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segunda-feira, janeiro 24

 

Revolução Personalista I

Há cerca de duas semanas comemorou-se o centenário do nascimento do filósofo Emmanuel Mounier (1905-1950), considerado o pai do personalismo. A Agência Ecclesia dá-nos conta dum congresso realizado em Roma, iniciativa da Universidade Pontifícia Salesiana, para comemorar a data. As cinco centenas de participantes neste congresso decidiram apoiar a causa da beatificação de Mounier, a quem o Pe. Pascual Chávez, Reitor-Mor dos Salesianos se referiu como "um corajoso pensador, robusto construtor da história, autêntico empresário do pensamento comprometido, que deu uma contribuição decisiva para repropor a relação entre fé e história".
Não sendo eu perito em matéria filosófica, decidi pesquisar um pouco sobre a Revolução Personalista proposta por Mounier. O resultado – este texto – é mais uma colecção incompleta de recortes do que uma síntese. Ainda assim, sendo escassas (para não dizer nulas) as referências a Mounier que tenho lido (nos blogues e não só), parece-me pertinente recordar aquele que teve uma influência decisiva no que viria a ser o Concílio Vaticano II e entre nós na geração dos "vencidos do catolicismo", inspiradores deste blogue.

Para percebermos um pouco mais do que foi a filosofia personalista, convém enquadrá-la no seu contexto, sobretudo porque ela não se apresenta como um sistema filosófico fechado. Diz-nos João Bérnard da Costa, no prefácio do opúsculo "O Personalismo", de Mounier, por ele traduzido em 1960 e agora relançado pela editora Ariadne (lamentavelmente com erros ortográficos crassos): «O valor da filosofia de Emmanuel Mounier coloca-se para nós de forma não absolutizada nem peremptória, e julgamos situá-lo se dissermos que o seu maior motivo de interesse reside na temporalidade da sua filosofia, ou seja, no vivo diálogo por ele estabelecido com o mundo em que viveu (…).»
Esse contexto foi o tempo entre-guerras na primeira metade do século XX. É por volta de 1930, em França, que a revista Esprit e alguns grupos próximos publicam diversos estudos, interpelados pela "crise política e espiritual que então alastrava na Europa", na palavras do próprio Mounier. Sobre o conteúdo deste pensamento vale a pena traduzir um parágrafo deste artigo de Ramón Alcoberro:
«O "personalismo" não propunha uma filosofia da história, nem uma antropologia, nem uma teoria política, antes se apresenta como um movimento de acção social de tipo cristão que une fortes elementos comunitários com a reflexão conceptual de raíz teológica sobre o sentido transcendente da vida. Daí que os personalistas não gostem de se considerar militantes de um sistema ou de uma "ideologia", assumindo antes o personalismo como uma "orientação" da vida em sentido comunitário. Assim, o "personalismo" consiste, mais do que numa teoria fechada, numa "matriz filosófica" cristã, ou uma tendência de pensamento dentro da qual são possíveis matizes muito diversos mas que têm em comum assumir a perspectiva crente e a condição dialógica da pessoa, quer dizer, a aposta pelo diálogo comunitário, como condição que torna possível a filosofia. Para compreender a sua proposta é necessário assumir, quase como axioma, ou como regra de vida, que "pessoa" significa muito mais que "homem", e inclusivamente simboliza o contrário de "indivíduo"».

