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segunda-feira, janeiro 3

 

À volta dum pão com manteiga

Aqui neste mundo, a morte de Bôntzie, o silencioso, não causou a menor impressão. Perguntem a alguém. Com insistência: Quem foi Bôntzie, o silencioso, como viveu e do que morreu?! Perguntem se foi de colapso cardíaco, se lhe faltaram as forças ou se partiu a espinha sob o peso de pesada carga?… Quem sabe? Talvez tivesse até morrido de fome!
Um cavalo da tranvia, se caísse, despertaria por certo maior interesse. Os jornais escreveriam a tal respeito, centenas de pessoas acorreriam, de todas as esquinas, para contemplar a carcaça do animal e até examinar o lugar do acidente…
Mas o cavalo da tranvia também não gozaria dessa honra, se existissem tantos cavalos quanto seres humanos: mil milhões!
Bôntzie viveu em silêncio e em silêncio morreu. Passou como uma sombra através do nosso mundo!
Na circuncisão ninguém bebeu vinho, as taças não retiniram. Na bar-mitzvá, Bôntzie não proferiu nenhum discurso de celebração… Viveu como um minúsculo grão de areia na praia, entre milhões de grãos iguais. E quando o vento o levantou, atirando-o para o outro lado do mar, ninguém deu por isso!
Em vida, a lama húmida não conservava o menor vestígio das suas pegadas. Depois de morto, o vento derrubou a pequena tabuleta do seu túmulo. A mulher do coveiro, tendo achado a tabuleta longe da sepultura, utilizou-se dela para cozinhar uma panela de batatas… Três dias após a morte de Bôntzie, seria inútil insistir com o coveiro, perguntando-lhe onde o enterrara!
Se Bôntzie tivesse ao menos uma lápide sobre o túmulo, talvez cem anos depois um antiquário a descobrisse. E o nome de “Bôntzie, o silencioso” ressoaria de novo no nosso espaço.
Uma sombra! O seu retrato não se fixou no cérebro de ninguém, em nenhum coração. Dele, não restou a mais pequena lembrança!
“Sem eira nem beira”, viveu solitário, e solitário morreu!
Não fora o tumulto humano, talvez alguém ouvisse a espinha de Bôntzie a estalar sob a carga. Se o mundo dispusesse de mais tempo, talvez alguém notasse, algum dia, que Bôntzie também era um ser humano e tinha, em vida, um par de olhos apagados e as faces horrivelmente encovadas. E notaria também que, mesmo sem peso sobre os ombros, a cabeça de Bôntzie se curvava para a terra, como se procurasse, em vida, a própria sepultura! Se houvesse tão poucos seres humanos como cavalos na tranvia, talvez alguém perguntasse um dia: onde foi parar Bôntzie?
Quando levaram Bôntzie para o hospital, o seu cantinho no albergue não permaneceu vazio. Aguardavam-no dez criaturas iguais a ele, que sortearam entre si a vaga de Bôntzie. Quando o transportaram do leito do hospital para a morgue, havia vinte doentes à espera do lugar. Quando o carregaram da morgue eram vinte os mortos trazidos de um prédio que desabara. Quem sabe quanto tempo jazerá tranquilo na sua sepultura? Quem sabe quantos aguardam já esse pedaço de chão?…
Bôntzie nasceu em silêncio, viveu em silêncio, em silêncio morreu, e em maior silêncio ainda foi enterrado.

