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quarta-feira, fevereiro 2

 

O som e a fúria

O grau zero da política. Eis aí uma daquelas frases sonoras que a propósito de tudo e de nada enche a boca de políticos, jornalistas, comentadores, intelectuais, bloguistas, até taxistas (juro que já ouvi um dizer isto!). É uma frase que assenta bem ao nosso gosto meridional pela bela frase, bombástica, enfática, e como tal se tornou num lugar-comum, num chavão puído já pelo uso de duas ou três gerações de portugueses palavrosos. E embora o seu uso tenha hoje aplicação universal, desde as distritais do Porto aos programas eleitorais dos partidos, passando pela impermeabilização de terrenos, continua esta frase a ser usada como se fosse uma terrível arma de arremesso. E no entanto, a mim pobre português perplexo, direitista, liberal e católico, esta frase infunde-me uma doce sensação de paz, de tranquilidade, de segurança até. Assim um bocado como aqueles claims de produtos “sem CFC´s”, “toluene free”, “sem ingredientes geneticamente modificados”, “sem corantes nem conservantes”.
Quando ouço esta frase, o meu inconsciente ilude-me logo com a impressão de se estar a falar de algo, de um sítio ou de um tempo, onde se vive, se trabalha, se reza, se ama, se avança sem se falar de partidos ou ideologias. Claro que isto me acontece acontece por andar completamente farto de política. E não é de agora, é de há muito.
Ando farto de política exactamente pela mesma razão de que ando também farto de futebol. Dantes não era assim, naqueles saudosos tempos em que só haviam a Bola e o Record, que saíam duas ou três vezes por semana e só falavam dos jogos que iam haver e dos jogos que tinham havido. Eram tempos em que a malta gostava do futebol pelo futebol mas ele não tinha a importância que tem hoje. Depois mudou tudo: multiplicaram-se os jornais, passaram todos a diários, e à falta de jogos suficientes para encher as páginas passaram a falar de coisas minúsculas que se tornaram muito mais importantes: os estados de alma dos jogadores e treinadores, as intrigas palacianas dentro dos clubes, as guerras florais dos dirigentes, as especulações cabalísticas em torno dum qualquer “sistema”, etc. Extraordinariamente, passaram esses jornais desportivos a ter extensos artigos de fundo e colunistas inflamados. E desde então, o futebol que era já o ópio do povo tornou-se num poderoso cocktail aluncinogénico, narcotizante e tremendamente viciante. O futebol tornou-se numa poderosa e terrível droga dura. Metade dos meus amigos, que dantes compravam apenas o jornal desportivo da sua côr clubística, agora consomem pelo menos três por dia, para comparar! E marinham paredes acima, comparando versões, insultando escribas, aprofundando as suas devoções mas sobretudo os seus ódios. Já não são capazes de ter uma opinião definitiva sobre um jogo que acabaram de ver sem terem lido os ditos jornais. E agora o acesso ao produto é-lhes ainda mais fácil e imediato: saltam logo para os sites e urram furiosos! E como todos as drogas este moderno vício isola a pessoa: já ninguém vai aos estádios, a estes enormes e reluzentes estádios, a não ser quando o inimigo nos visita, para aí o execrar com a força e desespero do adicto. E mais ainda do que o tal inimigo, a malta vai lá execrar também o nosso jogador ou jogadores que são ou estão uns toscos sem préstimo. Ele é o Paulo Almeida, o Hugo Leal, o Beto. Se fosse ainda possível, a turba lapidava aqueles gajos que andam lá a gastar o nosso rico dinheirinho (!) sem jogarem a ponta dum corno.
