizer com inteira justiça que o sentido da liberdade começa com o sentido da liberdade dos outros. Esta cooperação de liberdades é excluída dum mundo onde cada liberdade se não pode unir a outra, como pensa Sartre, senão esmagando-a ou fazendo-se esmagar por ela; inserida interiormente numa necessidade, semelhante liberdade só pode comunicar a necessidade. Não liberta aquele de que se aproxima, quando muito limita-se a arrancá-lo ao sono e a arrastá-lo no seu irresistível turbilhão. Ao contrário, a liberdade da pessoa cria à sua volta liberdade, por uma como que leveza contagiosa – tal como inversamente a alienação engendra alienação.

liberdade e liberdades
«A ideia de gratuidade é uma ideia de existência rica, e, numa condição demasiado insuportável, a liberdade mais não é, como dizia Marx, do que a “consciência de uma necessidade”. É um princípio, porque a consciência é promessa e iniciativa de libertação; só aquele que não vê a sua escravidão é escravo, mesmo quando feliz na sua condição. Mas esse princípio é ainda limitadamente humano. Eis porque, antes de proclamar a liberdade nas constituições, ou de a exaltar em discursos, temos de assegurar comuns condições de liberdade, biológicas, económicas, sociais, políticas, que permitam às forças médias a participação nos mais elevados apelos da humanidade; temos que nos preocupar com as liberdades, tanto como com a liberdade. Defender “a liberdade” sem outra indicação, sempre que um acto de poder ou estado de coisas a limitem, é condenarmo-nos a tomar posição ao lado das forças do imobilismo contra as forças dos movimentos. As liberdades de ontem são sempre ameaçadas pelas liberdades de amanhã. As liberdades da nobreza foram abaladas pelas da burguesia. As liberdades da burguesia estão ameaçadas pelas liberdades populares. A liberdade de todos pode comprometer a liberdade de alguns. É assim que as mais belas declarações de direitos podem cobrir, com a sua própria generalidade, simplesmente, como escrevia Marx, “a liberdade do homem egoísta, do homem separado do homem e da comunidade”.»

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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quarta-feira, março 9

 

Jardins de pedra

A guerra do Iraque, a confissão de um pecado ou a natureza traiçoeira de certos aspectos da natureza humana.
Cresci à sombra do que me parece (ou parecia) uma guerra justa. Embora tenha nascido alguns anos depois da segunda guerra mundial, nunca me desembaracei do sentimento de que a invasão da Europa nazi-fascista pelos norte-americanos tinha sido uma boa coisa. Centenas de milhares de jovens deram a vida para que a Europa se libertasse de uma das mais terríveis formas de totalitarismo que o século XX viveu.
Lembro-me de, já adulto, passear pelos "jardins de pedra" da Normandia e da Bretanha, milhares de cruzes em pedra formando uma arrepiante paisagem, os cemitérios onde se encontra uma boa parte da juventude americana do princípio da década de quarenta. Vai-se andando pelas estradas e é um e depois mais outro e mais outro e mais outro e mais outro. Por vezes com o mar ao fundo. Por vezes numa enorme planície verdejante como uma estranha ferida numa pele lisa.

Há guerras justas?
Este tema foi-me suscitado pela nomeação de Freitas do Amaral para MNE. É conhecida a sua oposição à guerra no Iraque. É uma posição comum aos católicos. Encontramos desde logo o Papa João Paulo II na condenação veemente da intervenção norte-americana. E, em todo o espectro político a que pertencem os católicos, existe essa atitude comum: a condenação da intervenção norte-americana no Iraque. Recordo, a título de exemplo, a posição de João César das Neves, aqui, e, mais recentemente, de Adriano Moreira, aqui.
Como se deduz da introdução a este pequeno texto, devo admitir que, nesta matéria tive e tenho muitas dúvidas. Embora tenha sempre apoiado aqui e no meu blogue a posição do Papa e de todos aqueles que se opuseram à guerra do Iraque, interiormente hesitava bastante.
Achava (acho?) que existe a possibilidade da existência de guerras justas. Essa convicção foi ainda mais reforçada com a leitura destes dois textos mencionados ontem pelo Rui Tavares (aqui e aqui). (um pequeno aparte a respeito destes dois textos: Rawls, no seu funcionalismo utilitário "justicialisto-equitativo" é um moralista; mas embora recupere algo da moral cristã na sua teoria da justiça, esquece outros aspectos do cristianismo – talvez por não ter percebido – ou não ter querido aceitar – que por detrás de qualquer teoria política existe sempre uma moral que é o seu único fundamento e que a Moral só faz sentido com um fundamento transcendental)

Quando um povo se encontra esmagado por uma terrível tirania é legítimo sacrificar vidas para o libertar?
Quantos mais judeus morreriam se não tivesse existido a invasão da Normandia?
Quantos mais milhares de mortos não seriam a consequência de um eventual pacifismo egoísta norte-americano?
Estaremos perante o célebre "dilema do agulheiro" que tem que lançar por uma ribanceira abaixo um de dois comboios (a única escolha possível é entre matar poucos - num comboio - ou matar muitos - no outro)?

A posição do Papa é clara: a guerra nunca se justifica. A coerência do Papa levou-o mesmo a recusar a violência contra o nazismo. Apesar de ter sido um resistente ao nazismo e de, por causa disso, ter ido parar a um campo de concentração. No qual morreria se não fosse a intervenção dos aliados.
Não há critérios de proporcionalidade quando se fala de guerra. Um cristão nunca pode defender uma guerra seja em que circunstância for.
Porque existe um valor sagrado, que é o da vida humana. E a guerra é, por definição, matar. Matar o nosso irmão. E talvez, quando eu pensava que a guerra no Iraque se justificava, esquecesse que nem sequer havia proporcionalidade entre a situação provocada pela guerra e a situação antes da guerra.
Mas, haverá algum caso em que a guerra seja proporcional?