Mas não foi assim no outro mundo! Lá, a morte de Bôntzie causou forte impressão!
O grande schofar dos tempos do Messias ecoou por todos os sete céus: Morreu Bôntzie, o silencioso! Voejaram os maiores anjos, de mais amplas asas. E um transmitia ao outro: Bôntzie foi convocado perante a corte de justiça celeste. No paraíso ouve alvoroço, tumulto e algazarra: “Bôntzie, o silencioso! Imaginem só! Bôntzie, o silencioso!
Ternos anjinhos, de olhinhos brilhantes, asinhas de filigranas de ouro e chinelinhos de prata, voaram alegremente ao seu encontro! O ruflar das asas, o bater dos chinelinhos, o riso das alegres boquinhas, tenras e rosadas, inundaram todos os céus e chegaram ao Trono de Glória. Então o próprio Deus ficou a saber que Bôntzie, o silencioso, se aproximava!
Abraão, nosso pai, colocou-se junto à porta do céu, com a mão direita espalmada para um cordial scholem aleihem, e com um doce sorriso fulgurando e resplendendo no velho semblante!
O que rodopiava tanto no céu? Eram dois anjos que traziam para o paraíso uma poltrona do mais fino couro, destinada a Bôntzie!
O que cintilava com tamanho fulgor? Era uma coroa de ouro, cravejada de caríssimas pedras preciosas, que passava! Tudo para Bôntzie!
- Antes da sentença da corte de justiça celeste? - perguntaram os justos admirados, e não sem uma ponta de inveja.
- Oh! - responderam os anjos. - Será um julgamento de pura formalidade! Contra Bôntzie, o silencioso, nem sequer o promotor terá o que dizer! Será um processo de cinco minutos, no máximo! Quem pensam que seja Bôntzie, o silencioso?

