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segunda-feira, fevereiro 28

 

Ecstatic Confessions

I will sing of bareness a new song,
for true purity is without thought.
Thoughts may not be there,
so I have lost the mine:
I am decreated.
He who is unminded has no cares.

My unevenness no longer causes me to err:
I am as gladly poor as rich.
I want nothing to do with images,
I must stand free of myself:
I am decreated.
He who is unminded has no cares.

Would you know how I escaped the images?
I perceived the right unity in myself.
That is right unity
when neither weal nor woe displaced me:
I am decreated.
He who is unminded has no cares.

Would you know how I escaped the mind?
When I perceived neither this nor that in myself,
save bare divinity unfounded.
Then I could no longer keep silent, I had to tell it:
I am decreated.
He who is unminded has no cares.

Since I am thus lost in the abyss
I no longer whish to speak, I am mute.
The Godhead clear has swallowed me into itself.
I am displaced.
Therefore the darkness delighted me greatly.

Since I have thus come through to the origin,
I may no longer age, but grow young.
So all my powers have disappeared
and have died.
He who is unminded has no cares.

Then whosoever has disappeared
and has found a darkness
is so rich without sorrow.
Thus the dear fire
has consumed me,
and I have died.
He who is thus unminded has no cares.
______________

Vou cantar da nudez uma nova canção,
pois a verdadeira pureza é sem pensamento.
Pensamentos não podem lá estar,
assim perdi os meus:
Sou descriado.
Ele que está sem desígnio não tem anseios.

A minha imperfeição não mais me faz errar:
Tão alegremente sou pobre como rico.
Não quero nada com imagens,
tenho de estar livre de mim:
Sou descriado.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.

Saberias como fugi às imagens?
Percebi a unidade certa em mim.
Essa é a unidade certa
Quando nem receio nem desejo me desloca:
Sou descriado.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.

Gostavas de saber como fugi à mente?
Quando percebi nem isto nem aquilo em mim,
salvo a nua divindade infundada.
Então não mais pude ficar calado, tinha que contá-lo:
Sou descriado.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.

Desde que estou assim perdido no abismo
Mais não quero falar, sou mudo.
A cabeça clara de Deus engoliu-me nele mesmo.
Estou deslocado.
Por isso a escuridão alegrou-me muito.

Desde que assim cheguei ao origem,
Não posso envelhecer mais, pois enoveço.
Assim todos os poderes desapareceram
e morri.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.

Pois seja quem fôr desapareceu
E encontrou a escuridão
é tão rico sem tristeza.
Assim o fogo querido
me consumiu,
e morri.
Ele quem está sem desígnio não tem anseios.



Conheço esta cantilena, originalmente atribuida a Johannes Tauler, do livro
Ecstatic Confessions de Martin Buber. Em 1909 o filósofo e teólogo judeu publicou (originalmente em alemão) uma colecção de testemunhos de experiências místicas de pessoas comuns, proveniente de tempos, culturas e religiões muito diversos.
Buber optou deliberadamente por só incluir testemunhos que se manifestaram fora da produção teórica e dogmática das respectivas religiões, ficando assim de fora a maioria dos grandes místicos conhecidos, como Bodidharma, Hildegard von Bingen, Meister Eckhart, Bernard Clairvaux, Juan de la Cruz, Teresa d'Avila, e outros. Curiosamente (e felizmente) Rumi não ficou de fora...
Também por esta lógica, a cantilena apresentada só está aqui por não ser de Tauler. (Johannes Tauler foi discípulo de Meister Eckhart, que no entanto conseguiu, ao contrário do seu mestre, evitar entrar em conflito com a hierarquia da Igreja Católica.)

O livro é fascinante, pelos textos em si. Também o é por mostrar como a experiência espiritual pode assaltar pessoas sem conhecimento teórico, dogmático e sem observância de técnicas que fomentam o crescimento espiritual. E em terceiro lugar, por mostrar o que essas experiências relatadas, de tão diversos tempos, culturas e religiões, e tão distantes e por vezes desconhecedores das respectivas doutrinas ortodoxas, têm em comum!
Para mim, esse comum é o essencial.

Um livro sobre a experiência mística. Um livro profundamente ecuménico. Um livro para todos, ou, pelo menos, para a "imensa minoria", como a chamou Juan Ramon Jiménez.


Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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Revolução Personalista III — interioridade e comunicação

Tenho que voltar a pedir desculpas aos leitores, pela pouca produção que nesta semana se repete. Era minha intenção terminar hoje a série "Revolução Personalista", mostrando mais alguns traços do pensamento de Mounier. Pois parece que à terceira ainda não é de vez. Ficam mais alguns apontamentos do opúsculo "O Personalismo" transitando a conclusão para a próxima semana (a ver vamos).
Então hoje queria falar dum excerto em que se fala da "Conversão íntima": depois de apresentar a "existência incorporada" e "a comunicação" como marcas indeléveis da pessoa, Mounier fala da vida interior, da subjectividade, da intimidade pessoal. Mas adverte-nos logo que elas não são um contraponto à realidade 'exterior' ao homem — "a interioridade não é oposta ao movimento de comunicação, mas pulsão complementar". Sempre me fez muita confusão ouvir certos discursos muito intimistas, em que se falava de uma grande transformação interior, mas onde os frutos dessa transformação eram parcos. Mounier começa por falar de "O recolhimento", tradução hesitante de "le suir soi" usada por João Bérnard da Costa:
«O homem pode viver como uma coisa. Mas, como não é uma coisa, uma tal vida apresentará sempre um aspecto de demissão (…). O homem do divertimento vive como que expulso de si, confundido com o tumulto exterior: assim o homem prisioneiro de seus apetites, funções, hábitos, relações, dum mundo que o distrai. Vida imediata, sem memória, sem projectos, sem domínio, e que é a própria definição de exterioridade, ou, à escala humana, de vulgaridade. A vida pessoal começa com a capacidade de romper contactos com o meio, de ripostar, de recuperar
, para, através duma unificação tentada se constituir uma só.
À primeira vista, este movimento é um movimento de fuga. Essa fuga não é senão um tempo dum complexo movimento. Se alguns ficam por aí e se agitam, é apenas porque interveio uma perversão. O importante não é a fuga, mas a
conversão
de forças. A pessoa só recua para depois saltar melhor.
É nesta experiência fundamental que se fundam os valores de silêncio e de retiro. É importante que hoje chamemos para eles a atenção. As distracções da nossa civilização destroem o sentido do tempo livre, o gosto pelo tempo que corre, a paciência da obra que amadurece e vão dispersando as vozes interiores que dentro de pouco tempo, só os poetas e o homem religioso escutarão.
O vocabulário do recolhimento (ripostar, recuperar) lembra-nos porém que ele é uma conquista activa, o oposto de uma ingénua confiança na espontaneidade e fantasia interiores. (…) No entanto, o movimento de meditação é também um movimento simplificador, e não complicação ou requinte psicológico. Atinge o centro da pessoa e atinge-o directamente. Nada tem a ver com a ruminação ou introspecção mórbidas. Um acto o compromete, um acto o conclui.
»

Depois deste trecho, Mounier escreve sobre "l'en soi" — traduzido de forma divergente mas acutilante para "o segredo". Aí explora qual a direcção deste movimento de interioridade — sendo que a pessoa não é uma coisa, que a pessoa é o não-inventariável, há uma certa dose de segredo e de pudor na vida pessoal. Continua a desenvolver essas ideias falando da intimidade. Deixa claro que essa dimensão do universo pessoal não pode servir para que nos desliguemos do mundo:
«É preciso simplesmente que desmistifiquemos o privado, impedindo que este seja elevado à posição de defesa contra a vida pública. É a própria estrutura da vida pessoal que a isso nos obriga: a reflexão não é somente um olhar interior sobre mim e minhas imagens lançado; é também intenção, projecto de nós próprios. Não existe aquela árvore e uma imagem formada dentro de mim como dentro de uma caixa com o olhar da consciência na tampa. (…) A consciência íntima não serve de bastidores onde a pessoa entorpeça, é como a luz, presença secreta e no entanto irradiando para o mundo inteiro.»
Adiante fala-se de gente que viveu a sua vida profundamente comprometida com o mundo 'exterior' e de como a sua caminhada foi reconhecida e chamada de 'interior':
«Aquele que, descendo de si, se não deteve na calma dos primeiros abrigos, mas se decidiu a correr a aventura até ao fim, cedo se precipita para longe de qualquer refúgio. Artistas, místicos, filósofos, viveram por vezes até ao esgotamento esta experiência integral, muito curiosamente chamada 'interior', porque se lançaram para os quatro cantos do globo.»

Falando ainda do mesmo, mas sobre outra perspectiva, discute-se adiante a dialética entre o ser e o ter, outra que sempre me fez alguma confusão e que tão facilmente ouvimos nos discursos moralistas:
«Afirmar-se é, antes de mais, ter espaço. É pois preciso que não oponhamos demasiado o ter e o ser, como duas atitudes existenciais entre as quais fosse preciso escolher. Pensemos antes em dois pólos, no meio dos quais a existência está compreendida. Não é possível ser sem ter, embora nosso ser seja infinita capacidade de ter, não seja esgotável pelo que tem e o ultrapasse em muito pelo seu significado. (…) O idealismo moral é muitas vezes a procura de uma existência que mais nada pesaria; existência contra a natureza, que leva à falha ou à inumanidade.»
Feita esta ressalva, Mounier é categórico:
«O desenvolvimento da pessoa implica como condição interior um despojamento de si e de seus bens que despolariza o egocentrismo. A pessoa só se encontra quando se perde. A sua fortuna é o que lhe fica quando se despojou de tudo o que tinha — o que lhe fica na hora da morte.»
E por fim chegamos à conclusão central, com que me despeço:
«É preciso sair da interioridade para alimentar a interioridade. A pessoa é uma interioridade que tem necessidade de uma exterioridade. A palavra existir indica pelo seu prefixo que ser é expandir-se, exprimir-se. (…) É preciso que não desprezemos tanto a vida exterior: sem ela a vida interior tornar-se-ia incoerente, tal como, sem vida interior, aquela mais não seria que delírio.»

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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quarta-feira, fevereiro 23

 

Em busca do cristianismo perdido

Este texto surgiu na sequência de um post do Lutz sobre o texto que aqui escrevi na semana passada ("Um texto simples em defesa da família").

Julgo que, em termos de senso comum, talvez a questão mais importante seja: "Para que serve a família?"

Como já referi, julgo que ela serve para "fabricar felicidade".

Pode-se fabricar felicidade através do exercício da autoridade?

Um pai que impede uma criança de atravessar a rua no momento em que passa um carro estará a ter um comportamento autoritário ou prepotente? Toda a gente estará de acordo que a resposta é negativa. Mas trata-se sem dúvida de um comportamento em que uma das partes usa a autoridade, o poder e a força para impedir o comportamento de uma outra parte. Onde se encontra a fronteira entre a autoridade necessária e o autoritarismo?

A limitação da liberdade da criança que se viu impedida de atravessar a rua em consequência desse exercício de autoridade, poder e força parece legítima.