Estamos a cerca de trinta anos do Vaticano II quando a revista Esprit começou a ser publicada em 1932. Mounier quis pensar uma filosofia cristã conscientemente contemporânea. Isso não seria novidade hoje, porém, num momento em que o cristianismo e a modernidade estavam de costas voltadas, representou uma lufada de ar fresco no pensamento para tantos católicos que aí encontraram uma primeira possibilidade de diálogo com a modernidade. A sua obra pode ser entendida como uma resposta crente à filosofia da suspeita (Marx, Nietzschem, Freud). «Contudo, e paradoxalmente» – diz-nos de novo Alcoberro – «Mounier anuncia sem o saber a pós-modernidade, ao propôr 'Refaire la Renaisance' como objectivo de um pensamento católico que não pode estar frontalmente contra a modernidade mas que deve antes mostrar a insuficiência do modelo humanista (e individualista) herdado do renascimento e do iluminismo.»
Para este programa que chama de um novo humanismo, Mounier parte da pessoa. Na fórmula de Lacroix, do mesmo prefácio já citado: «Mounier n'est pas allé du personalisme à la personne, mais de la personne au personnalisme, et le personnalisme n'a jamais été pour lui un système philosophique, mais que le moyen de rappeler chacun à lui-même et à tous». Ele encontra na história humana esse movimento de personalização – de elevação espiritual do homem – não de forma automática ("Nada há que deixe prever o final, num curto espaço de tempo, desta luta"), mas como elemento fundamental da essência do que é ser pessoa ("Nada nos permite duvidar de que ela seja constitutiva da nossa condição"). Mounier assume-se assim como um optimista trágico: "entre o optimismo impaciente da ilusão liberal ou revolucionária e o pessimismo impaciente dos fascismos, o caminho próprio do homem está nesse optimismo trágico onde encontra a sua justa medida num clima de grandeza e de luta".
Esse optimismo alimenta-se do sentido e da transcendência, que surgem «como remédios contra a "angústia" e o "desespero" existencial.» – de novo nas palavras de Alcoberro – «A "revolução" do século XX não seria, pois, o socialismo que considera os indivíduos com números e membros de uma massa, mas antes o redescobrimento de uma comunidade onde o homem possa ser "pessoa" e não simples número.» Como diziam no primeiro número da Esprit, «a revolução será moral ou não será». No livro "Revolução Personalista e Comunitária", Mounier explica a hierarquia de valores onde funda essa revolução moral: «O que é então para nós o espiritual? Esta é a nossa hierarquia de valores: primazia do vital sobre o material, primazia dos valores da cultura sobre os valores vitais e primazia, sobretudo, desses valores acessíveis a todos na alegria, no sofrimento, no amor de cada dia, e que (…) denominaremos – dando às palavras uma força que as liberte da vulgaridade – valores de amor, de bondade, de caridade. Esta escala dependerá para alguns de nós da existência de um Deus transcendente e de uns valores cristãos, sem que para outros ela seja fechada no topo.»

Na impossibilidade de apresentar um resumo desta filosofia, até porque já percebemos que ela não é um sistema fechado, vale a pena percebermos a influência e pertinência do pensamento personalista para outros pensadores. Num texto autobiográfico, o padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz, eminente filósofo brasileiro, dá-nos conta do seu contacto com o personalismo e com a Esprit: «(…) devo confessar que li Sartre com os olhos tomistas de Maréchal e daí resultou o meu primeiro artigo de filosofia (…). Posso dizer que dessa crítica ao existencialismo de tipo sartreano nunca voltei atrás, não obstante o profundo choque intelectual que a obra de Sartre causou em todos nós naqueles anos do após-guerra em que tudo se questionava, tudo se julgava possível, mas sobre os quais pairava o obscuro pressentimento de um novo ciclo de crises mais profundas e mais decisivas. Sobre as dimensões e as direcções dessas crises que se anunciavam falava-nos a obra de E. Mounier, outra descoberta capital desses anos, e a leitura, mês após mês, da revista Esprit, que nos oferecia um fio condutor na complexidade do universo social e político. O personalismo foi, para mim, o primeiro instrumento de leitura do mundo moderno nos seus aspectos políticos e sociais, que nossa formação escolástica desconhecera soberanamente (…) e que a obra do [Jacques] Maritain dos anos 30 começara a revelar-nos. Considero importante, para mim, essa espécie de baptismo personalista nos primeiros passos da minha reflexão social e política, reflexão que, a partir dessas descobertas intelectuais e dessas experiências do imediato após-guerra, não me deixará mais e conhecerá, mais tarde, momentos de exaltação e de amarga decepção. Com efeito, foi através do personalismo que se deu o meu primeiro contacto com o marxismo, nas polémicas em que Mounier esteve envolvido, de um lado com os ideólogos do Partido Comunista francês e com alguns "cristãos progressistas", de outro com o Pe. Fessard, um dos nossos heróis da "nouvelle théologie". Só bem mais tarde irei ao estudo directo de Marx, mas devo reconhecer que a marca personalista estará doravante indelevelmente presente na minha leitura – e na minha crítica – do marxismo.»

