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quarta-feira, fevereiro 9

 

Meter a mão na massa
[ou escritos em fim de noite em defesa do voto na esquerda]

Quem me segue nesta casa, já percebeu que não escondo alguma ruptura com questões mais práticas do exercício de sectores ditos conservadores da Igreja. Também na escolha política em vésperas de eleições o faço. O discurso da Igreja não pode ser só associado a homilias como a do padre de São João de Brito, compreendidas à cautela pelo Patriarcado. Mas também não pode remeter-se a uma lógica de fechamento na sacristia. Bem sei que o texto do José, aqui na semana passada, não vai por aí - mas a leitura que ali se retira também pode ser perigosa. Ele sabe-o e por isso, já no fim, acena com caminhos de esperança, contra o derrotismo do seu discurso.

Ao católico, cabe participar na política? Cabe. Como um dever quase sacramental. Se o templo foi tomado pelos medíocres, devemos procurar a expulsão dos vendilhões - ou pelo menos da sua mediocridade, com critérios de exigência. É mais cómodo e fácil gritar pobre país, o nosso e mantermos o apoio ao nosso clube, só porque é o nosso clube. Mas, para lá desta quase fatalidade de adepto, vale a pena ensaiar rupturas.

E que rupturas são essas?

O apelo do senhor padre lisboeta é um apelo habitual, quase farisaico - o de quem olha para a maçã e prefere sempre o lado mais lustroso, porque tem medo de trincar a parte mais pisada. Pede-se que não se vote naqueles que atacam a vida. Por uma vez, gostava de ouvir alguém gritar o mesmo - mas contra o ataque à vida que é a pobreza e a miséria. Por uma vez, gostava que a moral sexual ou questões que remetem para a consciência individual e familiar dos cristãos (corrijo: de todos os portugueses), fossem conscientemente debatidas no interior da Igreja, sem a demagogia dos assassinos (por oposição ao absurdo radical da barriga que é minha). Lamento: mas a eutanásia ou o aborto, sendo questões importantes, não o são as mais fundamentais para os portugueses.

Não são as que interessam mais ao povo português - numa altura em que o desemprego bate à porta de milhares; em que o imigrante é erradamente visto como alguém que está a mais ou apenas diferente; em que os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres; em que a produtividade só é medida pelo lado do trabalhador ou que a necessidade de cortar despesas signifique despedir; em que a Saúde está entregue a uma lógica cada vez mais de clientelismo e não de assistência; em que na Educação se valorizam "rankings" que sublinham a alegada excelência de escolas privadas, escondendo o trabalho social que muitas não fazem; em que a Justiça é lenta e perniciosa para os que estão sobretudo à margem; em que o Fisco penaliza quem trabalha por conta de outrém, facilita a vida à banca e às grandes empresas e continua a permitir a evasão dos mais ricos; em que os impostos vão penalizando quem não já paga e não aqueles que deveriam pagar; em que a Segurança Social, dita na falência, sem nunca ter atingido patamares de Estado-Providência, continua a ser atacada, para cobrir défices artificiais e auxiliar seguradoras; em que as empresas de serviços públicos laboram em pretensos mercados abertos, mas mantendo situações de inegável monopólio e comprovável sobranceria face aos utentes/clientes; em que...

A lista é longa, porque é longa a lista de problemas. Mas que fazer? Remetermo-nos à sacristia e sair a horas certas para pequenas acções de caridade (esquecendo o imenso alcance da palavra na sua origem)? Ou lutarmos para que estas coisas mudem? Para que estes atentados à vida acabem?

Claro que temos de seguir este caminho. E aqui o caminho, não tem de ser apontar o dedo aos que insistem no aborto, ou noutras questões que alguns dizem ser da vida. Não: de uma vez por todas, temos de apontar o dedo daqueles que se proclamam cristãos, mas no dia-a-dia atacam os seus semelhantes, criando dificuldades aos ciganos, que roubam com o rendimento mínimo. Mais rendimentos mínimos houvesse! Ou que seguem uma política de privatizar porque o Estado é mau gestor. Acaso não foram eles os gestores da coisa pública? Os vendilhões do templo dizem-nos que é útil a sua competência, mas confiaram a Nossa Senhora o que não fizeram no ambiente. Os auto-proclamados detentores da verdade empurram-nos para o colo de questões menores, chamadas de civilização, apenas para ganhar no jogo de malícia ao balcão da cervejaria de que aquele afinal é maricas. Zelam por virtudes que não praticam, rezam quando ficam na fotografia. Tudo coisas pequenas, mas que não têm problemas de trazer à liça para laçar mais votos. E para encorajar homilias como a do senhor padre de São João de Brito.

Demagogia feita à maneira, apontam-me o dedo. Mas, neste tempo, há que romper discursos caridosos ou politicamente correctos ou maioritariamente consensuais. Neste tempo, a Igreja devia dizer: é preciso fazer uma verdadeira opção preferencial pelos pobres. A direita no poder desde 1979, com um interregno de seis anos de governos de Guterres, e com a agravante do descalabro dos dois últimos anos, não tem condições de se reivindicar da doutrina social da Igreja. Nem muito menos de proclamar a defesa da vida, da vida dos mais pobres.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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