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quarta-feira, fevereiro 2

 

A hipótese Macmillan

Num romance de Michel Houellebecq, "As Partículas Elementares", nome que deu origem a um blogue do meu amigo e colega deste blogue, CC (foi aliás graças a ele que cheguei à leitura deste livro), existe um capítulo particularmente interessante que tem o nome do título deste post.
O excerto que se segue, desse livro, surge após a descrição de algumas cenas de torturas indescritíveis, que me inibo de transcrever aqui, praticadas por um personagem deste romance, David di Meola. O criminoso é então objecto de um processo criminal. A personagem deste romance, o procurador do estado da Califórnia, a quem incube a investigação deste caso chama-se Daniel Macmillan e, no contexto do romance, escreveu um livro sobre esta investigação.
"Daniel Macmillan chegava então à sua argumentação. O que ficava claro no seu livro é que os pretensos satanistas não acreditam nem em Deus nem no Diabo, nem em quaisquer poderes transcendentes. De resto, a blasfémia só aparece nas suas cerimónias como um condimento erótico menor e que perde rapidamente o gosto. Eles são, exactamente como o velho mestre, o marquês de Sade, materialistas absolutos, devassos à procura de sensações nervosas cada vez mais violentas. Segundo Daniel Macmillan, a destruição progressiva dos valores morais ao longo dos anos 60, 70, 80 e 90, era um processo lógico e imparável. Depois de terem esgotado os prazeres sexuais, era normal que os indivíduos, libertados das restrições morais comuns, se virassem para os prazeres mais vastos da crueldade; dois séculos antes, Sade tinha feito um percurso análogo. Neste sentido, os serial killers dos anos 90 eram os filhos naturais dos hippies dos anos 60; e os seus antepassados comuns eram os adeptos do accionismo vienense dos anos 50. A coberto das performances artísticas, nomes do accionismo vienense como Nitsch, Muehl ou Schwarzkogler, tinham efectuado massacres de animais em público: diante de um público de cretinos, tinham arrancado e seccionado órgãos e vísceras, mergulhado as mãos na carne e no sangue, levando o sofrimento de animais inocentes a limites extremos - enquanto um colega fotografava ou filmava a carnificina para expôr os documentos assim obtidos numa galeria de arte. Esta vontade dionisíaca de libertar a bestialidade e o mal, iniciada pelo accionismo vienense, iríamos encontrá-la ao longo das décadas posteriores. Segundo Daniel Macmillan, a viragem que a civilização ocidental conheceu depois de 1945 não era mais do que o regresso ao culto brutal da força, a recusa das regras seculares construídas lentamente em nome da moral e do direito. Accionismo vienense, beatnicks, hippies e assassinos em série encontrar-se-iam unidos pelo facto de serem todos libertários integrais, defendendo a afirmação integral dos direitos do indivíduo face a todas as normas sociais, a todas as hipocrisias que constituiriam, segundo eles, a moral, a religião, o sentimento, a justiça e a piedade. Neste sentido, Charles Manson não tinha sido uma adulteração monstruosa da experiência hippie, mas a sua concretização lógica; e David di Meola só tinha prolongado e posto em prática os valores da libertação individual."

PS.: Num momento em que certas forças políticas que se definem como sendo de direita se reclamam dos "valores morais" (e vão acentuar essa tónica até às eleições) como se detivessem a sua propriedade exclusiva, gostaria de sublinhar que os valores morais não são património de ninguém. E se os valores morais deveriam estar mais associados a certas correntes ideológicas que a outras é certamente à esquerda que eles deveriam estar mais associados. Com efeito, do mandamento do amor e do dogma cristão de que todos os homens são irmãos decorre necessariamente que o combate às desigualdades sociais é um dos valores morais supremos. Ora se existe alguém amoral e sem valores a este respeito é precisamente a direita pois a sua principal característica ideológica é a indiferença (pelo menos) relativamente às desigualdades sociais. Pena é que a esquerda não compreenda que a defesa dos valores morais em toda a sua plenitude e coerência é, precisamente, a sua mais importante bandeira.

Timshel [TIMSHEL]

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