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quarta-feira, fevereiro 23

 

Deus ex-machina

Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte. Transfigurou-se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele. Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o.» Ao ouvirem isto, os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. Aproximando-se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo.» Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém. Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes: «Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.» (Mateus 17,1-9)

Disse-nos ontem o Evangelho do 2º Domingo da Quaresma (Lucas 9,28-36):

Esta passagem da Transfiguração de Cristo, lida no 2º Domingo da Quaresma e referida na Bíblia em pelo menos mais dois trechos (Lucas 9,28-36 e 2ª Carta de Pedro 1,16-18), é um episódio que sempre me provocou alguma estranheza. Não pelo episódio em si mas pela projecção relativamente pequena que a Igreja lhe atribuiu no corpo da doutrina cristã. Não será certamente pela incerteza do episódio: vem mencionado em dois dos evangelhos e é referido por uma das testemunhas presenciais, Pedro. Também não o será pela falta de significado teológico: no final de contas revela-se aqui a três homens escolhidos e de uma forma sensível a natureza divina de Cristo. Talvez a importância menor que se dá a este episódio na doutrina e na liturgia da Igreja tenha paralelismo com a importância menor que Cristo também lhe quiz dar: no fim de contas deixou que ele ocorresse no cimo dum monte com apenas três testemunhas em vez de optar por uma manifestação espetacular perante a multidão. Imagine-se a sensação se esta manifestação de esplendor divino tivesse ocorrido durante o julgamento ou durante o calvário de Cristo! Mas não foi definitivamente assim que Deus quiz revelar a sua mensagem aos homens. Deus não deixou a vida de Cristo terminar à moda das tragédias gregas, recusou o clássico papel do “deus ex-machina”. Não, o que Deus quiz mostrar ao homens não foi o poder da sua magnificência mas a imensidade do seu amor por nós. Não resgatou espetacularmente o Seu Filho da Cruz mas deixou-o morrer lá, às nossas mãos, como se fosse qualquer um de nós. Em vez de nos ter deixado deslumbrados com a Sua grandeza, escolheu deixar-nos a imagem de Jesus que viveu absolutamente de acordo com a Sua Palavra. Escolheu deixar-nos perante o facto de o Seu Filho ter nascido e vivido no meio de nós, ter-nos oferecido a Palavra de Deus e ter sido rejeitado por isso. Definitivamente Deus não procura convencer a nossa inteligência mas procura, isso sim, converter o nosso coração. E converter significa transformar. Peço desculpa mas lá estou eu a insistir no significado central e transcendente da Paixão de Cristo: para mim o episódio furtivo da transfiguração não é mais do que mais um elemento para entendermos plenamente o significado da Paixão, para entendermos mais perfeitamente a relação que Deus quer ter connosco.
Penso que não estou a inventar nada de novo. Aliás não deixa de ser interessante que a Igreja Ortodoxa valorize mais do que nós os católicos o episódio desta transfiguração “clandestina” de Jesus. Existe uma oração importantíssima na liturgia ortodoxa que diz isto mesmo. É o Kondákion:


Tu transfiguraste-te sobre o Monte, ó Cristo, nosso Deus, revelando a tua glória aos teus discípulos,tanto quanto lhes era possível contemplá-la,a fim de que, quando te vissem crucificado,
compreendessem que aceitaste livremente a tua Paixão,e anunciassem ao mundo que és, em verdade, o Esplendor do Pai
.


Amen, digo eu.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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