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quarta-feira, fevereiro 2

 

«Leiam o Evangelho a rir e vão ver!»

A frase que dá título a este texto é de Frei Bento Domingues, numa pequena conferência na semana passada, em que partiu do tema "Jesus Cristo, da ficção e da realidade". O desafio vinha a propósito da solenidade com que, em geral, se lê a Bíblia.
Talvez tenha a ver com a forma como me transmitiram as realidades da fé, mas o facto é que não é novidade nenhuma para mim, poder ler os textos bíblicos fora desse contexto solene, solenizado e tantas vezes frio que se encontra pelas nossas comunidades e pelo nosso imaginário. É que, ainda para citar o conferencista, "os apóstolos não escreveram os Evangelhos para fazer um monumento a Jesus", mas num processo de transmissão daquilo que viram e ouviram, a partir de algo em que acreditavam realmente, pegando aqui e ali nas referências em que aqueles a quem se destinavam os escritos se reviam para assim poderem compreender melhor.

Os autores da Sagrada Escritura criaram formas de literatura conforme o que viram e ouviram. Moldaram uma realidade que lhes brotava do íntimo de forma a fazeram-na chegar aos outros. Frei Bento referia a sua imensa simpatia com os Salmos porque estes, apesar de conterem tremendas barbaridades, transmitem a disposição da pessoa que os criou, no momento em que os criou – são textos que revelam a sua profunda humanidade.
Ora, a questão que me coloco é a de saber como será possível transmitir, hoje, de modo credível, aquilo em que acreditamos sem trair a nossa própria humanidade e sem perder o testemunho que nos foi deixado ao longo de vinte séculos.
Será possível, nos dias que correm, criar uma literatura que possa traduzir uma realidade tão impalpável e tão "misteriosa" como é a Boa Nova de Jesus Cristo? É possível continuar a escrever o Evangelho a partir daquilo que a nossa Fé vê e ouve no mundo em que nos movemos? Creio que sim. E é mais uma vez o ilustre dominicano que dá pistas: Bernanos, Mauriac, Chesterton ou Graham Greene deixaram-nos obras que ajudam a penetrar no mistério cristão.
Mas não é só a literatura que permite "dizer o indizível", também as outras artes são um meio fértil de aprofundar a nossa capacidade de reconhecer o essencial e podermos colocar na linguagem possível aquilo que nenhuma linguagem suporta no seu todo.
E não adianta dispararmos contra tudo o que nos parece irregular ou aleivosia – o "Evangelho" de Saramago ou as pinturas de Paula Rego podem-nos mostrar muito mais da nossa Fé do que o que poderemos pensar.

Rui Almeida [RUIALME]

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