Ainda por cima, este novo e generalizado vício não dá ressaca pois a dose é continuamente servida, na rádio e na TV, na “Bancada Central”, esse programa radiofónico sem paralelo no mundo ocidental! Tal como no Admirável Mundo Novo de Huxley se servia prodigamente o soma, neste país desgraçado serve-se aos seus filhos o futebol em todas as suas variantes e aplicações: o jogo, os casos, o sistema, os árbitros e os apitos, as claques e respectivas esposas, tudo! E da mesma forma que o drogado também odeia a droga, nós também odiamos o futebol, que está pôdre, que não tem beleza nem emoção, que é tudo uma grandessíssima aldrabice, etc. Mas continuamos a consumi-lo avidamente...
Quem pense que, como de costume, já derivei para longe daquilo de que vim falar, pode ficar descansado que vou agora para lá.
É que acontece que neste país também há gente séria e profunda que sabe que isto não vai lá só com futebóis. Há milhões e milhões de portugueses que sentem que há aqui um país que tem de avançar para lhes dar de comer. Um país que tem de ter um rumo, uma orientação, uma política. São portugueses que tem uma opinião, uma achega para dar, sobre a salvação da coisa pública. São portugueses, montões deles, que se pelam pela discussão política. E o meu ponto, contestável certamente, é que quase muita desta boa gente se relaciona com a política exactamente da mesma forma como se relaciona com o futebol: discutem os jogadores e os seus estados de alma, as intrigas dentro dos clubes, perdão, partidos, as guerras florais dos líderes, as especulações cabalísticas em torno de múltiplos sistemas e conspirações, os casos também, o Árbitro principal e os árbitros auxiliares, as claques (mais conhecidas pelas jotas). A grande maioria escolheu partido ou ideologia para toda a vida mas há uma franja que anda sempre pelos que ganham. E naturalmente, perdeu-se também de vista o jogo, ou melhor, o que está em jogo nisto tudo. E toda esta gente boa viciou-se também nisto: nos jornais diários e semanários, nos seus incontáveis comentadores, colunistas e calunianalistas, nos fóruns da TSF e , claro está, nos blogues!
E isto não fica por aí: da mesma forma como já não se vai aos estádios, também se deixou de ir aos comícios, a não ser que nos sirvam jantar! Mas o facto que aqui interessa é que tá tudo agarrado. Todos tem que ter senão um partido pelo menos uma ideologia e tem que a defender publicamente. Temos todos que ter causas e também efeitos. E, tal como na droga há tribos e tipos, também na política estamos todos sujeitos a classificação. Por quem? Por todos os restantes! E se me classificam também me descrevem ao detalhe. É como no futebol: se sou do Benfica (e sou) sou parvo ou bom pai de família (também sou). Se sou do Porto sou um bairrista ressabiado e prócere do sistema. Se sou do Sporting ...Assim se sou de esquerda sou um despesista e um abortista, se sou de direita sou num monstro neo-liberal e um flagelo dos necessitados. Se sou do centro sou um amorfo indeciso, um cata-vento, um carreirista...
E tal como no futebol adoramos dizer mal dos jogadores, que andam a também gastar do nosso dinheirinho e não fazem nada por nós. Que não nos governam e apenas se governam. Tal como no futebol, também odiamos a política. Que já não se destina a salvar o país, que é tudo a mesma coisa e que andam todos combinados. Mas apesar de dizermos e acharmos isto tudo, continuamos a discutir a política como discutimos o futebol: com uma paixão que mata a objectividade, com um sectarismo que mata a discussão e, isso é o que mais me surpreende, como se servisse para alguma coisa!
É que tenho para mim que a forma como nós portugueses nos relacionamos com a política é talvez a principal razão por ela ser aquilo que é em Portugal. E o que é ela é? Shakespeare teve uma vez uma boa frase, a propósito da vida em geral, mas que penso definir bem a política neste reguengo da Terra: life is a tale, told by an idiot, full of sound an fury, signifying nothing.
