<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, janeiro 31

 

Revolução Personalista II

Na semana passada, a propósito do centenário do nascimento de Emmanuel Mounier, falei um pouco do que foi o contributo do Personalismo para o pensamento e reflexão de cristãos (e não só) da época. Procurei explicar como foi importante uma reelaboração das linhas de pensamento a partir da noção de pessoa, num momento em que ainda não se antevia o que foi uma das maiores revoluções na forma da Igreja se entender e entender a sua missão – o aggiornamento do Concílio Vaticano II –; num momento marcado por um conjunto de filósofos a que mais tarde se chamou da suspeita, que partiram da descoberta do subconsciente humano e das suas pulsões e instintos (Freud), que reflectiram a partir das estruturas e engrenagens da luta de classes (Marx), que proclamaram o não-sentido como resposta às interrogações da existência (Nietzsche). Mounier e um conjunto de pensadores que se associaram à revista Esprit foram uma primeira janela para a reflexão e diálogo de muitos crentes com estas linhas de pensamento e com o que viria a ser a pós-modernidade. Em Portugal a Esprit teve o seu principal eco já nos anos 60, na revista O Tempo e o Modo, publicada pela Moraes Editora (de Alçada Baptista).
Hoje venho dar a conhecer um pouco mais do pensamento de Mounier, em concreto o expresso em “O Personalismo”. Advirto já que não sou perito em filosofia ou teologia e que não vivi o período em que estes debates se acenderam. Por isso, posso apenas salientar o que me parece mais significativo hoje. A minha surpresa não deixou de ser grande quando encontrei neste opúsculo escrito em 1949 e traduzido pela primeira vez para português em 1960, uma expressão dalgumas linhas que me parecem ser hoje fundamentais no pensamento cristão. Sem dúvida o Concílio e as gerações que o fizeram beberam muito da reflexão lançada pelo Personalismo.
Passemos então ao que interessa e dêmos voz a Mounier. Logo no início de “O Personalismo” ele adverte-nos que não vai tratar de expor um sistema filosófico – o personalismo não é um sistema. É antes uma reflexão que parte da liberdade pessoal, da criatividade e irrepetibilidade de cada pessoa. Porém, não olha a pessoa como indivíduo: uma pessoa só pode ser entendida em relação com outros. Daí começar por expor uma “ideia sumária acerca do universo pessoal” onde fala da construção do sentido de pessoa como um processo lento que se foi desenvolvendo na Antiguidade e que teve o seu anúncio decisivo com o cristianismo:

«
O cristianismo rompe de súbito por entre estas apalpadelas, para se tornar o arauto duma noção decisiva de pessoa. Nos nossos dias, mal nos podemos aperceber do escândalo formidável que tal noção constituía para o pensamento e para a sensibilidade dos gregos:
1.º – Ao passo que a multiplicidade era para estes um mal inadmissível a qualquer espírito, para o cristianismo é um absoluto. (...)
2.º – O indivíduo humano deixa de ser o cruzamento de várias participações em mais gerais realidades (matérias, ideias, etc.), para ser um todo indissociável, cuja unidade, porque no absoluto assente, precede a multiplicidade.
3.º – Acima das pessoas já não reina a tirania abstracta dum Destino, duma constelação de ideias ou dum Pensamento Impessoal, indiferente a destinos individuais, mas um Deus que é ele próprio pessoal, embora dum modo eminente, um Deus que “entregou a sua pessoa” para assumir e transfigurar a condição humana, e que propõe a cada pessoa uma relação única em intimidade, uma participação na sua divindade; (...).
4.º – O profundo movimento da existência humana não tende a assimilar-se à generalidade abstracta da Natureza ou das Ideias, mas a transformar o “coração do próprio coração” (
meta-noia
), para que nele se introduza e sobre o mundo irradie um Reino transfigurado. O segredo de nossos corações, onde se decide, por opção pessoal, essa transmutação do universo, é domínio inviolável, que ninguém pode julgar, e que não é conhecido por ninguém, nem pelos anjos, mas somente por Deus.
5.º – A esse movimento o homem é livremente chamado. A liberdade é constitutiva da existência criada. Deus teria podido criar num momento uma criatura tão perfeita quanto o pudesse ser. Preferiu que fosse o homem o chamado a amadurecer livremente a humanidade e os efeitos da vida divina. O direito de pecar, ou seja, de recusar o seu destino, é essencial ao pleno uso da liberdade. Longe de ser um escândalo, antes seria a sua ausência que alienaria o homem.
6.º – Esse absoluto pessoal não isola o homem, nem do mundo, nem dos outros homens. A Incarnação confirma a unidade da terra e do céu, da carne e do espírito, confirma o valor redentor da obra humana logo que assumida pela graça. Pela primeira vez a unidade do género humano foi plenamente afirmada (...). A própria concepção da Trindade, que alimentou dois séculos de debates, traz consigo a ideia surpreendente dum Ser Supremo no qual intimamente dialogam pessoas diferentes, dum Ser que é já, por si próprio, negação da solidão.
»

