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segunda-feira, janeiro 31

 

A Unidade do desejo

«- Certo dia - começou Abélio a contar as suas experiências - caminhava num país distante, perdido pelos caminhos, sem estrelas para me guiar, quando vi um rústico a quem pedi um naco de carne para conchego da barriga. Sentei-me à sua mesa, é grande a hospitalidade das estepes, bebi do seu vinho e aqueci-me no seu lume, e já ia alta a noite quando me intrigou o altar que este houvera erigido num canto da cozinha. O meu benfeitor reparou no meu olhar de curiosidade e respondeu-me que era um altar ao deus maior do seu panteão, que naquela zona chamavam de Velios. Era um deus terrível, representado entre sangue e tripas, a desfazer homens e mulheres, crianças e animais, sem a luz da piedade, que preferia sangue a vinho, que desfazia os ossos e as fétidas entranhas, que não conhecia a misericórdia ou perdão, que era conhecido por esquartejador. Terrível jugo tem o homem de suportar ao viver debaixo das garras de tal deus. Imagina, Fabiano, tal coisa, como me impressionou a descrição do velho camponês e o ambiente mórbido que se instalou naquele lar. Dormi no celeiro com os animais, mas não dormi descansado, tamanha era a agitação do meu coração e da minha alma que de tão apertadinha me tremiam as carnes. No outro dia, apesar da insistência do bom camponês, pus-me a andar daquele lugar, pé à frente do outro, nem é bom olhar para trás. Com rápida rapidez cheguei a outro pequeno povoado, onde um pastor me acolheu na sua humilde casa, me alimentou com a carne dum seu borrego, condimentado com as ervas do campo, cheínho de uvas passas e cominhos e regado com azeite. Foi um belo repasto, lembro-me como se fosse hoje, até me cresce água na boca. Já ia alta, a noite, quando reparei num belo altar que o pastor tinha na cozinha. Era uma estátua dum belo deus, todo decoradinho com flores e frutas das árvores, mel e água fresca, com um olhar muito doce, feminino, enfim, um daqueles deuses que nada negam ao homem, um pede-que-te-darei. Belo culto este, pensei cá para comigo. A minha curiosidade fez-me falar, queria saber mais sobre tal deus, tão propício aos homens. Fiquei estupfacto quando soube o nome dele, pedi ao bom pastor para que se repetisse, que me elucidasse outra vez, devia ter ouvido mal, às vezes sou duro de ouvido, um pouco mouco, e faço confusões. Mas não havia confusão possível, este deus chamava-se Velios e era o mesmíssimo deus que na noite passada me fizera pesadelos e sonhos maus, que dançava sobre criaturas desmembradas, braços para ali, cabeças para acolá, pernas a voar, e sangue por todo o lado. Quando saí da casa do pastor, dirigi-me a um templo para me esclarecer junto do sacerdote de tão estranho e contraditório culto, ou pelo menos assim me parecia, na minha vasta ignorância. Ora, o sábio homem explicou-me que este deus, o tal Velios, espera todos os homens do outro lado do rio da morte, pronto a satisfazer a vontade do recém-chegado. Para tal traz consigo uns cavalos, para levar o homem para o lugar que este deseja, para que se cumpra a sua vontade de acordo com o mais profundo desejo da sua alma. Acredites ou não, meu caro Fabiano, é aí que reside a perdição de alguns e bem-aventurança de outros. Este Velios olha para dentro da tua alma, prescruta o seu interior e prende os seus cavalos de modo a que te levem até ao lugar do teu desejo. Ora é aqui que se dá a tragédia. O homem divide-se em vários desejos, e os cavalos desenfreados correm, cada um, em sentidos e direcções opostos e diferentes, despedaçando o corpo e a alma da pobre criatura. No entanto, se a tua alma acalentar um só desejo, um só objectivo e direcção, os cavalos levar-te-ão ao lugar de tua eleição para teu regozijo eterno. Fazendo a vontade de todos, despedaça uns e exalta outros.
- Digo-te, caríssimo Fabiano, que fiquei tremendamente impressionado com tal culto, quis saber mais, por isso aceitei a hospitalidade do sacerdote e quedei-me sob as suas graças durante longo tempo, na esperança de ver a minha curiosidade satisfeita. Que fazer para acalentar no coração um só desejo, como evitar a dispersão da alma? Nunca o cheguei a saber, desinteressei-me, e um dia à noite parti.
Abélio ria com a memória da sua partida, parou a narração, bocejou.
- Partiste sem mais nem menos, sem um gesto para com o velho que te deu a sua hospitalidade e saber?
- Ora, ora, saber não me deu muito, aqui para nós fiquei na mesma, ou até pior, mais confuso na minha cabeça, respostas às minhas dúvidas nem vê-las, e o comer não era grande coisa. Eu já andava estragado com aquilo, eram só vegetais e orações, e o homem não vive só do espírito, faz-me falta a galinha e a cabra, o borrego e a vitela, enfim, carne, um regalo para o estômago. Este velhusco, tinha ainda o costume infame e nefando de acompanhar a refeição com águas das fontes, nada de vinho ou cerveja, era aquilo um martírio para o corpo e uma tristeza para a alma. E o pior estava para vir, queria que eu o ajudasse nos trabalhos de limpeza que o templo exigia, mas eu não sou homem de limpezas, não tenho jeito. Outras terras, outros poisos clamavam pela minha abençoada e benquista presença. Parti, portanto. Do velho sacerdote nem benzedura queria, nem olhei para trás, que isso de olhar para trás atrai o mau espírito e outros demónios que nem convém dizer o nome.»