E quando os pais se sacrificam abstendo-se de ter comportamentos que lhes dão prazer porque estes são incompatíveis com a felicidade dos filhos, esta auto-limitação da liberdade é boa ou má?

E a tradição? Numa família as crianças aprendem fundamentalmente por imitação. Por isso a tradição em si não é má nem boa. A tradição será boa quando sirva para aumentar a felicidade e má no caso contrário.

Existem contudo situações em que certos modelos funcionais são tendencialmente mais aptos do que outros a produzir felicidade. Tendencialmente esses modelos são os chamados "tradicionais".

Existem famílias que são fábricas de infelicidade? Sem dúvida que sim. Mas não convém tomar a nuvem por Juno. Tendencialmente uma família tradicional tende (eu sei que me estou a repetir mas é deliberado para sublinhar a ideia de tendência e não de que se trata de uma regra absoluta) a criar mais felicidade que uma família não tradicional. Por razões que seria complexo explicar aqui mas que se resumem à estrutura reprodutiva da espécie humana. A natureza ou Deus fizeram o homem de tal modo que uma estrutura familiar tradicional tem mais possibilidades de que os seres humanos que nascem e crescem no seu interior sejam mais aptos à sobrevivência e à felicidade. Adoptando um raciocínio darwinista: por isso (e talvez por outras razões, de ordem divina) ela existe com a força que tem.

No sentido em que o Lutz fala na tradição (como algo intrinsecamente irracional, com regras por ela postuladas e axiomáticas que nunca podem ser avaliadas ou submetidas à crítica) esta é apenas a manifestação de um autoritarismo estúpido e prepotente. Mesmo no caso de um bébé de poucos meses que é impedido pela força pelos pais de ter um acidente grave, os pais deverão explicar-lhe mesmo que ele nada perceba (parece para rir mas penso mesmo assim) as razões para tal atitude. Por maioria de razão, julgo que toda e qualquer manifestação de autoridade (que deve ser progressivamente reduzida à medida que a criança cresce; porque a autoridade enquanto manifestação de força é algo que se deve evitar a todo o custo salvo em condições de absoluta necessidade) deve ser sempre exaustivamente explicada e debatida.

Gostaria finalmente de sublinhar que se a família é uma fábrica de felicidade pelo modelo de entrega mútua entre os diferentes membros da família (embora centrada fundamentalmente na entrega dos pais relativamente aos filhos), no modelo cristão de família, essa entrega mútua dos seus membros é apenas o primeiro passo para a entrega aos outros; a família cristã deverá ser uma unidade de serviço aos outros (aos que estão dentro mas também e sobretudo aos que estão fora dessa família).

Uma última palavra sobre algo que parece nada ter que ver com isto mas tem tudo: subscrevo a cem por cento a entrevista que João César das Neves deu ao Independente. Sei que não é politicamente correcto mas é imprescindível. Aliás não vi nenhuma crítica, nem que fosse simplesmente utilitarista, aos valores por ele defendidos.

Não me parece que o que escrevi há uns tempos no meu blogue e que passo a citar seja incompatível com a defesa dos valores feita por César das Neves:

"Seria útil que quem invoca, ataca ou distorce o cristianismo relativamente ao aborto, direitos dos homossexuais ou eutanásia, soubesse que os valores cristãos em jogo são, nomeadamente, o direito à vida, o respeito da dignidade humana, a proibição da discriminação, o desejo natural da felicidade (que é um desejo de origem divina - ver ponto 1718 do Catecismo da Igreja Católica). E que em matérias em que existam valores fundamentais em jogo, de aplicação prática por vezes contraditória, ou dificilmente compatíveis, o imperativo da proporcionalidade e do equilíbrio de valores é um dificílimo mas necessário exercício que deve ser feito sobretudo caso a caso à luz da consciência de cada um. Num quadro legal que não deixe quaisquer dúvidas quanto ao carácter fundamental desses valores."

É que, o único valor absoluto e dogmático relativamente ao qual os cristãos devem ser fundamentalistas, o valor ao qual tudo se deve subordinar pois foi o único mandamento que Cristo nos deixou, é o amor.


Timshel [TIMSHEL]

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Deus ex-machina

Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte. Transfigurou-se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele. Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o.» Ao ouvirem isto, os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. Aproximando-se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo.» Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém. Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes: «Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.» (Mateus 17,1-9)

Disse-nos ontem o Evangelho do 2º Domingo da Quaresma (Lucas 9,28-36):

Esta passagem da Transfiguração de Cristo, lida no 2º Domingo da Quaresma e referida na Bíblia em pelo menos mais dois trechos (Lucas 9,28-36 e 2ª Carta de Pedro 1,16-18), é um episódio que sempre me provocou alguma estranheza. Não pelo episódio em si mas pela projecção relativamente pequena que a Igreja lhe atribuiu no corpo da doutrina cristã. Não será certamente pela incerteza do episódio: vem mencionado em dois dos evangelhos e é referido por uma das testemunhas presenciais, Pedro. Também não o será pela falta de significado teológico: no final de contas revela-se aqui a três homens escolhidos e de uma forma sensível a natureza divina de Cristo. Talvez a importância menor que se dá a este episódio na doutrina e na liturgia da Igreja tenha paralelismo com a importância menor que Cristo também lhe quiz dar: no fim de contas deixou que ele ocorresse no cimo dum monte com apenas três testemunhas em vez de optar por uma manifestação espetacular perante a multidão. Imagine-se a sensação se esta manifestação de esplendor divino tivesse ocorrido durante o julgamento ou durante o calvário de Cristo! Mas não foi definitivamente assim que Deus quiz revelar a sua mensagem aos homens. Deus não deixou a vida de Cristo terminar à moda das tragédias gregas, recusou o clássico papel do “deus ex-machina”. Não, o que Deus quiz mostrar ao homens não foi o poder da sua magnificência mas a imensidade do seu amor por nós. Não resgatou espetacularmente o Seu Filho da Cruz mas deixou-o morrer lá, às nossas mãos, como se fosse qualquer um de nós. Em vez de nos ter deixado deslumbrados com a Sua grandeza, escolheu deixar-nos a imagem de Jesus que viveu absolutamente de acordo com a Sua Palavra. Escolheu deixar-nos perante o facto de o Seu Filho ter nascido e vivido no meio de nós, ter-nos oferecido a Palavra de Deus e ter sido rejeitado por isso. Definitivamente Deus não procura convencer a nossa inteligência mas procura, isso sim, converter o nosso coração. E converter significa transformar. Peço desculpa mas lá estou eu a insistir no significado central e transcendente da Paixão de Cristo: para mim o episódio furtivo da transfiguração não é mais do que mais um elemento para entendermos plenamente o significado da Paixão, para entendermos mais perfeitamente a relação que Deus quer ter connosco.
Penso que não estou a inventar nada de novo. Aliás não deixa de ser interessante que a Igreja Ortodoxa valorize mais do que nós os católicos o episódio desta transfiguração “clandestina” de Jesus. Existe uma oração importantíssima na liturgia ortodoxa que diz isto mesmo. É o Kondákion:


Tu transfiguraste-te sobre o Monte, ó Cristo, nosso Deus, revelando a tua glória aos teus discípulos,tanto quanto lhes era possível contemplá-la,a fim de que, quando te vissem crucificado,
compreendessem que aceitaste livremente a tua Paixão,e anunciassem ao mundo que és, em verdade, o Esplendor do Pai
.


Amen, digo eu.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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A Páscoa - retratos de libertação



A festa. O domingo de Ramos festivo, colorido, que aqui se apresenta, é o contraponto a uma imagem sofrida que percorre as nossas ruas, durante a Semana Santa, um Senhor dos Passos, carregado de cores pesadas e madeiro inclemente, ou as cruzes que batemos e rogamos no peito. Mas esta Páscoa que vamos anunciando e preparando ao longo do tempo de jejum, é também tempo de nos fazer pensar sobre sinais preocupantes do nosso mundo.



A palma. Era uma palma. Por cima dos nomes carregados a preto, a morte vinha anunciada com uma palma, simples e bonita. Entretanto, os protestos dos leitores foram muitos, sobre aquele jornal que nem uma cruz põe nas suas páginas de necrologia... Hoje, folheia-se o jornal, ou outro qualquer, e os óbitos anunciam-se sempre sombrios e de cruz marcada. Sofridos os rostos, sentidas as mensagens. O raio de luz que é a palma continua tolhida até ao Domingo de Páscoa.

A Quaresma confunde-me. O tempo de penitência era muito severo outrora. Hoje, será medido em "maior fervor", como lembra um dicionário das religiões. Mas, este fervor parece esquecer que o mundo sofrido e compungido não se resolve com fervores de bater no peito. A alegria da libertação - a passagem que é a Páscoa - deve ser tempo de olhar o mundo com vontade de mudar. O desconforto que sentiremos na nossa vida, no nosso trabalho, deve ser vivido com arrojo - ousar e criar novas vidas, trabalhar a aventura. Escrevia Jacques Gaillot, há um ano, na sua diocese "virtual": «No momento de celebrar a Páscoa, como poderemos não nos lembrar de que Jesus foi crucificado fora das muralhas de Jerusalém. Pela sua morte, derrubou o muro de ódio que separava os povos. Esse muro não deve ser reconstruído.» [in Partenia http://www.partenia.org]

Penitência. Resta-nos então encher o mundo de futuros. É esta a penitência que devemos tomar em mãos. A palma com que festejaremos a libertação. Da vida sobre a morte.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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O tio do Brás Cubas

«Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos. Agora, a tantos anos de distância, não estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a história do símbolo de Nicéia; mas ninguém, nas festas cantadas, sabia melhor o número e casos das cortesias que se deviam ao oficiante. Cônego foi a única ambição de sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuía algumas virtudes, em que era exemplar, - mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as impor aos outros»

Machado de Assis, como os grandes mestres da literatura, não se limitou a escrever bem e de maneira saborosa, soube, de maneira exemplar, retratar os pequenos pormenores das fraquezas humanas e fazê-los encarnar numa personagem à medida dessas fraquezas. Fraquezas intemporais que vão encarnando em personagens verdadeiras de todas as épocas.
E se este tio cónego das "Memórias póstumas de Brás Cubas" encaixa na perfeição em muitas dignidades eclesiais do nosso tempo (sendo certo que a beatice e a meticulosidade irritante se vai disfarçando com muitas máscaras: desde os ultraconservadorismos mais militantes até aos mais bolorentos progressismos, ou vice-versa…), o certo é que de há muito (de sempre?) que este género de personagenzinha secundária se instalou em qualquer meio onde seja possível satisfazer-se com as aparências de que vive a mediocridade.

Os que preferem a sacristia ao altar, o lado externo ao substancial acabam por ter uma vidinha pacata, sem complicações. Os que arriscam aproximar-se da mesa do sacrifício, rejeitando a facilidade morna (cf. Ap. 3, 16) e segura dos regulamentos e preceitos encarreirados, acabam por levar as pancadas mais violentas da vida. Ouso pensar que acabam por ser os mais felizes.
E depois, ninguém nasce predestinado para a sacristia ou para o altar, estão ambos ao alcance de todos: escolher entre o medíocre e o sublime.