Este texto é confuso?
É. Poderia escrevê-lo de um modo mais claro mas não tenho tempo, por um lado, e, pelo outro, talvez a confusão do texto imprima mais claramente o sentimento de "delicada confusão" moral que se pode encontrar em situações-limite.
Porque não tenho dúvidas que em situações-limite apenas posso esperar que a voz de Deus ecoe na minha consciência. Como escrevia Radbruch na última frase dos seus "Cinco minutos de Filosofia do Direito", é por vezes necessário deixar a decisão à voz de Deus, "àquela voz que só nos fala à consciência em face de cada caso concreto."
E, nestas situações, escutar a voz do Papa é, pelo menos, meio caminho andado para escutar a voz de Deus.

Timshel [TIMSHEL]

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Carta a um Amigo não-crente que morreu nesta Quaresma

«A Humanidade de Deus é uma metáfora. Não delimita, nem fixa uma significação exclusiva. Nasce, porém, de um convicção que julgo teologicamente fundada: em Jesus Cristo, não há uma afirmação de Deus à custa do ser humano nem uma afirmação do humano à custa de Deus. Não são relações de rivalidade nem de estranheza. Também não há diluição do divino no humano nem do humano no divino. A partir de Jesus Cristo, nosso contemporâneo, acredito que Deus vive e se diz no ziguezague da nossa História sem perder a sua inviolável alteridade. É por isso que procuro, quarta-feira após quarta-feira, abrir algumas brechas na confusão dos acontecimentos, para ouvir os apelos da Vida e as interpelações da morte.
Se Deus não estivesse do nosso lado (Rm 8, 31), mesmo no seu eclipse, como podíamos saber que é nele que temos a vida, o movimento, o ser, que é Ele a respiração mais funda do desejo, que somos da sua raça, como já diziam três séculos antes de Cristo, os poetas pagãos, cuja voz o apóstolo Paulo acolheu no areópago de Atenas (Act 17, 24-29)?
Não ignoro que esta perspectiva tem os seus riscos. Onde se devia manter um poste de alta tensão, pode ficar a ideia de uma pré-harmonia de contrários. Um Deus assim parece ter a ver mais a ver com um dado disponível da cultura e da religião do que com o sobressalto da Páscoa. [...]
A solução mais fácil consiste em eliminar todas as tensões: reservar a fé para todo o mundo do sentimento e da interioridade e a razão para as ciências e as técnicas ao serviço dos negócios; a fé fugindo das exigências da inteligência e a inteligência satisfeita por não ter encontros incómodos com a inquietante palavra profética.
No entanto, dê por onde der, os cristãos só podem acreditar num Deus incrivelmente impuro, no Emmanuel, que significa Deus connosco (Mt 1, 23). O rosto deste Deus está manchado de sangue até que chegue ao fim o sofrimento no mundo. Só há fé cristã quando se não pode desviar os olhos de nenhum crucificado na terra. A luz da Páscoa não é o branqueamento da História. [...]
Tudo é possível para aquele que acredita, disse Jesus. Eu creio, mas ajuda a minha incredulidade, gritou o pai do menino atormentado (Mc 9, 24). Milagre é obedecer à voz do possível tido por impossível.»

As palavras (ligeiramente adaptadas) são de frei Bento Domingues*. Bebo-as como fonte de esperança, uma semana depois da morte de N.

* - in As Religiões e a Cultura da Paz, Figueirinhas, pp. 144-146.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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Más companhias

O sofrimento individual pode ser lugar de redenção. Nunca o único caminho, mas um dos modos de se chegar a Deus. Mas a boa nova de Jesus é um anúncio de alegria e não de tristeza, de festa e não de dor, de vida e não de luto.
Por isso, (mesmo) nesta época da Quaresma, identifico-me com a Igreja que alivia a dor do homem, que toma suas «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de quantos sofrem» (Gaudium et Spes, 1). E que reconhece «escandalosa a existência das excessivas desigualdades económicas e sociais que ocorrem entre os membros e povos da mesma família humana. São contrárias à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e à paz social e internacional» (GS, 29).
Daí que seja dever e responsabilidade de cada cristão tomar como sua esta mensagem da boa-nova. Pela obras e não apenas pelas palavras. Não concebo uma proximidade de Deus longe da vivência dos homens.
Parafraseando, embora abusivamente, o Tiago, direi que as pessoas que não gostam da pobreza, não querem que inocentes sofram, que evitam ver a miséria, que se arrepiam imóveis com a injustiça, que ignoram o quotidiano de carne dos seus irmãos, estão convencidas de que nada têm a ver com esse mundo. A sua humanidade é outra. Outra que desconheço.

Ora, na Igreja em que habito cabe uma grande variedade de modos de experimentar a Fé, de viver no mundo com o coração em Cristo. Chamamos a isso diversidade na unidade. Tão grande e confusa é essa multiplicidade de olhares que, por vezes, dou por mim algo impiedoso (comigo e com os outros) e dogmático no meu catolicismo.
Nesta grande mesa cabem o padre Mário Oliveira ao lado do Jardim Gonçalves, as beatas que adormecem na eucaristia encostadas aos católicos não praticantes (que nunca compreendi muito bem o que seja), os Jesuítas ao lado da Opus Dei, os católicos pró-aborto (sim, também há...) a par dos católicos anti-aborto, os muitos missionários e a Cúria Romana, os teólogos da Libertação entre os monges contemplativos e os párocos das grandes cidades. Também aqui, na blogolândia e nesta Terra, encontramos manifestações desta diversidade.
Ao contrário de outros conterrâneos, como o camarada José, tenho pouca esperança e não faço muito esforço por um ecumenismo que me parece algo artificial. Cada um sabe de si (e Deus de todos, como diz o povo). Mas, neste colorido todo, tenho muito mais facilidade em sentar-me ao lado de um católico distraído do Direito Canónico, do amigo Tiago, ou mesmo de um comunista ateu, do que perto de alguns dos meus (outros) irmãos.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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Terapia e depressão. Depressão.

