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quarta-feira, fevereiro 2

 

Aqui na Terra



Desde Platão (senão antes) que pensamos a sedutora hipótese de uma alma separada do corpo. No cristianismo, Santo Agostinho corporizou esta ideia (lá estou eu a socorrer-me da imagem) e ela perdura no espaço e no tempo, sagrado e profano. O mundo do "espírito" tomou o lugar da antiga "alma", agora com roupagens contemporâneas (a arte, a literatura, a criação, o intelecto, a sensibilidade) e continua a opôr-se às partículas visíveis do mundo concreto.
No interior do cristianismo, esta visão em estéreo (de estereotipada) da realidade impôs-se. Ganhou consistência por estes lados, fruto de apressadas leituras (a Cidade de Deus e dos homens), ganhando mesmo espaço por sua má influência (os processos de Giordanno Bruno e Galileo), mas também por convenientes esquecimentos (um Deus que se fez carne e assumiu as dores, fraquezas e prazeres humanos).
Mas foi parra que deu muitas uvas – e ainda dá. Hoje em dia, olha-se para a "mente" onde se sabia a "alma" e mais tarde se revelou o "espírito", tentando descobrir os fenómenos naturalísticos (biológicos, físicos, químicos, etc.) da sua composição e do seu funcionamento. Partimos do princípio que a ciência tem de explicar todo o universo e que, portanto, a alma, perdão, a "mente", também pode ser dissecada, porque não há nada mais para lá de onde a nossa vista alcança.
Ora, só quem nunca teve uma dor de dentes ou de ouvidos, pode achar que, à maneira da cristologia passada, o homem, tal como tem uma alma, tem um corpo. Ou, do lado da religião positivista, que é possível reduzir os fenómenos da mente a partículas físicas. Quem já teve dor de dentes sabe que nós não temos um corpo. Nós somos um corpo. Quando nos dói um dente, é uma dor de alma.
Podem dizer-nos que o corpo é corruptível e a alma não (não tem dentes com infecções), que somos incapazes de pensar um corpo ressuscitado (glorificado, como diz S. Paulo) sem dentes. O médico ateu pode bem explicar-nos que a dor é um processo mental, neurológico, uma informação que o cérebro transmite e que pode ser observável através de maquinaria apropriada. Está bem.
No livro Sentimento de Si, António Damásio conclui que a identidade do eu resulta da identidade do corpo, do mesmo modo que a própria consciência resulta da necessidade de regulação biológica do corpo. A Damásio já lhe doeram os dentes.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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