É uma frase pesada mas que, aplicada à política nacional, anda perto da realidade. A política portuguesa é um espectáculo de luz e som, é uma encenação ruidosa onde tentamos sem sucesso descortinar um qualquer sentido: de Estado, de direcção para algum lado. Às vezes tenho o pressentimento que existe um grupo de 10 ou 15 gajos, provenientes de todos os grandes partidos, que organizam escondidamente toda esta novela política com que nos distraem e cretinizam. Subtilmente conseguem assim dar-nos a sensação de que a nossa opinião conta, pretendem mesmo que não nos alheemos da política, que vibremos com as nossas convicções ideológicas. E distraem-nos assim do essencial: a criação de uma ideia, de um projecto comum para Portugal.
Por circunstâncias profissionais, conheço bem quatro tipos parecidos comigo e que vivem em países de tamanho semelhante ao nosso: um irlandês, um grego, um holandês e um sueco. Fazem eles um trabalho parecido com o meu nos seus respectivos países e, nos encontros regulares que temos, costumamos falar um bocado dos nossos países, da sua situação económica, social e política. Há medida que os anos vão passando sinto-me cada vez mais desfazado. E há uma coisa espantosa de que queria aqui falar. Em todos esses países há esquerda e direita, que alternam no poder e às vezes se coligam. Há debates ideológicos e tensões sociais. Mas, com excepção das extremas, há um largo consenso entre os partidos de esquerda e de direita quanto ao rumo a seguir, quanto ao projecto global desses países. Os governos sobem e caem e são substituídos mas há um fio condutor, uma continuidade pela qual esses países seguem avançando. Mesmo olhando para aqui ao lado, para Espanha, onde o debate político é mais inflamado e as diferenças ideológicas mais marcadas do que nos outros quatro que referi, o facto é que nos últimos 20 anos governos de esquerda sucedem-se a governos de direita mas o essencial mantém-se: que arriba España!
Infelizmente, neste pobre país que é o nosso não se passa nada disso. Aqui a discussão é histérica e estéril. Aqui os processos de intenção, o espírito tribal, a desonestidade intelectual, a elocubração adversativa, as insinuações torpes, inquinam o debate político e descentram-no do essencial. A dialética doentia e que nos é atávica faz com que a discussão seja inútil pois aqui convencer é vencer e ser convencido equivale a ser vencido. Começamos a falar de alhos e acabamos em bugalhos. Falamos por falar, por puro diletantismo. Falamos para nos ouvirmos e sermos ouvidos. Falamos, falamos e não dizemos nada que nos valha. E o mal é geral, varre a direita e a esquerda. Nos dois campos, a vozearia destina-se a ocupar o espaço da reflexão e por isso as ideias definham em chavões deslavados. A esquerda persiste a falar na distribuição da riqueza e esquece-se que primeiro há que produzi-la. A direita fala em produzir riqueza e esquece-se que ela tem de ser distribuída. Enfim, uma treta.
É por isso que, quando ouço os meus amigos aqui da Terra a reflectir se um cristão pode ou não ser de direita, se é possível ser-se católico e votar à esquerda, mesmo em qual será o partido para votar mais de acordo com as nossas convicções de fé, quando os ouço a falar assim fico a pensar tristemente com os meus botões. Penso que, sim senhor, são questões interessantes. Mas não aqui, seguramente. Só para lá de Badajoz...Vou já terminar e com um apelo: no próximo dia 20 votem. Em quem? Em quem vos apetecer! Talvez em ninguém? Anything goes...Mas não me fica bem esta conclusão nihilista. Devo ser mais construtivo. Sendo assim, diria que sendo aqui as coisas como são, não devemos contudo baixar os braços. Antes pelo contrário. Já que os partidos e os governos não fazem nada por isto, fica assim acrescida a nossa responsabilidade individual de cidadãos, de seres humanos, de cristãos. Olhemos à nossa volta e descubramos aquilo que podemos fazer para tornar a vida dos que nos rodeiam um pouco melhor do que é. Em casa, no trabalho, na rua. Recuperemos a ideia cristã da caridade, da solidariedade, do amor pelo próximo e ponhamo-la nós em prática. Talvez transformemos um pouco tudo isto, transforma-nos-emos certamente nós próprios.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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