Os anjinhos rodearam Bôntzie no ar, entoando-lhe hinos de louvor. Quando Abraão, nosso pai, segurando-lhe na mão, a apertou, como se fora a mão de um velho amigo, quando lhe disseram que a sua poltrona estava preparada no paraíso; que lhe tinham providenciado uma coroa para a cabeça; que na corte de justiça celeste não pronunciariam contra ele uma só palavra, Bôntzie, exactamente como no outro mundo, calou-se assustado! O coração parecia querer saltar-lhe do peito! Tinha certeza que tudo aquilo não passava de um sonho, ou de um puro equívoco!
Estava acostumado a mabas as coisas. Por mais de uma vez sonhara, na terra, que apanhava dinheiro do chão, tesouros inteiros espalhados… E quando acordava, via-se ainda mais pobre que no dia anterior... Por mais de uma vez, alguém, por engano, lhe sorrira, dissera-lhe uma palavra amiga e, em seguida, dera-lhe as costas, cuspindo…
- Esta é a minha sina! - pensava Bôntzie.
E não ousou erguer os olhos, com medo que o sonho se desvanecesse, temendo acordar dentro duma caverna, entre serpentes e lagartos! Temia murmurar uma sílaba, não ousava mexer-se, com receio que o reconhecessem e o atirassem ao inferno…
Bôntzie tremia. Não ouvia os louvores dos anjos, não via como dançavam à sua volta, não respondeu ao cordial scholem aleihem do pai Abraão. E, quando conduzido perante a corte de justiça celeste, Bôntzie nem sequer disse “bom dia”…
Estava transido de pavor!
E o seu pavor foi ainda maior, quando os seus olhos deram com o chão da sala do tribunal. Todo alabastro, incrustado de brilhantes!
- Mas isto é chão que eu pise com os pés? - pensou Bôntzie, perplexo. - Quem sabe com que homem rico, com que rabino, com que santo me estarão a confundir? E quando derem pelo engano, que triste fim terei eu!
Tamanho era o seu espanto, que nem sequer ouviu o presidente chamá-lo:
- Processo de Bôntzie, o silencioso!
Nem ouviu, tampouco o presidente dizer, ao entregar os autos ao advogado:
- Lê, mas resumidamente!
Aos olhos de Bôntzie o salão inteiro parecia girar. Zumbiam-lhe os ouvidos. E através dos zumbidos, ouviu, com nitidez crescente a voz do anjo, seu defensor, ressoando doce como um violino:
- O seu nome assentava-lhe tão bem como a um corpo esbelto o traje talhado pelo mais hábil alfaiate.
- O que é que ele está a dizer? - indagou Bôntzie para os seus botões.
E ouviu uma voz impaciente interromper o advogado:
- Dispensa os exemplos!
- Jamais - prosseguiu o defensor - Bôntzie se queixou de alguém. Nem de Deus, nem dos homens. Nos seus olhos nunca ardeu a mais pequena fagulha de ódio. Jamais ergueu os olhos ara o céu, com alguma reclamação.
Bôntzie continuou a não compreender. E a voz áspera interveio de novo!
- Chega de retórica!
- Job não foi tão paciente. Sentiu-se infeliz…
- Vamos aos factos! Só interessam os factos! - exclamou, mais impaciente ainda, o presidente.
- No oitavo dia circuncidaram-no…
- Mas sem realismo!
- Um mohel incompetente não deteve a hemorragia…
- Adiante!
- Bôntzie continuou calado - prosseguiu o defensor - até mesmo quando morreu a sua mãe e lhe deram, aos treze anos, uma madrasta. Uma víbora, de tão malvada…
- Porventura referem-se realmente a mim? - pensou Bôntzie.
- Nada de insinuações contra terceiros! - exclamou, zangado, o presidente.
- A madrasta dava-lhe pedaços de pão duro e bolorento, dava-lhe pelancas em vez de carne, enquanto ela bebia café com creme…
- Cinge-te aos factos! - gritou o presidente.
- Em compesação, não lhe poupava as unhas. Através dos rasgões da sua roupa mofada, transpareciam as marcas arroxeadas na pele de Bôntzie… Sob o mais duro frio do inverno, Bôntzie era obrigado a rachar lenha para a madrasta, descalço, no patio… Isto apesar das suas mãos excessivamente tenras, dos toros demasiadamente grossos e do fio embotado do machado… Por mais de uma vez destroncou o braço, mais de uma vez congelaram-se-lhe os pés. Mas calava-se sempre. Nunca disse nada a ninguém, nem mesmo ao pai…
- Àquele bêbedo? - interveio sarcasticamente o acusador.
Bôntzie sentiu um calafrio pelo corpo.
- Nem mesmo ao pai Bôntzie se queixava - disse o advogado, completando a frase. - E sempre solitário! - prosseguiu. - Sem amigos, sem escola, sem roupas, sem um minuto livre…
- Factos! - exigiu novamente o presidente.
- Manteve-se calado mesmo quando mais tarde, certa vez, o pai, embriagado, agarrando-o pelos cabelos, o atirou para fora de casa, numa noite escura de inverno! Erguendo-se rapidamente, fugiu para onde os olhos o levavam… Durante todo o caminho, Bôntzie continuou em silêncio… Faminto, suplicava apenas com os olhos! Finalmente, numa noite ofuscante e húmida de primavera, chegou a uma grande cidade… E foi tragado, como uma gota dentro do oceano… Passou essa mesma noite no cárcere… Permaneceu em silêncio, não perguntou porquê. Saindo da prisão, procurou o mais pesado dos trabalhos! Mas prosseguiu sempre calado! Mais difícil do que trabalhar era encontrar trabalho! E Bôntzie, sempre calado! Banhado em suores frios, oprimido pelo peso da carga, com o estômago convulso de fome, Bôntzie calava-se! salpicado de lama, coberto de saliva de bocas estranhas, enxotado das calçadas quando com as costas sobrecarregadas, obrigado a caminhar entre carros, carretas e tranvias, defrontando-se a cada momento com a morte, Bôntzie calava-se! Nunca calculou exactamente o preço do seu trabalho, quantas vezes foi enganado por tratantes, quantas vezes quase morreu de tanto solicitar a paga que lhe deviam. Bôntzie nunca calculava a sua sorte nem a dos outros. Mas calava-se! jamais exigiu em altos brados o seu salário! Feito mendigo, punha-se junto à porta, enquanto os seus olhos suplicavam, humildes como os de um cão! “Volta mais tarde”… E ele desaparecia, em silêncio, como se fora uma sombra. E voltava, mais tarde, para mendigar, mais silencioso ainda, o que lhe era devido. Calava-se mesmo quando o ludibriavam, ou quando lhe davam uma moeda falsa! Calava-se sempre…
- Sem dúvida, é de mim que falam! - disse Bôntzie, confortado.