E assim fica a faltar a terapia.

Para quem procura uma caracterização sociológica da sociedade contemporânea, este livro de Lodge – Terapia, Gradiva, Lisboa, 2004 – tem uma vantagem, pois alarga o leque de visão social, habitualmente preso às imagens fornecidas por uma certa contra-cultura e que passam pelas vivências do desespero, do sem sentido, das experiências limites, ou pela imagens fornecidas pela corrente principal, Hollywood, da vivência do amor ou da violência. Por isso, se habitualmente somos confrontados com a vivência da marginalidade, nas diversas manifestações, legítimas e ilegítimas, com a vivência dos poderosos, nas diversas manifestações, legítimas e ilegítimas, temos neste livro, como de resto, no Notícias do Paraíso, do mesmo autor, a atenção centrada naquilo que poderíamos designar como “classe média contemporânea”. Se por aqui, surge uma primeira virtude, e uma virtude sociológica, o livro ao sofrer a inspiração de Kierkegaard, – fartamente citado, ao longo das páginas –, passa pela temática da melancolia e da depressão.
A depressão surge na Terapia pelo desajuste daquilo que o protagonista gostaria de ser e aquilo que efectivamente é. Bolinhas, guionista – autor da série televisiva Vizinhos do Lado –, gostaria de ser outro. Por exemplo, gostaria de ter outro corpo, de não ser gordo. Gostaria de ter outra vida. Se vive casado e com um casamento sem problemas, ainda assim deseja o adultério. Quando não é capaz de realizá-lo, não consegue deixar de andar nas suas margens e de manter um adultério platónico com uma colega de trabalho.
Profissionalmente, a sua vida corre sem sobressaltos e Bolinhas aprecia a larga audiência da sua série. Se não enjeita o sucesso monetário que daí advém, não é capaz de conviver de modo pacífico com ele, pois isso, para ele, colide com os seus desejos de justiça social. E se isso o leva a contribuir com dinheiro para diversas instituições de solidariedade social, não só o dinheiro que oferece não o apazigua, como nunca dá o dinheiro que sabe que poderia dar.
Esta clivagem entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser pode ser traduzida na obra de outros e múltiplos modos. Por exemplo, na relação que estabelece com os colegas de trabalho; por exemplo, com os médicos e terapeutas que lhe tratam as mazelas, com os vizinhos, com os filhos.
Mas a esta clivagem é somada na Terapia uma segunda. Esta parece advir do que poderíamos designar por afectação de globalidade. Bolinhas vive mal a situação de sucesso financeiro porque compara a sua situação não com a dos vizinhos, mas com a dos pobres em África. Bolinhas vive mal a situação da sua doença no joelho, porque compara a sua doença com os que sofrem de Sida. Isto é, Bolinhas não vive apenas a clivagem entre o que é e o que gostaria de ser, mas também a clivagem entre aquilo que os outros são e aquilo que ele gostaria que fossem.
Como é óbvio, este desejo não pode realizar-se. Pelo menos no tempo de vida da personagem. Está, de facto, longe a realização daquilo que quer para os outros. Do mesmo modo, parece longe o que quer para si. Não consegue ser alto e moreno, atlético e adúltero.
Assim, soma duas doses e vive num regime de grande frustração. Por isso, tem dificuldade em lidar com pequenas frustrações. Ao ponto, de qualquer pequena frustração fazer com que o seu copo transborde. Para fora, explodindo em súbitos ataques de raiva. Para dentro, adensando o seu estado depressivo.
Pela Terapia, podemos dizer que a depressão passa pela clivagem entre um é e um deveria ser. Mas dizer isto, não basta. Para Lodge, como para o seu Kierkegaard, a depressão não é apenas fruto desta clivagem. É também fruto de uma inconsciência. Ora isto, como é óbvio, é um tema difícil. A começar porque parece solicitar alguma contradição. De facto, muito do que deprime Bolinhas é consciente. Bolinhas tem consciência do que é e do que gostaria de ser. Tem consciência que não é realizável o que permitiria atravessar o fosso. Ainda assim, não é capaz de se libertar da doença.

Fernando Macedo [A BORDO]

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segunda-feira, março 7

 

Perder para Encontrar – aprendendo com a Sagrada Família

“Recebi” este texto dos meus pais
Reescrevo-o, agradecendo ao perplexo José a sua última passagem sobre a Terra.


