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quarta-feira, fevereiro 23

 

O tio do Brás Cubas

«Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos. Agora, a tantos anos de distância, não estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a história do símbolo de Nicéia; mas ninguém, nas festas cantadas, sabia melhor o número e casos das cortesias que se deviam ao oficiante. Cônego foi a única ambição de sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuía algumas virtudes, em que era exemplar, - mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as impor aos outros»

Machado de Assis, como os grandes mestres da literatura, não se limitou a escrever bem e de maneira saborosa, soube, de maneira exemplar, retratar os pequenos pormenores das fraquezas humanas e fazê-los encarnar numa personagem à medida dessas fraquezas. Fraquezas intemporais que vão encarnando em personagens verdadeiras de todas as épocas.
E se este tio cónego das "Memórias póstumas de Brás Cubas" encaixa na perfeição em muitas dignidades eclesiais do nosso tempo (sendo certo que a beatice e a meticulosidade irritante se vai disfarçando com muitas máscaras: desde os ultraconservadorismos mais militantes até aos mais bolorentos progressismos, ou vice-versa…), o certo é que de há muito (de sempre?) que este género de personagenzinha secundária se instalou em qualquer meio onde seja possível satisfazer-se com as aparências de que vive a mediocridade.

Os que preferem a sacristia ao altar, o lado externo ao substancial acabam por ter uma vidinha pacata, sem complicações. Os que arriscam aproximar-se da mesa do sacrifício, rejeitando a facilidade morna (cf. Ap. 3, 16) e segura dos regulamentos e preceitos encarreirados, acabam por levar as pancadas mais violentas da vida. Ouso pensar que acabam por ser os mais felizes.
E depois, ninguém nasce predestinado para a sacristia ou para o altar, estão ambos ao alcance de todos: escolher entre o medíocre e o sublime.


Rui Almeida [POESIA NA RUA]

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