- Um dia - prosseguiu o defensor, depois de beber um gole de água - operou-se uma modificação na vida de Bôntzie… Uma carruagem de rodas de borracha, tirada por dois cavalos desenfreados, passou em vertiginosa carreira… Há muito que o cocheiro estava estendido sobre a pavimentação da rua, com a cabeça partida… Escorria baba das bocas dos animais espantados. Os olhos dos cavalos brilhavam como velas a arder numa noite escura. E no interior da carruagem havia um homem, mais morto do que vivo! E Bôntzie deteve os cavalos! O homem que salvara era um judeu caridoso. Não se esqueceu do favor que Bôntzie lhe prestara! Entregou-lhe o chicote do cocheiro morto. E Bôntzie tornou-se o cocheiro do seu benfeitor. Ainda mais: este arranjou-lhe um casamento. Ainda mais: providenciou-lhe até um filho. E Bôntzie continuou sempre calado…
- É de mim que falam. É de mim!
Esta ideia firmou-se no espírito de Bôntzie. Ainda assim, não se atreveu a fitar a corte de justiça celeste…
Continuou a ouvir atentamente as palavras do anjo, seu advogado:
- Bôntzie calou-se, mesmo quando o seu protector, vindo a falir, deixou de lhe pagar o salário… Calou-se até mesmo quando a sua mulher fugiu, deixando-lhe uma criancinha de peito… Calou-se mesmo quando, quinze anos mais tarde, a criança, então crescida e robusta, o expulsou de casa…
- É de mim que falam! É de mim! - alegrou-se Bôntzie.
- Prosseguiu em silêncio - recomeçou o anjo defensor - mesmo quando o seu benfeitor, entrando em acordo com todos os credores, recusou a Bôntzie um níquel de salário. Calou-se ainda, quando o mesmo benfeitor, viajando outra vez numa carruagem com rodas de borracha, tirada por cavalos bravos como leões, atropelou Bôntzie no caminho. Escondendo tudo, Bôntzie nem à polícia relatou quem o desgraçara.
Conservou-se em silêncio até no hospital, onde é permitido gritar!
Calou-se ainda quando o médico, sem receber o pagamento adiantado, se recusou a aproximar-se da sua cama. Calou-se, quando o enfermeiro não lhe quis trocar a roupa da cama, sem receber cinco moedas adiantadas.
Calado agonizou, calado morreu…
Não proferiu palavra contra Deus, nem contra os homens!
Tenho dito!