Desde há algum tempo, que a passagem da perda e do encontro do menino Jesus no templo tem para mim um significado bastante importante. O impacto que esta passagem teve na minha história pessoal, ajudou-me a compreender melhor aquele que julgo ser o seu significado mais profundo.
Mas comecemos pelo princípio…
Os doze anos são, na cultura de Jesus, a idade em que o homem assume, por si mesmo, a sua fé. Aproveitando este dado Lucas coloca Jesus a afirmar, pela primeira vez, a sua opção de fundo, a finalidade que há-de orientar toda a sua vida: as coisas do Pai. Esta opção de fundo é a que permite olhar para a vida de Jesus como um todo, lendo cada uma das suas acções à luz desta opção.
Como bem salienta Macintyre, a modernidade fragmenta a vida humana numa multiplicidade de segmentos. Cada um destes segmentos assume-se como um compartimento estanque, com normas e comportamentos distintos. Aos diferentes papéis sociais de uma mesma pessoa quase parecem corresponder diferentes personalidades. É inquietante apercebermo-nos como as opções profissionais ou de um curso universitário estão tantas vezes dissociadas dos valores que, privadamente, esta ou aquela pessoa diz defender, estão dissociadas de uma opção de fundo, de uma finalidade que informe cada uma das suas escolhas. É assim colocada em causa a ideia da busca de um bem que dê à nossa narrativa a inteligibilidade de que necessita, um sentido que a torne viável.
Esta passagem pode ainda iluminar o modo como olhamos para a relação entre pais e filhos. Ela pode significar para os pais um convite a renunciar à sua vontade, às expectativas que colocam nos filhos. Maria e José vêem-se confrontados com a necessidade de renunciar às expectativas relativas ao futuro do seu filho. Naturalmente que isto implica dor e perda. Mas, tanto quanto sou capaz de perceber, a maior aprendizagem a que um pai e uma mãe são chamados passa por aprender a “perder” os filhos
Esta exigência implica que tantos os pais, como os filhos, aceitem a unicidade uns dos outros e das suas narrativas pessoais e intransmissíveis. Isto exige, sobretudo da parte dos pais, a renúncia a qualquer tentação de posse ou manipulação. Implica que, a partir de um dado momento, os pais deixem os filhos partir, seguindo o seu caminho. Esta separação, esta perda, só poderá ser verdadeiramente fértil (conduzir à felicidade) se estiver ancorada na experiência primordial de se ser amado. Só assim os filhos poderão sentir a sede de futuro e a vontade de partir. Sem medo de ficarem sozinhos ou da sua escolha não ser acalentada e acompanhada
Parece-me que, juntamente com a fragmentação a que já me referi, é talvez a excessiva dependência mútua entre pais e filhos que torna tão difícil a possibilidade duma opção de fundo que dê sentido à vida como um todo.
Há hoje uma enorme dificuldade em educar para o futuro. Isto significa que não é fácil ajudar a encontrar uma finalidade a partir da qual possamos questionar cada uma das nossas escolhas, a partir da qual de se possa dar inelegibilidade à nossa narrativa. Uma finalidade para a qual estejamos dispostos a orientar toda a nossa vida. Naturalmente que uma tal escolha implica despojamento e abnegação, mas também é verdade que este esvaziamento nos enche de espaço para a felicidade.
Tal como no caso de Jesus, estas opções trazem, sempre a marca da tradição em que nos inserimos. A opção de Jesus pelo Pai aprofunda o sentido de toda a história do povo Judeu. Do mesmo modo, cada uma das nossas narrativas é também herdeira da história dos nossos pais e avós. Só assumindo esse passado podemos lançar-nos no futuro. Contudo, só seremos fiéis a nós próprios se esse passado for assumido e integrado na nossa vida não como um peso, mas acima de tudo como um testemunho e uma experiência de Amor que se renova em cada nova vida.
É pela forma como acompanham o seu filho e o deixam seguir o Seu caminho, que Maria e José lhe abrem as portas do futuro e o preparam para dar a vida pelas coisas do Pai.
Será fácil ser pai e ser mãe assim?


José Maria Brito, sj

Declaração de interesses: a vida para a qual fui escolhido e que escolhi implica que não seja pai… mesmo que faça experiências profundas de paternidade.

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O Papel da Religião na Sociedade: uma perspectiva bahá'í

Os últimos cem a cento e cinquenta anos da humanidade têm sido palco de transformações enormes na vida humana. Estruturas que eram consideradas durante gerações como factos imutáveis, como dados adquiridos, ruíram num curto espaço de tempo. Podemos ver isso em várias esferas da vida humana – o papel da mulher na sociedade; a gradual mas completa substituição da organização feudal da sociedade; a expansão e democratização da educação; ou o predomínio de valores democráticos e liberais na organização política da sociedade.

Vivemos portanto numa sociedade em mutação, e a religião não escapa a esse fenómeno. Por um lado, vemos que a religião – na acepção comum do termo – perde importância, e as taxas de participação em serviços religiosos é cada vez menor (para dados relativos a Portugal, ver por exemplo dados no Inquérito pós-eleitoral de 2002, ou bem como inquéritos anteriores). Esse padrão é igualmente perceptível nos comentários que se ouve de as religiões provocam guerras (e para isso nem precisamos de ir ao Médio Oriente, tendo vários exemplos na própria Europa), ou de desconfiança em relação à "religião organizada".

Mas por outro, parece sobressair a necessidade de uma vivência religiosa por parte das pessoas. Os dados de um recente estudo em Portugal, realizado em 1999, são particularmente elucidativos. Assim, se apenas metade dos inquiridos participava em serviços religiosos pelo menos uma vez por mês, 82% das pessoas considerava-se religiosa; 93% acreditava em Deus; para a maioria destas, Deus tinha "muita importância" nas suas vidas; e 71% afirmou que orava e meditava.

Ora, isto é interessante, na medida em que sugere que as pessoas sentem a necessidade de uma ligação com uma outra realidade que transcende a dimensão material. E talvez por isso constata-se o crescimento de novas formas de exprimir essa necessidade: vemos cada vez mais pessoas interessadas em "espiritualidade", na meditação, em fenómenos paranormais – enfim, fenómenos que até há bem pouco tempo não eram particularmente bem-vistos e limitavam-se a uma pequena minoria.

Isto é interessante, e confirma o a afirmação de um eminente historiador de que a religião é "uma faculdade da natureza humana". O que os padrões existentes sugerem é que os meios de exercer essa faculdade são insuficientes para o exercício pleno dessa faculdade. Aquilo que proponho é que isso se deve em larga medida a uma má compreensão do que é realmente a religião.

O que é então a religião? Para que serve a religião?

