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segunda-feira, fevereiro 28

 

Revolução Personalista III — interioridade e comunicação

Tenho que voltar a pedir desculpas aos leitores, pela pouca produção que nesta semana se repete. Era minha intenção terminar hoje a série "Revolução Personalista", mostrando mais alguns traços do pensamento de Mounier. Pois parece que à terceira ainda não é de vez. Ficam mais alguns apontamentos do opúsculo "O Personalismo" transitando a conclusão para a próxima semana (a ver vamos).
Então hoje queria falar dum excerto em que se fala da "Conversão íntima": depois de apresentar a "existência incorporada" e "a comunicação" como marcas indeléveis da pessoa, Mounier fala da vida interior, da subjectividade, da intimidade pessoal. Mas adverte-nos logo que elas não são um contraponto à realidade 'exterior' ao homem — "a interioridade não é oposta ao movimento de comunicação, mas pulsão complementar". Sempre me fez muita confusão ouvir certos discursos muito intimistas, em que se falava de uma grande transformação interior, mas onde os frutos dessa transformação eram parcos. Mounier começa por falar de "O recolhimento", tradução hesitante de "le suir soi" usada por João Bérnard da Costa:
«O homem pode viver como uma coisa. Mas, como não é uma coisa, uma tal vida apresentará sempre um aspecto de demissão (…). O homem do divertimento vive como que expulso de si, confundido com o tumulto exterior: assim o homem prisioneiro de seus apetites, funções, hábitos, relações, dum mundo que o distrai. Vida imediata, sem memória, sem projectos, sem domínio, e que é a própria definição de exterioridade, ou, à escala humana, de vulgaridade. A vida pessoal começa com a capacidade de romper contactos com o meio, de ripostar, de recuperar
, para, através duma unificação tentada se constituir uma só.
À primeira vista, este movimento é um movimento de fuga. Essa fuga não é senão um tempo dum complexo movimento. Se alguns ficam por aí e se agitam, é apenas porque interveio uma perversão. O importante não é a fuga, mas a
conversão
de forças. A pessoa só recua para depois saltar melhor.
É nesta experiência fundamental que se fundam os valores de silêncio e de retiro. É importante que hoje chamemos para eles a atenção. As distracções da nossa civilização destroem o sentido do tempo livre, o gosto pelo tempo que corre, a paciência da obra que amadurece e vão dispersando as vozes interiores que dentro de pouco tempo, só os poetas e o homem religioso escutarão.
O vocabulário do recolhimento (ripostar, recuperar) lembra-nos porém que ele é uma conquista activa, o oposto de uma ingénua confiança na espontaneidade e fantasia interiores. (…) No entanto, o movimento de meditação é também um movimento simplificador, e não complicação ou requinte psicológico. Atinge o centro da pessoa e atinge-o directamente. Nada tem a ver com a ruminação ou introspecção mórbidas. Um acto o compromete, um acto o conclui.
»

Depois deste trecho, Mounier escreve sobre "l'en soi" — traduzido de forma divergente mas acutilante para "o segredo". Aí explora qual a direcção deste movimento de interioridade — sendo que a pessoa não é uma coisa, que a pessoa é o não-inventariável, há uma certa dose de segredo e de pudor na vida pessoal. Continua a desenvolver essas ideias falando da intimidade. Deixa claro que essa dimensão do universo pessoal não pode servir para que nos desliguemos do mundo:
«É preciso simplesmente que desmistifiquemos o privado, impedindo que este seja elevado à posição de defesa contra a vida pública. É a própria estrutura da vida pessoal que a isso nos obriga: a reflexão não é somente um olhar interior sobre mim e minhas imagens lançado; é também intenção, projecto de nós próprios. Não existe aquela árvore e uma imagem formada dentro de mim como dentro de uma caixa com o olhar da consciência na tampa. (…) A consciência íntima não serve de bastidores onde a pessoa entorpeça, é como a luz, presença secreta e no entanto irradiando para o mundo inteiro.»
Adiante fala-se de gente que viveu a sua vida profundamente comprometida com o mundo 'exterior' e de como a sua caminhada foi reconhecida e chamada de 'interior':
«Aquele que, descendo de si, se não deteve na calma dos primeiros abrigos, mas se decidiu a correr a aventura até ao fim, cedo se precipita para longe de qualquer refúgio. Artistas, místicos, filósofos, viveram por vezes até ao esgotamento esta experiência integral, muito curiosamente chamada 'interior', porque se lançaram para os quatro cantos do globo.»

Falando ainda do mesmo, mas sobre outra perspectiva, discute-se adiante a dialética entre o ser e o ter, outra que sempre me fez alguma confusão e que tão facilmente ouvimos nos discursos moralistas:
«Afirmar-se é, antes de mais, ter espaço. É pois preciso que não oponhamos demasiado o ter e o ser, como duas atitudes existenciais entre as quais fosse preciso escolher. Pensemos antes em dois pólos, no meio dos quais a existência está compreendida. Não é possível ser sem ter, embora nosso ser seja infinita capacidade de ter, não seja esgotável pelo que tem e o ultrapasse em muito pelo seu significado. (…) O idealismo moral é muitas vezes a procura de uma existência que mais nada pesaria; existência contra a natureza, que leva à falha ou à inumanidade.»
Feita esta ressalva, Mounier é categórico:
«O desenvolvimento da pessoa implica como condição interior um despojamento de si e de seus bens que despolariza o egocentrismo. A pessoa só se encontra quando se perde. A sua fortuna é o que lhe fica quando se despojou de tudo o que tinha — o que lhe fica na hora da morte.»
E por fim chegamos à conclusão central, com que me despeço:
«É preciso sair da interioridade para alimentar a interioridade. A pessoa é uma interioridade que tem necessidade de uma exterioridade. A palavra existir indica pelo seu prefixo que ser é expandir-se, exprimir-se. (…) É preciso que não desprezemos tanto a vida exterior: sem ela a vida interior tornar-se-ia incoerente, tal como, sem vida interior, aquela mais não seria que delírio.»

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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