<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, fevereiro 16

 

Milagre que fez

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, uma outra lhe sucede, mas a terra sempre subsiste. O sol nasce e se põe, e torna ao lugar donde partiu, renascedo daí. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar nem por isso transborda; os rios tonam ao mesmo lugar de onde saem, para tornarem a correr. Todas as coisas são difíceis, mais do que o homem pode explicar por palavras. A vista não se farta de ver, nem o ouvido se sacia de escutar. O que é o que foi? O mesmo que o que há-de ser. O que é o que se faz? O mesmo que o que se há-de fazer. Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: eis aqui está uma coisa nova, porque ela já houve nos tempos passados. Não há memória do que já foi; mas nem os nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles. Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém.
(início do Livro do Eclesiastes)

Dizes tu, que escrevestes estas palavras e outras ainda, magníficas e tristes, que fostes Rei de Israel, talvez o próprio Salomão. Há quem diga de ciência certa que tu, que escreveste o livro, não foste Salomão mas sim alguém, talvez algum sacerdote do Templo, que achou por bem usar o nome dele para assim emprestar às palavras da sua própria sabedoria o prestígio do filho do Ungido. Ou talvez para o justificares a ele e, redourando a sua memória, o fazeres reentrar no plano Divino. Não sei nem me interessa. O que sei e me interessa é que te leio e releio há muitos anos e sempre que o faço me atormenta a ideia que as tuas palavras, sobretudo as primeiras, se aplicam de forma quase profética a um país que veio muito depois de ti, um país que, mesmo quando foi grande, foi sempre um país pequeno. Um país que, um pouco como o teu, já pensou ter um papel no plano de Deus, já pensou ser instrumento da Divina Vontade, já pensou ser o Quinto dos Impérios, com que tu talvez sonhaste. E que hoje se limita a pensar ser ainda objecto da especial benevolência do Deus que veneras por intercessão daquela que foi mãe do Seu Filho encarnado.

Vou-me ficar por aqui, interrompendo este intróito tão melancólico quanto pretensioso, e melhor será dizer ao que venho aqui hoje. Fazer aquilo que alguns leitores me pedem e o mesmo que os meus amigos da Terra fazem e me interpelam: falar um pouco mais disto, do que se fala tanto por aí, de todo esse ruído, de Portugal a propósito da campanha alegre que o assola.
É quando penso em Portugal que eu sinto dolorosamente os espinhos da descrença. E, crente que sou em Deus, lamento os que são ateus, pois a sua sua descrença Nele, como a minha descrença nisto, só pode ser fonte de tristeza e aridez. Eu vou explicar.
Devo dizer que a minha descrença não é uma reacção epidérmica aos apagados dias de hoje nem aos preocupantes dias de amanhã. Não é uma rejeição ética e estética aos bisonhos protagonistas que dizem governar-nos ou pretendem vir a dizê-lo. Não me desanima a insanidade mitómana do Santana e os seus jogos pirotécnicos. Não me desanima a vacuidade asséptica do Sócrates e os seus jogos de sombras. Não me desanima a hipocrisia orgulhosa de si própria de Portas e os seus jogos de triunfo da vontade. Não me desanima a persporrência paternalista e puritana do Louçã e os seus jogos de salão. E não me desanima, antes pelo contrário, a surpreendente postura do camarada Jerónimo, surpreendente pela genuidade e coerência com um ideal, mesmo que caduco. Não, nada disso me desanima. Melhor dizendo, já nem é isso que me desanima. O que me provoca o desânimo e a descrença de que falei há pouco é a convicção, a constatação, de que este mal de que, em maior ou menor grau, todos nos queixamos, é um mal que vem do fundo da nossa identidade nacional e que vem de há muito, muito tempo. E qual é o mal? Hã? Qual é ele? E de quando vem?
Vou até ele sem recorrer a bibliografia extensa e erudita. Basta-me pegar no livro de História e Geografia de Portugal do meu filho de 11 anos!!! Lá se conta que, na altura dos Descobrimentos, Portugal e sobretudo Lisboa se tornaram no mais importante entreposto comercial da Europa. Que aqui chegavam as especiarias, cujo proveitoso comércio era monopólio do Rei em vez de ser gerido por uma burguesia ascendente. Que os lucros obtidos eram sobretudo aplicados na aquisição de bens manufacturados à industriosa Europa do Norte, que enriquecia assim com a nossa riqueza. Ou em obras de aparato real, em faustos da corte. Que nada se investiu na indústria e ciência, com excepção da indústria naval e bélica e na ciência da cartografia. E que a sangria de homens para o Oriente desertificou o interior e quase fez desaparecer a agricultura. Conta-se que quando começou a implodir o nosso império do Oriente, veio então a riqueza do cultivo da cana de acúcar no Brasil, do qual tivemos durante largas décadas o monopólio europeu desse produto em consumo acelerado. Que veio então de novo a prosperidade, sobretudo do Rei monopolista e de alguns concessionários. Que mais uma vez, por não termos indústria e por não termos agricultura, toda essa riqueza voou para os países que nos forneciam de tudo: tecidos, artefactos, armas, ferramentas. Conta-se que, mais tarde, após a perda e recuperação da independência, tendo nós perdido o monopólio do açúcar, surgiu então nova benção divina: o ouro do Brasil. Que mineirámos, escavámos todo esse ouro, que trouxe de novo a prosperidade do Reino e sobretudo do Rei. E que esta enorme riqueza, não a investimos mas voltámos a gastá-la também toda, até à sua exaustão. Os faustos de D.João V, o Convento de Mafra, a mui célebre embaixada a Roma, tudo vaidade das vaidades! E continuámos sem indústria, sem agricultura, com o comércio entregue aos ingleses pelo pré-guterrista tratado de Methuen!
Depois veio um interregno atípico com o Marquês de Pombal, que promovendo a industrialização e a formação duma burguesia que se visse, metendo os Ingleses na ordem, expulsando-os do Douro, conseguiu algo inédito: equilibrar a balança comercial da nação numa altura em que tinham já secado as fontes do ouro do Brasil. Foi sol de pouca dura: morrendo o Rei que ele tinha guardado no bolso, foi logo corrido e as coisas voltaram ao normal ripanço. Ficaram, contudo, algumas sementes que ainda perduram e sem as quais o estaminé já teria fechado. Entretanto acaba aqui a leitura do livro do meu filho. No fim do 2ºperíodo já vos poderei dizer mais qualquer coisa...
Mas saltando para o séc.XIX, ainda com Brasil e mais tarde sem ele, lá nos fomos aguentando como pudemos. Porém, quanto ao funcionamento da coisa, basta ler Eça de Queiroz, apenas “As Farpas”, agora reeditadas, para vermos que isto, o Quinto Império, ontem como hoje, anda igualzinho: não se produz, não se fabrica, não se cultiva, não se cria riqueza e usamos o melhor da nossa inteligência na discussão de como a distribuír...Tivémos entretanto um novo ouro do Brasil, os fundos comunitários, e agora que vai acabar e já o consumimos quase todo, olhamos ansiosos à volta, à procura dum novo milagre. Para o qual já nem a Irmã Lúcia nos poderá valer.
Melhor será ficar por aqui. Não quero ser acusado de derrotismo perigoso. Mesmo assim, estando nós em eleições não é o voto que recomendo: é o ex-voto, que será o meu. Não sei se conhecem mas é uma coisa parecida com isto:



E que daqui a uns anos se possa escrever como ali:

Milagre que Fez NªSª da Conceição, padroeira de Portugal, que istando ele em pirgo de bida, se peguou logo

Valha-nos Deus!


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?