DEFINIÇÃO DE RELIGIÃO

Bahá'u'lláh escreve que "o propósito fundamental que anima a Fé de Deus e Sua Religião é a salvaguarda dos interesses e a promoção da unidade da raça humana...". Creio que isto clarifica muita coisa: a religião tem como objectivo salvaguardar os nossos interesses e promover a unidade da raça humana, e é um instrumento para se conseguir isto.

Sabemos que Bahá'u'lláh falou explicitamente do reconhecimento da unidade da raça humana como o objectivo central da humanidade nesta sua fase de desenvolvimento. Mas de uma forma ou de outra, todas as religiões falam da unidade da raça humana, como se confirma nas suas "regras de ouro":

* "Age como gostarias que agissem contigo." (Zoroastrianismo)
* "Tudo o que desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles, pois é nisto que consistem a Lei e os Profetas" (Cristianismo)
* "Não magoeis os outros de formas que vos magoariam a vós" (Budismo)
* "Nenhum de vós é um crente, enquanto não amar o seu irmão como ama a si mesmo" (Islão)
* "Não faças ao teu companheiro aquilo que para ti é odioso: nisto se resume toda a Lei; o resto é um seu comentário" (Judaísmo)
* "O dever mais elevado consiste em não fazermos aos outros o que nos causaria sofrimento se nos fosse feito a nós" (Hinduísmo)
* "Bem-aventurado quem prefere seu irmão antes de si próprio" (Fé Bahá’í)


Ora, nenhuma destas "regras de ouro", destas regras de comportamento, tem um asterisco ou nota de rodapé a dizer que não se aplica a pessoas do tipo x ou y. Elas são, verdadeiramente, universais, e como tal reafirma este conceito de unidade – ao qual subjacente está um conceito de igualdade – do género humano.

HISTORIA

De igual modo, historicamente vemos que as religiões têm de facto servido para o avanço da humanidade. As grandes civilizações surgiram de ímpetos e novas revelações divinas: não precisamos mais do que considerar o avanço da comunidade judaica após o aparecimento de Moisés, tendo sido capaz de escapar ao jugo opressivo dos egípcios; ou o impacto de um jovem aparentemente destituído de poder terreno, como Jesus, mas que na realidade era movido por um poder divino.

Contudo, quando falamos da história das religiões, existe de facto a percepção de que a religião é também uma causa de conflitos. Em relação a isto, vejamos as seguintes palavras de 'Abdu'l-Bahá:

A religião deve unir todos os corações e fazer com que as guerras e disputas desapareçam da face da terra, dar origem à espiritualidade e trazer vida e luz a cada coração. Se a religião torna-se causa de aversão, ódio e divisão, melhor seria deixá-la, e tirar-se de tal religião constituiria ato verdadeiramente religioso. Pois é claro que o propósito de um remédio é curar; mas se o remédio agrava a doença, é melhor deixá-lo de lado. Qualquer religião que não seja fonte do amor e da unidade, não é verdadeira religião. Todos os santos profetas foram como médicos para a alma; deram prescrições para a cura da humanidade; assim qualquer remédio que cause doença não provém do grande e supremo Médico."

Esta citação é extraordinariamente clara e directa, deixando um padrão muito claro de avaliação da religião. A religião é de facto um instrumento extremamente poderoso, porque vai de encontro ao que de mais profundo e eterno que nós temos – a nossa dimensão humana, espiritual, a alma – como quisermos chamá-lo. Como tal, pode ser explorada para criar ódio onde deveria haver amor, desunião onde deveria reinar a unidade.

É neste sentido que a explicação de Bahá'u'lláh sobre a revelação de Deus se torna tão coerente. A religião não é uma coisa estática, tendo que ser renovada, para que a força da superstição e ignorância sejam combatidas. E só o poder de Deus pode realmente renovar este instrumento tão poderoso. Aliás, essa dimensão confirma-se no facto de todos os Manifestantes de Deus anunciarem a vinda de outro Manifestante de Deus. Nenhum deles disse "Meus amigos, a revelação de Deus acaba aqui". Nem seria tal plausível quando todos Eles são movidos a reconhecer a sua incapacidade perante a imensidão e infinidade Divina.

Este é, alias, este um dos conceitos centrais da Fé, perceptível na afirmação de Bahá'u'lláh no Livro Mais Sagrado de que "
Esta é a Fé imutável de Deus, eterna no passado, eterna no futuro."

A RELIGIÃO À LA CARTE E A VERDADEIRA LIBERDADE

Hoje em dia os sociólogos falam do fenómeno da religião à la carte. O que é então este fenómeno? Basicamente, que a religião torna-se mais uma escolha pessoal, moldável aos interesses do indivíduo. Tal como num restaurante, as pessoas escolhem se querem comer carne ou peixe, se querem acompanhar o prato com batatas ou arroz, as pessoas “escolhem” de entre as diferentes religiões o que mais gostam, e criam a sua própria religião.

Ora, se isto é apelativo – especialmente dentro do modelo de sociedade de consumo em que vivemos, onde o poder de escolha é tão importante (e atenção, que enquanto consumidor gosto de ter escolha) – não deixa de ser interessante notar também que vai inteiramente contra um dos princípios centrais de todas as grande religiões – de que a verdade espiritual é imutável e não-relativa. Isto é perceptível, a título de exemplo, no que Cristo disse quando afirmou "Eu sou o caminho, a verdade e a luz"; e afirmações semelhantes podem ser encontradas nas escrituras de outros Manifestantes de Deus também.

Estas frases servem amiúde como a justificação de posições dogmáticas, senão mesmo fanáticas. Mas o que elas reflectem, a meu ver, é a noção de que existe um padrão, que existe uma verdade absoluta, de que Eles são transmissores. Até porque a visão fanática não faz muito sentido no contexto do resto do que os Mensageiros disseram, e até do seu contexto histórico. Todos os Manifestantes sucederam um outro Manifestante, todos Eles afirmaram a sua crença nesse Manifestante; e todos eles anunciaram a continuidade, de uma forma ou outra, da revelação divina à humanidade.