Rui Almeida [POESIA NA RUA]

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Reacção em cadeia

Numa sessão de discussão a que assisti e onde se discutia a questão da origem do universo numa perspectiva cristã, com relativa rapidez o criacionismo e o concordismo, a relação entre a ciência e a religião, Galileu e Kepler, Einstein ou os físicos cristãos contemporâneos, foram deixados para trás, pois o grupo de discussão, constituído na sua grande maioria estudantes do secundário, se mostrou mais interessado em discutir outros assuntos. Nada há de novo nisso. Nem sequer nas problemáticas levantadas. Quando a discussão corre hostes adolescentes e a temática é cristã, rapidamente, as questões passam para um quadro parecido com este: «porque é que o Padre diz o que disse na Missa?»; «porque é que não o deixa dizer fora dos locais de culto e evita a sua discussão?».
Estas questões concretizam-se de diversos modos e são um dos instrumentos que os jovens usam para justificar diversos graus de afastamento. Dito isto, uma primeira questão deve ser formulada: afastamento em relação a quê? – A Deus? – À religião? – À Igreja? – Ao sacerdote? – Entretanto, uma primeira constatação deve ser anotada: - há por vezes, muitas vezes, uma identificação difusa dos quatro elementos em jogo. Desta difusa identificação resultam complicações onde se encontra um acento de drama. Antes de tentarmos clarificá-lo, deixemos dito que o que dizemos é esquemático. Nesse esquema, vemos um processo de reacção em cadeia.
O adolescente ao escutar o que o sacerdote diz no espaço de culto e fora dele, ao discordar, joga essa discórdia contra as bolas mais próximas no pano verde do bilhar. Joga a recusa contra a Igreja, contra a religião e por fim contra Deus. Por isso, é possível observar que algum hábito na recusa do que é dito e feito pelo sacerdote, torna o adolescente hábil no pôr em causa a Igreja, a afastar-se das problemáticas religiosas e a complicar a relação que pode ter com Deus. Ele sabe que há qualquer coisa neste processo que não está bem. Não somos naturalmente tolos e por isso sabemos que falta qualquer coisa na reacção em cadeia. Sabemos que a reacção em cadeia choca com algo que “ameaça” tornar-se ausente e que tal ausência será custosa. Dolorosamente custosa. Por isso, no meio de uma situação como esta, o adolescente tem tendência a fazer uma de duas coisas, ou as duas alternadamente. A manifestar uma imensa tristeza que se mostra no modo lamentoso como critica. A manifestar uma ira desmesurada que se mostra no modo como não é capaz de escutar seja o que for que o que possa ser dito para amenizar a sua reacção.
Independentemente disto, parece que a causa próxima deste reacção passa pelo papel que o adolescente atribuiu ao mediador, o que deve merecer atenção e também a nossa atenção em próximas edições.

Fernando Macedo [
A BORDO]

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segunda-feira, fevereiro 21

 

Revolução Personalista (II e meio)

Hoje, por falta de disponibilidade, vejo-me obrigado a interromper os textos sobre "O Personalismo", de Emmanuel Mounier. Ainda assim darei voz a Mounier, por isso pode-se dizer que este é mais meio texto da dita série. Escrevo em dia de eleições, pelo que o resultado de logo à noite ainda não é conhecido (embora haja fortes suspeitas). Por isso também não vou falar de política. Ou por outra: vou falar de política, mas não da política partidária cá da casa. Vou falar do amor, da sua dificuldade e da sua força, e dessa forma falarei de política. Como já alguém disse, politicamente sou apenas cristão — acredito num Deus de Amor. Assim, partilho convosco um episódio de "Os Irmãos Karamazov", de Dostoiévsky e um excerto de Mounier. Deixo as conclusões para o leitor.
Comecemos pela cena e respectivos personagens dum pequeno episódio, dos primeiros capítulos de "Os Irmãos Karamázov". O narrador dá-nos a conhecer uma mulher que vem pedir conselho e perdão a um stárets — uma mistura de sábio, ermita e profeta, sem entrar em grandes explicações. Diz-lhe ela que o seu problema é amar a humanidade em geral, mas ter repugnância ao seu semelhante. Que sente um forte amor universal mas que não consegue passar a barreira de cada pessoa concreta. Depois de algum diálogo, confessa ao sábio que estaria até disposta a abandonar tudo para ser enfermeira por essas terras fora, tratando tudo e todos, qual curadora geral da humanidade. Diz-lhe o velho stárets que conhecia caso semelhante. E fala-lhe num homem que dizia assim: "Nos meus sonhos, chego muitas vezes às ideias apaixonadas de servir a humanidade, se calhar, seria mesmo capaz de subir ao calvário pelas pessoas, se de repente isso fosse necessário; ao mesmo tempo sou incapaz de conviver com alguém no mesmo quarto mais de dois dias, digo-o por experiência. Mal alguém fica perto de mim, logo a sua personalidade me oprime o amor-próprio e me constrange a liberdade." O ancião começa por lhe dizer que talvez ela o faça apenas para receber louvores. Talvez até o seu arrependimento seja apenas uma esperança de ser exaltada por ele, pela sua profunda consciência e desejo de correcção. Depois diz-lhe várias coisas, que deve evitar a mentira, o desgosto pelos outros e por si mesma, e — mais importante — diz-lhe o seguinte:
«Nunca desanime da sua própria fraqueza na busca do amor, e nem sequer tenha muito medo dos seus procedimentos menos bons. Lamento não poder dizer-lhe nada mais consolador, porque o amor vivo, em comparação com o amor sonhado, é uma coisa cruel e assustadora. O amor dos sonhos anseia por uma obra rápida, de satisfação imediata e aos olhos de todos. Aqui, é verdade, chega-se ao ponto de sacrificar a própria vida, só para que a obra não seja muito demorada, mas rápida, como no palco do teatro, e que toda a gente olhe e louve. Ora, o amor vivo é trabalho e paciência e, para alguns, toda uma ciência. Mas vaticino-lhe que, mesmo no momento em que vir, horrorizada, que não se aproximou do objectivo, apesar de todos os seus esforços, antes se distanciou ainda mais dele... profetizo-lhe que, nesse mesmo momento, alcançará de súbito o objectivo e verá claramente sobre si a força milagrosa do Senhor que sempre a amou e guiou.»
Passemos directamente ao filósofo, do capítulo sobre 'O Afrontamento':
«O amor é luta; a vida é luta contra a morte; a vida espiritual é luta contra a inércia material e o sono vital. A pessoa toma consciência de si própria, não no êxtase, mas numa luta de força. A força é um dos seus principais atributos; não a força bruta do poder ou da agressividade em que o homem renuncia a si próprio para imitar o choque material, mas a força humana, simultaneamente interior e eficaz, espiritual e manifesta. Os moralistas cristãos conferem à força esta dimensão total. O principal objectivo que lhe conferiam era a protecção contra os males corporais e sobretudo contra suprema derrocada corporal, a morte; a muitos falta coragem moral, muito simplesmente porque têm medo dos combates (...); muitos são cobardes por egoísmo e falta de imaginação. A vitória interior sobre a morte une estas duas zonas de energia. Uma pessoa só atinge a plena maturidade no momento em que opta por fidelidades que valem mais do que a vida. Debaixo da capa duma filosofia do amor e da paz, abrigou-se, sobre o conforto moderno e as piegas preocupações que este implica, um monstruoso desconhecimento destas verdades elementares. (...) A utopia dum estado de repouso e harmonia, 'reino de abundância', 'reino de direito', 'reino de liberdade', 'paz perpétua', é aspiração para que tende uma tarefa infinita e interminável; não a deixemos apagar-se num sonho pueril. »

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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quarta-feira, fevereiro 16

 

Um texto simples em defesa da família

A prioridade fundamental do próximo governo deveria ser, do meu ponto de vista, a defesa da família. Também por razões de competitividade. Mas dessas já aqui falei em tempos num post intitulado "A competitividade".

A família deve-se defender porque ela constitui um valor em si mesmo. Uma verdadeira família é a mais eficiente e eficaz "fábrica de felicidade".

Uma verdadeira família supõe condições subjectivas (mas não é dessas que vai tratar o presente texto) e condições objectivas.

Uma família em que as necessidades elementares não se encontrem satisfeitas encontra-se ferida na sua dignidade mais profunda. Dificilmente essas condições objectivas permitem que ela se concretize como uma verdadeira família. Não digo que seja impossível mas é muito mais difícil.

Todavia, por estranhas razões, a pergunta que mais me ocorre quando leio jornais é uma pergunta que parece nada ter que ver com o que acabei de constatar. A pergunta é seguinte:

É a defesa da família incompatível com a defesa da justiça social?

Esta pergunta parece absurda (e é absurda). Contudo, quando atentamos nas posições de certos partidos políticos, comentadores, analistas, movimentos de opinião, etc., etc. parece que, por razões obscuras, quem defende a família não pode defender a justiça social e quem defende a justiça social não pode defender a família.

É assim que os chamados defensores da família e dos valores familiares quando emitem as suas opiniões quase nunca falam na justiça social e na luta contra a pobreza e as desigualdades sociais ou quando muito dedicam a estes temas apenas algumas palavras de conveniência enquanto se desdobram em longas ladainhas na defesa da família.

E vice-versa. Aqueles que se lançam em longos discursos radicais de luta contra a pobreza e por uma maior justiça social tendem a esquecer-se da defesa da família e dos seus valores.

Talvez a pergunta se deva colocar do modo exactamente oposto. É possível defender coerentemente e consequentemente a família e os valores familiares sem se defender com a mesma intensidade e radicalismo a justiça social e a luta contra a pobreza?

É inútil sublinhar a importância de um ambiente familiar seguro, equilibrado e afectuoso desde o primeiro dia de vida do ser humano.

É mais do que consensual entre os especialistas em desenvolvimento da personalidade que uma família com grande disponibilidade em termos de tempo, afecto e atenção é o factor mais importante na criação de felicidade. As crianças felizes irão ser tendencialmente pessoas estáveis, intelectualmente curiosas, com grande capacidade de trabalho.

O pai, a mãe e os filhos numa relação equilibrada, afectuosa e responsável formam um verdadeiro "triângulo virtuoso", uma espécie "fábrica de felicidade". Se são necessárias condições subjectivas na construção desta fábrica, são igualmente necessárias condições objectivas. Se as necessidades físicas elementares de uma família não estiverem satisfeitas é muito mais difícil existir equilíbrio e afectividade.

A justiça social e a luta contra a pobreza terão por isso que ser as bandeiras político-económicas de quem luta pela defesa da família e dos valores familiares. Diz o povo e bem: "casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão".

É por isso que aqueles que defendem a família e os valores familiares devem ter o cuidado de defender com a mesma intensidade a justiça social e a luta contra a pobreza e as desigualdades sociais. Sublinho com maiúsculas: COM A MESMA INTENSIDADE.

