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segunda-feira, fevereiro 21

 

Revolução Personalista (II e meio)

Hoje, por falta de disponibilidade, vejo-me obrigado a interromper os textos sobre "O Personalismo", de Emmanuel Mounier. Ainda assim darei voz a Mounier, por isso pode-se dizer que este é mais meio texto da dita série. Escrevo em dia de eleições, pelo que o resultado de logo à noite ainda não é conhecido (embora haja fortes suspeitas). Por isso também não vou falar de política. Ou por outra: vou falar de política, mas não da política partidária cá da casa. Vou falar do amor, da sua dificuldade e da sua força, e dessa forma falarei de política. Como já alguém disse, politicamente sou apenas cristão — acredito num Deus de Amor. Assim, partilho convosco um episódio de "Os Irmãos Karamazov", de Dostoiévsky e um excerto de Mounier. Deixo as conclusões para o leitor.
Comecemos pela cena e respectivos personagens dum pequeno episódio, dos primeiros capítulos de "Os Irmãos Karamázov". O narrador dá-nos a conhecer uma mulher que vem pedir conselho e perdão a um stárets — uma mistura de sábio, ermita e profeta, sem entrar em grandes explicações. Diz-lhe ela que o seu problema é amar a humanidade em geral, mas ter repugnância ao seu semelhante. Que sente um forte amor universal mas que não consegue passar a barreira de cada pessoa concreta. Depois de algum diálogo, confessa ao sábio que estaria até disposta a abandonar tudo para ser enfermeira por essas terras fora, tratando tudo e todos, qual curadora geral da humanidade. Diz-lhe o velho stárets que conhecia caso semelhante. E fala-lhe num homem que dizia assim: "Nos meus sonhos, chego muitas vezes às ideias apaixonadas de servir a humanidade, se calhar, seria mesmo capaz de subir ao calvário pelas pessoas, se de repente isso fosse necessário; ao mesmo tempo sou incapaz de conviver com alguém no mesmo quarto mais de dois dias, digo-o por experiência. Mal alguém fica perto de mim, logo a sua personalidade me oprime o amor-próprio e me constrange a liberdade." O ancião começa por lhe dizer que talvez ela o faça apenas para receber louvores. Talvez até o seu arrependimento seja apenas uma esperança de ser exaltada por ele, pela sua profunda consciência e desejo de correcção. Depois diz-lhe várias coisas, que deve evitar a mentira, o desgosto pelos outros e por si mesma, e — mais importante — diz-lhe o seguinte:
«Nunca desanime da sua própria fraqueza na busca do amor, e nem sequer tenha muito medo dos seus procedimentos menos bons. Lamento não poder dizer-lhe nada mais consolador, porque o amor vivo, em comparação com o amor sonhado, é uma coisa cruel e assustadora. O amor dos sonhos anseia por uma obra rápida, de satisfação imediata e aos olhos de todos. Aqui, é verdade, chega-se ao ponto de sacrificar a própria vida, só para que a obra não seja muito demorada, mas rápida, como no palco do teatro, e que toda a gente olhe e louve. Ora, o amor vivo é trabalho e paciência e, para alguns, toda uma ciência. Mas vaticino-lhe que, mesmo no momento em que vir, horrorizada, que não se aproximou do objectivo, apesar de todos os seus esforços, antes se distanciou ainda mais dele... profetizo-lhe que, nesse mesmo momento, alcançará de súbito o objectivo e verá claramente sobre si a força milagrosa do Senhor que sempre a amou e guiou.»
Passemos directamente ao filósofo, do capítulo sobre 'O Afrontamento':
«O amor é luta; a vida é luta contra a morte; a vida espiritual é luta contra a inércia material e o sono vital. A pessoa toma consciência de si própria, não no êxtase, mas numa luta de força. A força é um dos seus principais atributos; não a força bruta do poder ou da agressividade em que o homem renuncia a si próprio para imitar o choque material, mas a força humana, simultaneamente interior e eficaz, espiritual e manifesta. Os moralistas cristãos conferem à força esta dimensão total. O principal objectivo que lhe conferiam era a protecção contra os males corporais e sobretudo contra suprema derrocada corporal, a morte; a muitos falta coragem moral, muito simplesmente porque têm medo dos combates (...); muitos são cobardes por egoísmo e falta de imaginação. A vitória interior sobre a morte une estas duas zonas de energia. Uma pessoa só atinge a plena maturidade no momento em que opta por fidelidades que valem mais do que a vida. Debaixo da capa duma filosofia do amor e da paz, abrigou-se, sobre o conforto moderno e as piegas preocupações que este implica, um monstruoso desconhecimento destas verdades elementares. (...) A utopia dum estado de repouso e harmonia, 'reino de abundância', 'reino de direito', 'reino de liberdade', 'paz perpétua', é aspiração para que tende uma tarefa infinita e interminável; não a deixemos apagar-se num sonho pueril. »

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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