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segunda-feira, janeiro 10

 

Salvação e ecumene

Na semana passada um post da Rua da Judiaria divulgou a notícia de que o Santo Ofício do Vaticano emitiu em 1946, com a aprovação do Papa Pio XII, uma orientação para as instituições católicas na França, que tinham a sua guarda crianças judias, para impedir ou dificultar o máximo possível que estas fossem devolvidas a instituições judias que as reclamassem. Mesmo se as crianças fossem reclamadas pelos próprios pais, elas só deveriam ser entregues se não foram baptizadas.[1]

O post do
Nuno Guerreiro causou uma série de reacções na blogosfera, em posts e nos correspondentes comentários, alguns bastante azedas.

Da minha parte escrevi no
Quase em Português, que compreendia muito bem o raciocínio do Papa Pio XII.
Compreendo o porque me parece uma postura coerente e responsável, de facto a única eticamente correcta, desde que se aceita a premissa teológica, que julgo ter sido válido e inquestionável para o Papa Pio XII, que reza que “Não há salvação fora da Igreja!”
Como podia alguém, que acredita seriamente nisto, abandonar crianças inocentes, que um acaso histórico tem colocado sob a sua tutela, a uma vida sem salvação, privá-las da feliz oportunidade que a previdência lhes ofereceu: de cair na graça divina, apesar de nascido judeu?

Mas como avalia essa ordem quem não partiha essa premissa? O que é naturalmente o caso dos familiares das crianças – dos pais, mas também dos avôs, tios, primos – que, sobrevivido a custo e com indizivel sofrimento a aniquiação das suas famílias, do seu povo, andaram a sua procura? O que é que eles podem achar deste Papa, de alguém que lhes priva da réstea de felicidade familiar, que lhes ainda podia sobrar depois do extermínio quase completo das famílias?

Eis os dois lados da história, ambos coerentes. Visto à distância concedo a ambos os lados, que têm o interesse das crianças em primeiro lugar. Mas não vou esconder onde estão as minhas simpatias: Ao lado das famílias, naturalmente e com toda a veemencia, e também em princípio – não entrando numa hoje impossível apreciação caso a caso do interesse das crianças orfãs - no lado das instituições judias.
Porquê é que estou neste lado? Porque não acredito, tão pouco como os familiares judias das crianças e qualquer outra pessoa que não é membro da igreja católica, que a igreja, nem a fé católica é necessária para salvação alguma.

Enquanto a actuação do Papa tem justificação dentro do quadro das suas referências, ela é, fora dele, para mim e para a maioria do mundo civilizado, um crime grave.

E agora? Como trataremos nós, que nós nos queremos ecuménicos, um eventual caso semelhante no futuro? Como conciliar estes dois mundos? Nem podemos falar duma negociação, porque não se trata duma conciliação de interesses, pois podemos supor que ambas as partes não estão na defesa dos seus interesses, mas querem o melhor para as crianças. Só que este melhor é fundalmentamente diferente nos olhos de ambas as partes. E este melhor não é uma coisa secundária, de importância relativa. Não pode haver mais importante para um crente do que a salvação duma alma!

Tenho respeito para quem leva a sua fé a sério. Que tenta ser coerente e não se deixa, logo que aparece o primeiro conflito, as suas convicções na gaveta. Mas se tenho respeito para pessoas assim, confesso que as acho ao mesmo tempo extremamente perigosas, uma potencial ameaça para mim e para a minha família. Se para eles a salvação da minha alma é a coisa mais importante ao meu respeito, eu tenho razão para temer que eles me tentarão impó-la, se lhes é dada a oportunidade. A qualquer preço inferior ao da minha alma, isto é: A qualquer preço!
Pensando bem, vou reconsiderar o que disse do respeito que tenho para eles.

Felizmente a maioria dos cristãos que conheço, católicos e outros, já não acreditam que não há salvação fora da igreja, e por isso a minha sensação de ameaça é moderada. Mas continua a existir, tal como cristãos e outros, que acham que a convesão para a fé certa merece, se for necessário, um preço elevado.

Por isso vejo aqui um problema sério, para qual só pode haver uma solução: Ecumene.
Ecumene precisa como condição indispensável um terreno comum. Mas para este não basta uma terra de ninguém, um espaço neutro onde Os crentes das diferentes confissões se encontram, como se fossem diplomatas, dialogando cautelosamente sob a bandeira branca da trégua. Este terreno está vazio, não é dum nem do outro, porque na realidade ninguém cedeu nada. Um terreno comum destes serve para nada. Como não tem, na realidade, nada de comum, não pode ser a base duma solução. Um terreno comum, para resolver o problema da guarda das crianças, teria de abranger as bases de ambas das partes. O que pressupunha que todos as partes mudassem radicalmente a sua perspectiva, que conseguissem o feito algo paradoxo de relativizar as suas concepções religiosas, que têm, por definição, um núcleo absoluto. Teoricamente, acho isso possível. Na prática, estamos muito, muito longe disso.

________________

Outros posts sobre este assunto:
Erro ou fanatismo? no
Timshel (4.1.05)
Acerter contas com o tempo no Acidental
Mas as crianças Senhor? no Povo de Bahá




[1] Não quero debater aqui a conhecida e velha polémica sobre a alegada complaçência do Papa Pio XII com as políticas antisemitas Nazi e o seu alegado deficiente empenho perante o holocausto. O problema levantado no post da Rua da Judiaria é bem distinto desta questão, e é esse só este que me interessa aqui. Não que não achasse que devem ser averiguados culpas históricas, mas a mim falta-me tanto aqui o espaço com o conhecimento historico necessário.

Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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