Ao mesmo tempo, vale a pena explorar até que ponto é que o conceito de religião à la carte é realmente sinónimo de liberdade. Numa das suas Epístolas, Bahá'u'lláh afirma que:

"A verdadeira liberdade consiste na submissão do homem aos mandamentos. Observassem os homens o que Nós lhes enviamos do Céu da Revelação, eles, com toda certeza, atingiriam a liberdade perfeita. Feliz quem apreende o Desígnio de Deus em tudo o que Ele revelou do Céu de Sua Vontade. A liberdade que vos é proveitosa só se encontra em completa servitude a Deus, a Verdade Eterna. Quem experimentar a sua doçura recusará trocá-la por todo o domínio da terra e do céu."

É evidente nesta citação que Bahá'u'lláh dissocia a liberdade da nossa alma da liberdade de escolha de princípios. Dito isto, vale a pena salientar a centralidade da liberdade na Mensagem de Bahá’u’lláh, confirmada por exemplo no conceito absolutamente central da livre e independente busca da verdade, ou a clara proibição de Bahá'u'lláh ao proselitismo (ou até mesmo a ausência de clero, mas isso fica para outra altura).

NOTAS DE VIOLINO

Em 2003 esteve em Portugal um dos mais conceituados violinistas europeus, Bijan Khadem-Missagh, e ele deu um exemplo que eu achei fabuloso. Como sabem, os sons que ouvimos são provocados por vibrações. Num violino, como numa guitarra, é a vibração da corda que produz o som, a nota. Mas de igual modo, nem todas os sons produzidos são iguais: as vibrações podem ser mais ou menos puras, que é o que nós conhecemos pela nota estar mais ou menos afinada.

O exemplo que ele deixou é este: os seres humanos são como as notas. E a humanidade tornar-se-á bela quando essas notas estiverem integradas e a trabalharem juntas, como as notas numa sinfonia, que estão em acordo umas com as outras. Não é sempre a mesma nota, algumas duram mais, outras são mais curtas, mas todas elas são essenciais para que sinfonia seja sublime.

Mas para que isso aconteça, é também necessário que as notas sejam afinadas, que as vibrações sonoras sejam puras. Por outras palavras, é necessário que nós nos tornemos cada vez mais puros, de modo a que a nossa nota soe melhor ao lado das outras; e quanto mais afinados estivermos, melhor iremos poder nos integrar com as outras notas.

Eu acrescentaria a este exemplo o seguinte: a religião, a mensagem que os Manifestantes de Deus trazem à humanidade, é como que o diapasão que nos permite afinar as nossas notas. É no fundo algo de bem mais simples do que muitas vezes pensamos; mas algo que tem que ser posto em prática durante toda a vida.

CONCLUSÃO

Queria acabar por partilhar uma frase de Bahá’u’lláh que acho absolutamente incrível:

"Queríamos esperar que o povo de Bahá seja guiado pelas benditas palavras: «Dize: todas as coisas são de Deus». Esta excelsa afirmação é como água para extinguir o fogo do ódio e da inimizade latente dentro dos corações e peitos dos homens. Por esta afirmação, simplesmente, povos e raças em conflito atingirão a luz da verdadeira unidade. Ele, deveras, diz a verdade e mostra o caminho."

Voltamos então ao verdadeiro propósito da religião. A religião serve-nos para lembrar que todas as coisas são de Deus, e portanto a nossa relação com todas as coisas – desde as outras pessoas ao meio ambiente, passando até pelo nosso trabalho – deve ser como a nossa relação com Deus – devemos ver (e procurar ver) o divino que há em todas as coisas.


Varqa Jalali

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Retractação, Amizade e Espírito - 1.Do lugar das virtudes.

Esta retractação é também uma reflexão sobre a amizade ou, em termos mais especificamente cristãos, sobre a caridade. O porquê de estabelecer esta ligação, o porquê desta participação na Terra, encontra-se num comentário recentemente feito por mim no a bordo. De que me retracto eu? - O seu a seu tempo. Porque o faço? - Poder-se-ia dizer que por amizade e por auto-respeito e também porque vários exemplos na blogoesfera, de que sou leitor mais do que ocasional, me levaram a reflectir sobre a amizade e a retractação. Assim, aqui, procurarei, por um lado, relacionar amizade e caridade, e por outro, amizade e retractação, o que me obrigará a percorrer, num excurso mais longo do que desejaria, mas não de pura delonga literária, dois diferentes tipos de questões que com um bocado de sorte, engenho e graça, organizarão este texto.