Mas, parece-me que dentro de algumas semanas será preciso estar particularmente atento para defender que a luta pela justiça social e contra a pobreza e as desigualdades sociais só é coerente e consequente num quadro cultural e comunicacional de defesa radical da família e dos valores familiares. Lutar pela família e pelos valores familiares com a mesma intensidade com que se luta pela justiça social e contra a pobreza e as desigualdades sociais. De novo: COM A MESMA INTENSIDADE.


Timshel [TIMSHEL]

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Milagre que fez

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, uma outra lhe sucede, mas a terra sempre subsiste. O sol nasce e se põe, e torna ao lugar donde partiu, renascedo daí. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar nem por isso transborda; os rios tonam ao mesmo lugar de onde saem, para tornarem a correr. Todas as coisas são difíceis, mais do que o homem pode explicar por palavras. A vista não se farta de ver, nem o ouvido se sacia de escutar. O que é o que foi? O mesmo que o que há-de ser. O que é o que se faz? O mesmo que o que se há-de fazer. Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: eis aqui está uma coisa nova, porque ela já houve nos tempos passados. Não há memória do que já foi; mas nem os nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles. Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém.
(início do Livro do Eclesiastes)

Dizes tu, que escrevestes estas palavras e outras ainda, magníficas e tristes, que fostes Rei de Israel, talvez o próprio Salomão. Há quem diga de ciência certa que tu, que escreveste o livro, não foste Salomão mas sim alguém, talvez algum sacerdote do Templo, que achou por bem usar o nome dele para assim emprestar às palavras da sua própria sabedoria o prestígio do filho do Ungido. Ou talvez para o justificares a ele e, redourando a sua memória, o fazeres reentrar no plano Divino. Não sei nem me interessa. O que sei e me interessa é que te leio e releio há muitos anos e sempre que o faço me atormenta a ideia que as tuas palavras, sobretudo as primeiras, se aplicam de forma quase profética a um país que veio muito depois de ti, um país que, mesmo quando foi grande, foi sempre um país pequeno. Um país que, um pouco como o teu, já pensou ter um papel no plano de Deus, já pensou ser instrumento da Divina Vontade, já pensou ser o Quinto dos Impérios, com que tu talvez sonhaste. E que hoje se limita a pensar ser ainda objecto da especial benevolência do Deus que veneras por intercessão daquela que foi mãe do Seu Filho encarnado.

Vou-me ficar por aqui, interrompendo este intróito tão melancólico quanto pretensioso, e melhor será dizer ao que venho aqui hoje. Fazer aquilo que alguns leitores me pedem e o mesmo que os meus amigos da Terra fazem e me interpelam: falar um pouco mais disto, do que se fala tanto por aí, de todo esse ruído, de Portugal a propósito da campanha alegre que o assola.
É quando penso em Portugal que eu sinto dolorosamente os espinhos da descrença. E, crente que sou em Deus, lamento os que são ateus, pois a sua sua descrença Nele, como a minha descrença nisto, só pode ser fonte de tristeza e aridez. Eu vou explicar.
Devo dizer que a minha descrença não é uma reacção epidérmica aos apagados dias de hoje nem aos preocupantes dias de amanhã. Não é uma rejeição ética e estética aos bisonhos protagonistas que dizem governar-nos ou pretendem vir a dizê-lo. Não me desanima a insanidade mitómana do Santana e os seus jogos pirotécnicos. Não me desanima a vacuidade asséptica do Sócrates e os seus jogos de sombras. Não me desanima a hipocrisia orgulhosa de si própria de Portas e os seus jogos de triunfo da vontade. Não me desanima a persporrência paternalista e puritana do Louçã e os seus jogos de salão. E não me desanima, antes pelo contrário, a surpreendente postura do camarada Jerónimo, surpreendente pela genuidade e coerência com um ideal, mesmo que caduco. Não, nada disso me desanima. Melhor dizendo, já nem é isso que me desanima. O que me provoca o desânimo e a descrença de que falei há pouco é a convicção, a constatação, de que este mal de que, em maior ou menor grau, todos nos queixamos, é um mal que vem do fundo da nossa identidade nacional e que vem de há muito, muito tempo. E qual é o mal? Hã? Qual é ele? E de quando vem?
Vou até ele sem recorrer a bibliografia extensa e erudita. Basta-me pegar no livro de História e Geografia de Portugal do meu filho de 11 anos!!! Lá se conta que, na altura dos Descobrimentos, Portugal e sobretudo Lisboa se tornaram no mais importante entreposto comercial da Europa. Que aqui chegavam as especiarias, cujo proveitoso comércio era monopólio do Rei em vez de ser gerido por uma burguesia ascendente. Que os lucros obtidos eram sobretudo aplicados na aquisição de bens manufacturados à industriosa Europa do Norte, que enriquecia assim com a nossa riqueza. Ou em obras de aparato real, em faustos da corte. Que nada se investiu na indústria e ciência, com excepção da indústria naval e bélica e na ciência da cartografia. E que a sangria de homens para o Oriente desertificou o interior e quase fez desaparecer a agricultura. Conta-se que quando começou a implodir o nosso império do Oriente, veio então a riqueza do cultivo da cana de acúcar no Brasil, do qual tivemos durante largas décadas o monopólio europeu desse produto em consumo acelerado. Que veio então de novo a prosperidade, sobretudo do Rei monopolista e de alguns concessionários. Que mais uma vez, por não termos indústria e por não termos agricultura, toda essa riqueza voou para os países que nos forneciam de tudo: tecidos, artefactos, armas, ferramentas. Conta-se que, mais tarde, após a perda e recuperação da independência, tendo nós perdido o monopólio do açúcar, surgiu então nova benção divina: o ouro do Brasil. Que mineirámos, escavámos todo esse ouro, que trouxe de novo a prosperidade do Reino e sobretudo do Rei. E que esta enorme riqueza, não a investimos mas voltámos a gastá-la também toda, até à sua exaustão. Os faustos de D.João V, o Convento de Mafra, a mui célebre embaixada a Roma, tudo vaidade das vaidades! E continuámos sem indústria, sem agricultura, com o comércio entregue aos ingleses pelo pré-guterrista tratado de Methuen!
Depois veio um interregno atípico com o Marquês de Pombal, que promovendo a industrialização e a formação duma burguesia que se visse, metendo os Ingleses na ordem, expulsando-os do Douro, conseguiu algo inédito: equilibrar a balança comercial da nação numa altura em que tinham já secado as fontes do ouro do Brasil. Foi sol de pouca dura: morrendo o Rei que ele tinha guardado no bolso, foi logo corrido e as coisas voltaram ao normal ripanço. Ficaram, contudo, algumas sementes que ainda perduram e sem as quais o estaminé já teria fechado. Entretanto acaba aqui a leitura do livro do meu filho. No fim do 2ºperíodo já vos poderei dizer mais qualquer coisa...
Mas saltando para o séc.XIX, ainda com Brasil e mais tarde sem ele, lá nos fomos aguentando como pudemos. Porém, quanto ao funcionamento da coisa, basta ler Eça de Queiroz, apenas “As Farpas”, agora reeditadas, para vermos que isto, o Quinto Império, ontem como hoje, anda igualzinho: não se produz, não se fabrica, não se cultiva, não se cria riqueza e usamos o melhor da nossa inteligência na discussão de como a distribuír...Tivémos entretanto um novo ouro do Brasil, os fundos comunitários, e agora que vai acabar e já o consumimos quase todo, olhamos ansiosos à volta, à procura dum novo milagre. Para o qual já nem a Irmã Lúcia nos poderá valer.
Melhor será ficar por aqui. Não quero ser acusado de derrotismo perigoso. Mesmo assim, estando nós em eleições não é o voto que recomendo: é o ex-voto, que será o meu. Não sei se conhecem mas é uma coisa parecida com isto:



E que daqui a uns anos se possa escrever como ali:

Milagre que Fez NªSª da Conceição, padroeira de Portugal, que istando ele em pirgo de bida, se peguou logo

Valha-nos Deus!


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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Vozes do deserto, tempo de Páscoa

Há momentos em que apetece parar. Ser chamado ao deserto, para ouvir-Te falar ao nosso coração. Andamos embrenhados nos dias e nas noites, passamos apressados pelos outros na cidade, esquecemo-nos de olhar para Aquele que habita em nós.

Um amigo de alguns que por aqui passam (tantas vezes apressados) - esteve um ano no seu deserto. Viveu retirado num convento - dedicado à oração, à contemplação, ao encontro. Com os outros - e com Deus. No regresso dessa sua viagem, fez-se a anunciar que estava «de regresso». E com as suas palavras falou-nos ao coração, como o Senhor que seduziu a sua mulher (Oseias 2, 16).

Sem e-mail, quase sem telefone, recebeu 134 cartas em dez meses. E escreveu muitas mais. Nós não lhe escrevemos tanto assim. Como não escrevemos mais para a morada desse ano, procurámos outras moradas no deserto para lhe dizer do quanto a sua travessia foi também a nossa. Despojado de sandálias, ele voltou constantemente à brisa, «[acolhendo] cada dia com a certeza da Páscoa!»

Espartilhados entre a família, os amigos, a casa, o emprego, os transportes, os blogues, a espuma dos dias acaba por esconder a beleza da sarça ardente, da paixão que é a vida. Vamos lá fora olhar o céu, sentir a brisa suave. E amar.

«Reconheço Deus na brisa suave, ao jeito de Elias, e na sarça ardente, como Moisés. Preciso da experiência da brisa suave para criar disponibilidade para a intensidade do fogo; preciso da paixão do fogo para que o desejo da brisa seja sempre maior e mais profundo.»

Há dias, um outro amigo voltou de uns dias no deserto - físico, geográfico, ali a Sul, atravessado o estreito que marca dois mundos, uma fortaleza. E disse, por sms: «A imersão no deserto aprofunda o ser, alivia de todas as responsabilidades, liberta-nos do acessório.» E, provocando-nos: «Já cheguei». Há encontros na Páscoa assim. Com cartas de antigamente ou mensagens dos dias de hoje. Para celebrar este tempo de purificação.

Apetece parar - e saborear.

Miguel Marujo (
CIBERTÚLIA)

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É melhor calar às vezes

A minha recorrência na dissertação sobre o silêncio pode parecer uma bela obsessão, ou uma boa desculpa quando não tenho assunto… além de paradoxal.
Mas das questões susceptíveis de serem por mim tratadas aqui, em que tenho pensado nestes dias, todas me parecem gastas à partida, quando não supérfluas ou mesquinhas.
Senão vejamos:
Podia falar da polémica homilia de um respeitável padre da capital que foi transmitida pela rádio a um Domingo às oito da manhã, mas não faço ideia quais foram os termos exactos em que o dito reverendo se referiu ao acto eleitoral. Mais: fico com a sensação de que todo o país madrugou (por causa da Missa!!) no tal Domingo, menos eu…
Podia falar das declarações (parece-me que com intenções piedosas) de um político, que achava negativas as consequências fiscais da nova Concordata, fazendo crer que os representantes da Igreja fizeram um mau negócio, mas não consigo sequer perceber o fundamento da questão…
Podia falar da interrupção da campanha eleitoral invocando uma entidade metafísica para mim desconhecida até agora: a da providência-ou-deus-para-os-que-crêem-e-eu-creio que “quis” que a irmã Lúcia morresse (sem chegar aos 100 anos… hélas!) e na consequente declaração de luto nacional (há meses negado a duas mulheres, por sinal também católicas, reconhecidas internacionalmente, que foram – são – referências no testemunho cívico que deram e até exerceram altas funções no funcionamento da nossa democracia), mas seria barulho a acrescentar ao barulho já existente…

Prefiro rezar e pedir sabedoria para saber o que fazer em cada momento e para não cair na tentação de fechar os olhos ao mundo que me rodeia.