De novo Bôntzie começou a tremer da cabeça aos pés. Sabia que, após o defensor, falaria o acusador. Quem sabe o que ele diria? Bôntzie não se recordava da sua própria vida. Na terra, esquecia-se facilmente de tudo. O anjo, seu advogado, lembrara-lhe tanta coisa! Quem sabe o que lhe recordaria o promotor?
- Senhores! - ressoou uma voz forte, ácida e cortante. Mas interrompeu-se inopinadamente.
- Senhores! - recomeçou a mesma voz, desta vez menos áspera.
Mas tornou a deter-se.
Finalmente, quase macia, a mesma voz ressoou:
- Senhores! Ele calou-se. também eu me calarei!
Houve silêncio. E uma outra voz, aveludada e trémula, fez-se ouvir:
- Bôntzie, meu filho Bôntzie! - vibrou a voz como acorde de harpa. - Meu querido filho Bôntzie!
O coração de Bôntzie desfez-se em pranto… Quisera então erguer os olhos, mas estavam marejados de lágrimas… Jamais chorara pranto tão doce… “Meu filho, meu querido Bôntie!”… Desde que a sua mãe morrera, nunca mais ouvira tal voz e tais palavras.
- Meu filho! - prosseguiu o presidente do tribunal. - Sempre sofreste e conservaste-te sempre calado! O teu corpo não tem um só membro ileso, não tem um só osso que não esteja ferido. E sempre te calaste… Na terra ninguém te compreendeu. Tu próprio talvez não soubesses que podias gritar, e que à voz do teu clamor até as muralhas de Jericó estremeceriam, desmoronando-se. Tu mesmo não conhecias a tua força desmedida…
Na terra, o teu silêncio não foi recompensado. Lá, porém, é o mundo da ilusão. Aqui, no mundo da verdade, receberás a tua recompensa!
Não serás julgado pela corte de justiça celeste. Nenhuma sentença será pronunciada contra ti.
Este tribunal não decidirá qual será a tua recompensa! Toma o que quiseres! Tudo é teu!
Pela primeira vez, Bôntzie ergueu os olhos. Ficou como que cego, ante a luz que se derramava de todos os lados! Tudo resplendia, cintilava, tudo dardejava raios de luz. Vinha luz das paredes, das coisas, dos anjos, dos juízes. Luz de todos os cantos do céu!
Bôntzie baixou os olhos cansados!
- Realmente? - perguntou hesitante e envergonhado.
- Por certo! - contestou com firmeza o juiz que presidiu ao tribunal. - Por certo, afirmo-te que tudo te pertence. Tudo no céu é teu. Escolhe e toma o que te aprouver! Tomarás apenas do que é teu!
- Deveras? - perguntou Bôntzie outra vez, porém com voz mais segura.
- Sim! Sim! Sim! - responderam-lhe com firmeza, de todos os lados.
- Bem, se é assim - sorriu Bôntzie - então eu quero todos os dias, de manhã, um pãozinho quente com manteiga!
Juízes e anjos, todos inclinaram a cabeça, envergonhados.
O promotor pôs-se a rir…

(“Contos de I. L. Peretz”, ed. Perspectiva)

Este conto (que não resisti apresentar na íntegra, sem mutilações) de Peretz que lia, noutros tempos, com comoção (e até lágrimas) aos amigos, termina com um certo sabor oriental, termina com uma pergunta (que, como diz quem sabe, é metade da sabedoria). A pergunta, terrível por si, porque nos pontapeia ao imo de nós, ao centro essencial do ser, tem a grata maneira de nos revirar, de modo que o que está dentro de nós se vira do avesso e se expõe face à insignificância ou à significação. Ou seja, o que acontece, dito dum modo duro e cru, como quem conversa num café, é tão somente o seguinte: O que é que mais desejas? Sim, se agora te aparecesse um génio, daqueles da lâmpada, e te concedesse um desejo, o que escolherias?
É por causa disto que surge o horror e não é raro o homem se encontrar em desiquilíbrio, com as unhas dos pés cravadas no chão, boca escancarada, face ao abismo mais aterrador, o abismo que nos habita as entranhas. Lá em baixo está o nada. Um nada tão vazio que, precisamente, só pode ser apodado de nada. Nem o espaço, aquele populado de estrelas, é vazio desta maneira, nada é tão vazio, absolutamente vazio. Só o interior do homem pode encontrar o nada absoluto, o desespero supremo. Mas sem cair em fatalismos (nem toda a gente se vai encontrar com a vertigem do vácuo mais puro), a maior parte das pessoas, percebe uma de duas coisas: Ou que não tem sentido a sua vida (não há nada que deseje supernamente), ou que, face a esta pergunta, encontra aquilo a que vulgarmente o homem traduz pela frase “morrerei por isso”.
Houve um homem, num conto oriental (penso que publicado por Natesan), que, ao génio que lhe concede um desejo, responde mais ou menos assim (cito de cor): Quero viver para ver os netos dos meus netos brincar no meu sumptuoso palácio, servido por um séquito de criados em bandejas de oiro.
Ora, o que este esperto pediu, foi riqueza, casamento, descendência, saúde, longevidade, e tudo com uma só resposta. Não é destituída de esperteza, sem dúvida, mas alguns poderão achar pouco. Demasiadamente pouco.
Saindo do espertinho e entrando em casa do sábio, podemos modelar-nos com mais saber para as nossas vidas futuras pelo exemplo de Salomão: Quero sabedoria, disse ele, foi a resposta dele. Não quero ouro, não quero prata. Quero sabedoria, tudo o resto virá por acréscimo. E veio sim senhor, com apenas alguns acidentes já para o fim da vida (sobre isso posso falar numa próxima vez, se alguém puxar o assunto).
O drama de saber escolher e pedir uma só coisa sem extravios, é extremamente difícil. A maior parte de nós vagueia uns quarenta anos por um deserto atrás dum Moisés, que também não parece conhecer o caminho. No final morre-se com um suspiro do género: Ah!, então a terra prometida era já ali, do outro lado da margem do Jordão. Tarde demais…