No primeiro grupo, as questões tentar-me-ão a falar de amizade e da esfera do afecto. Já no segundo grupo, visarei propriamente esta retractação – o seu porquê e o seu de quê.
O que podemos compreender por caridade e, na sua acção mais próxima, por amizade e amor? O que faz da caridade ou do amor uma das três virtudes teológicas e, especificamente, a terceira virtude, em termos de lugar? - A caridade é a terceira virtude teológica, sendo a primeira a fé, a segunda, a esperança. As três são virtudes conferidas e contrapõem-se às virtudes naturais (intelectuais e morais). Em S. Paulo e depois em S. Tomás de Aquino, a fé responde ao entendimento (ou às virtudes intelectuais), a esperança responde à vontade (ou às virtudes morais). Num certo sentido, pode dizer-se que sem fé (positiva ou negativa) não haveria entendimento, e que por isso, a fé é um pressuposto de inteligibilidade, como pode dizer-se que sem a esperança não há vontade boa.
Mas se a fé e a esperança podem figurar como contraponto às virtudes intelectuais e morais, qual a figura que a caridade desenha? Que correspondência cumpre a caridade? A quem acena? – Por Tomás de Aquino, ficamos a saber que a fé e a esperança não ausentam o pecado, que a exclusão do pecado só a determina a caridade. Nos Evangelhos, diz-se que o pior pecar, o que motiva a ausência de perdão, é o pecar contra o Espírito Santo. Por isso, é-nos dito a caridade é a mais admirável das três virtudes com que o supra-sensível nos dotou. Ao que é acrescentado um misterioso repto: só a caridade é digna da imortalidade, só a caridade pode não perecer.
Ora, se pensarmos que a fé respondendo ao entendimento natural só pode firmar o seu lugar na alma, e que a esperança respondendo à vontade natural lida com o corpo, teremos de associar a caridade ao espírito, esse terceiro, entre a alma e o corpo. Assim, nem a vontade corporizada, nem a anima intelectual, seria imortal. Apenas o espírito… Não a anima mas o animus. O que parece corroborado em Coríntios 7, 31-32, pela afirmação de que aquilo que passa é a figura, não a natureza. De onde: só o animus caritativo seria imune à morte porque imune ao pecado.
A caridade aparece então ligada ao espírito, o próprio princípio vital. E constitui com a fé e a esperança uma trindade. Desta trindade e do papel nela desempenhado pela caridade, como ‘graça das graças’ do Espírito Santo (I Coríntios, 13, 8), temos expressão simbólica, por exemplo, em Marcos, no episódio da agonia em Getsémani. Marcos não só diz que os discípulos que acompanham Jesus são Pedro, Tiago e João, como diz por esta ordem. Se associarmos Pedro à pedra que suporta a força da Igreja e se lembramos o papel de Tiago, compreendermos, então, o que representa João, o discípulo amado e o único, como é repetidamente sugerido, nomeadamente, em João, 18, 15, que seguiu Cristo, sem negação, até ao fim.


C.M.

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quarta-feira, março 2

 

Magnolia, ou a sagrada família (1ªparte)

Hoje venho aqui a propósito dos posts que o meu amigo Timshel tem publicado aqui na Terra e no seu blogue sobre a Família, a família tradicional, que ele diz poder e dever ser uma fábrica de felicidade. Fiquei com a ideia que esses posts nem foram bem entendidos nem tiveram a projecção que deviam, salvo um interssante post do Lutz. Vou por isso dar também a minha achega sobre um assunto, que entre os assuntos civilizacionais, é sem dúvida o mais importante.
E falando de família não posso deixar de me lembrar do filme que, para mim, é aquele que nos últimos anos melhor falou sobre a família, a que existe e a que pode existrir – estou a falar do
Magnolia, de 1999.
Não sei se lembram deste filme do Paul Thomas Anderson, com o Tom Cruise, a Juliette Moore, o Jason Robards e outros. E com uma fabulosa banda sonora, da Aimee Mann. Eu lembro-me bem do Magnolia. Farto-me até de me lembrar dele, de o rever vezes sem conta, pois é sem dúvida um dos filmes da minha vida. Não sei o que ficaram a pensar desse filme aqueles que o viram. Mas a mim o me ficou a martelar a alma foi uma pergunta simples: o que andamos nós, os pais deste mundo, a fazer dos nossos filhos? O que lhes estamos a dar? Em que é que os estamos a transformar?