Rui Almeida (
POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA)

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segunda-feira, fevereiro 14

 

O Ferreiro

Há algumas semanas publiquei no Povo de Bahá um pequeno resumo biográfico de Mírzá Abu'l-Fadl. Este homem descendia de uma conhecida família de teólogos e estudiosos islâmicos e seguiu essa tradição familiar. A sua carreira profissional como teólogo e professor evoluiu rapidamente; o seu prestígio era enorme.

Abu'l-Fadl já tinha conhecido alguns bahá’ís em Isfahan e em Teerão; envolveu-se em vários debates com eles e durante alguns anos ridicularizou-os. Todos os seus estudos em teologia especulativa e história da religião não lhe permitiam aceitar que pudesse ter aparecido uma nova religião, tal como defendiam os Bahá’ís.


Até ao dia em que teve um encontro com um ferreiro...

Numa tarde de sexta-feira, Mírzá Abu'l-Fadl acompanhado de alguns mullás saiu da cidade para visitar um santuário nas vizinhanças da capital....

Mas aconteceu que um dos burros perdeu uma ferradura, e assim o grupo dirigiu-se ao ferreiro mais próximo pedindo ajuda. O ferreiro, Ustád Husayn-i-Na'-Band, analafabeto reconheceu Abu'l-Fadl e tentou meter conversa enquanto trabalhava: "Mullá, ouvi algumas das sagradas tradições[1] dos santos Imans mas tenho dificuldade em percebê-las. Pode ajudar-me? "

Abu'l-Fadl concordou.

O ferreiro prosseguiu: "Ouvi os mullás citar uma sagrada tradição sobre a misericórdia de Deus que é enviada com a chuva: dizem que cada gota de chuva contém um anjo de Deus que é enviado à terra. Esta tradição é verdade? "

Abu'l-Fadl respondeu sem hesitar: "Sim"

O ferreiro continuou: "Também ouvi que uma coisa sobre a impureza dos cães: há uma tradição sagrada que diz que os anjos não descem sobre casas onde existam cães. Isso é verdade?"

Abu'l-Fadl respondeu afirmativamente.

"Então se é assim", comentou o ferreiro, "a chuva não devia cair numa casa onde haja uma cão. Como é que a chuva quando cai, cai em toda a parte? "

Abu'l-Fadl sentiu-se profundamente envergonhado e furioso; os seus companheiros tiveram de o acalmar. Disseram-lhe: "Esquece este bahá'í provocador". Anos mais tarde, Abu'l-Fadl descreveu aquele episódio como o ruir do seu conhecimento dogmático, consequência de uma aceitação literal e cega de verdades religiosas. Todo esse conhecimento acumulado durante vários anos não resistiu a um teste de senso comum feito por um homem analfabeto.

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NOTAS/LEITURAS
[1] - Segundo Adib Taherzadeh, "a maioria das chamadas tradições do Islão Xiita são construções humanas e consistem em ditos triviais. No entanto, algumas são afirmações autenticas e poderosas dos Santos Imams e estão conforme o espírito do Alcorão" (The Revelation of Bahá'u'lláh, Vol III, pag. 93)

Miracles & Metaphors, Mírzá Abu'l-Fadl

Marco Oliveira (POVO DE BAHÁ)



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quarta-feira, fevereiro 9

 

A profunda alegria da Quaresma

Quarta-feira de Cinzas. "Lembra-te que és pó..." - Aparentemente, tudo é como a mentalidade mais enraizada faz crer...
Mas o Evangelho que ouvimos neste dia diz: “Quando jejuardes perfumai a cabeça” (Mt, 6,17). Pode até parecer que Jesus nos convida a apostarmos num jogo de aparências, mas não. O perfume com que ungirmos as nossas cabeças nesta Quaresma há de ser resultado directo do supérfluo de que nos formos conseguindo libertar.
O jejum não pode ser mero cumprimento de preceitos e regras mais ou menos arbitrários e feitos à medida de sentimentos de culpa ou de supostas necessidades espirituais e muito menos de alucinados favores que se prestam a Deus, nosso Senhor ou a outras entidades mais ou menos obscuras que vamos servindo. O jejum há de ser uma maneira de irmos habituando a nossa vontade à justiça e à rectidão. Há de ser ensinarmo-nos, a nós próprios e uns aos outros a vivermos com aquilo que temos, conforme as necessidades, nossas e dos que nos rodeiam. Há de ser aprendermos a partilhar e a saber aceitar o que os outros têm para connosco partilhar.

Entendo a Quaresma como o tempo que a Igreja propõe para que todos, unidos em princípios básicos e cada um segundo a sua consciência e possibilidade, possamos reconhecer e prepararmo-nos para a realidade mais elevada da nossa fé: a morte e ressurreição de Jesus. A Quaresma não é, de modo nenhum, tempo de tristeza. É, antes, tempo de procurarmos na nossa vida aquilo que, de facto, nos faz felizes e nos permite ultrapassar as dificuldades. Tempo de reconhecermos a nossa fragilidade para descobrirmos de onde vem a nossa força, de recusarmos o que nos atrapalha para encontrarmos o que podemos partilhar com os outros.

Creio que aquele perfume com que Cristo nos aconselha a perfumar a cabeça durante a época do jejum é o desafio para não nos fechemos em nós mesmos e que, da nossa vida se solte uma alegria capaz de contagiar os outros.
Rui Almeida [POESIA NA RUA]

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Qual o modelo sócio-económico ideal que, do meu ponto de vista, poderá decorrer de uma concepção cristã da vida? (3)

Nos meus anteriores posts sobre este assunto, discorri sobre situações ideais. Propunha-me neste último post especificamente dedicado a este tema reflectir sobre quais as opções que se abrem para um cristão na luta por uma sociedade justa nas condições actuais da economia mundial, isto é, quais os objectivos socio-económicos por que vale a pena lutar a nível nacional, isto é, ao nível de um só país (ou região com as mesmas regras), nas condições actuais de uma economia liberalizada em termos mundiais mas compartimentada por diferentes regulamentações sociais aplicáveis a nível nacional.
Todos ouvimos recentemente falar nas empresas têxteis portuguesas que vão deslocalizar para a China em consequência dos encargos sociais (nomeadamente salários particularmente baixos) serem lá muito mais vantajosos para uma produção competitiva. Com o desemprego que isso implica em Portugal.
A curto prazo, tendencialmente, o crescimento económico parece ser afectado pela justiça social. Porque a natureza humana ainda funciona muito com base no estímulo material individual e porque os recursos disponibilizados para os pobres, para os doentes, para os idosos que vivem na miséria provocam menos crescimento económico do que se tivessem outra afectação.
É possível, portanto, que, em determinadas circunstâncias, os encargos sociais e salariais afectem o crescimento económico e provoquem pobreza e desemprego, nomeadamente se todas as restantes variáveis permanecerem imutáveis. Todavia, talvez os efeitos benéficos de uma sociedade equilibrada impliquem um aumento da competitividade no médio prazo.

Vamos contudo de momento imaginar que as únicas variáveis em equação possível eram o crescimento económico em alternativa à justiça social e vamos imaginar igualmente que os efeitos eram apenas o de que o aumento de uma das variáveis resultava na diminuição da outra.
Imaginemos que no país A, em que se privilegiam políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social, o indivíduo mais pobre tem um rendimento anual de 100 euros e o mais rico tem um rendimento anual de 1000000 euros. Imaginemos agora que no país B, em que se privilegiam políticas redistributivas que visam a justiça social em detrimento do crescimento económico, o indivíduo mais pobre tem um rendimento anual de 50 euros e o mais rico tem um rendimento anual de 100 euros.
Nesta situação, como em toda e qualquer outra situação em que o indivíduo mais pobre dos países em que se privilegiam políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social tenha as suas necessidades mais satisfeitas do que o indivíduo mais pobre dos países em que se privilegiam políticas redistributivas que visam a justiça social em detrimento do crescimento económico, é mais justo o sistema do país A (que visa fundamentalmente o crescimento económico) do que o sistema do país B (que visa fundamentalmente a justiça social).
Mas esta parece-me a única situação (neste quadro teórico) em que é admissível para um cristão privilegiar o crescimento económico em detrimento da justiça social.
Comos todos os homens são irmãos e iguais perante Cristo, qualquer política que seja indiferente perante a dignidade de alguns seres humanos (mesmo que muito poucos) é incompatível com o cristianismo. Aceitar que se privilegiem políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social que conduzam a que existam pessoas (nem que seja apenas uma ínfima minoria) que tenham as suas necessidades menos satisfeitas do que se se privilegiassem políticas de justiça social em detrimento do crescimento económico é, parece-me, contrário a aspectos fundamentais da minha Fé.

Felizmente que na realidade as coisas são mais fáceis. Como mostra o exemplo dos países nórdicos, é possível ser-se extremamente competitivo (a Finlândia é o país mais competitivo do mundo) com uma pesada carga fiscal. Parece que, por um lado, o efeito socialmente benéfico da solidariedade aumenta a eficácia e o rendimento das pessoas em sociedade e, por outro, a aposta noutras variáveis (educação, formação, capacidade de inovação, etc.) permite ultrapassar completamente a (na maioria das circunstâncias, falsa) oposição "justiça social/crescimento económico".
Mas, repito: mesmo que assim não fosse, a um cristão exige-se que coloque critérios sócio-económicos morais que sejam o prolongamento da sua Fé à frente de uma pretensamente neutra eficácia económica.

Timshel [TIMSHEL]

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O karma e a Trindade

Nota: este texto, talvez o primeiro de uma série, escrevo-o influenciado por uma leitura ainda em curso: do livro “O Rei, o Sábio e o Bobo” de Shafique Keshavjee, editado pela Temas&Debates. Sob uma estrutura narrativa algo ingénua, o relato duma espécie de “olimpíadas” das religiões, para selecção da religião oficial dum reino imaginário, surge a imaginação dum diálogo inter-religioso tal como ele deveria verdadeiramente ser. Recomenda-se.

