<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, fevereiro 9

 

O karma e a Trindade

Nota: este texto, talvez o primeiro de uma série, escrevo-o influenciado por uma leitura ainda em curso: do livro “O Rei, o Sábio e o Bobo” de Shafique Keshavjee, editado pela Temas&Debates. Sob uma estrutura narrativa algo ingénua, o relato duma espécie de “olimpíadas” das religiões, para selecção da religião oficial dum reino imaginário, surge a imaginação dum diálogo inter-religioso tal como ele deveria verdadeiramente ser. Recomenda-se.

A Santíssima Trindade, em que nós católicos acreditamos mas em que tão pouco pensamos, é um conceito de Fé muito mais importante do que pode parecer. Permitam-me começar por uma citação do livro que acima referi:
Confessar Deus como Pai é reconhecer que Deus está para além de nós(...). Confessar Deus como Filho é reconhecer que Deus se aproxima de nós, que se torna visível e audível. Confessar Deus como Espírito é reconhecer que Deus vive dentro de nós, que nos transforma interiormente para que possamos reconhecer o irreconhecível. Deus é assim, simultâneamente, transcendência, presença e imanência; é simultâneamente infinito, próximo e interior.(...) Para nós cristãos, afirmar que Deus é Trindade (ou melhor, Tri-unidade) é assumir que ele não é homogéneo nem estático, visto que há exteriorização e síntese”.
A leitura deste excerto fez-me recordar o meu percurso de reaprendizagem da Fé, ocorrido já em idade adulta, uns bons anos depois de a ter perdido.
Contei já algures que o meu momento de reentrada na Fé ocorreu quando, numa missa (é verdade, nunca deixei de ir à missa...), me puz a ouvir pela enésima vez a parábola do filho pródigo. Foi nessa altura, em que finalmente tive ouvidos para escutar, que me dei conta de algo extrordinário: o nosso Deus, aquele em que acreditamos não é Senhor nem Potestade: é nosso Pai. Criou-nos à Sua imagem e semelhança e quer-nos como um pai quer sempre um filho: quer-nos de volta. Está sempre pronto a receber-nos de novo pois o Amor que nos tem é um amor paternal. Isto hoje parece-me simples mas, na altura, foi um momento epifânico.
Uns anitos mais tarde, após uma primeira leitura integral do Evangelho de S.João, descobri verdadeiramente a natureza divina de Cristo. Até aí, fui pensando que a Sua natureza era um assunto menor comparativamente com a Sua Palavra. Lendo sobre a história da Igreja, sobre as polémicas infindáveis à volta dos mistérios da Sua encarnação, sobre o odium theologicum entre monofisitas e calcedónios, docetas e ebionitas, achava tudo isso estéril e irrelevante. Mas a leitura de João fez-me descobrir todo o sentido, toda a diferença que faz em se acreditar verdadeiramente que Jesus é o Filho de Deus, que encarnou entre nós para morrer às nossas mãos. A divindade de Cristo não a descobri na sua ressurreição mas na sua Paixão. E como ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos que ama (Jo, 15, 13), percebi então a medida incomensurável do Amor de Deus.
Mas só muito mais tarde é que, no edifício da minha fé, a Trindade ficou completa. Só muito mais tarde descobri o sentido e a verdade do Espírito Santo. Durante muitos anos ele foi para mim uma mera figura de estilo. Um avatar invisível da presença de Deus entre nós. Só muito mais tarde, já não me lembro bem como, descobri que o Espírito Santo é a inteligência de Deus em nós. É aquilo que, como diz Keshavjee, “nos transforma interiormente para que possamos reconhecer o irreconhecível”. E também conhecer o incognoscível, aceitar o inaceitável e, por algumas vezes, muito raras, dizer o indizível.
O Espírito Santo será para a esmagadora maioria dos crentes, mesmo aqueles que nele não creem, a única forma cognoscível de Deus se nos manifestar. Nós, aqueles a quem Deus não interpela directamentamente, podemos contudo ouvi-Lo por vezes no nosso coração, a consolar-nos, a avisar-nos, a desafiar-nos. Eu disse por vezes e é mesmo assim, pois a maior parte do tempo é pelo seu silêncio em nós que o Espírito Santo mais se faz sentir.
E, tendo já explicado como cheguei à Trindade, chego agora ao karma, que não está ali no título por mera semelhança fonética com o Carmo. O karma, a causalidade universal dos hindus e dos budistas, tal como a samsara, o desenrolar das existências, são conceitos estranhos à teologia cristã, não tanto por estarem ausentes da Palavra de Cristo, mas por serem tão estranhos ao inconformista ambiente filosófico em que o cristianismo surgiu e se desenvolveu. Talvez por isso o problema da Teodicéia, do Mal nas nossas Vidas, afasta tantos cristãos da Fé e de Deus. Mas não vou aqui falar nisso porque me falta manifestamente a bagagem intelectual para tal questão filosófica. E também porque li algures que nos foi vedado o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal.
Não, o que eu queria dizer é que acredito sinceramente que Deus nosso Pai, não pode, não quer ou não cuida de impedir que o Mal estenda a sua mão e nos toque naquilo que possuímos ou mesmo nos nossos ossos e carne (cf. Livro de Job). E nesse domínio, como noutros, somos todos iguais perante Deus. Mas acredito que Deus nos quer ajudar quando o infortúnio entra nas nossas vidas. Fazendo-nos mais fortes, mais resistentes à adversidade, mais humildes perante essa mesma adversidade. Procura criar em nós mesmos, na nossa identidade interior, pontos onde nos podemos agarrar para resistir à corrente dos acontecimentos, para não nos deixarmos ir. E, esse é o meu ponto, acredito profundamente, que é através do Espírito Santo que Ele nos pode ajudar assim. Escutemo-Lo pois.

Termino citando o que escreveu Edith Stein, cidadã alemã e judia, nascida em 1891, baptizada em 1922, freira carmelita em 1935, doutorada em Filosofia, morta nas câmaras de gás de Auschwitz em 1942, Santa Teresa Benedita da Cruz desde 1998. Costumava dizer: "só entende a transcendência da Cruz quem a transporta consigo". Escutemo-la também:
Espírito Santo, ó doce luz,
que me envolves
e iluminas as trevas do meu coração,
Tu guias-me como a mão de uma mãe.
Tu és o círculo que me circunda
e me encerra em si.
Separada de Ti eu cairia no abismo do Nada
do qual me elevaste até ao Ser.
Estás mais perto de mim
do que eu de mim mesma.
Mas ainda assim és inacessível
e incompreensível.
Nenhum nome te pode conter,
Espírito Santo, Amor Eterno.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?