<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, janeiro 5

 

Um pouco de moral

Um dos grandes problemas para o cristão pensar a moral, como de resto para pensar qualquer um dos domínios usualmente associados com a filosofia, tem a ver com o facto simples de que Cristo não fez moral, nem gnoseologia, não fez ontologia, não fez ética, nem política… Dito com mais rigor: os Evangelhos não trazem consigo um corpo de reflexões organizadas de acordo com o usual funcionamento da tradição filosófica. Com isto, não se quer dizer entretanto que não se possam encontrar nos Evangelhos lições que cabem sobre a alçada da moral, da estética, da ontologia e por aí fora.
Se alguém for à China, é certo e sabido que com dificuldade será entendido se falar português. Para comunicar, debater ou dialogar, tem de aprender chinês para comunicar. Uma mesma aprendizagem, a aprendizagem de uma linguagem específica, instrumento de comunicação entre as elites antigas, obrigou os cristãos a usar a linguagem da filosofia para comunicar ao Império a sua fé. Há mais razões, mas para o que aqui nos traz, esta basta.
Sorte ou azar, o cristão encontrou dentro das linguagens filosóficas disponíveis, algumas onde a sua fé podia ser expressa com dificuldade, mas não com dificuldades inultrapassáveis. Platão fazia iniciar o seu pensamento em Deus, também os cristãos. Aristóteles fazia correr o pensamento em direcção às finalidades e à orientação maior que era Deus. Por isso, com relativa facilidade a fé pode impregnar essas linguagens filosóficas existentes.
Se ontologicamente o platonismo trouxe algumas dificuldades a Orígenes e se essas dificuldades afastaram o pensamento de Orígenes de uma veia mais existencial, o uso dos instrumentos de reflexão moral de Aristóteles, foi feito com relativa facilidade. Houve, claro, que deixar de lado algumas virtudes, outras, como a justiça ou como a prudência viram-se sujeitas a profundas alterações.
No entanto, o esquema base aristotélico não foi posto de lado. Foi impregnado e modificado, mas manteve-se presente em pensamentos tão diversos como Agostinho ou Tomás.

Hoje, o cristão tem dificuldade em encontrar uma linguagem filosófica actual na qual possa vazar o seu discurso moral. Com dificuldade se identifica com propostas que apostam na valência maior de pensar a moral em função do colectivo, e com a mesma dificuldade se identifica com propostas que apostam na valência de morais que giram em torno do indivíduo. Se reconhece num caso e noutro algo que lhe pode aproveitar, fica depois do proveito com o sabor amargo de ter de interromper a sua refeição a meio.
Aqui, diga-se de passagem, que MacIntyre tem feito trabalho de monta que devia ser aproveitado pelo cristão. Tem no entanto um problema: se retoma o tomismo actualizando-o, o que propõe como modelo de moralidade é dificilmente executável. Se pode existir quem pense o bem comum, já mais difícil é encontrar quem esteja disposto a organizar a sociedade a partir de comunidades de base. A começar porque não é fácil responder à questão: onde é que estão?

Fernando Macedo [
A BORDO]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?