A Santíssima Trindade, em que nós católicos acreditamos mas em que tão pouco pensamos, é um conceito de Fé muito mais importante do que pode parecer. Permitam-me começar por uma citação do livro que acima referi:
Confessar Deus como Pai é reconhecer que Deus está para além de nós(...). Confessar Deus como Filho é reconhecer que Deus se aproxima de nós, que se torna visível e audível. Confessar Deus como Espírito é reconhecer que Deus vive dentro de nós, que nos transforma interiormente para que possamos reconhecer o irreconhecível. Deus é assim, simultâneamente, transcendência, presença e imanência; é simultâneamente infinito, próximo e interior.(...) Para nós cristãos, afirmar que Deus é Trindade (ou melhor, Tri-unidade) é assumir que ele não é homogéneo nem estático, visto que há exteriorização e síntese”.
A leitura deste excerto fez-me recordar o meu percurso de reaprendizagem da Fé, ocorrido já em idade adulta, uns bons anos depois de a ter perdido.
Contei já algures que o meu momento de reentrada na Fé ocorreu quando, numa missa (é verdade, nunca deixei de ir à missa...), me puz a ouvir pela enésima vez a parábola do filho pródigo. Foi nessa altura, em que finalmente tive ouvidos para escutar, que me dei conta de algo extrordinário: o nosso Deus, aquele em que acreditamos não é Senhor nem Potestade: é nosso Pai. Criou-nos à Sua imagem e semelhança e quer-nos como um pai quer sempre um filho: quer-nos de volta. Está sempre pronto a receber-nos de novo pois o Amor que nos tem é um amor paternal. Isto hoje parece-me simples mas, na altura, foi um momento epifânico.
Uns anitos mais tarde, após uma primeira leitura integral do Evangelho de S.João, descobri verdadeiramente a natureza divina de Cristo. Até aí, fui pensando que a Sua natureza era um assunto menor comparativamente com a Sua Palavra. Lendo sobre a história da Igreja, sobre as polémicas infindáveis à volta dos mistérios da Sua encarnação, sobre o odium theologicum entre monofisitas e calcedónios, docetas e ebionitas, achava tudo isso estéril e irrelevante. Mas a leitura de João fez-me descobrir todo o sentido, toda a diferença que faz em se acreditar verdadeiramente que Jesus é o Filho de Deus, que encarnou entre nós para morrer às nossas mãos. A divindade de Cristo não a descobri na sua ressurreição mas na sua Paixão. E como ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos que ama (Jo, 15, 13), percebi então a medida incomensurável do Amor de Deus.
Mas só muito mais tarde é que, no edifício da minha fé, a Trindade ficou completa. Só muito mais tarde descobri o sentido e a verdade do Espírito Santo. Durante muitos anos ele foi para mim uma mera figura de estilo. Um avatar invisível da presença de Deus entre nós. Só muito mais tarde, já não me lembro bem como, descobri que o Espírito Santo é a inteligência de Deus em nós. É aquilo que, como diz Keshavjee, “nos transforma interiormente para que possamos reconhecer o irreconhecível”. E também conhecer o incognoscível, aceitar o inaceitável e, por algumas vezes, muito raras, dizer o indizível.
O Espírito Santo será para a esmagadora maioria dos crentes, mesmo aqueles que nele não creem, a única forma cognoscível de Deus se nos manifestar. Nós, aqueles a quem Deus não interpela directamentamente, podemos contudo ouvi-Lo por vezes no nosso coração, a consolar-nos, a avisar-nos, a desafiar-nos. Eu disse por vezes e é mesmo assim, pois a maior parte do tempo é pelo seu silêncio em nós que o Espírito Santo mais se faz sentir.
E, tendo já explicado como cheguei à Trindade, chego agora ao karma, que não está ali no título por mera semelhança fonética com o Carmo. O karma, a causalidade universal dos hindus e dos budistas, tal como a samsara, o desenrolar das existências, são conceitos estranhos à teologia cristã, não tanto por estarem ausentes da Palavra de Cristo, mas por serem tão estranhos ao inconformista ambiente filosófico em que o cristianismo surgiu e se desenvolveu. Talvez por isso o problema da Teodicéia, do Mal nas nossas Vidas, afasta tantos cristãos da Fé e de Deus. Mas não vou aqui falar nisso porque me falta manifestamente a bagagem intelectual para tal questão filosófica. E também porque li algures que nos foi vedado o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal.
Não, o que eu queria dizer é que acredito sinceramente que Deus nosso Pai, não pode, não quer ou não cuida de impedir que o Mal estenda a sua mão e nos toque naquilo que possuímos ou mesmo nos nossos ossos e carne (cf. Livro de Job). E nesse domínio, como noutros, somos todos iguais perante Deus. Mas acredito que Deus nos quer ajudar quando o infortúnio entra nas nossas vidas. Fazendo-nos mais fortes, mais resistentes à adversidade, mais humildes perante essa mesma adversidade. Procura criar em nós mesmos, na nossa identidade interior, pontos onde nos podemos agarrar para resistir à corrente dos acontecimentos, para não nos deixarmos ir. E, esse é o meu ponto, acredito profundamente, que é através do Espírito Santo que Ele nos pode ajudar assim. Escutemo-Lo pois.

Termino citando o que escreveu Edith Stein, cidadã alemã e judia, nascida em 1891, baptizada em 1922, freira carmelita em 1935, doutorada em Filosofia, morta nas câmaras de gás de Auschwitz em 1942, Santa Teresa Benedita da Cruz desde 1998. Costumava dizer: "só entende a transcendência da Cruz quem a transporta consigo". Escutemo-la também:
Espírito Santo, ó doce luz,
que me envolves
e iluminas as trevas do meu coração,
Tu guias-me como a mão de uma mãe.
Tu és o círculo que me circunda
e me encerra em si.
Separada de Ti eu cairia no abismo do Nada
do qual me elevaste até ao Ser.
Estás mais perto de mim
do que eu de mim mesma.
Mas ainda assim és inacessível
e incompreensível.
Nenhum nome te pode conter,
Espírito Santo, Amor Eterno.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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As morais não são todas iguais

«Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu» (Evangelho segundo S. Mateus 5, 13-16).

A campanha eleitoral em curso tem o condão de unir todos os portugueses numa só prece: que acabe depressa. Uma campanha eleitoral não é um lugar de reflexão, de apresentação de propostas, de confronto de ideias. É antes um tempo de folclore, de cenários, de gritarias e de soundbytes. Não é um espaço de democracia, mas da propaganda, do marketing. Quem faz uma boa campanha, apenas prova isso mesmo: que sabe fazer campanhas. Nada mais. Assim como quem ganha eleições, apenas prova que sabe ganhar eleições. O melhor vem depois.
A crise da democracia, dos valores, da participação cívica também passa por esta época tonta, em que tudo soa a falso: os comícios, as frases arrebatadas, as bandeirinhas dos partidos, a deprimente alegria dos jovens - poucas coisa são mais tristes que ver um jovem a gritar pela sigla de um partido, como se de um clube de futebol se tratasse -, o contagiante cansaço dos almoços, dos beijos, das poses.
Bem ou mal, os partidos são objecto das críticas de quem não consegue ver na política um serviço nobre à comunidade. Por desilusão ou comodismo, o atávico imobilismo português vira costas aos partidos, como se fossem «todos iguais» e sem descobrir o que de bom há no empenhamento na construção dos bem colectivo.
Agora, a moda é criticar o tom moralista das propostas dos partidos. O combate à evasão fiscal é um moralismo; a denúncia dos vários peculatozinhos de quem está no poder é um moralismo; a tomada de posições sobre o aborto é um moralismo; a luta pela justiça social é um moralismo; falar-se na pobreza e nos pobres é um moralismo. Como se o moralismo, isto é a presença de uma moral ou uma ética no discurso político, fosse um mal. Não é. Pelo contrário: é um resquício de integridade de quem vê a política como um serviço em prol do bem comum.
Tentar expurgar os "moralismos" de uma campanha eleitoral - e da política em geral - não é inocente. Corresponde a uma visão da política que se pretende neutra, pragmática e moderna, porque chegou já ao fim da História. Mas, sob a capa da eficiência e da moderação, está também presente uma ideologia. E uma moral. Ambas perigosas.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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Meter a mão na massa
[ou escritos em fim de noite em defesa do voto na esquerda]

Quem me segue nesta casa, já percebeu que não escondo alguma ruptura com questões mais práticas do exercício de sectores ditos conservadores da Igreja. Também na escolha política em vésperas de eleições o faço. O discurso da Igreja não pode ser só associado a homilias como a do padre de São João de Brito, compreendidas à cautela pelo Patriarcado. Mas também não pode remeter-se a uma lógica de fechamento na sacristia. Bem sei que o texto do José, aqui na semana passada, não vai por aí - mas a leitura que ali se retira também pode ser perigosa. Ele sabe-o e por isso, já no fim, acena com caminhos de esperança, contra o derrotismo do seu discurso.

Ao católico, cabe participar na política? Cabe. Como um dever quase sacramental. Se o templo foi tomado pelos medíocres, devemos procurar a expulsão dos vendilhões - ou pelo menos da sua mediocridade, com critérios de exigência. É mais cómodo e fácil gritar pobre país, o nosso e mantermos o apoio ao nosso clube, só porque é o nosso clube. Mas, para lá desta quase fatalidade de adepto, vale a pena ensaiar rupturas.

E que rupturas são essas?

O apelo do senhor padre lisboeta é um apelo habitual, quase farisaico - o de quem olha para a maçã e prefere sempre o lado mais lustroso, porque tem medo de trincar a parte mais pisada. Pede-se que não se vote naqueles que atacam a vida. Por uma vez, gostava de ouvir alguém gritar o mesmo - mas contra o ataque à vida que é a pobreza e a miséria. Por uma vez, gostava que a moral sexual ou questões que remetem para a consciência individual e familiar dos cristãos (corrijo: de todos os portugueses), fossem conscientemente debatidas no interior da Igreja, sem a demagogia dos assassinos (por oposição ao absurdo radical da barriga que é minha). Lamento: mas a eutanásia ou o aborto, sendo questões importantes, não o são as mais fundamentais para os portugueses.

Não são as que interessam mais ao povo português - numa altura em que o desemprego bate à porta de milhares; em que o imigrante é erradamente visto como alguém que está a mais ou apenas diferente; em que os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres; em que a produtividade só é medida pelo lado do trabalhador ou que a necessidade de cortar despesas signifique despedir; em que a Saúde está entregue a uma lógica cada vez mais de clientelismo e não de assistência; em que na Educação se valorizam "rankings" que sublinham a alegada excelência de escolas privadas, escondendo o trabalho social que muitas não fazem; em que a Justiça é lenta e perniciosa para os que estão sobretudo à margem; em que o Fisco penaliza quem trabalha por conta de outrém, facilita a vida à banca e às grandes empresas e continua a permitir a evasão dos mais ricos; em que os impostos vão penalizando quem não já paga e não aqueles que deveriam pagar; em que a Segurança Social, dita na falência, sem nunca ter atingido patamares de Estado-Providência, continua a ser atacada, para cobrir défices artificiais e auxiliar seguradoras; em que as empresas de serviços públicos laboram em pretensos mercados abertos, mas mantendo situações de inegável monopólio e comprovável sobranceria face aos utentes/clientes; em que...

A lista é longa, porque é longa a lista de problemas. Mas que fazer? Remetermo-nos à sacristia e sair a horas certas para pequenas acções de caridade (esquecendo o imenso alcance da palavra na sua origem)? Ou lutarmos para que estas coisas mudem? Para que estes atentados à vida acabem?