Neste trecho, ressalta a ideia do monoteísmo como provedor de toda a necessidade. O desejo pela Unidade, pelo Um, onde se podem encontrar e satisfazer todos os desejos. Imaginemos uma palavra que possa conter no seu ventre os maiores desideratos humanos: Justiça, Perfeição, Beleza, Bondade, Sabedoria, Liberdade, Felicidade, Amor, etc... Essa bizarria vocabular existe em várias línguas e em português diz-se, normalmente e para o conjunto de tanto anelo e ânsia, Deus. Tomando esta palavra, este verdadeiro Logos, e usando-a para descrever o que mais se deseja, chegamos à incontornável conclusão que Deus é o único desejo do Homem, saiba ele disso, ou não. Por vezes, equivocado, aponta em várias direcções, ignorante dessa direcção e sentido que contém, numa unidade, todo as aspirações humanas.

«Em hebraico, panim [significa face], é usado na sua forma plural: o homem tem mais de uma face. A sua própria e a de Adão.» Disto, lembra-nos Ellie Wiesel no seu livro "Mensageiros" (Roswitha Kempf/Editores). Na verdade, arrisco-me a completar, o homem tem três faces: A sua própria, a de Adão e a do Messias. É sobre esta última face que se reflecte a ambição de qualquer ser humano, o culminar de qualquer viagem, a sua própria perfeição, aquilo que de melhor poderá esperar de si e da sua vida. No judaísmo será a face do Messias e o dia em que ele virá com um mundo de perfeição (que o Sabat é prenúncio); no cristianismo será a face de Cristo. É nessa ideia de caminho, luta e trajecto que assenta a esperança.
Quando Moisés encontra Deus numa sarça ardente, a identidade divina é dada na famosa frase: "Eu sou aquele que sou". Na verdade, a tradução deveria ser outra mais estendida e desenrolada no tempo. "Eu sou aquele que serei" é uma hipótese de tradução que não está muito longe do possível e com certeza do desejável. Esta referência temporal numa frase é como uma chave para a compreensão da Divindade. Deus deve ser descrito dentro dos conceitos absolutos, infinitos e eternos, e não deve ser entendido dentro das paredes da relatividade. Quando a resposta de Deus, na sarça ardente, tem vincado o elemento futuro, tem o tempo descrito de Adão (origem) ao Messias (consumação).
Certamente, Deus será sempre mais fácil de ver no futuro (na hipótese de perfeição do momento presente), no que desejamos para o amanhã, do que o que vemos agora à nossa volta.

Afonso Cruz [
ALERTA AMARELO]

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