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segunda-feira, fevereiro 28

 

Ecstatic Confessions

I will sing of bareness a new song,
for true purity is without thought.
Thoughts may not be there,
so I have lost the mine:
I am decreated.
He who is unminded has no cares.

My unevenness no longer causes me to err:
I am as gladly poor as rich.
I want nothing to do with images,
I must stand free of myself:
I am decreated.
He who is unminded has no cares.

Would you know how I escaped the images?
I perceived the right unity in myself.
That is right unity
when neither weal nor woe displaced me:
I am decreated.
He who is unminded has no cares.

Would you know how I escaped the mind?
When I perceived neither this nor that in myself,
save bare divinity unfounded.
Then I could no longer keep silent, I had to tell it:
I am decreated.
He who is unminded has no cares.

Since I am thus lost in the abyss
I no longer whish to speak, I am mute.
The Godhead clear has swallowed me into itself.
I am displaced.
Therefore the darkness delighted me greatly.

Since I have thus come through to the origin,
I may no longer age, but grow young.
So all my powers have disappeared
and have died.
He who is unminded has no cares.

Then whosoever has disappeared
and has found a darkness
is so rich without sorrow.
Thus the dear fire
has consumed me,
and I have died.
He who is thus unminded has no cares.
______________

Vou cantar da nudez uma nova canção,
pois a verdadeira pureza é sem pensamento.
Pensamentos não podem lá estar,
assim perdi os meus:
Sou descriado.
Ele que está sem desígnio não tem anseios.

A minha imperfeição não mais me faz errar:
Tão alegremente sou pobre como rico.
Não quero nada com imagens,
tenho de estar livre de mim:
Sou descriado.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.

Saberias como fugi às imagens?
Percebi a unidade certa em mim.
Essa é a unidade certa
Quando nem receio nem desejo me desloca:
Sou descriado.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.

Gostavas de saber como fugi à mente?
Quando percebi nem isto nem aquilo em mim,
salvo a nua divindade infundada.
Então não mais pude ficar calado, tinha que contá-lo:
Sou descriado.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.

Desde que estou assim perdido no abismo
Mais não quero falar, sou mudo.
A cabeça clara de Deus engoliu-me nele mesmo.
Estou deslocado.
Por isso a escuridão alegrou-me muito.

Desde que assim cheguei ao origem,
Não posso envelhecer mais, pois enoveço.
Assim todos os poderes desapareceram
e morri.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.

Pois seja quem fôr desapareceu
E encontrou a escuridão
é tão rico sem tristeza.
Assim o fogo querido
me consumiu,
e morri.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.



Conheço esta cantilena, originalmente atribuida a Johannes Tauler, do livro
Ecstatic Confessions de Martin Buber. Em 1909 o filósofo e teólogo judeu publicou (originalmente em alemão) uma colecção de testemunhos de experiências místicas de pessoas comuns, proveniente de tempos, culturas e religiões muito diversos.
Buber optou deliberadamente por só incluir testemunhos que se manifestaram fora da produção teórica e dogmática das respectivas religiões, ficando assim de fora a maioria dos grandes místicos conhecidos, como Bodidharma, Hildegard von Bingen, Meister Eckhart, Bernard Clairvaux, Juan de la Cruz, Teresa d'Avila, e outros. Curiosamente (e felizmente) Rumi não ficou de fora...
Também por esta lógica, a cantilena apresentada só está aqui por não ser de Tauler. (Johannes Tauler foi discípulo de Meister Eckhart, que no entanto conseguiu, ao contrário do seu mestre, evitar entrar em conflito com a hierarquia da Igreja Católica.)

O livro é fascinante, pelos textos em si. Também o é por mostrar como a experiência espiritual pode assaltar pessoas sem conhecimento teórico, dogmático e sem observância de técnicas que fomentam o crescimento espiritual. E em terceiro lugar, por mostrar o que essas experiências relatadas, de tão diversos tempos, culturas e religiões, e tão distantes e por vezes desconhecedores das respectivas doutrinas ortodoxas, têm em comum!
Para mim, esse comum é o essencial.

Um livro sobre a experiência mística. Um livro profundamente ecuménico. Um livro para todos, ou, pelo menos, para a "imensa minoria", como a chamou Juan Ramon Jiménez.


Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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