Mas isto foi num primeiro momento, num primeiro visionamento deste filme tão complexo. Pois, num segundo momento, o filme dá-nos a perceber que no meio da infelicidade e disfuncionalidade provocada pelas tremendas falhas daqueles pais, a possibilidade do perdão, e portanto do amor, permanece no seio das famílias. Mesmo em situações limite, talvez apenas em situações limite, a redenção da família enquanto fábrica de felicidade, de crescimento humano, é uma real possibilidade. Sempre. Ou melhor, como se verá, quase sempre.
Em vez de lhes contar aqui a intricada narrativa deste filme, recomendo-vos vivamente a compra do DVD. Mas sempre lhes digo que a história gira toda ela à volta dum já velho concurso de televisão, um quiz show para crianças.
Earl Partridge, o proprietário da produtora do concurso (interpretado por Jason Robards) está a morrer dum cancro, já em fase terminal, e procura, através do enfermeiro que o assiste em casa, rever uma última vez o seu filho perdido (Tom Cruise), um arrogante guru duma espécie de círculo de ajuda a machos disfuncionais. Vem-se a perceber que Earl, há já muitos anos, abandonou o lar quando a sua primeira mulher sofria já com o cancro que a matou. E deixou ao filho o enorme peso de velar pela mãe, cuidar dela até à sua morte. E, como sinal da marca profunda que deixou no seu filho, este muda o seu nome para Frank Mackey e envereda por uma vida dominada pela negação do passado e por um profundo, intenso, doloroso e escondido ódio ao pai que não mais quis voltar a ver.
Depois há o Donnie Smith (William H. Macy), ex-génio, ex-estrela do tal quiz show, ganhador dum prémio de 100.000 dólares, roubados pelos seus próprios pais. Hoje é um pobre diabo, vivendo arduamente da fama passada, querendo apenas ser amado.
Depois há o Jimmy Gator (Philip Baker Hall), apresentador há décadas daquele concurso, um icon televisivo, um pulha sem préstimo com uma mulher amantíssima e uma filha – Claudia – que lhe foge horrorizada, mergulhando numa vertigem de droga e amores sem sentido. Descobrindo também que tem cancro, Jimmy procura a filha para lho contar mas esta, ainda assim, repele-o com horror. Horror cuja razão se adivinha mas que só se percebe no fim quando ele confessa à mulher que tinha abusado sexualmente da filha de ambos, durante anos a fio. E que isso foi a causa da brusca saída de Claudia da casa familiar, logo que pôde.
Temos também o jovem Stan Spector, a novíssima estrela do quiz show, um prodígio como Donnie o tinha sido na sua idade. E temos o pai dele: um pobre diabo também, que se convenceu um dia do seu talento e que, na busca duma fama que nunca virá, percorre incessantemente castings e audições para actor, modelo, figurante, whatever! E que nesse afã, apesar de viver apenas dos rendimentos que o filho lhe traz do concurso, falha-lhe permanentemente: leva-o atrasado para a escola, ignora os problemas do filho, pressiona-o indecentemente para continuar a ganhar sempre.
Ora, é nos filhos, nas vidas que levam, nos sofrimentos que sofrem, que vemos as marcas dos erros, das falhas, dos monstruosos egoísmos dos seus pais. Olhamos para Frank, Donnie, Claudia e Stan e vemos neles, no seu rosto, a dôr infinita provocada pelo facto, infelizmente tão banal, de os seus pais lhes terem falhado. E parece que, a ver por Earl e Jimmy, só no supremo momento da iminência da morte, só aí esses pais veem o Mal que fizeram, o Bem que destruíram e procuram então reencontrar os seus filhos e redescobrir o seu amor.
Chego agora a três cenas do filme que ainda hoje me provocam um nó na garganta, um movimento no estômago, um arrepio na espinha.
A primeira é quando Frank, arrastado pelo enfermeiro Phil, chega à cabeceira do seu pai moribundo. Este é um momento em que Tom Cruise foi verdadeiramente um enorme actor. Pois vê-se nele uma raiva inicial, imensa, por ver ali o seu pai que o abandonou a ele e à sua mãe moribunda. A raiva por o encontrar assim, também moribundo, quase inconsciente, sem poder ouvir todo o ódio que ele lhe vinha gritar. E depois, algo verdadeiramente soberbo, espantoso, uma luta titânica entre o ódio que Frank trazia e um começo de compaixão pelo seu pai. No fim, já com o pai morto, percebemos que o amor foi mais forte e que Earl morreu tendo conseguido o perdão do seu filho. O Frank que vemos a seguir já não é nem voltará a ser o mesmo. Já não é Mackey, voltou a ser Partridge. Voltou a ter pai e mãe, ainda que ambos mortos mas redivivos, ambos, no seu coração. Esvaziado do seu ódio, ficou mais humano.
A segunda cena, mais despercebida mas talvez ainda mais comovente, é numa noite em casa do quiz kid Stan Spector. Depois de o seu pai ter permitido que Stan fosse colocado numa situação tremendamente embaraçosa, por simples ganância e grosseira ignorância das necessidades do filho, vemos o pai, na ressaca de mais um dia de corrida insana ou de uma qualquer noitada, deitado no sofá da sala, a dormir. E vemos o filho Stan tentando conversar com ele. A dizer-lhe algo espantoso, sobretudo pela forma como o diz: “Pai, tu tens de me tratar melhor!”. Diz isto sem qualquer ódio ou ressentimento no olhar, apenas com pena do seu pai, mais do que de si próprio. Nos olhos daquele miúdo vemos sem dúvida sofrimento mas, mais no fundo, vemos Amor e Perdão, que no fundo são a mesma coisa.
Na terceira cena já não tem lugar o perdão pois o que Jimmy Gator fez à filha não o merece de todo. Percebendo isso, Jimmy decide suicidar-se, precisamente naquela estranhíssima noite da chuva de sapos, reminiscência das pragas bíblicas, a noite em que tudo o que relatei acontece, a noite em que Deus pôs cada um perante si próprio. Ora precisamente quando Jimmy ia disparar o gatilho, um sapo, caindo não se sabe de onde, mergulha através duma clarabóia sobre Jimmy, fazendo-o falhar o tiro. É antológica a sua expressão, parecendo perceber que Deus o condena a morrer do seu cancro, sózinho e sem perdão. Pois há coisas que os pais não podem fazer aos filhos, há coisas verdadeirmente sem perdão.
Quanto a famílias no Magnolia estamos falados mas tenho de referir ainda duas figuras bíblicas que percorrem o filme. Um é Phil Parma (Philip Seymour Hoffman), o enfermeiro de Earl, a quem dá os cuidados paliativos mas que faz muito mais do que isso, sendo ele que encontra o seu filho e o traz à cabeceira mortuária do pai. O outro é o fabuloso Officer Jim Kurring (John C. Reilly), um polícia da LAPD, um polícia como deve ser, daqueles que podem dizer «we serve and protect». É ele que encontra Claudia e a salva de si própria, daquilo em que o pai a tinha tornado. É ele também que encontra Donnie encalhado num desesperado e atabalhoado assalto e o perdoa, salvando-o também. É nestes dois que vejo ainda mais reforçado o carácter profético deste filme. É nestes dois que revejo uma das bem-aventuranças, aquela de que mais gosto: bem-aventurados sejam os puros de coração pois verão a Deus. E, acrescento eu, vendo-O serão como Ele, agirão como Ele.
Mas chega de Magnolia pois não quero que pensem que sou alguma espécie de crítico de cinema. Apenas falei do filme porque, às vezes, nos filmes parece que ouvimos Deus a falar-nos. Foi evidentemente o caso. Mas falei demais, como sempre.
Tentemos isso sim concluír disto tudo algo sobre a família, que é aquilo que nos interessa, a mim, ao Timshel e a todos. Tentemos perceber porque o Cristianismo lhe dá tanta importância. Tentemos perceber porque a Igreja, ou melhor, as Igrejas lutam tanto em sua defesa. Na próxima semana, se mo permitem.



José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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