Mounier prossegue analisando outros pensadores e a sua concepção de pessoa. Até chegar aos filósofos personalistas que uma dúzia de anos antes tinham lançado a Esprit. Finaliza esta introdução afirmando que a pessoa não é um objecto de estudo que se separe e observe. A pessoa é antes o centro de reorientação da sua reflexão filosófica. Parte então para a primeira parte de “O Personalismo”, onde fala das “Estruturas do Universo Pessoal”. Num primeiro capítulo fala da “Existência incorporada” – de como a pessoa está mergulhada na natureza e simultaneamente a transcende; de como a existência humana vive em luta constante entre a personalização ou humanização da natureza e os obstáculos que se lhe colocam. No capítulo seguinte, que gostaria de destacar, fala da comunicação como essência da pessoa. E volto a dar a voz ao filósofo, num trecho que explica bem porque falamos de Revolução Personalista. Termino por hoje com esses parágrafos, a que me atreveria a chamar de credo para os que mantém a esperança na humanidade dos nossos dias:

«
Quase se poderia dizer que só existo na medida em que existo para os outros, ou numa frase-limite: ser é amar.
Estas verdades são o próprio personalismo, a ponto de podermos dizer que há pleonasmo quando se designa a civilização que ele visa por
personalista e comunitária
. Exprimem, frente a persistentes idealismos e individualismos, a ideia de que o sujeito não se nutre autonomamente, que só possuímos aquilo a que damos ou aquilo a que nos damos, que não nos salvamos sozinhos, nem social, nem espiritualmente.
O primeiro acto da pessoa deve ser, pois, a criação com outros duma sociedade de pessoas, cujas estruturas, costumes, sentimentos e até instituições estejam marcados pela sua natureza de pessoas: sociedade de que apenas começamos a entrever e esboçar os costumes.
Funda-se numa série de actos originais que não têm equivalente em mais parte nenhuma no universo:
1.º –
Sair de nós próprios
. A pessoa é uma existência capaz de se libertar de si própria, de se desapossar, de se descentrar para se tornar disponível aos outros. (...) Os antigos falavam da luta contra o amor-próprio; nós chamamos-lhe hoje egocentrismo, narcisismo, individualismo.
2.º –
Compreender
. Deixar de me colocar sempre no meu próprio ponto de vista, para me situar no ponto de vista dos outros. Não me procurar numa pessoa escolhida e igual a mim, não conhecer os outros apenas com um conhecimento geral (...), mas captar com a minha singularidade a sua singularidade, numa atitude de acolhimento e num esforço de recolhimento. (...)
3.º –
Tomar sobre nós, assumir
o destino, os desgostos, as alegrias, as tarefas dos outros, “sofrer na nossa própria carne”.
4.º –
Dar. A força viva do ímpeto pessoal não está, nem na reivindicação (individualismo pequeno-burguês), nem na luta de morte (existencialismo), mas na generosidade e no acto gratuito
, ou seja, numa palavra, na dádiva sem medida e sem esperança de recompensa. A economia da pessoa é uma economia de dádiva, não de compreensão ou de cálculo. A generosidade dissolve a opacidade e anula a solidão da pessoa, mesmo quando esta não recebe nada em troca: contra a fileira cerrada dos instintos, dos interesses, dos raciocínios, ela é, em todo o sentido da palavra, perturbante. Desarma as recusas, oferecendo aos outros um valor a seus próprios olhos elevado, exactamente no momento em que eles esperariam ser expulsos como coisa indesejável, e assim os prende à sua comunicação; daí o valor libertador do perdão, da confiança. (...)
5.º –
Ser fiel. A aventura da pessoa é uma aventura constante desde o nascimento à morte. As dedicações pessoais, amor, amizade, só podem ser perfeitas na continuidade. Essa continuidade não é uma exibição, uma repetição uniforme, como sucede na matéria ou nas generalizações lógicas, mas um contínuo renovamento. A fidelidade pessoal é uma fidelidade criadora.»


Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?