Erich Fromm preocupa-se com a idolatria. Idolatria para ele, é tudo o que fica pelo caminho do nosso objectivo. Diz ele que a devoção que prestamos ao que as nossas mãos produzem é idolatria. E há, sem dúvida, um excesso de idolatria no que concerne à tecnologia, e fundamentalmente à ideia de paraíso tecnológico. Mas a técnica não é o único ídolo que fixa a nossa atenção e motivação: Pátria, bandeira, Democracia, estado laico, verdadeira religião, iluminismo, economia, etc., quando não passam de desculpas para genocídeos, são inúmeras vezes ídolos intocáveis a quem devemos absoluta devoção e tantas vezes, o nosso sangue. Erich Fromm também afirma que temos medo da liberdade, da liberdade plena, e que preferimos refastelarmo-nos nos sofás da alma, do que arregaçar as mangas e lutar e crescer. Acima de tudo, crescer, criar responsabilidades. Palavra interessante, esta, a responsabilidade, que literalmente e etimologicamente implica “responder por”. Voltamos à pergunta essencial: o que é que mais desejas? E o ser responsável exige uma resposta.
Raros são os que colocam o seu desejo no infinito ou num ideal absoluto, ou na procura religiosa (ou em Deus), comum é que a vida e o “sentido” dela fique preso a coisas que minorizam o potencial humano.

Tal como disse antes, existem duas respostas para a Pergunta: “Não faço a mais pequena ideia, a minha vida tende para o nada” ou “quero tudo”. É dentro da segunda resposta que me quero debruçar. “Tudo”, faz parte daquelas coisas mais relativas do que o gosto. Para Bôntzie do conto de Peretz, podemos considerar um pão com manteiga como o desiderato supremo de certa criatura, mas dificilmente será objecto de universalidade. Pascal, poderia responder assim, cheio de universalidade: Felicidade. Isso é o que eu quero e isso é o que toda a gente quer. Tanto as pessoas que desejam um pão com manteiga como aquelas que se querem atirar para debaixo do rápido para Cascais.
Felicidade! Poderíamos aceitar esta resposta. Gostamos de Pascal, teve aquela frase interessante sobre o nariz de Cleópatra e era um matemático de classe. E tem toda a razão, Pascal: todos procuramos a felicidade. O que é truculento nesta resposta é a impossibilidade de sentir a felicidade sem o obstáculo, sem o contratempo, sem a lágrima. Quando começamos a pensar nisto, dói-nos a alma. Somos os seres ridículos que quando não temos problemas, chegamos a casa e fazemos paciências de cartas. Ou seja, criamos problemas.
Então, uma conclusão, parece-nos óbvia: para responder a uma pergunta destas, precisamos de sabedoria para o fazer. Por outro lado, quando respondemos, teremos apenas a sabedoria para compreender as nossas faltas passadas e nunca teremos, no presente, as respostas para responder às necessidades futuras. Ou dito de outra maneira, por mais que saibamos em determinado momento, se continuarmos a evoluir, quando olharmos para trás, inevitavelmente, acharemos simplória a resposta que tivemos no passado.
Vou repetir: Olhando para trás, por mais sábios que tivéssemos sido ou julgado ser, todas as decisões nos parecem patéticas e destituídas de bom senso. A sabedoria é evolução constante e só ganha significado com luta e conquista, com erro e percurso. É como disse Samapio Bruno sobre a Verdade: "A verdade é um erro cada vez menor".