Claro que temos de seguir este caminho. E aqui o caminho, não tem de ser apontar o dedo aos que insistem no aborto, ou noutras questões que alguns dizem ser da vida. Não: de uma vez por todas, temos de apontar o dedo daqueles que se proclamam cristãos, mas no dia-a-dia atacam os seus semelhantes, criando dificuldades aos ciganos, que roubam com o rendimento mínimo. Mais rendimentos mínimos houvesse! Ou que seguem uma política de privatizar porque o Estado é mau gestor. Acaso não foram eles os gestores da coisa pública? Os vendilhões do templo dizem-nos que é útil a sua competência, mas confiaram a Nossa Senhora o que não fizeram no ambiente. Os auto-proclamados detentores da verdade empurram-nos para o colo de questões menores, chamadas de civilização, apenas para ganhar no jogo de malícia ao balcão da cervejaria de que aquele afinal é maricas. Zelam por virtudes que não praticam, rezam quando ficam na fotografia. Tudo coisas pequenas, mas que não têm problemas de trazer à liça para laçar mais votos. E para encorajar homilias como a do senhor padre de São João de Brito.

Demagogia feita à maneira, apontam-me o dedo. Mas, neste tempo, há que romper discursos caridosos ou politicamente correctos ou maioritariamente consensuais. Neste tempo, a Igreja devia dizer: é preciso fazer uma verdadeira opção preferencial pelos pobres. A direita no poder desde 1979, com um interregno de seis anos de governos de Guterres, e com a agravante do descalabro dos dois últimos anos, não tem condições de se reivindicar da doutrina social da Igreja. Nem muito menos de proclamar a defesa da vida, da vida dos mais pobres.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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segunda-feira, fevereiro 7

 

Tolerância de Ponto

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quarta-feira, fevereiro 2

 

A hipótese Macmillan

Num romance de Michel Houellebecq, "As Partículas Elementares", nome que deu origem a um blogue do meu amigo e colega deste blogue, CC (foi aliás graças a ele que cheguei à leitura deste livro), existe um capítulo particularmente interessante que tem o nome do título deste post.
O excerto que se segue, desse livro, surge após a descrição de algumas cenas de torturas indescritíveis, que me inibo de transcrever aqui, praticadas por um personagem deste romance, David di Meola. O criminoso é então objecto de um processo criminal. A personagem deste romance, o procurador do estado da Califórnia, a quem incube a investigação deste caso chama-se Daniel Macmillan e, no contexto do romance, escreveu um livro sobre esta investigação.
"Daniel Macmillan chegava então à sua argumentação. O que ficava claro no seu livro é que os pretensos satanistas não acreditam nem em Deus nem no Diabo, nem em quaisquer poderes transcendentes. De resto, a blasfémia só aparece nas suas cerimónias como um condimento erótico menor e que perde rapidamente o gosto. Eles são, exactamente como o velho mestre, o marquês de Sade, materialistas absolutos, devassos à procura de sensações nervosas cada vez mais violentas. Segundo Daniel Macmillan, a destruição progressiva dos valores morais ao longo dos anos 60, 70, 80 e 90, era um processo lógico e imparável. Depois de terem esgotado os prazeres sexuais, era normal que os indivíduos, libertados das restrições morais comuns, se virassem para os prazeres mais vastos da crueldade; dois séculos antes, Sade tinha feito um percurso análogo. Neste sentido, os serial killers dos anos 90 eram os filhos naturais dos hippies dos anos 60; e os seus antepassados comuns eram os adeptos do accionismo vienense dos anos 50. A coberto das performances artísticas, nomes do accionismo vienense como Nitsch, Muehl ou Schwarzkogler, tinham efectuado massacres de animais em público: diante de um público de cretinos, tinham arrancado e seccionado órgãos e vísceras, mergulhado as mãos na carne e no sangue, levando o sofrimento de animais inocentes a limites extremos - enquanto um colega fotografava ou filmava a carnificina para expôr os documentos assim obtidos numa galeria de arte. Esta vontade dionisíaca de libertar a bestialidade e o mal, iniciada pelo accionismo vienense, iríamos encontrá-la ao longo das décadas posteriores. Segundo Daniel Macmillan, a viragem que a civilização ocidental conheceu depois de 1945 não era mais do que o regresso ao culto brutal da força, a recusa das regras seculares construídas lentamente em nome da moral e do direito. Accionismo vienense, beatnicks, hippies e assassinos em série encontrar-se-iam unidos pelo facto de serem todos libertários integrais, defendendo a afirmação integral dos direitos do indivíduo face a todas as normas sociais, a todas as hipocrisias que constituiriam, segundo eles, a moral, a religião, o sentimento, a justiça e a piedade. Neste sentido, Charles Manson não tinha sido uma adulteração monstruosa da experiência hippie, mas a sua concretização lógica; e David di Meola só tinha prolongado e posto em prática os valores da libertação individual."

PS.: Num momento em que certas forças políticas que se definem como sendo de direita se reclamam dos "valores morais" (e vão acentuar essa tónica até às eleições) como se detivessem a sua propriedade exclusiva, gostaria de sublinhar que os valores morais não são património de ninguém. E se os valores morais deveriam estar mais associados a certas correntes ideológicas que a outras é certamente à esquerda que eles deveriam estar mais associados. Com efeito, do mandamento do amor e do dogma cristão de que todos os homens são irmãos decorre necessariamente que o combate às desigualdades sociais é um dos valores morais supremos. Ora se existe alguém amoral e sem valores a este respeito é precisamente a direita pois a sua principal característica ideológica é a indiferença (pelo menos) relativamente às desigualdades sociais. Pena é que a esquerda não compreenda que a defesa dos valores morais em toda a sua plenitude e coerência é, precisamente, a sua mais importante bandeira.

Timshel [TIMSHEL]

