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quarta-feira, fevereiro 9

 

Qual o modelo sócio-económico ideal que, do meu ponto de vista, poderá decorrer de uma concepção cristã da vida? (3)

Nos meus anteriores posts sobre este assunto, discorri sobre situações ideais. Propunha-me neste último post especificamente dedicado a este tema reflectir sobre quais as opções que se abrem para um cristão na luta por uma sociedade justa nas condições actuais da economia mundial, isto é, quais os objectivos socio-económicos por que vale a pena lutar a nível nacional, isto é, ao nível de um só país (ou região com as mesmas regras), nas condições actuais de uma economia liberalizada em termos mundiais mas compartimentada por diferentes regulamentações sociais aplicáveis a nível nacional.
Todos ouvimos recentemente falar nas empresas têxteis portuguesas que vão deslocalizar para a China em consequência dos encargos sociais (nomeadamente salários particularmente baixos) serem lá muito mais vantajosos para uma produção competitiva. Com o desemprego que isso implica em Portugal.
A curto prazo, tendencialmente, o crescimento económico parece ser afectado pela justiça social. Porque a natureza humana ainda funciona muito com base no estímulo material individual e porque os recursos disponibilizados para os pobres, para os doentes, para os idosos que vivem na miséria provocam menos crescimento económico do que se tivessem outra afectação.
É possível, portanto, que, em determinadas circunstâncias, os encargos sociais e salariais afectem o crescimento económico e provoquem pobreza e desemprego, nomeadamente se todas as restantes variáveis permanecerem imutáveis. Todavia, talvez os efeitos benéficos de uma sociedade equilibrada impliquem um aumento da competitividade no médio prazo.

Vamos contudo de momento imaginar que as únicas variáveis em equação possível eram o crescimento económico em alternativa à justiça social e vamos imaginar igualmente que os efeitos eram apenas o de que o aumento de uma das variáveis resultava na diminuição da outra.
Imaginemos que no país A, em que se privilegiam políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social, o indivíduo mais pobre tem um rendimento anual de 100 euros e o mais rico tem um rendimento anual de 1000000 euros. Imaginemos agora que no país B, em que se privilegiam políticas redistributivas que visam a justiça social em detrimento do crescimento económico, o indivíduo mais pobre tem um rendimento anual de 50 euros e o mais rico tem um rendimento anual de 100 euros.
Nesta situação, como em toda e qualquer outra situação em que o indivíduo mais pobre dos países em que se privilegiam políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social tenha as suas necessidades mais satisfeitas do que o indivíduo mais pobre dos países em que se privilegiam políticas redistributivas que visam a justiça social em detrimento do crescimento económico, é mais justo o sistema do país A (que visa fundamentalmente o crescimento económico) do que o sistema do país B (que visa fundamentalmente a justiça social).
Mas esta parece-me a única situação (neste quadro teórico) em que é admissível para um cristão privilegiar o crescimento económico em detrimento da justiça social.
Comos todos os homens são irmãos e iguais perante Cristo, qualquer política que seja indiferente perante a dignidade de alguns seres humanos (mesmo que muito poucos) é incompatível com o cristianismo. Aceitar que se privilegiem políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social que conduzam a que existam pessoas (nem que seja apenas uma ínfima minoria) que tenham as suas necessidades menos satisfeitas do que se se privilegiassem políticas de justiça social em detrimento do crescimento económico é, parece-me, contrário a aspectos fundamentais da minha Fé.

Felizmente que na realidade as coisas são mais fáceis. Como mostra o exemplo dos países nórdicos, é possível ser-se extremamente competitivo (a Finlândia é o país mais competitivo do mundo) com uma pesada carga fiscal. Parece que, por um lado, o efeito socialmente benéfico da solidariedade aumenta a eficácia e o rendimento das pessoas em sociedade e, por outro, a aposta noutras variáveis (educação, formação, capacidade de inovação, etc.) permite ultrapassar completamente a (na maioria das circunstâncias, falsa) oposição "justiça social/crescimento económico".
Mas, repito: mesmo que assim não fosse, a um cristão exige-se que coloque critérios sócio-económicos morais que sejam o prolongamento da sua Fé à frente de uma pretensamente neutra eficácia económica.

Timshel [TIMSHEL]

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