Certa vez, na Anatólia central, um vendedor de tapetes pediu-me para entrar na sua loja. Eu respondi-lhe de imediato que não era nenhum comprador de tapetes.
- Há coisas mais importantes na vida do que o negócio – disse-me ele.
Entrei, conquistado, bebi o chá do costume. Era Ramazan (como se diz na Turquia o Ramadão) e conversámos sobre religião. Entre estórias e histórias, Kamil contou-me a seguinte:
Um ladrão foi visitar um dervish, e perguntou-lhe se Deus castigava os nossos pecados de imediato.
O dervish respondeu que Deus nunca castigava os nossos pecados de pronto, pois esperava sempre que nos arrependessemos.
Dito isto, o ladrão assalta o dervish, monta-se no cavalo com as magras posses do velho sábio e parte estrada fora.
Momentos depois aparece defronte do sábio, com a perna partida. Tinha caído do cavalo e reclamava: “Então não me tinhas dito que Deus não castigava de imediato, que esperava que nos arrependessemos?
- Disse. Mas tu partiste a perna, não por me teres assaltado, mas por pecados que cometeste antes deste.
Nunca saberemos responder no presente. Precisamos de tempo e de espaço para responder.

Para responder é preciso saber. Para saber, é preciso viver. E chegamos à funesta conclusão que a nossa melhor resposta estará sempre, potencialmente, no nosso futuro. Existe, contudo, a possibilidade de dizer: Eu não sei responder, e tendo fé, peço a Deus que responda por mim. Será como aquela estória do pedinte a quem as preces eram todas atendidas e um rabino, achando curioso, perguntou-lhe qual o seu segredo. O mendigo respondeu que por não saber ler nem escrever se limitava a rezar o alfabeto e a pedir a Deus que organizasse as letras do melhor modo possível.Foi este o "pequeno caminho" seguido por Santa Teresa de Lisieux. Mas para isso é preciso ter fé. Muita fé. E nem todos somos santas teresinhas.
No final, urge e resta-nos saber que temos de arriscar, de desejar mais, de não parar no sofá que a vida nos arranjou para nos estendermos a ver o Telejornal e o filme da noite. Há vida para lá do sofá. Já houve quem arriscasse e tivesse comunicado connosco para lá das trevas. É preciso saber desejar, desejar mais e lutar. Colocar os olhos sempre para lá do visível. Evitar o carneirismo e empreender a viagem.

Alguns poderão argumentar que a única prece que Cristo nos legou, pede pouco mais para o quotidiano do que aquilo que Bôntzie desejou, ou seja: "o pão nosso de cada dia". E é verdade que é essencial, tal pão, é fundamento e essência do corpo, mas também escorreu da mesma fonte sagrada outra frase não menos conhecida: "nem só de pão vive o homem". Precisamos, sem dúvida, de alimento para o corpo, e tais são necessidades que partilhamos com todos os seres vivos. Mas, além de terra, também somos feitos de céu e também precisamos de alimento para a alma, um tipo de necessidade inequivocamente humano, e talvez o único verdadeiramente humano (já que os outros são necessidades comuns a todos os animais). O Profeta disse que se tivesse dois pães trocaria um deles por uma rosa.
Tudo o que pudermos ver não passa de pão com manteiga. Para lá do pão há um infinito à nossa espera. E o essencial, não é saber o que está depois, mas sim desejá-lo!
E para terminar, um alerta: nunca cair naquele círculo vicioso em que um pai diz para o filho (excessivamente obediente): Tens de ser mais rebelde.
E ele responde: sim, pai.

Afonso [ALERTA AMARELO]

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