Também pelas nossas terras portuguesas a influência de Mounier foi significativa. Basta dizer que a referência à revista "Esprit" estava proibida pela censura durante o regime salazarista.
Podemos dizer que a revista "O Tempo e o Modo" bebeu no personalismo e na "Esprit" a sua principal influência. O mesmo valendo para a Moraes Editora, lançada por Alçada Baptista, que se propunha, pelas suas ideias, a romper com os vários conformismos da sociedade de então. Dessa influência nos é dado conta num artigo, de novo da autoria de Bérnard da Costa, intitulado "Mounier e O Tempo e o Modo", publicado aquando do segundo aniversário da revista. O artigo chamava-se inicialmente "Esprit e O Tempo e o Modo". Para fugir às malhas da censura, alteram todas as referências à "Esprit" para "a revista de Emmanuel Mounier". O artigo passou. Aí são enumerados quatro pontos de contacto entre estas duas revistas:
1. Foram ambas pioneiras na criação de um espaço comum de diálogo entre crentes e não-crentes, com a ressalva de que uma se iniciou no contexto francês dos anos trinta e outra no contexto português dos anos sessenta. Se nos anos pré-conciliares isso não era já uma novidade, parece-me que o era no contexto português.
2. Nunca foram revistas confessionais, apesar de nelas participarem muitos católicos. Sobre a participação dos católicos, cite-se a brilhante formulação de Mounier: "nem semi-católicos, nem neo-católicos, filhos da Igreja, simplesmente".
3. A adesão aos valores personalistas, bem expressa em expressões como "primado da pessoa e da História humana" ou luta contra a "desordem estabelecida".
4. Fuga a um qualquer partidarismo concreto, embora devido ao enfoque de ambas possam ser claramente chamadas de revistas políticas.

Para terminar, realçar que "O Tempo e o Modo" adoptou como subtítulo "revista de pensamento e acção". O também aí a influência de Mounier deixou a sua marca: o filósofo e o homem da praxis são um só. Como dizia Péguy: o homem que não guarda as mãos puras simplesmente porque as não tem. Isso encontra-se também brilhantemente expresso no resumo de Pedro Tamen do programa de "O Tempo e o Modo": «A acção começa na consciência. A consciência, pela acção, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influír no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim o será o tempo e o modo

Para a semana prometo continuar a falar mais em concreto das ideias de Mounier.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]
Comments:
Só queria agradecer. Estou a estudar para um exame de cultura humanística literária portuguesa e o seu texto vai ser uma ajuda imprescindível. se tiver algo mais sobre a revista O Tempo e o Modo, a Vértice ou o Neo - Realismo eu agradecia. Letras74@hotmail.com
 
Andei a pesquisar sobre o personalismo e pouco encontrei até que descobri este site.Muito obrigado pela sua ajuda, fico-lhe muito grato.Vai ser uma grande ajuda no meu trabalho.
 
olá beleza gostei muito deste seu texto eu tenho uma prova na quinta feira e gostaria se fosse possivel que vc me desce uma luz tenho que escrever sobre a contribuição antropológica do Personalismo este texto fala mais dos cominhos que a filosofia de Emmanuel tomu certo? entao se vc puder me manda algo com mais clareza sobre as contribuições agradecidamente o meu imail é este ok guidocampos120@hotmail.com obrigado
 
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