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O som e a fúria

O grau zero da política. Eis aí uma daquelas frases sonoras que a propósito de tudo e de nada enche a boca de políticos, jornalistas, comentadores, intelectuais, bloguistas, até taxistas (juro que já ouvi um dizer isto!). É uma frase que assenta bem ao nosso gosto meridional pela bela frase, bombástica, enfática, e como tal se tornou num lugar-comum, num chavão puído já pelo uso de duas ou três gerações de portugueses palavrosos. E embora o seu uso tenha hoje aplicação universal, desde as distritais do Porto aos programas eleitorais dos partidos, passando pela impermeabilização de terrenos, continua esta frase a ser usada como se fosse uma terrível arma de arremesso. E no entanto, a mim pobre português perplexo, direitista, liberal e católico, esta frase infunde-me uma doce sensação de paz, de tranquilidade, de segurança até. Assim um bocado como aqueles claims de produtos “sem CFC´s”, “toluene free”, “sem ingredientes geneticamente modificados”, “sem corantes nem conservantes”.
Quando ouço esta frase, o meu inconsciente ilude-me logo com a impressão de se estar a falar de algo, de um sítio ou de um tempo, onde se vive, se trabalha, se reza, se ama, se avança sem se falar de partidos ou ideologias. Claro que isto me acontece acontece por andar completamente farto de política. E não é de agora, é de há muito.
Ando farto de política exactamente pela mesma razão de que ando também farto de futebol. Dantes não era assim, naqueles saudosos tempos em que só haviam a Bola e o Record, que saíam duas ou três vezes por semana e só falavam dos jogos que iam haver e dos jogos que tinham havido. Eram tempos em que a malta gostava do futebol pelo futebol mas ele não tinha a importância que tem hoje. Depois mudou tudo: multiplicaram-se os jornais, passaram todos a diários, e à falta de jogos suficientes para encher as páginas passaram a falar de coisas minúsculas que se tornaram muito mais importantes: os estados de alma dos jogadores e treinadores, as intrigas palacianas dentro dos clubes, as guerras florais dos dirigentes, as especulações cabalísticas em torno dum qualquer “sistema”, etc. Extraordinariamente, passaram esses jornais desportivos a ter extensos artigos de fundo e colunistas inflamados. E desde então, o futebol que era já o ópio do povo tornou-se num poderoso cocktail aluncinogénico, narcotizante e tremendamente viciante. O futebol tornou-se numa poderosa e terrível droga dura. Metade dos meus amigos, que dantes compravam apenas o jornal desportivo da sua côr clubística, agora consomem pelo menos três por dia, para comparar! E marinham paredes acima, comparando versões, insultando escribas, aprofundando as suas devoções mas sobretudo os seus ódios. Já não são capazes de ter uma opinião definitiva sobre um jogo que acabaram de ver sem terem lido os ditos jornais. E agora o acesso ao produto é-lhes ainda mais fácil e imediato: saltam logo para os sites e urram furiosos! E como todos as drogas este moderno vício isola a pessoa: já ninguém vai aos estádios, a estes enormes e reluzentes estádios, a não ser quando o inimigo nos visita, para aí o execrar com a força e desespero do adicto. E mais ainda do que o tal inimigo, a malta vai lá execrar também o nosso jogador ou jogadores que são ou estão uns toscos sem préstimo. Ele é o Paulo Almeida, o Hugo Leal, o Beto. Se fosse ainda possível, a turba lapidava aqueles gajos que andam lá a gastar o nosso rico dinheirinho (!) sem jogarem a ponta dum corno.
Ainda por cima, este novo e generalizado vício não dá ressaca pois a dose é continuamente servida, na rádio e na TV, na “Bancada Central”, esse programa radiofónico sem paralelo no mundo ocidental! Tal como no Admirável Mundo Novo de Huxley se servia prodigamente o soma, neste país desgraçado serve-se aos seus filhos o futebol em todas as suas variantes e aplicações: o jogo, os casos, o sistema, os árbitros e os apitos, as claques e respectivas esposas, tudo! E da mesma forma que o drogado também odeia a droga, nós também odiamos o futebol, que está pôdre, que não tem beleza nem emoção, que é tudo uma grandessíssima aldrabice, etc. Mas continuamos a consumi-lo avidamente...
Quem pense que, como de costume, já derivei para longe daquilo de que vim falar, pode ficar descansado que vou agora para lá.
É que acontece que neste país também há gente séria e profunda que sabe que isto não vai lá só com futebóis. Há milhões e milhões de portugueses que sentem que há aqui um país que tem de avançar para lhes dar de comer. Um país que tem de ter um rumo, uma orientação, uma política. São portugueses que tem uma opinião, uma achega para dar, sobre a salvação da coisa pública. São portugueses, montões deles, que se pelam pela discussão política. E o meu ponto, contestável certamente, é que quase muita desta boa gente se relaciona com a política exactamente da mesma forma como se relaciona com o futebol: discutem os jogadores e os seus estados de alma, as intrigas dentro dos clubes, perdão, partidos, as guerras florais dos líderes, as especulações cabalísticas em torno de múltiplos sistemas e conspirações, os casos também, o Árbitro principal e os árbitros auxiliares, as claques (mais conhecidas pelas jotas). A grande maioria escolheu partido ou ideologia para toda a vida mas há uma franja que anda sempre pelos que ganham. E naturalmente, perdeu-se também de vista o jogo, ou melhor, o que está em jogo nisto tudo. E toda esta gente boa viciou-se também nisto: nos jornais diários e semanários, nos seus incontáveis comentadores, colunistas e calunianalistas, nos fóruns da TSF e , claro está, nos blogues!
E isto não fica por aí: da mesma forma como já não se vai aos estádios, também se deixou de ir aos comícios, a não ser que nos sirvam jantar! Mas o facto que aqui interessa é que tá tudo agarrado. Todos tem que ter senão um partido pelo menos uma ideologia e tem que a defender publicamente. Temos todos que ter causas e também efeitos. E, tal como na droga há tribos e tipos, também na política estamos todos sujeitos a classificação. Por quem? Por todos os restantes! E se me classificam também me descrevem ao detalhe. É como no futebol: se sou do Benfica (e sou) sou parvo ou bom pai de família (também sou). Se sou do Porto sou um bairrista ressabiado e prócere do sistema. Se sou do Sporting ...Assim se sou de esquerda sou um despesista e um abortista, se sou de direita sou num monstro neo-liberal e um flagelo dos necessitados. Se sou do centro sou um amorfo indeciso, um cata-vento, um carreirista...
E tal como no futebol adoramos dizer mal dos jogadores, que andam a também gastar do nosso dinheirinho e não fazem nada por nós. Que não nos governam e apenas se governam. Tal como no futebol, também odiamos a política. Que já não se destina a salvar o país, que é tudo a mesma coisa e que andam todos combinados. Mas apesar de dizermos e acharmos isto tudo, continuamos a discutir a política como discutimos o futebol: com uma paixão que mata a objectividade, com um sectarismo que mata a discussão e, isso é o que mais me surpreende, como se servisse para alguma coisa!
É que tenho para mim que a forma como nós portugueses nos relacionamos com a política é talvez a principal razão por ela ser aquilo que é em Portugal. E o que é ela é? Shakespeare teve uma vez uma boa frase, a propósito da vida em geral, mas que penso definir bem a política neste reguengo da Terra: life is a tale, told by an idiot, full of sound an fury, signifying nothing.
É uma frase pesada mas que, aplicada à política nacional, anda perto da realidade. A política portuguesa é um espectáculo de luz e som, é uma encenação ruidosa onde tentamos sem sucesso descortinar um qualquer sentido: de Estado, de direcção para algum lado. Às vezes tenho o pressentimento que existe um grupo de 10 ou 15 gajos, provenientes de todos os grandes partidos, que organizam escondidamente toda esta novela política com que nos distraem e cretinizam. Subtilmente conseguem assim dar-nos a sensação de que a nossa opinião conta, pretendem mesmo que não nos alheemos da política, que vibremos com as nossas convicções ideológicas. E distraem-nos assim do essencial: a criação de uma ideia, de um projecto comum para Portugal.
Por circunstâncias profissionais, conheço bem quatro tipos parecidos comigo e que vivem em países de tamanho semelhante ao nosso: um irlandês, um grego, um holandês e um sueco. Fazem eles um trabalho parecido com o meu nos seus respectivos países e, nos encontros regulares que temos, costumamos falar um bocado dos nossos países, da sua situação económica, social e política. Há medida que os anos vão passando sinto-me cada vez mais desfazado. E há uma coisa espantosa de que queria aqui falar. Em todos esses países há esquerda e direita, que alternam no poder e às vezes se coligam. Há debates ideológicos e tensões sociais. Mas, com excepção das extremas, há um largo consenso entre os partidos de esquerda e de direita quanto ao rumo a seguir, quanto ao projecto global desses países. Os governos sobem e caem e são substituídos mas há um fio condutor, uma continuidade pela qual esses países seguem avançando. Mesmo olhando para aqui ao lado, para Espanha, onde o debate político é mais inflamado e as diferenças ideológicas mais marcadas do que nos outros quatro que referi, o facto é que nos últimos 20 anos governos de esquerda sucedem-se a governos de direita mas o essencial mantém-se: que arriba España!
Infelizmente, neste pobre país que é o nosso não se passa nada disso. Aqui a discussão é histérica e estéril. Aqui os processos de intenção, o espírito tribal, a desonestidade intelectual, a elocubração adversativa, as insinuações torpes, inquinam o debate político e descentram-no do essencial. A dialética doentia e que nos é atávica faz com que a discussão seja inútil pois aqui convencer é vencer e ser convencido equivale a ser vencido. Começamos a falar de alhos e acabamos em bugalhos. Falamos por falar, por puro diletantismo. Falamos para nos ouvirmos e sermos ouvidos. Falamos, falamos e não dizemos nada que nos valha. E o mal é geral, varre a direita e a esquerda. Nos dois campos, a vozearia destina-se a ocupar o espaço da reflexão e por isso as ideias definham em chavões deslavados. A esquerda persiste a falar na distribuição da riqueza e esquece-se que primeiro há que produzi-la. A direita fala em produzir riqueza e esquece-se que ela tem de ser distribuída. Enfim, uma treta.
É por isso que, quando ouço os meus amigos aqui da Terra a reflectir se um cristão pode ou não ser de direita, se é possível ser-se católico e votar à esquerda, mesmo em qual será o partido para votar mais de acordo com as nossas convicções de fé, quando os ouço a falar assim fico a pensar tristemente com os meus botões. Penso que, sim senhor, são questões interessantes. Mas não aqui, seguramente. Só para lá de Badajoz...Vou já terminar e com um apelo: no próximo dia 20 votem. Em quem? Em quem vos apetecer! Talvez em ninguém? Anything goes...Mas não me fica bem esta conclusão nihilista. Devo ser mais construtivo. Sendo assim, diria que sendo aqui as coisas como são, não devemos contudo baixar os braços. Antes pelo contrário. Já que os partidos e os governos não fazem nada por isto, fica assim acrescida a nossa responsabilidade individual de cidadãos, de seres humanos, de cristãos. Olhemos à nossa volta e descubramos aquilo que podemos fazer para tornar a vida dos que nos rodeiam um pouco melhor do que é. Em casa, no trabalho, na rua. Recuperemos a ideia cristã da caridade, da solidariedade, do amor pelo próximo e ponhamo-la nós em prática. Talvez transformemos um pouco tudo isto, transforma-nos-emos certamente nós próprios.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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«Leiam o Evangelho a rir e vão ver!»

A frase que dá título a este texto é de Frei Bento Domingues, numa pequena conferência na semana passada, em que partiu do tema "Jesus Cristo, da ficção e da realidade". O desafio vinha a propósito da solenidade com que, em geral, se lê a Bíblia.
Talvez tenha a ver com a forma como me transmitiram as realidades da fé, mas o facto é que não é novidade nenhuma para mim, poder ler os textos bíblicos fora desse contexto solene, solenizado e tantas vezes frio que se encontra pelas nossas comunidades e pelo nosso imaginário. É que, ainda para citar o conferencista, "os apóstolos não escreveram os Evangelhos para fazer um monumento a Jesus", mas num processo de transmissão daquilo que viram e ouviram, a partir de algo em que acreditavam realmente, pegando aqui e ali nas referências em que aqueles a quem se destinavam os escritos se reviam para assim poderem compreender melhor.

Os autores da Sagrada Escritura criaram formas de literatura conforme o que viram e ouviram. Moldaram uma realidade que lhes brotava do íntimo de forma a fazeram-na chegar aos outros. Frei Bento referia a sua imensa simpatia com os Salmos porque estes, apesar de conterem tremendas barbaridades, transmitem a disposição da pessoa que os criou, no momento em que os criou – são textos que revelam a sua profunda humanidade.
Ora, a questão que me coloco é a de saber como será possível transmitir, hoje, de modo credível, aquilo em que acreditamos sem trair a nossa própria humanidade e sem perder o testemunho que nos foi deixado ao longo de vinte séculos.
Será possível, nos dias que correm, criar uma literatura que possa traduzir uma realidade tão impalpável e tão "misteriosa" como é a Boa Nova de Jesus Cristo? É possível continuar a escrever o Evangelho a partir daquilo que a nossa Fé vê e ouve no mundo em que nos movemos? Creio que sim. E é mais uma vez o ilustre dominicano que dá pistas: Bernanos, Mauriac, Chesterton ou Graham Greene deixaram-nos obras que ajudam a penetrar no mistério cristão.
Mas não é só a literatura que permite "dizer o indizível", também as outras artes são um meio fértil de aprofundar a nossa capacidade de reconhecer o essencial e podermos colocar na linguagem possível aquilo que nenhuma linguagem suporta no seu todo.
E não adianta dispararmos contra tudo o que nos parece irregular ou aleivosia – o "Evangelho" de Saramago ou as pinturas de Paula Rego podem-nos mostrar muito mais da nossa Fé do que o que poderemos pensar.

Rui Almeida [RUIALME]

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Aqui na Terra



Desde Platão (senão antes) que pensamos a sedutora hipótese de uma alma separada do corpo. No cristianismo, Santo Agostinho corporizou esta ideia (lá estou eu a socorrer-me da imagem) e ela perdura no espaço e no tempo, sagrado e profano. O mundo do "espírito" tomou o lugar da antiga "alma", agora com roupagens contemporâneas (a arte, a literatura, a criação, o intelecto, a sensibilidade) e continua a opôr-se às partículas visíveis do mundo concreto.
No interior do cristianismo, esta visão em estéreo (de estereotipada) da realidade impôs-se. Ganhou consistência por estes lados, fruto de apressadas leituras (a Cidade de Deus e dos homens), ganhando mesmo espaço por sua má influência (os processos de Giordanno Bruno e Galileo), mas também por convenientes esquecimentos (um Deus que se fez carne e assumiu as dores, fraquezas e prazeres humanos).
Mas foi parra que deu muitas uvas – e ainda dá. Hoje em dia, olha-se para a "mente" onde se sabia a "alma" e mais tarde se revelou o "espírito", tentando descobrir os fenómenos naturalísticos (biológicos, físicos, químicos, etc.) da sua composição e do seu funcionamento. Partimos do princípio que a ciência tem de explicar todo o universo e que, portanto, a alma, perdão, a "mente", também pode ser dissecada, porque não há nada mais para lá de onde a nossa vista alcança.
Ora, só quem nunca teve uma dor de dentes ou de ouvidos, pode achar que, à maneira da cristologia passada, o homem, tal como tem uma alma, tem um corpo. Ou, do lado da religião positivista, que é possível reduzir os fenómenos da mente a partículas físicas. Quem já teve dor de dentes sabe que nós não temos um corpo. Nós somos um corpo. Quando nos dói um dente, é uma dor de alma.
Podem dizer-nos que o corpo é corruptível e a alma não (não tem dentes com infecções), que somos incapazes de pensar um corpo ressuscitado (glorificado, como diz S. Paulo) sem dentes. O médico ateu pode bem explicar-nos que a dor é um processo mental, neurológico, uma informação que o cérebro transmite e que pode ser observável através de maquinaria apropriada. Está bem.
No livro Sentimento de Si, António Damásio conclui que a identidade do eu resulta da identidade do corpo, do mesmo modo que a própria consciência resulta da necessidade de regulação biológica do corpo. A Damásio já lhe doeram os dentes.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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