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quarta-feira, fevereiro 23

 

Em busca do cristianismo perdido

Este texto surgiu na sequência de um post do Lutz sobre o texto que aqui escrevi na semana passada ("Um texto simples em defesa da família").

Julgo que, em termos de senso comum, talvez a questão mais importante seja: "Para que serve a família?"

Como já referi, julgo que ela serve para "fabricar felicidade".

Pode-se fabricar felicidade através do exercício da autoridade?

Um pai que impede uma criança de atravessar a rua no momento em que passa um carro estará a ter um comportamento autoritário ou prepotente? Toda a gente estará de acordo que a resposta é negativa. Mas trata-se sem dúvida de um comportamento em que uma das partes usa a autoridade, o poder e a força para impedir o comportamento de uma outra parte. Onde se encontra a fronteira entre a autoridade necessária e o autoritarismo?

A limitação da liberdade da criança que se viu impedida de atravessar a rua em consequência desse exercício de autoridade, poder e força parece legítima.

E quando os pais se sacrificam abstendo-se de ter comportamentos que lhes dão prazer porque estes são incompatíveis com a felicidade dos filhos, esta auto-limitação da liberdade é boa ou má?

E a tradição? Numa família as crianças aprendem fundamentalmente por imitação. Por isso a tradição em si não é má nem boa. A tradição será boa quando sirva para aumentar a felicidade e má no caso contrário.

Existem contudo situações em que certos modelos funcionais são tendencialmente mais aptos do que outros a produzir felicidade. Tendencialmente esses modelos são os chamados "tradicionais".

Existem famílias que são fábricas de infelicidade? Sem dúvida que sim. Mas não convém tomar a nuvem por Juno. Tendencialmente uma família tradicional tende (eu sei que me estou a repetir mas é deliberado para sublinhar a ideia de tendência e não de que se trata de uma regra absoluta) a criar mais felicidade que uma família não tradicional. Por razões que seria complexo explicar aqui mas que se resumem à estrutura reprodutiva da espécie humana. A natureza ou Deus fizeram o homem de tal modo que uma estrutura familiar tradicional tem mais possibilidades de que os seres humanos que nascem e crescem no seu interior sejam mais aptos à sobrevivência e à felicidade. Adoptando um raciocínio darwinista: por isso (e talvez por outras razões, de ordem divina) ela existe com a força que tem.

No sentido em que o Lutz fala na tradição (como algo intrinsecamente irracional, com regras por ela postuladas e axiomáticas que nunca podem ser avaliadas ou submetidas à crítica) esta é apenas a manifestação de um autoritarismo estúpido e prepotente. Mesmo no caso de um bébé de poucos meses que é impedido pela força pelos pais de ter um acidente grave, os pais deverão explicar-lhe mesmo que ele nada perceba (parece para rir mas penso mesmo assim) as razões para tal atitude. Por maioria de razão, julgo que toda e qualquer manifestação de autoridade (que deve ser progressivamente reduzida à medida que a criança cresce; porque a autoridade enquanto manifestação de força é algo que se deve evitar a todo o custo salvo em condições de absoluta necessidade) deve ser sempre exaustivamente explicada e debatida.

Gostaria finalmente de sublinhar que se a família é uma fábrica de felicidade pelo modelo de entrega mútua entre os diferentes membros da família (embora centrada fundamentalmente na entrega dos pais relativamente aos filhos), no modelo cristão de família, essa entrega mútua dos seus membros é apenas o primeiro passo para a entrega aos outros; a família cristã deverá ser uma unidade de serviço aos outros (aos que estão dentro mas também e sobretudo aos que estão fora dessa família).

Uma última palavra sobre algo que parece nada ter que ver com isto mas tem tudo: subscrevo a cem por cento a entrevista que João César das Neves deu ao Independente. Sei que não é politicamente correcto mas é imprescindível. Aliás não vi nenhuma crítica, nem que fosse simplesmente utilitarista, aos valores por ele defendidos.

Não me parece que o que escrevi há uns tempos no meu blogue e que passo a citar seja incompatível com a defesa dos valores feita por César das Neves:

"Seria útil que quem invoca, ataca ou distorce o cristianismo relativamente ao aborto, direitos dos homossexuais ou eutanásia, soubesse que os valores cristãos em jogo são, nomeadamente, o direito à vida, o respeito da dignidade humana, a proibição da discriminação, o desejo natural da felicidade (que é um desejo de origem divina - ver ponto 1718 do Catecismo da Igreja Católica). E que em matérias em que existam valores fundamentais em jogo, de aplicação prática por vezes contraditória, ou dificilmente compatíveis, o imperativo da proporcionalidade e do equilíbrio de valores é um dificílimo mas necessário exercício que deve ser feito sobretudo caso a caso à luz da consciência de cada um. Num quadro legal que não deixe quaisquer dúvidas quanto ao carácter fundamental desses valores."

É que, o único valor absoluto e dogmático relativamente ao qual os cristãos devem ser fundamentalistas, o valor ao qual tudo se deve subordinar pois foi o único mandamento que Cristo nos deixou, é o amor.


Timshel [TIMSHEL]

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